Documentários Esclarecedores

Quem curte história está costumeiramente procurando algo para ler e assistir nas livrarias, nos sites e nos aplicativos. Recentemente li a “A Teoria das Nuves”, de Stephane Audeguy, que fala a inusitada história de homens que estudaram as nuvens quando a meteorologia ainda não existia, com uma visão romântica, às vezes absurda.

Mas são da sétima arte as histórias que pretendo sugerir e começo com o documentário “Hitler´s Circle of Evil“, de 2017, que traz de uma forma interessante a personalidade dos asseclas do Führer e sua influência no que se tornou o nazismo. É inacreditável e muito ilustrativo no que resulta a aglomeração de loucos inteligentes e ambiciosos ao redor do poder e da demagogia. O documentário pode ser encontrado no Netflix e no Youtube (assim como os demais abaixo).

Algo mais recente e não menos triste e esclarecedor é o documentário “White Helmets” ou “capacetes brancos”, de 2016. São os abnegados paramédicos sírios que ajudam a salvar as vítimas dos bombardeios russos e governamentais, nos nossos dias, e nos tocam pela proximidade histórica. As cenas são tristes.

Uma visão interessante sobre a questão armamentista norte-americana é o documentário de Michael Moore “Tiros em Colombine” (ou “Bowling for Colombine”), feito em 2002, mas ainda bastante pertinente. Gosto especialmente da forma como analisa a questão numa cidade americana e na sua vizinha canadense, sendo que ambas são dotadas de moradores bastante armados.

Não há dúvida de que a visão empregada em cada um destes documentários tem componentes do viés ideológico dos seus autores que, eventualmente, não serão o seu. Ainda assim são materiais muito bons e que merecem a reflexão.

 

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O veículo ideológico

Os projetistas do veículo ideológico marxista tinham boas intenções. Creio que boa parte deles tinha boas intenções. Queriam que embarcássemos no seu veículo e chegássemos ao destino da sociedade justa e equilibrada. Contavam que este veículo se alimentaria do senso comum e do esforço comum, entregando o mesmo conforto e o mesmo tempo de viagem a cada um dos passageiros.

Contudo, o veículo não possui acentos iguais (há os da janela e os mais apertados) e precisa ser dirigido ora por uns, ora por outros. Nem todos os que dirigem sabem conduzi-lo. Os que sabem guiar, nem sempre sabem o caminho. Os que conhecem o caminho costumeiramente são alertados de que outros caminhos há mais rápidos ou mais seguros.

O projeto deste veículo ideológico considerava que distribuindo riqueza se chegaria ao destino social desejado. A riqueza seria um problema quando concentrada e sua criação era vista como impossível: a solução seria dividi-la.

No início era um projeto preconceituoso, xenófobo, misógino, racista. Com o passar dos (d)anos o número de passageiros interessados em viajar neste veículo diminuía e se entendeu por bem captar aquelas minorias antes desprestigiadas, que nada tinham de relação ao projeto original. Isso dificultou ainda mais a compreensão do projeto e sua implementação falhou em todas as tentativas ao longo da história.

O veículo ideológico que achava que distribuindo renda distribuiria justiça deixava de considerar que a renda é o resultado de um trabalho, às vezes de gerações. Deixava de considerar que o dinheiro não é sujo ou limpo, que é apenas o resultado de algo. Deixava de considerar que cada um de nós é responsável pela nossa trajetória e que o Estado é apenas mais um dos passageiros desta viagem, não o seu condutor.

O veículo ideológico causou mais mortes que qualquer outro veículo da história, inclusive dos veículos de guerra todos juntos somados.

Além disso, o veículo ideológico jamais captou o apoio dos religiosos por verdadeira incompatibilidade e, com isso, atestou sua contrariedade a todo e qualquer credo. Era mais uma das suas oposições. Opor-se sempre foi sua principal orientação.

De quando em quando aliava-se a ideais mais racionais, mais efetivos, mais humanos. Mas a falta de orientação e de efetividade sempre acabava por resultar em algum acidente desastroso.

O veículo ideológico hoje está fadado ao ferro velho e só não foi aposentado porque há muitos condutores e passageiros saudosistas e entusiastas que não se dão por derrotados. Ainda que jamais tenha conduzido qualquer de seus passageiros ao destino, teimam que um dia o fará

A Intervenção no RJ

Presidente Michel Temer decretou a intervenção militar na área de segurança pública no estado do RJ. Hoje (19/02/18) o Congresso deverá autorizar a medida.

O Rio de Janeiro é um estado em guerra urbana há décadas. A ausência de Estado que hoje existe nos presídios brasileiros existe há décadas nas favelas e/ou comunidades fluminenses. O que se pode imaginar em termos de políticas públicas já foi testado por lá. Escolas de tempo integral, polícia pacificadora, intervenção militar e policial, a própria permissibilidade e tolerância ao tráfico. De tudo. Tem mais ONG no RJ do que nas outras regiões brasileiras. A renda média do fluminense também é uma das maiores do Brasil. E é inegável que há um abismo social entre a zona sul e as demais regiões cariocas. Assim como é inegável que a classe média carioca e os turistas são os principais financiadores do crime por lá.

Há premissas que se pode exarar sobre a realidade fluminense:

  • leis de restrição ao uso de armas são inócuas para a cultura e a realidade brasileira
  • a corrupção sistêmica instala-se também na cultura e no tecido social
  • o tráfico é o grande gestor da criminalidade e atrai pessoas de todo espectro social
  • não há tropa e estrutura suficiente para combater o que é socialmente tolerado
  • a inteligência das forças de segurança está limitada pela capacidade operacional

Dito tudo isso para afirmar que não há dúvidas de que uma intervenção militar é das poucas (se não a última) alternativa para começar a resolver o problema.

Mas não essa intervenção fajuta deste governo de raposas.

Michel Temer é o Presidente brasileiro com menor aceitação que se conhece. Tão comprometido moralmente como seus antecessores, tem a pecha de golpista e consegue desagradar gregos e troianos, ainda que tenha devolvido a economia brasileira aos trilhos. Temer poderia, com seus resultados econômicos, ser visto como um reconstrutor das ruínas deixadas pela bomba petista, mas não consegue simplesmente porque pertence ao grupo que tem dominado o país há décadas e que soube ardilosamente se livrar dos seus marionetes quando estes passaram dos limites da roubalheira e do idealismo. Assim, desagrada trabalhadores, imprensa e a classe média.

Tudo é tolerado por dinheiro no Brasil. Até a ideologia oponente é tolerada.

Pois Temer percebeu que ia perder a reforma da Previdência Social (outra necessidade brasileira, mas não essa reforma Frankstein) e está cansado de não ser reconhecido como gostaria.

Temer percebeu que há um movimento nacional de apoio aos militares, que chega ao ponto de pedir que se faça um golpe ou uma intervenção.

Temer sabe que Bolsonaro (um direitista) tem reais chances de ir a um segundo turno nas eleições presidenciais.

Temer e seus cabides sabem que a esquerda (a qual pertencem) está comprometida moralmente aos olhos do povo, mas ainda assim o brasileiro se identifica com medidas populistas.

Voulà! Soa como uma ideia genial para seus apoiadores transferir o poder de gestão da segurança do lugar mais deflagrado do país aos militares. Se der certo tornam-se os salvadores da pátria. Se der errado (e vai dar) a culpa será dos militares (como no passado) e se ganha mais uma década de embates entre direita e esquerda (detesto estes esteriótipos, mas é o que se usa).

O Exército Brasileiro vai exercer o melhor possível seu papel neste teatro, tenho certeza. Torço para estar errado quanto aos resultados desta operação, como torci para estar errado com os governos petistas. Mas, ao final, não estava.

Fases literárias

Terminei de ler recentemente um livro entitulado “A Vida Mística de Jesus”, escrito na década de 1920 pelo norte-americano Harvey Spencer Lewis. Concomitante a este, terminei um livro sobre os Templários e estou finalizando “A Reinvenção do Conhecimento”. Este último estou lendo lenta e vagarosamente há meses. Embora seja um livro interessante (realmente interessante) sobre a evolução da formação do conhecimento e sua transferência aos outros, minha leitura não deslancha.

Ler também tem fases. É a lição que tiro quando reflito sobre isso. Por certo, nem sempre um assunto nos interessará por mais interessante que seja. E, em outro momento, poderá se tonar absolutamente bom.

Comprei dois livros “de esquerda” (risos – não gosto muito destas rotulações): “Karl Marx – Grandeza e Ilusão”, de G. S. Jones e “O Homem Que Amava os Cachorros”, de Leonardo Padura. Não é coincidência.

As pessoas que buscam centrarem-se ficam constantemente reequilibrando a sua balança. Vejam que recentemente li obras de caráter hitórico-religioso, depois histórico-científico e agora vou pra algo histórico-materialista (o marxismo é chamado de racionalismo materialista). É uma tendência que nossas escolhas literárias sejam equilibrantes quando valorizamos o equilíbrio.

Depois conto como foi.

O auxílio moradia

Fico pensando nas diaristas que conheço. Se tem greve de ônibus, elas não ganham aquele dia. Se tem passeata com manifestação do que quer que seja elas se atrasam e podem ter descontado valores na féria. Se adoecem, se precisam fazer um curso, se acompanham o filho no posto de saúde, enfim, se não trabalham, não recebem. Elas provavelmente moram num lugar bastante simples e é inimaginável receberam qualquer benefício em razão disso. E isso acontece também com o pedreiro, com o mecânico, com o advogado, com o dentista, com o médico, com o vendedor de pastéis na feira, com o agricultor e com todas as pessoas do mundo que vivem do que produzem no trabalho.

No Brasil alguns benefícios se tornam direitos e, depois, se tornam privilégios e são incorporados à cultura. O 13º salário é um exemplo. O trabalhador não precisa de nenhum outro critério a não ser estar empregado para ter tal direito. O empregador, por outro lado, paga treze meses de salário para dispor do trabalho por onze meses. É um cálculo que nunca fechará na matemática financeira e é óbvio que será o cliente que pagará este custo de alguma forma; se não pagar, a empresa quebra.

Seria mais barato socialmente que não tivéssemos tantos benefícios em forma de direitos. Veja o passe livre para estudantes, que chega a tornar as passagens de ônibus até 30% mais caras em Porto Alegre… e quem anda de ônibus não são os ditos privilegiados. Veja o FGTS que veio para substituir a estabilidade, ambas coisas incompreensíveis no mundo real (fora do mundo dos benefícios incorporados ao direito e à cultura) que é custo financeiro pago por todos os usuários e cliente brasileiros, incorporados aos preços de produtos e serviços. E tudo mais é assim.

Fico tentando imaginar como um servidor que ganha subsídio (o conceito jurídico de subsídio é avesso a penduricalhos salariais) em faixa superior a R$ 25.000 pode precisar de ajuda financeira para morar. Se ele precisa, o professor que ganha R$ 2.000 não precisará? O PM não precisará, ele que enfrenta eventualmente o bandido no próprio lugar onde mora?

É um absurdo desnecessariamente existente o Auxílio Moradia para qualquer serviço ou atividade que não seja eventual e transitório. E é desnecessariamente debatido porque é irracional e imoral.

Ler-se que o Auxílio Moradia do Judiciário (e MP e outros) é superior à renda de mais de 90% dos brasileiros é de corar frade. Algo que deveria mobilizar a classe judiciária imediatamente pela total falta de sentido e justiça.

Os primeiros escalões dos serviço público (e judiciário) merecem ser bem remunerados. Precisam ser bem remunerados. Entram nesta lista os policiais, os médicos, os enfermeiros, os professores. Dito isso, para ficar claro que não é uma luta contra a boa remuneração, olhemos para a situação dos demais servidores abaixo da linha dos privilégios e vejamos se é necessário qualquer tipo de articulação para deixar claro que o Estado não tem condição de manter tais privilégios. Olhamos para os demais servidores? Agora olhemos para os demais brasileiros, que têm direitos e garantias ainda menores!

Há momentos em que o olhar sobre nossa gente entristece. De quem se espera a guisa evolucionária e exemplar, até desses, há o egoísmo e o interesse próprio a pesar consideravelmente e nebular o que deveria ser claro e direto. Nossas lideranças públicas são como os pais que dizem para os filhos não fumarem segurando um cigarro aceso. Aqui é sempre do outro a obrigação de fazer o certo e o erro alheio é sempre a defesa do meu.

Eta cultura complicada essa brasileira.

O julgamento do Lula

Nem sempre o gestor é culpado pelos danos causados por seus subordinados, mas normalmente será o responsável. É da natureza do cargo e da função ser o responsável. O raciocínio que permite não seja o gestor responsabilizado é o que sempre vigeu no Brasil e resulta na popularesca frase de que “a corda arrebentou no lado mais fraco”.

Pois bem, Lula é evidentemente culpado. E teve vantagens financeiras e políticas com isso. É fato e os resultados estão aí nas ruas. Os que escolhem não acreditar nisso babariam de raiva se, diante dos mesmos fatos, substituíssemos os personagens por outros mais à direita.

O Brasil vive uma ode à irracionalidade. Nunca fomos exemplo de bom senso e equilíbrio e provavelmente chegamos nessa polarização por causa disso (afinal, não há efeito sem causa). É preciso que as pessoas não se deixem levar por esta irracionalidade quando pensam e atuam naquilo que entendem como solução.

Não podemos tolerar lideranças que preguem violência. Não podemos tolerar rupturas institucionais sob pretextos “morais” ou “ideológicos” mais elevados.

A evolução social precisa de ajustes e correções constantes, não de rupturas, revoluções e eternos recomeços. Essa ideia é resultado desta irracionalidade, que por sua vez é efeito da imaturidade.

O Judiciário brasileiro está mudando de postura no trato dos grandes criminosos. Chegou a hora. Por mais que a demagogia populista explore esse momento politicamente para continuar sua eterna luta contra os cataventos de Don Quixote não é crível que retrocedamos aos limiares da impunidade. Lula será condenado.

Se parte (ou boa parte) dos brasileiro querem votar num condenado, que o façam. Eles que acreditem no que podem e querem.

Nós que não acreditamos na balela populista precisamos auxiliar de forma coerente e atenta a história a não contaminar-se com tais impropérios. O Brasil dispõe na sua trajetória de incontáveis lideranças que merecem devoção e respeito. O fato de insistirmos em desacreditá-las, costumeiramente em desfavor dos mesmos tipos de líderes populistas, revela que os conhecedores são excessivamente omissos e silentes.

Acredito firmemente que Lula será condenado. Mas se não for, mesmo com toda a minha irresignação, não vou pedir golpes e revoluções. Vou pedir que sejamos melhores.

 

 

2018

Imagina um ano que começa com o julgamento de um dos ex-presidentes mais queridos da história do Brasil e, ao mesmo tempo, dos mais odiados. Neste mesmo ano teremos eleições gerais. E Copa do Mundo!

130 anos da abolição da escravatura.

100 anos do fim da I Guerra Mundial.

30 anos da nossa Constituição Federal.

Ano passado a professora Heley Batista salvou diversos alunos de um incêndio criminoso em Janaúba/MG, sacrificando sua vida pelas crianças, e seu reconhecimento repercutiu menos que muitos debates ideológicos e políticos de pífia importância. Homenagearemos o primeiro ano deste ato heroico em 2018?!

Os números ainda são imprecisos, mas estima-se que mais de 300 policiais morreram no Brasil em 2017. Mais de 60 mil mortes violentas e mais de 50 mil mortes no trânsito.

Iniciamos o ano com mais de 208 milhões de habitantes no país.

É ano de Copa do Mundo e, até o momento, praticamente não se fala sobre isso.

É ano de eleições e, ao que tudo indica, Lula e Bolsonaro se enfrentarão num segundo turno presidencial que deve resultar na vitória do direitista. Da minha parte vou torcer pelo surgimento de outro candidato mais centralizado e centrado.

Dois mil e dezoito vai ser melhor que o ano anterior, com certeza. Ao contrário do que profetizam os pessimistas, aos poucos vamos melhorando ainda que errando muito. A melhora tende a repercutir. O que não podemos é nos desestimular e deixar que os articulistas extremistas nos subjuguem novamente.

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Enquanto isso, deixo o histórico discurso de Matin Luther King, de 1963, que representa a luta sem loucura, a liderança sem ódio, a igualdade sem demagogia:

“Estou feliz em me unir a vocês hoje naquela que ficará para a história como a maior manifestação pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás um grande americano, em cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a proclamação da emancipação [dos escravos]. Este decreto momentoso chegou como grande farol de esperança para milhões de escravos negros queimados nas chamas da injustiça abrasadora. Chegou como o raiar de um dia de alegria, pondo fim à longa noite de cativeiro.

Mas, cem anos mais tarde, o negro ainda não está livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é duramente tolhida pelas algemas da segregação e os grilhões da discriminação. Cem anos mais tarde, o negro habita uma ilha solitária de pobreza, em meio ao vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o negro continua a mofar nos cantos da sociedade americana, como exilado em sua própria terra. Então viemos aqui hoje para dramatizar uma situação hedionda.


Em certo sentido, viemos à capital de nossa nação para sacar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república redigiram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, assinaram uma nota promissória de que todo americano seria herdeiro. Essa nota era a promessa de que todos os homens, negros ou brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca pela felicidade.

É evidente hoje que a América não pagou esta nota promissória no que diz respeito a seus cidadãos de cor. Em lugar de honrar essa obrigação sagrada, a América deu ao povo negro um cheque que voltou marcado “sem fundos”.

Mas nós nos recusamos a acreditar que o Banco da Justiça esteja falido. Nos recusamos a acreditar que não haja fundos suficientes nos grandes depósitos de oportunidade desta nação. Por isso voltamos aqui para cobrar este cheque – um cheque que nos garantirá, a pedido, as riquezas da liberdade e a segurança da justiça.

Também viemos para este lugar santificado para lembrar à América da urgência ferrenha do agora. Não é hora de dar-se ao luxo de esfriar os ânimos ou tomar a droga tranquilizante do gradualismo. Agora é a hora de fazermos promessas reais de democracia. Agora é a hora de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o caminho ensolarado da justiça racial. É hora de arrancar nossa nação da areia movediça da injustiça racial e levá-la para a rocha sólida da fraternidade. Agora é a hora de fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação passar por cima da urgência do momento e subestimar a determinação do negro. Este verão sufocante da insatisfação legítima do negro não passará enquanto não chegar um outono revigorante de liberdade e igualdade. Mil novecentos e sessenta e três não é um fim, mas um começo.

Os que esperam que o negro precisasse apenas extravasar e agora ficará contente terão um despertar rude se a nação voltar à normalidade de sempre. Não haverá descanso nem tranquilidade na América até que o negro receba seus direitos de cidadania. Os turbilhões da revolta continuarão a abalar as fundações de nossa nação até raiar o dia iluminado da justiça.

Mas há algo que preciso dizer a meu povo posicionado no morno liminar que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso lugar de direito, não devemos ser culpados de atos errados. Não tentemos saciar nossa sede de liberdade bebendo do cálice da amargura e do ódio.

Temos de conduzir nossa luta para sempre no alto plano da dignidade e da disciplina. Não devemos deixar nosso protesto criativo degenerar em violência física. Precisamos nos erguer sempre e mais uma vez à altura majestosa de combater a força física com a força da alma.

A nova e maravilhosa militância que tomou conta da comunidade negra não deve nos levar a suspeitar de todas as pessoas brancas, pois muitos de nossos irmãos, conforme evidenciado por sua presença aqui hoje, acabaram por entender que seu destino está vinculado ao nosso destino e que a liberdade deles está vinculada indissociavelmente à nossa liberdade.

Não podemos caminhar sozinhos.

E, enquanto caminhamos, precisamos fazer a promessa de que caminharemos para frente. Não podemos retroceder. Há quem esteja perguntando aos devotos dos direitos civis ‘quando vocês ficarão satisfeitos?’. Jamais estaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos desprezíveis horrores da brutalidade policial.

Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados da fadiga de viagem, não puderem hospedar-se nos hotéis de beira de estrada e nos hotéis das cidades. Não estaremos satisfeitos enquanto a mobilidade básica do negro for apenas de um gueto menor para um maior. Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossas crianças tiverem suas individualidades e dignidades roubadas por cartazes que dizem ‘exclusivo para brancos’.

Jamais estaremos satisfeitos enquanto um negro no Mississippi não puder votar e um negro em Nova York acreditar que não tem nada em que votar.

Não, não estamos satisfeitos e só ficaremos satisfeitos quando a justiça rolar como água e a retidão correr como um rio poderoso.

Sei que alguns de vocês aqui estão, vindos de grandes provações e atribulações. Alguns vieram diretamente de celas estreitas. Alguns vieram de áreas onde sua busca pela liberdade os deixou feridos pelas tempestades da perseguição e marcados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês têm sido os veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que o sofrimento imerecido é redentor.

Voltem ao Mississippi, voltem ao Alabama, voltem à Carolina do Sul, voltem a Geórgia, voltem a Louisiana, voltem aos guetos e favelas de nossas cidades do norte, cientes de que de alguma maneira a situação pode ser mudada e o será. Não nos deixemos atolar no vale do desespero.

Digo a vocês hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho.

É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e corresponderá em realidade o verdadeiro significado de seu credo: ‘Consideramos essas verdades manifestas: que todos os homens são criados iguais’.

Tenho um sonho de que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da irmandade.

Tenho um sonho de que um dia até o Estado do Mississippi, um Estado desértico que sufoca no calor da injustiça e da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e de justiça.

Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter.

Tenho um sonho hoje.

Tenho um sonho de que um dia o Estado do Alabama, cujo governador hoje tem os lábios pingando palavras de rejeição e anulação, será transformado numa situação em que meninos negros e meninas negras poderão dar as mãos a meninos brancos e meninas brancas e caminharem juntos, como irmãs e irmãos.

Tenho um sonho hoje.

Tenho um sonho de que um dia cada vale será elevado, cada colina e montanha será nivelada, os lugares acidentados serão aplainados, os lugares tortos serão endireitados, a glória do Senhor será revelada e todos os seres a enxergarão juntos.

Essa é nossa esperança. Essa é a fé com a qual retorno ao Sul. Com esta fé poderemos talhar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar os acordes dissonantes de nossa nação numa bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé podemos trabalhar juntos, orar juntos, lutar juntos, ir à cadeia juntos, defender a liberdade juntos, conscientes de que seremos livres um dia.

Esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com novo significado: “Meu país, é de ti, doce terra da liberdade, é de ti que canto. Terra em que morreram meus pais, terra do orgulho do peregrino, que a liberdade ressoe de cada encosta de montanha”.

E, se quisermos que a América seja uma grande nação, isso precisa se tornar realidade.

Então que a liberdade ressoe dos prodigiosos picos de New Hampshire.

Que a liberdade ecoe das majestosas montanhas de Nova York!

Que a liberdade ecoe dos elevados Alleghenies da Pensilvânia!

Que a liberdade ecoe das nevadas Rochosas do Colorado!

Que a liberdade ecoe das suaves encostas da Califórnia!

Mas não só isso –que a liberdade ecoe da Montanha de Pedra da Geórgia!

Que a liberdade ecoe da Montanha Sentinela do Tennessee!”

Que a liberdade ecoe de cada monte e montículo do Mississippi. De cada encosta de montanha, que a liberdade ecoe.

E quando isso acontecer, quando deixarmos a liberdade ecoar, quando a deixarmos ressoar em cada vila e vilarejo, em cada Estado e cada cidade, poderemos trazer para mais perto o dia que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestante e católicos, poderão se dar as mãos e cantar, nas palavras da velha canção negra, “livres, enfim! Livres, enfim! Louvado seja Deus Todo-Poderoso. Estamos livres, enfim!”

Trump e o fim do mundo

Se fosse americano eu provavelmente não votaria em Trump. Normalmente não me identifico com polarizações, especialmente nestes dias em que direita e esquerda esquentam a terceira guerra mundial, que vem sendo travada no front ideológico.

Dito isso quero dizer que concordo com a postura de Trump com relação à Coréia do Norte e, mais ainda, com relação à Jerusalém. Os motivos são absolutamente distintos para cada um dos temas, mas uma coisa têm em comum: ele prometeu a seus eleitores que o faria. E quem lidera deve liderar e se impor quando necessário.

Trump é um presidente que não veio da política. Empresário bilionário, representa o pensamento tradicional norte-americano. É tão caricato que soa estranho. E é um homem da direita… eis a razão de tanto auê.

Mesmo os mais idiotas da esquerda são tolerados. Vide Chavez, Evo Morales, Nicolás Maduro, Cristina Kirchner, Carlos Menen… Lula. Agora veja o trato da imprensa aos direitistas: Enéas, Macri, Bolsonaro, aos militares, aos religiosos, aos judeus. Há uma razão nisso: a compreensão dos argumentos de direita é mais objetiva, racional. Já a esquerda usa uma identificação emocional, afetiva. Não interessa o argumento. Interessa que seja dito aquilo que toca o coração sofrido de alguém… principalmente se esse alguém for vítima de algo.

Pois Trump pode realmente estar começando o fim do mundo. Seja com a Coréia do Norte ou com a Palestina. Seja com a Europa Ocidental ou a Rússia. O objetivo, entretanto, é a China. Trump está assumindo o protagonismo do pensamento de direita, depois de décadas de sobreposição da esquerda no mundo. E todos sabemos que a esquerda, em que pese menos numerosa, é mais barulhenta e sedutora. Por isso, Trump pode estar efetivamente em vias de iniciar a Terceira Guerra Mundial.

A Terceira Grande Guerra é eminentemente ideológica. Os bolcheviques a começaram e conseguiram, a custo de muito esforço, espraia-la. Por décadas estiveram acuados, especialmente depois da queda do Muro de Berlim. O marxismo uniu opositores ao imperialismo, mesmo que não tenham absolutamente nada em comum além da oposição. Mas foi a China comunista quem reascendeu silenciosamente a força do marxismo e, agora que a América Latina acordou do sonho demagógico bolivariano, a perda de território ideológico exige um contra-ataque. Rússia e China são aliados com papéis distintos. Aquela late, essa calcula.

Norte-americanos são exímios jogadores deste jogo e sabem que precisam se impor. Estão buscando fortalecer seus apoiadores, estejam onde estiver. Japão e Coréia do Sul… Israel… quem se apresentar será apoiado.

A guerra ideológica está fragilizando o status quo. Já questionam a liberdade e o porte de armas na América, algo inimaginável há duas décadas. Já questionam as fronteiras européias e a sua islamização. Já sabem os detentores do petróleo que sua força tem dias contados. O que farão os árabes, se tudo que podem produzir está concentrado em refinarias? O mundo está mudando suas referências.

Não subestime a iniciativa norte-americana. Tampouco a reação dos blocos marxistas. O Estados Unidos já começaram sua disputa com a China pela soberania das próximas décadas.

Dezembro

No calendário primeiro romano havia apenas dez meses, cada um com cerca de trinta dias. Ao total, o ano tinha 303 dias. Os meses de inverno (janeiro e fevereiro) não eram contados por serem desinteressantes para qualquer planejamento temporal.

O último mês do ano era dezembro e nele ocorre o solstício (quando o sol atinge o ponto mais ao sul de sua trajetória), próximo ao dia 22, quando inicia o verão no hemisfério sul e o inverno no norte, o que era tremendamente festejado. Essa data, assim como o solstício de junho, eram as mais importantes do ano.

A simbologia do mês dez num calendário decimal a coincidir com o solstício resultou em que “casualmente” foi escolhido esse mês para a celebração das festas natalinas cristãs, quando da absorção do cristianismo por todo o Império Romano (porque, historicamente, Jesus teria nascido próximo do dia 06 de janeiro, no inverno nortenho).

Dezembro é um mês que incorpora além da festa maior do cristianismo e do mundo ocidental, também a mudança de ano, sendo o último mês anual.

E daí?!

E daí que simbolicamente ambas celebrações representam a mudança. A constante mudança. Janeiro será um novo ano, um novo começo. Dezembro é tempo de reflexão sobre o que foi feito e o que deixou-se de fazer. Tempo de gratidão, de reunião, de comemoração. Assim como a vida, ao final, tende a forçar estas posturas, o final de cada ano igualmente o faz.

Dezembro é a desaceleração. A introspecção. Que venha um ótimo dezembro dentro de nós.

Mudar o mundo

Será que existiu outra época em que tantas pessoas queriam mudar o mundo?

Acho que sim. Esse desejo está incorporado ao nosso insconsciente, às nossas fantasias. Falo nossas no sentido de humanidade, mas reconheço que muitas pessoas não querem mudar o mundo. Muitas não querem mudar nada.

Sejam as que querem ou as que não querem, acredito firmemente que ninguém muda o mundo se não buscar primeiramente mudar-se. Mudar os outros é um devaneio quando não se é exemplo da mudança. Só os imaturos e idiotas acreditariam ser possível. Nem os loucos creem nessa possibilidade.

Toda vez que ouço gritos de ódio contra o ódio ou vejo gestos de desrespeito contra os desrespeitosos, brados de intolerância contra os intolerantes e por aí vai, tenho certeza de que é mais um imaturo querendo exigir o que não faz.

Conheço militantes que não vão a lugares simples por medo. Outros que matriculam filhos em escolas que representam exatamente o que dizem “lutar” contra. O mundo nunca deu tanta voz aos idiotas como no nosso tempo. Mas ao mesmo tempo reconheço que muitos deles acabam por melhorarem-se com toda essa articulação. No final das contas, todo esse barulho é um lento processo de auto-aprimoramento.

Amigo e amiga, se você quer mudar o mundo, viva o que exige dos outros. Quer respeito, dê respeito… inclusive a quem pensa diferente. Quer valorização, valorize as pessoas. Não há outro caminho.

Se você não quer mudar o mundo, ótimo. Já é um bom sinal. Porque as pessoas gastam muito tempo e esforço para conseguirem se mudar… melhorarem-se. E pra conseguir isso – a única coisa possível afinal – não perderiam tempo nem energia tentando mudar todos os demais terráqueos.

Os caras que mudaram o mundo começaram por si próprios. Olha a história aí e verá que isso é bastante claro. E os que tentaram exigir dos outros mais do que o possível (ou do que o aceitável) transformaram tudo num inferno. A cada um de nós é reservado o direito de ser o que quiser, desde que não interfira no querer ser alheio.

“Seja a mudança que quer ver no mundo” disse A Grande Alma Gandhi.