A polarização é a falência do raciocínio

Disse Nelson Rodrigues que toda a unanimidade é burra e digo eu que a polarização é pior. Não que a polarização seja necessariamente burra, não o é, mas é pior porque nela a razão foi posta de lado. A polarização transforma o debate em embate, é paixão. O melhor raciocínio não é utilizado para avaliar a pauta, mas para afirmar o seu argumento diante do argumento alheio.

A polarização desconstrói o que foi construído, desvaloriza o oponente como uma disputa de guarda no Direito de Família, como se todo o amor que um dia se possa ter sentido tivesse se transformado em rancor e raiva.

A polarização deixa de lado qualquer possibilidade de entendimento quanto mais se passa o tempo, porque são tantos os ataques e os contra-ataques que, anos depois, não se sabe nem o motivo da disputa. Cada lado se sente o defensor da verdade e usa todo o seu arsenal para defendê-la. É como se alguém te xingasse e você sacasse uma arma e atirasse em revide e depois dissesse: “mas foi em legítima defesa, ele começou”. O tempo não ajuda o debate, o piora. São os debatedores (alguns) que, mais maduros, mudam o jeito de debater.

É a atitude polarizada que afirma que “bandido bom é bandido morto”, que “empresário só pensa em dinheiro”, que “funcionário público só olha pros seus privilégios” e por aí vai. Porque muitas vezes essas frases podem ser verdadeiras a esse ou aquele caso concreto, mas o raciocínio polarizado generaliza a análise e radicaliza a atitude.

Tenho de admitir uma coisa, contudo: a polarização é uma evolução à apatia. Sou dos que acredita que o ser humano jamais deixa um extremo para centrar-se. Ele cambaleia entre os extremos, num movimento pendular, até que esse pêndulo perde a força e acaba ao centro, no meio termo. Assim somos nós e nossas atitudes.

Então, meus amigos e amigas, respeitemos quem ainda não está pronto para debater com maturidade certos temas. Não que tenhamos de aceitar passivos suas impertinências… mas entendamos que tudo tem seu tempo. Chegaremos lá.

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O Racionalismo Materialista

A medicina que cuida das emoções, da psiquê, da personalidade tem pouco mais de cem anos. Teve em Freud e Jung os seus protagonistas de maior relevo. Isso no ocidente, claro. Os egípcios, os maias, os chineses sempre associaram a saúde do corpo à saúde da mente, a ponto de influenciar o berço do racionalismo ocidental na Roma e Grécia clássicas, com a máxima “mens sana in corpore sano”. Por séculos os estudiosos do corpo eram filósofos, religiosos, curandeiros, xamãs, que associavam o comportamento à saúde. Com o desenvolvimento do racionalismo foi-se criando um distanciamento entre corpo e espírito e, consequentemente, uma divisão cada vez mais clara entre espiritualidade e ciência. Clara do ponto de vista racional.

O racionalismo tem em Descartes (“penso, logo existo”) em Kant seus protagonistas, sendo fonte do chamado pensamento liberal. Pelo racionalismo clássico tudo tem um propósito, uma finalidade, e essa busca é tarefa da razão.

No século XIX o racionalismo era a corrente filosófica que dominava o pensamento científico, em derrubada ao Iluminismo. Essa visão racional da vida influenciou pensadores de todas as vertentes – e também Marx e Engels. Esses filósofos criticavam o pensamento liberal e buscaram contrapô-lo firmando análises e conclusões racionalistas aos problemas sociais que enfrentavam. Daí surgiu o chamado de Racionalismo Materialista que, de forma sintética, afirma que os modos de produção estruturam a vida social e espiritual. O Racionalismo Materialista é ateu e antirreligioso (leia “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiesvski), postura que desde sempre logrou o repúdio dos religiosos de toda a ordem.

Então Freud e Jung trazem à ciência a ideia de que há efetivamente algo além da matéria e de que a razão não consegue regular e entender toda a análise existencial. Há um inconsciente pessoal e um inconsciente coletivo. Há um subconsciente que nos governa o comportamento (leia “O Poder do Subconsciente”, de Joseph Murphy). Há um manejo da razão feito por nossos instintos e emoções – e vice-versa.  E há uma linguagem simbólica, onde até mesmo do ponto de vista racional analisamos o mundo e a nós mesmos com base em arquétipos.

A história humana é marcada por disputas de poder, pela violência, pela lascívia. E também pelo heroísmo, pela benevolência, pelo altruísmo. Com pequenas exceções, o mesmo ser humano desfruta ora de um comportamento, ora de outro, motivado por senso e sensibilidade. O ser humano que nasce não é o mesmo que morre, mas pode sê-lo. Há um livre arbítrio e uma condição social a moldar seu caminho existencial.

Pois bem, cá estamos a refletir sobre o Racionalismo Materialista, que ainda persiste em nossos dias a influenciar intelectuais, por mais desastroso que tenham sido suas tentativas de implementação. Por que não dá certo? Por que ainda tem simpatizantes?

Primeira resposta: o materialismo é impossível, irreal. O mundo não é material (no sentido filosófico). A humanidade tem mais condições de sobreviver ao fanatismo religioso que converge do que ao materialismo que diverge pontos de vista. A razão tem como limite a razão do outro. É impossível um sistema baseado em algo tão individual conseguir angariar esforço para um propósito por tanto tempo, porque há de divergir em algum momento e enfraquecer-se. A razão não é, como se pretende, definitiva. Sua linguagem é sazonal, pessoal, temporal, limitada. Se o racionalismo tem um limite o racionalismo materialista é ainda mais limitado. E não é que sejam inúteis, nem que estejam errados. É que a “linguagem” racional não é bastante e reconhecer isso faz parte da solução deste problema.

Dito de outra forma, o racionalismo materialista apenas produzirá resultados (ainda que limitados e diversos do pretendidos) naqueles seres humanos que falarem a mesma língua e intentarem os mesmos propósitos. E, sabemos, a humanidade é muito maior que uma corrente filosófica.

Sobre a segunda pergunta: os simpatizantes são aqueles que se identificam com a simbologia (racional) materialista. São os ateus, os antirreligiosos, os materialistas. Não há coerência (racional) em viver uma religião e ser marxista. Não há coerência (afetiva) em acreditar nas leis de causa-efeito e revoltar-se com a vida. Seus simpatizantes são e sempre serão uma minoria em transitoriedade por este pensamento que cerceia qualquer outro pensamento.

O racionalismo materialista tem como limite, por isso, a própria evolução humana. E por isso não acredita nela, por isso combate qualquer filosofia evolucionista. Embora seja escancarado que o ser humano progride, ainda que aos poucos, o racionalismo materialista precisa não reconhecer esta evolução, pois se o fizer contradiz-se.

Jung acreditava que o comunismo era uma patologia. E é.

Dilema Existencial

A humanidade mescla essa coisa de escola, hospital, parque de diversões e inferno. Todos nós trazemos um pouco disso no nosso âmago. Temos uma diversidade de perfis quase infindável, que produz gente com atitudes divinas e infernais. Na maioria das vezes o ser humano médio carrega ambos perfis.

Darwin disse que estamos fadados à evolução. Dizem alguns que a referência dele é quanto à evolução biológica mas creio que ele falava existencialmente, inclusive do ponto de vista biológico. O Evolucionismo é fato, é lei natural. Quem duvida que a humanidade é melhor hoje do que era há 10.000 anos?!

Sei que muitos duvidam.

O motivo disso é porque alguns fazem a avaliação da evolução humana do ponto de vista meramente comportamental, sem olhar a tecnologia, a construção social. Pensam assim: há mil anos o ser humano matava por dinheiro e ainda mata. Ou: há cinco mil anos tínhamos guerras e ainda as temos.

Sob esse ponto de vista, estão certos. Por isso que somos uma mistura de escola, hospital, parque de diversões e inferno.

A humanidade é composta de gente de todos os níveis morais e intelectuais. É justamente essa mistura que nos causa tamanhos conflitos.

Imagine você que todos nós fôssemos sanguinários e matássemos uns aos outros para conseguir comer, por exemplo. Não nos causaria sofrimento matar o vizinho para roubar-lhe a comida. Acontece que é justamente a diferença de valores que dá à humanidade a condição de escola, hospital, parque de diversões e inferno. Quando nossos valores forem mais uniformes seremos outra humanidade.

Enquanto isso, os mais evoluídos (digamos assim) sofrem com seus dilemas. Os mais animalescos não têm dilemas; fazem o que lhes dá vontade. Já os mais evoluídos precisam encontrar um equilíbrio entre o que desejam e o que precisam fazer para se proteger dos mais animalescos.

Imagina um antiarmamentista. Ele vive num mundo de gente violenta e armada. Então ele prega o fim das armas esperando que isso diminua a violência, mas não diminui.

Imagina o vegetariano. Ele defende que os animais sofrem ao serem abatidos e que não precisamos mais matar para sobreviver à fome. Mas tem gente, em recantos múltiplos, que ainda não tem o que comer regularmente.

O dilema existencial decorre da diferença de valores no âmago da humanidade. Quanto mais gente houver na Terra, mais diferenças haverão. E sempre haverá o mais bruto, mais violento, em confronto com o mais brando e pacífico. Entre eles estão os humanos que transitam entre o céu e o inferno, levando conhecimento, força e beleza onde isso não existe.

 

 

Presunção de Inocência

Nossa Constituição diz que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória. Aí vem o STF e inova, dizendo que a partir do julgamento colegiado de segunda instância já se pode executada a pena. Por que isso? Porque a presunção de inocência até o trânsito em julgado faliu. É um método indiscutivelmente gerador de impunidade.

Em tese, o ideal seria efetivamente que qualquer pessoa só fosse considerada culpada depois que não tivesse mais meios jurídicos de provar-se inocente. Isso num sistema ideal onde o Judiciário funcionasse rápido e as instituições não se contaminassem com as eventuais demoras ou com os eventuais reflexos disso.

No nosso caso isso falhou. Somos responsáveis pela sociedade mais violenta do mundo em mortes, seja no trânsito, seja em decorrência da criminalidade.

Nosso país é um continente. Faz fronteira seca e molhada com países que sabidamente são produtores de drogas ilegais para o mundo inteiro. Nas festas da Holanda ou nas boates de Ibiza os riquinhos que não sabem viver com tudo que a vida lhes deu financiam as mortes e a violência nas fronteias de Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil. Compram daqui porque ninguém em sã consciência seria produtor de drogas ilícitas num país sério, com polícia altamente capacitada e repressiva.

Aqui as balelas garantistas nos fazem terreno fértil para todo o perfil criminoso disponível no mercado. Desde a corrupção, até o tráfico, o roubo de cargas, as fraudes estelionatárias, os assaltos a banco e os latrocínios para roubo de veículos… tudo isso é resultado de uma atuação estatal que falha em todos os níveis: na legislação garantista, na interpretação judiciária excessivamente permissiva e costumeiramente omissa, na polícia eventualmente corrupta, no consumidor do crime que adora pagar mais barato sem se preocupar com a origem do que consome.

A sociedade brasileira elegeu o sistema da presunção de inocência até o trânsito em julgado porque é permissiva, porque se identifica com a impunidade e ainda prefere isso ao rigor da lei. Vozes mais lúcidas bradam uma mudança necessária, mas os vendedores de filosofia de apartamento batem pé. Felizmente estão perdendo espaço. A dor ensina a gemer e nossa gente já está cansada de chorar e secar lágrimas ao seu redor.

Meus amigos de infância

Prometi continuar a história da minha casa de infância (leia aqui: https://asluvizetto.wordpress.com/2017/05/25/minha-casa-da-infancia/) em que fui salvo por um amigo da vila onde me criei.

Antes tenho que dizer que dos melhores privilégios que a vida me deu foi ter tido tantos amigos na infância e juventude. Amizades de todas os tipos e intensidades, de todas as formas. Assim são as pessoas e assim são seus vínculos. Mudam, melhoram, pioram e vão se ajeitando.

Na mesma rua em que eu morava, mais pra baixo, perto da bica, bem próximo à casa dos meus avós, morava um amigo. Vou chamar ele de negão C. Naquela época era comum chamarmos nossos amigos negros de negão. Negão C. era um cara alegre, brincalhão e teve uma fase em que era muito brigão. Cresceu e entrou pros Fuzileiros Navais, antes de se tornar professor de história e geografia.

Pois quando tinha lá uns treze ou quatorze anos, minha turma fez um chá de arrecadação de recursos para a viagem de final de ano da 8ª série. Esse chá foi feito no salão de eventos da minha escola, que ficava ao lado da maior escola pública da cidade. Já havia uma rixa entre as duas escolas, como é comum nesse tipo de situação. Eu fui encarregado de cuidar da entrada no salão. Meu trabalho era ver se os visitantes tinham ingresso e orientá-los onde poderiam comprá-lo por uma bagatela que dava direito a comer e beber o que quisesse.

Pois lá pelo meio do evento um grupo de guris da outra escola apareceu e quis entrar. Eu, gentilmente, disse que poderiam adquirir o ingresso por um precinho e que isso dava direito a comer e beber de tudo. Logo vi que o interesse deles, na verdade, era me ou nos provocar. E logo se formou um círculo para brigar comigo porque eu não permiti que eles entrassem sem pagar. Alguns adultos, vendo a confusão, mandaram aqueles guris embora da minha escola. Isso foi num sábado à tarde.

Na segunda-feira seguinte quando eu estava saindo da sala para ir embora, o P.R. veio correndo me chamar: “Leco, tem uns cinquenta caras do Farroupilha lá na rua pra te pegar”. Confesso que não acreditei e paguei pra ver.

Quando cheguei em frente à escola era inacreditável a quantidade de alunos do outro colégio parados em frente ao meu, esperando pra ver a briga que, imagino, deve ter sido alardeada a manhã inteira por lá. Não eram cinquenta, eram mais de cem alunos, com certeza. Como eu ia a pé pra casa, caminhando uns 2km, não tinha alternativa. Tinha de passar pelo entrevero e arriscar a sorte.

Logo apareceu a turma que havia me provocado no sábado e apontaram pra mim. Uns vinte começaram a correr na minha direção e percebi que alguns poucos amigos corajosos, poucos mesmo, dois ou três apenas, iam se prontificar a me ajudar quando surge no meio daquele burburinho o negão C. e diz: “O que?! O cara que vocês querem pegar é o Leco?! Bem capaz! Vão ter de brigar de mano!”. Negão C. era amigo daquela turma e um dos mais influentes, pelo jeito.

Deu a briga. Deu mais umas duas ou três brigas, nos dias seguintes.

Para ter ideia do risco que corri e não sabia: o cara que brigou comigo foi morto ainda jovem; seu irmão, que quis brigar comigo tempos depois, foi preso por homicídio e tráfico; outro, que estava armado com uma garrucha no dia da balbúrdia, foi preso por homicídio em SC.

Tirei muitas lições desse evento e de alguns outros que decorreram. Esses caras, por exemplo, se tornaram meus amigos. Até os atendi como advogado, anos mais parte.

Até hoje não sei até hoje se o negão C. tem noção do quanto me salvou naquele dia. Obrigado cara! Te devo por essa e por aquela outra no Carnaval do Cantegril.

 

A Arma

Nasci numa família de homens armados. Armas de caça e de defesa eram comuns ao meu redor desde que era criança. Lembro de uma vez em que fui pescar com meu tio e primos, peguei seu revólver no porta-luvas do fusca, lá pelos doze anos, e fui severamente reprimido pelo tio na frente de todos por ter feito isso. A presença da arma exige disciplina e cuidado, regras que eu ainda não conhecia sobre a convivência com ela.

Na adolescência me tornei antibelicista. Achava desnecessária a presença das armas. Até meus vinte e poucos anos tive essa convicção fundada em diversas crenças que permeavam minhas reflexões existenciais. Aí, certa vez, já casado, acordei no meio da noite com um cara mexendo em materiais nos fundos do meu pátio. Esposa dormindo, suor na testa e um espeto na mão, cuidando para ver se o interesse do criminoso ia ser também pelo que estava dentro de casa. Ligar para o 190 foi inútil, sequer me atenderam.

Tempos depois, recebi uma ligação da minha esposa no meio da tarde, apavorada. Um cara tentara entrar em casa enquanto ela tomava banho. Gritou por socorro, nenhum vizinho ouviu. O desgraçado não conseguiu entrar porque as grades da janela impediram, mas ele tentou muito e gritou diversas bobagens pra ela.

Meu antibelicismo estava balançado mas ainda não tinha me rendido. E veio a primeira ameaça de morte. Vida de advogado que defende policiais nem sempre é fácil. Ali caiu a ficha de que não há sistema que te defenda da maldade. Não existe isso. Não ao menos nesse mundo de hoje, com os recursos e valores de hoje.

Meu antibelicismo vinha da ideia de que armas só causam dor,  maldades, danos. Projetava na arma apenas seu aspecto destrutivo, sem captar tudo que ela simboliza. Hoje percebo que era uma ideia juvenil e superficial. É a ideia de quem se sente seguro (ou não se sente responsável pela sua segurança), de quem vive em ambientes protegidos. Quando nos tornamos adultos e responsáveis pela segurança da nossa família isso ganha outros contornos.

As pessoas costumeiramente generalizam. Quem vive num apartamento ou numa casa de condomínio em zonas urbanas centrais tende a achar que todos gozam daquela mesma proteção. Ilusão! Devo ter ligado dezenas de vezes para a PM na minha vida. Lembro de uma única vez em que enviaram uma viatura, quando vi um cara no pátio da casa de um vizinho que estava veraneando. Todas as outras (e nelas incluem invasões a casas e estabelecimentos) não fui atendido. Fico imaginando como é em rincões ainda mais isolados, onde sequer se consegue sinal telefônico ou referências geográficas para que uma guarnição da PM te ache, se puderem atender a ocorrência.

Não é só a questão de defender-se de uma invasão a domicílio. É muito mais do que isso. É mais simbólico e representativo. Abdicar do direito de defesa quando se vive num ambiente de insegurança é negligência, covardia. Muito se diz que não se deve reagir e comprometer a vida por causa de um bem material. Acontece que esse discurso de valores (vida x bens) não é relevante ao teu opositor, o criminoso. O criminoso não se compadece com essa filosofia, pelo contrário. Ele se fortalece. Se sente mais seguro para a sua imposição. E isso repetido por anos e décadas cria uma sociedade dividida, onde a cultura da imposição criminosa e da não-reação se encaixam perfeitamente aos interesses do crime.

É óbvio que nem todas as pessoas têm condição de usar armas. Nem todas têm condição de dirigir, de pilotar, de graduarem-se. Essa análise de aptidão é relevante. O que não se pode é restringir o direito de defesa com base em crenças ideológicas, filosofia de apartamento ou teses inócuas. Não é sadio nem maduro viver num mundo que só existe na nossa cabeça. Essa imposição do artificial frente ao real é que nos faz perder cinquenta mil vidas por ano com a violência sem mudar o que dá errado.

Mais humildade! Mais autocrítica! As pessoas precisam enfrentar sua realidade.

Voltando às armas: elas são instrumentos, só isso. Como todos os instrumentos, podem ser usados de diversas formas, para diversos fins.

Imagina que só a bandidagem e os agentes estatais possam usar a internet, andar de carro, portar celulares. Bobo, não é?! Pois é isso que não podemos admitir com relação às armas, que são instrumentos de defesa imprescindíveis no mundo em que vivemos.

Vou adiante: precisamos parar de pautar a vida de todos como se fosse a vida de alguns. Se em determinada igreja não se admite determinado comportamento, pronto. Se em determinados bares se aceita, pronto. O mundo é grande demais para querermos que sejam todos iguaizinhos. Vamos tolerar as diferenças. Vamos aceitar que as crenças (e as necessidades) podem ser distintas e cada uma vivida no seu lugar. E nos lugares comuns, respeito.

Respeito é o que falta para que a criminalidade deixe de existir. Não é problema econômico, não é falta de inclusão, não é disputa de beleza ideológica. É falta de respeito e de instrumentos de imposição do respeito.

A morte da ovelhinha

Certa vez meu tio passou na minha casa e me convidou para irmos na área rural da nossa cidade buscar uma ovelha para assarmos. Meu filho, então com cinco anos, e eu embarcamos e rodamos uns 30km até chegarmos num dos tantos criadores da região. Ali em meio a tantas, meu tio escolheu a que mais gostou. O gaúcho criador logo a pegou pelas patas traseiras, a levantou e quando ia estocá-la eu disse: “para, espera…”. Vi que meu filho estava ali assistindo com uma mistura de curiosidade e medo. Tirei-o dali e o serviço foi feito. Voltamos pra casa com pouco mais de onze quilos de carne.

Agora leio algumas manifestações sobre o programa do Rodrigo Hilbert, quando mostraram o abate de uma ovelha. Me confesso cada vez mais assustado com a bolha em que algumas pessoas vivem.

A vida fora das grandes cidades e das áreas urbanas pode ser muito diferente do que alguns tentam impor com suas teorias. Mas não é o desconhecimento disso que me assusta. O que me assusta é a tentativa constante de se impor uma moral absoluta, politicamente correta e artificial.

Ninguém é obrigado a comer carne. Há restaurantes, sites de internet e grupos de estudo que ensinam muito sobre alimentação vegetariana, vegana e naturalista. Creio, sinceramente, que daqui a alguns milênios vamos achar absurda a carnificina que hoje alimenta nossas mesas, como hoje achamos absurdas algumas rotinas da humanidade do passado. Mas esse ainda não é nosso tempo, nem nossa cultura.

Então, por favor, respeitem quem tem outros desejos e valores. Respeite o homem do campo que vive do que cria e abate. Respeitem as pessoas que por opção, por inserção cultural ou por necessidade não podem se adequar à cartilha pós-moderna do politicamente correto.

Ao invés de nos assustarmos com o abate de ovelhas que são criadas para o abate, por que não escolhemos violências cotidianas mais absurdas e incoerentes?!

Quem quiser, que tire o seu filho da sala quando estiver passando o programa do rapaz. E saia junto. É simples assim.

Democracia em obras!

A democracia é um sistema em constante reforma. Dito melhor, o Estado Democrático de Direito é um sistema em constante reforma.

Nada justifica melhor a existência de um sistema jurídico, baseado em normas previamente estabelecidas e conhecidas, do que saber-se o que pode e o que não pode ser feito. Goethe já dizia que preferia a injustiça à insegurança, o que demanda uma reflexão mais contextualizada do que estava a sustentar: preferia ele saber o que pode ou não fazer, mesmo que isso não seja justo, do que não saber e ser punido por algo que não sabia.

Então o sentido primário do Estado Democrático de Direito é a consciência, é ter ciência. É saber. Quando não sabemos como fazer o sistema tem de nos dizer quem dirá o que fazer. Portanto consciência e segurança. Se fizer o que está estabelecido como certo, não posso ser punido. Se fizer o que não é proibido, não posso ser punido. Dito diferente: posso fazer tudo que não é proibido sem ser punido.

O Estado Democrático de Direito é, portanto, um mantenedor de liberdades através da restrição clara de certas e específicas liberdades individuais. Diz o que não pode ser feito para que saibamos o que pode. E diz quem diz o que pode ou não pode ser feito.

E daí?

E daí que essas regras de convívio pessoal e social não são necessariamente estáveis e atemporais. Costumam mudar com o tempo, com a mudança cultural daquela sociedade. Há cinquenta anos mulheres eram subordinadas aos esposos e o adultério era crime.

A democracia é um sistema que se fundamenta na possibilidade de mudança institucional com base nas mudanças sociais. E vive-versa. Tudo muda, inclusive o governo. Muda a lei, muda o executor da lei, muda o julgador da lei, muda o criador da lei.

Toda vez que você ler algo que sustente ruptura está, genericamente falando, diante de tese antidemocrática.

Mas e quando é justo?! Justo, na democracia, é a combinação daquilo que é autorizado por lei e coerente. Não há justeza naquilo que não pode ser contemplado pela lei ou pela coerência sistêmica do ordenamento jurídico. O que não for contemplado pelo ordenamento jurídico sistemicamente falando é autoritário, porque resulta da percepção de uma pessoa ou grupo de pessoas e não do sistema democrático.

Não aceita a tese de que “neste caso melhor fazer diferente” porque isso á autoritário, por mais que pareça melhor. A não ser que desistamos do sistema democrático… aí são outros quinhentos.

 

 

A interiorização necessária

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Dos lugares mais bonitos que já passei está o litoral norte gaúcho, onde vivo há pouco tempo. É uma planície de alguns poucos quilômetros entre o mar e a serra do mar, repleta de vegetação que, especialmente no outono, fica espetacularmente linda. Na maioria são pequenos municípios e os maiores contam apenas com algumas dezenas de milhares de habitantes. Ainda se cumprimentam os vizinhos na rua, ainda se vê alunos com brincadeiras ingênuas nas escolas e ainda se sente espanto com as coisas que se vê na televisão.

Recentemente uma vizinha do meu condomínio, ela moradora de Porto Alegre, veio a Capão da Canoa e foi assaltada no salão de beleza. No mesmo dia ela voltou à capital assustada. Foi refugiar-se onde se sente segura (?!). O detalhe é que o assaltante foi preso pouco depois pela polícia, como normalmente acontece por aqui. Aqui a polícia tem mais condição de enfrentar uma criminalidade não tão repetitiva, não tão violenta, nem tão preparada.

Morar no interior é o avesso do ideal médio no nosso país. 85% dos brasileiros viviam em zonas urbanas em 2015. Até aí tudo bem, pois nem todo mundo nasceu para viver na roça da atividade rural. Mas precisamos mesmo viver em grandes cidades?! Em aglomerações de milhões de pessoas?! Pra quê?! Por quê?!

Nos Estados Unidos existem mais de 320 milhões de habitantes. Lá apenas nove cidades têm mais de um milhão de moradores.

No Brasil somos perto de 207 milhões de pessoas. 17 cidades têm mais de um milhão de habitantes.

Pra que se tenha ideia, veja algumas grandes cidades americanas que tem próximo de 700.000 habitantes: Boston, Detroit, San Francisco, Washington, Seatle, Memphis. Algo como, no Brasil, falarmos de Natal, Nova Iguaçu, João Pessoa, Uberlândia, Jaboatão dos Guararapes.

É compreensível que a concentração de riqueza seja maior num país em desenvolvimento e isso repercuta na geografia das cidades. Com certeza estamos muito longe de entregar aos moradores dos pequenos municípios os serviços públicos e privados que tornaram-se indispensáveis. A falta de empregos qualificados também é um grande problema, afinal as empresas e os órgãos públicos não estão lá.

Contudo a vida nos centros urbanos brasileiros atinge o nível da insuportabilidade. E precisamos pensar num meio de enfrentar isso.

O Estado naturalmente enfrentaria as grandes mazelas urbanas nacionais se descentralizasse as suas atividades. Por que a universidade federal precisa ficar na capital? Por que as academias de polícia, os arquivos públicos, os centros de formação estatais tem de ficar lá?!

Por que não incentivar a instalação das grandes empresas em locais interiorizados?! Porque demanda do Estado uma melhoria na infraestrutura que não consegue atender. Então a solução é, por certo, conceder benefícios aos empreendedores que se dispuserem a tais investimentos. Interiorizar não é apenas melhorar o interior, mas principalmente melhorar os grandes centros, retirando das metrópoles as pessoas que ali vivem porque precisam e não porque querem.

A interiorização depende da modernização da legislação tributária (permitindo compensações de investimento), da legislação trabalhista (regulando home-office e serviço itinerante ou com escala flexível), dos serviços públicos. Há muito a ser feito, mas precisamos começar de alguma forma e um bom começo é mostrar que se pode viver bem em outros lugares que não em ruas abarrotadas de carros e poluição e barulho.

Interiorizar o Brasil é a solução de quase todos os problemas dos grandes centros. E principalmente dos pequenos. A qualidade de vida agradece.

 

 

 

Tese: por que somos assim

Todo mundo tem a sua, então aqui vai minha tese de por que nós, brasileiros, somos como somos.

Até 1808 o Brasil era o quintal português. Saiu daqui mais madeira, ouro, especiarias, cana-de-açúcar e café do que jamais a Europa tinha tido contato. Tornamos Portugal um país riquíssimo, mas que nunca deixou de ser visto pelos demais vizinhos como corrupto e provinciano. No livro “O império dos homens bons”, o autor português Tiago Rebelo fala dessa postura cultural durante a ocupação portuguesa das colônias africanas e até da dificuldade em se relacionar com outros colonizadores daquele continente em razão disso. É uma história real, vale a leitura.

Em geral, em praticamente todos os países do mundo, a liderança fora constituída por pessoas que se destacavam socialmente, seja por produção, seja por liderança. Então temos, na imensa maioria dos lugares, que aqueles que trabalhavam de forma mais eficaz ou aqueles que criavam ou inventavam algo eficaz ou ainda aqueles que desbravavam novos horizontes, enfim, estes conquistavam condições sociais de liderança e estabilidade.

Não era fácil ser nobre em terras disputadas. Não era fácil ser colonizador em terras inóspitas. Não era fácil ser agricultor em picadas e nem ser artesão em terras industrializadas. Historicamente a aristocracia deixou de ser um título meramente sanguíneo e passou a ser uma herança dos meios de produção. A cultura humana deixou de valorizar a árvore genealógica e passou a dar mais valor a quem realizava algo, efetivamente.

Mas no Brasil as coisas não se deram exatamente assim. Com o bloqueio continental napoleônico de 1808, a nobreza portuguesa inteira veio para o Brasil e deixamos de ser uma colônia para nos tornarmos um império. Aqui, para se impor perante os nativos, passaram a exibir seus títulos e sua condição social, sem precisar de qualquer contraprestação a isso. Enquanto a Europa incorporava gradativamente a cultura de produtividade da era industrial, toda uma casta aristocrática real trazia para nosso país a ideia de que era o sobrenome e os títulos o mais importante e não a sua habilidade em desenvolver ou criar riqueza. Todas as terras daqui, todos os meios de produção, tudo era da aristocracia real portuguesa.

Não é à toa que fomos dos últimos a extinguir a escravidão, a adotar o modelo republicano, a substituirmos o modelo agrário pelo industrial. A cultura elitista a que fomos submetidos tinha como interesse a manutenção de tudo que havia antes da era industrial. A própria investida napoleônica se fundava – ao menos ideologicamente – na ideia de igualdade, liberdade e fraternidade, valores muito distintos daquilo que a coroa portuguesa transmitiu aos brasileiros colonizados.

No mundo, a riqueza se tornava algo decorrente da atividade burguesa, da produção. Mas é óbvio que os antigos aristocratas da realeza não queriam que isso os atingisse aqui. Ser elite num mundo produtivo era muito mais trabalhoso do que sê-la num mundo de títulos e sobrenomes.

Pois bem, ao logo do tempo nossa elite sempre foi dotadas de privilégios inalcançáveis aos demais do povo. Mas isso obviamente não poderia ser assim para sempre. Um dia esses privilégios teriam de acabar, porque é evidente que as transformações do mundo não permitiriam tamanha desproporção entre aquilo que era concedido a uns e outros dentro da mesma sociedade.

Foi aí que o jeitinho luso-brasileiro criou algo absolutamente inédito no mundo: ao invés de acabar com os privilégios, vamos distribui-los ao maior número de pessoas que pudermos e, assim, evitamos que nossas mordomias elitistas acabem.

Sim! Genial!

Então passamos gradativamente a abrir o grupo daqueles que chamamos elite e a distribuir direitos e mais direitos a todos os que conseguiam nele ingressar e, depois, a todos os demais.

Em nenhum país do mundo existem tantos direitos sem lastro como no Brasil. Aqui achamos realmente que o Estado é um ser divino, onipotente e onisciente, que tudo poderá por nós. Essa ideia de girico é integrada ao que acreditamos do mundo e tudo que se tenta fazer para desconstituí-la é tratado como “perda de direitos” ou “exploração”. Nos acostumamos de tal forma aos nossos direitos que se tornou absolutamente irrelevante o custo social necessário para mantê-lo. É como se algo, para existir, bastasse estar determinado numa norma e… pummmm…. que assim seja!

Um dia acordaremos desse nosso sonho que já dura mais de duzentos anos. Até porque o despertador já está tocando há muito tempo… e a tecla snooze já gastou.