Professor-líder

Há pelo menos vinte anos o conceito de liderança mudou. Por quase toda a nossa história, liderar foi mandar. Era um cargo, um título, uma distinção formal. Contudo, nas últimas décadas se constatou que a verdadeira liderança decorre de outros valores mais efetivos, que giram em torno da ideia de potencializar o grupo e os indivíduos, de solver demandas, de viabilizar ideias, de compensar deficiências, de elaborar e intermediar conflitos e de, acima de tudo, ser exemplo. Foi-se o tempo em que o líder mandava e cobrava. Hoje é dele a responsabilidade pela efetividade daquilo que o grupo, a instituição ou a sociedade necessita realizar.

Quando se analisa uma personalidade histórica qualquer torna-se cada vez mais evidente a efetividade daquilo que tal personagem se propôs. Gandhi era um pacifista e libertou um país. Outros pacifistas existiriam e, em que pese sejam pessoalmente valiosos para os seus, a efetividade do que Gandhi produziu o diferencia.

Jesus, Maomé, Moisés, Buda, Alexandre o Grande, Gengis Khan… são exemplos de lideranças que se tornaram aquilo que pretendiam para o mundo. Eram a personificação da sua filosofia, líderes no conceito clássico e na nova nomenclatura. A lista não encerra o exemplo de lideranças efetivas que, sem dúvida, beira à infinidade. Ela serve para referenciar o que se propõe aqui: liderar é, antes de tudo e de mais nada, ser o que está proposto.

Pois o professor não é treinado a liderar. Talvez sequer se veja nesta condição. Melhor dizendo: o professor não é treinado a liderar de acordo com essa nova visão que se adquiriu sobre liderança.

Por certo, quanto menores os alunos, mais pedagógico será o trabalho letivo. O professor-líder para além do pedagogo é mais exigido na medida em que crescem seus discentes.

A vocação da liderança e de educar pode e deve ser aprimorada pelas academias e envolver os valores que disso participam. Ensinar a vencer-se ao invés de vencer o outro, a unir, a ouvir, a respeitar, a aceitar, a não desistir, a solucionar são atributos que demandam, na nova ordem pedagógica, um novo professor que não é apenas detentor de conceitos e conteúdos.

Vai ensinar fórmulas e por que elas existem. Vai contar sobre fatos históricos e respeitar o tempo e os valores envolvidos. Vai falar de outros povos e lugares apontando diferenças a serem valorizadas e igualdades a serem reconhecidas. Vai trazer outros idiomas como pontes indispensáveis ao novo mundo sem fronteiras.

Quando assume o papel de liderança o professor ensina agindo. Quando critica, ensina a criticar. Quando analisa desvalorizando, ensina a olhar sem valor. Quando professa quebras de paradigmas, de hierarquias e de ordens pode estar desnorteando quem, no início, precisa de referências mais do que liberdade.

Há uma crise de autoridade e de identidade neste novo método de estar na sala de aula como facilitador, potencializador e, ao mesmo tempo, conteudista curricular. Elaborar-se é fundamental.

O professor-líder é um gestor, um educador, um ouvinte, um debatedor. É também um apresentador, um resolutor, um interventor. Cada turma demanda um método e cada aluno uma faceta sua. O compromisso é o resultado, não apenas o conteúdo, nem tampouco uma pauta.

A Escravidão Mental ainda existe

Nórdicos escravizaram irlandeses. Árabes escravizaram africanos. Romanos escravizaram egípcios. Egípcios escravizaram judeus. Estes são exemplos de escravidão racial. Temos outros tipos de escravidão, quando tribos indígenas sul-americanas escravizavam seus derrotados. O mesmo acontecia com as tribos e reinos africanos. Vencidos se tornaram escravos durante toda a história humana.

A escravidão é arraigada à humanidade. Ela existe desde que existem culturas diferentes, há mais de 10.000 anos. Existiu em todos os continentes, em todas as épocas, até cerca de cem anos atrás.

Quem acabou com a escravidão no mundo?!

O europeu.

Veja: em diversos lugares, em diversas épocas, havia povos escravizantes e escravizados. Havia também os que não escravizavam e lutavam para não serem escravizados, mas, num mundo violento, quanto menos violência você manejasse, maior a chance de se tornar escravo.

A triste realidade é que o homem precisa evoluir culturalmente para implantar uma nova conduta. Não adianta um rei determinar algo que seus subordinados não querem; ele cairá (como caiu Dom Pedro II depois da Lei Áurea). Não adianta se determinar que não usem armas, pois só uns respeitarão. A humanidade não se constrói, não evolui, por decreto. Quem cria um filho aprende isso.

Foram os europeus quem impuseram o fim da escravidão no mundo, ao longo do Século XIX. Afinal, eram os europeus que dominavam o mundo e a Revolução Industrial estava ali pedindo passagem junto com o capitalismo (essa é a visão normalmente associada a este fato histórico). Há outros motivos, contudo. Um deles é que brancos e negros, ao longo dos séculos, conviveram e passaram a se relacionar com cada vez mais empatia. Muitos brancos tinham filhos mulatos. Até padres tinham filhos africanos (leia “O império dos homens bons”, do português Tiago Rebelo).

Não é diferente do que aconteceu, por exemplo, entre egípcios e judeus, entre nórdicos e irlandeses. A cultura dominante é tocada, cedo ou tarde, pela gente dominada. A humanidade é feita, afinal, de pessoas mais ou menos humanas, mais ou menos evoluídas.

Contudo, a escravidão mental demora para passar. O sentimento de ser menor, de ser menos, de ser dependente. A ideia de que só há ódio, só há maldade. A vivência da dor e não do que se conquistou.

A escravidão mental é um dejeto e, eventualmente, um produto.

No Brasil, tem sido produto vendido a rodo. Temos uma geração que aprendeu errado a pensar sobre fatos históricos importantes para a humanidade e acredita que há dívidas históricas que, hoje, não tem qualquer sentido. Devem árabes algo por terem escravizado os egípcios?! Devem os suecos e noruegueses algo por terem escravizado os irlandeses?! E a dívida italiana por tudo que os romanos fizeram…

Precisamos mudar nossa mentalidade para deixarmos de viver no Século XIX. Precisamos ir adiante e nos libertar.

A advocacia além do litígio

Artigos | Publicação em 16.04.19 | Espaço Vital

A advocacia é função diretamente afetada pelas mudanças dos últimos anos no Brasil e no mundo. Das mudanças tecnológicas vem a certeza de que advogar possui outra rotina organizacional e outra demanda de conhecimentos correlatos, se compararmos à advocacia da geração passada.

O processo eletrônico muda não só a maneira de trabalhar, mas de viver. Hoje o advogado pode atender um cliente virtualmente e representá-lo processualmente da mesma forma e isso permite, por exemplo, que esteja sediado em outro país. Permite que escolha trabalhar em outro fuso horário. Permite que se organize de uma maneira não tradicional para cumprir o que, há alguns anos, lhe exigiria estrutura física e pessoal absolutamente diversa.

Contudo é das mudanças sociais que me interesso neste artigo. O Brasil é um país tomado de profissionais com formação jurídica. Só advogadas e advogados somos mais de um milhão, cerca de cem mil no Rio Grande do Sul. Veja, nos pampas gaúchos temos cerca de 17.000 policiais militares e 7.000 policiais civis. Refiro estes números para termos ideia da reestruturação social que se implantou nas últimas décadas, onde o litígio processual tornou-se o meio corrente de resolver todo e qualquer conflito social.

O litígio – e não julgo se é bom ou ruim, justo ou injusto – é o objeto de um Poder de Estado, que tem orçamento, estrutura e independência funcional. Este Poder de Estado contempla boa parte das profissões mais nobres de toda a estrutura pública brasileira. Portanto, não é difícil concluir que o litígio é um dos objetos de manejo primordiais da República, cujos fundamentos, princípios e objetivos se aplicam na sua resolução.

Dito de outra forma: boa parte da atuação da República na efetivação de seus objetivos constitucionais decorre do manejo do litígio entre as pessoas físicas, jurídicas e as instituições.

Poderíamos debater esse tema sob infindáveis aspectos, mas escolho sob o da efetividade. Se é verdade que hoje todos têm acesso à resolução das demandas que lhes interessam, também é verdade que este acesso (quase sempre judicializado) infelizmente não extingue o conflito de interesses subjacente e muito menos tem acalmado os conflitos sociais relacionados, que acabam tornar-se novo litígio. O que se tem visto são conflitos de interesses repetitivos e reincidentes, que poderiam – e deveriam – ter soluções que servissem de referência didática antes de se tornarem nova demanda jurídica.

Por que as demandas de acidente de trânsito não são solvidas por equipes de trânsito que se dirigiriam ao local do acidente e, in loco, ouviriam imediatamente os envolvidos, verificariam as circunstâncias e determinariam as responsabilidades? Os descontentes que buscassem o Judiciário.

Por que as demandas de desrespeito ao consumidor não são solvidas por entidades que verificam imediatamente (por exemplo, a inscrição indevida no SPC diante do comprovante de pagamento) o fato e determinariam compensações e resoluções? Os descontentes que buscassem o Judiciário.

Por que a defesa à invasão de terras tem de ser judicializada, se há títulos de propriedade, garantias constitucionais e legais ao proprietário e estrutura policial para fazer cumprir a lei?! O invasor que busque o Judiciário para pleitear sua demanda, sob pena de pouco valer cumprir a burocracia.

Por que o empregado que não recebeu salário precisa ir ao Judiciário para pleitear direito se a apresentação da CTPS e a não apresentação do recibo de pagamento pelo empregador já demonstram preliminarmente uma relação sem contraprestação?!

Há tantas outras hipóteses em que a judicialização deveria ser último recurso. O que queremos é apresentar a evidência de que escolhemos a judicialização quando deveríamos ter escolhido outros caminhos, mais rápidos, mais baratos, mais efetivos.

Isso tudo decorre de uma cultura de judicialização, que permeia a sociedade e especialmente o operador do Direito. Essa cultura precisa ser desconstituída. Não é possível que não concluamos as desvantagens de tão gigantesca estrutura, onde se tem cinco vezes mais advogados que policiais em uma sociedade, onde se tem um Poder de Estado cada vez maior que interfere diretamente em todas as demandas sociais.

Não é difícil concluir que o Judiciário se tornou o “poder mais poderoso” e, talvez, seja por isso que esta cultura esteja implantada.

A advocacia precisa participar da resolução dos conflitos. Ela é indispensável nessa resolução da maneira como as coisas hoje estão, mas precisará adequar-se a novas posturas na medida em que a sociedade incorporar métodos não judicializados. Um dos primeiros passos é um olhar ´interna corpore´ mais apurado sob o exercício da advocacia em áreas que não usam o processo para resolver os conflitos. Cada vez mais a advocacia precisa estar vinculada a medidas de ´compliance´, de prevenção, de orientação, de composição. Temos de preparar nosso manejo laboral para que o processo se torne um recurso secundário ao invés de ser o expediente da nossa atividade.

Além disso, a advocacia deve se aproximar das disciplinas de gestão. Temos de derrubar um certo preconceito ao advogado que não litiga. A advocacia precisa subir um degrau na direção dos cargos executivos em todas as esferas e isso começa ao respeitarmos nossos colegas que escolheram o mundo corporativo como ambiente de exercício da sua formação jurídica.

A sociedade pacificada tende a implementar ambientes mais estáveis e, consequentemente, o desenvolvimento da atividade produtiva. A justiça social decorre muito mais da elaboração das bases produtivas do que da elaboração dos instrumentos de litígio. Eis a aquisição cultural que precisamos!

Artigo do advogado Alexander Luvizetto (OAB-RS nº 42.519).
alexander@luvizetto.com

A Justiça

Pensa comigo:

Entre dois atletas rivais, um que se preparava muitas horas a fio ao longo dos últimos meses e outro menos preparado mas que é movido por uma grande força de vontade e de competitividade… qual deles terá mais justiça ao vencer?

Se o motorista que trafega a sua frente fica na pista da esquerda em uma rodovia por longos quilômetros sem lhe dar passagem, é justo que você o ultrapasse pela direita?

Se o seu sócio deixa de lhe repassar valores que eram devidos, é justo que você faça o mesmo com ele para se compensar?

A justiça para cada um é o resultado dos seus valores. Ela precisa de elementos objetivos para ser manejada de forma usual, sob pena de estar sempre submetida à subjetividade, ao que cada sujeito crê.

Nosso sistema (o brasileiro) entende que a lei é o objeto que instrumentaliza a justiça. A lei diz o que é certo. Então, o debate do que é “justo” deve ser feito ao se criar a lei, porque depois de criada a “justiça” já é.

Em outros sistemas (como no americano ou inglês) o justo é definido nos tribunais com base nos costumes daquela sociedade e a lei tem um papel meramente regulador. Lá, a lei diz o que deve ser feito, mas é a Corte quem decide se o ato é justo ou não frente à sociedade.

Se compararmos a evolução destes dois sistemas, o romano-germano que utilizamos no Brasil e o commmon law dos bretões e norte-americanos, veremos que ambos se influenciaram e ambos servem ao que se propõe.

O Brasil mudou radicalmente sua forma de interpretar a lei nos últimos tempos. Há uma década era muito mais difícil se encontrar decisões que mantivessem réus presos durante o processo criminal. Há uma década era muito mais fácil aos réus (não apenas de processos criminais) fugirem das suas obrigações.

O fim da impunidade é medida de efetivação da justiça. Contudo, a impunidade não pode ser combatida de forma a condenarmos inocentes.

O Brasil passa por mudanças efetivas de conteúdo cultural e social nos últimos anos. Não somos hoje a mesma sociedade em que vivi minha juventude, sob diversos aspectos. Isso mostra, em primeiro lugar, que não somos robôs. Mudamos nossa relação entre consumo de álcool e trânsito, nossa forma de lidar com diferenças de gênero e cor de pele, nossa (in)tolerância ideológica, nossas metas enquanto sociedade de consumo. Nem tudo mudou para melhor. Temos mais crimes (temos uma indústria que vive ao redor dos crimes patrimoniais), temos o segundo maior consumo de entorpecentes e drogas ilícitas do mundo, temos organizações criminosas nos piores moldes imagináveis. A justiça subjetiva, para pessoas de valores e condutas tão antagônicas, precisa de instrumentos de justiça objetiva claros e eficientes. Caso contrário, o que se pensa instrumento de efetivação do justo se torna apenas mais uma arma na mão dos operadores da injustiça e dos interesses próprios.

A verdadeira ordem no Estado

As nações européias decorrem do absolutismo e de diferentes tipos de aristocracias monarquistas. Até hoje a maioria dos países europeus possui família real. Talvez resulte desta origem, que personificava o Estado em um dono que sobre todos os súditos reinava, a ideia de que o Estado é mais que a sociedade que o compõe e sobre ela reina.

Norte-americanos, sob influência iluminista francesa, sempre viram o Estado e o poder estatal como algo que emana no povo, não do governo. Para eles o Estado é um servidor da sociedade e deve estar, no máximo, submetido à vontade popular.

Estas duas diferenças sobre a relação entre Estado e sociedade também refletem-se em outros valores, como a liberdade, a auto-determinação, a utilização dos bens públicos e os limites dos representantes da autoridade estatal.

Aqui no Brasil nossa estrututa estatal sempre foi mais européia que norte-americana. Nosso ordenamento jurídico é influenciado pelo direito romano e alemão, povos estes imperialistas ao seu tempo e ligados a uma visão personificada da autoridade do Estado. Talvez seja por esta origem constitutiva que nos submetamos tanto às determinações autoritárias e tenhamos a tendência de tratar autoridades estatais com mais deferência que a devida efetividade do cargo. Veja por exemplo o valor (estatal) que se dá a um auditor fiscal, um conselheiro de contas ou magistrado, a um diretor de departamento de fiscalização se compararmos a um diretor de escola, um delegado de polícia, um diretor de hospital (público). Há diversas razões para isso, das quais aponto as mais evidentes: (a) historicamente concedemos cargos aos filhos da elite que são muito bem remunerados e não exigem tanto comprometimento com resultados ou com o atendimento direto das demandas mais comuns da população; (b) os cargos mais bem remunerados (inclusive o principal, que serve de referência remuneratória a todos os demais – Ministro do STF) são burocráticos, não administrativos, acessíveis por concurso e não por escolha popular. Sua atividade não é medida por critérios de resultado; (c) nestas carreiras não há ingresso por cargos menores, que se elevam por meio de promoções dentro da estrutura, por mérito e resultado. Um juiz não se torna juiz depois de ter sido técnico judiciário, analista judiciário e secretário de magistrado. Ele já começa sua carreira como juiz. Um coronel da PM não começa como soldado. Um delegado não precisa começar como inspetor de polícia; (d) estas carreiras costumam gozar de benefícios e média salarial muito acima da média dos demais servidores públicos.

Se analisarmos adequadamente, não é difícil perceber que diversas carreiras do topo salarial de servidores não pertencem aos serviços essenciais prestados pelo Estado: saúde, educação e segurança. São cargos burocráticos, que vão se tornando valorizados quanto mais burocrática for a constituição administrativa. E mesmo dentro deste sistema irracional, os cargos de primeiro escalão chegam a dispor de remuneração até dez vezes superior aos colegas de hierarquia menor, em funções igualmente importantes, hierarquicamente menos privilegiados e dos quais não ascenderão ao topo do sistema por melhor que seja seu conhecimento, desempenho e mérito.

O Estado que tem chance de dar certo é o que diminuir estas diferenças absurdas entre colegas que trabalham no mesmo corpo estatal. É o que pagar bem à base da pirâmide, sem enriquecer ninguém. É o que dar mais poder e valor às funções efetivamente mais importantes aos interesses sociais e não a corpos elitistas que enriquecem em cargos pomposos e menos úteis. O Estado deveria ter áreas de interesse cujo ingresso se daria por concurso na base da carreira e acenderiam todos com base no tempo, mérito, desempenho e conhecimento, sem a possibilidade de se pular cargos da base para se atingir os de liderança e mais bem remunerados.

A verdadeira ordem do Estado deveria ser atender à sociedade ao invés de a sociedade atender às demandas do Estado para sustentar sua aristocracia..

 

 

Vamos errar os mesmos erros?

Direita contra Esquerda é um assunto que quase abomino. Não é que não identifique as diferenças ideológicas, históricas, filosóficas. É que o debate ideológico ao redor desse tema é parcial, apaixonado, quase juvenil. É válido questionar se o Estado deve ou não agir de certa forma, se ele é mais importante que a Sociedade que o compõe, se a liberdade individual é alicerce social ou egoísmo. O debate é válido. O que não é válido é transforar isso em pauta existencial, muito menos em pauta governamental e estatal.

Saímos de um período tirano de governos marxistas na América Latina. Alguns ainda lutam por esta libertação ideológica, mas principalmente social e moral. Neste período criamos ícones de veneração como Lula, como Chaves, como Boff e tantos outros. Pessoas que vivem num mundo absurdamente irreal. São lunáticos e penso devam ser lunáticos igualmente os que os seguem.

Agora alternamos o viés governamental e, pela primeira vez em décadas, temos um governo dito “de direita”, com viés econômico liberal (como têm sido o trato da direita ocidental). Será que vamos novamente idolatrar ícones, ao invés de debatermos ideias?! Será que vamos novamente cair na armadilha do populismo demagógico que torce por um lado contra o outro, ao invés de construir algo para todos?!

Olavo de Carvalho não pode ser tornar referência de um governo, por favor. É, mutatis mutandis, como Boff ou José Dirceu foram. Um país precisa de debates, de construções, de integração, de personalização, de elaboração. Não podemos continuar cavando uma trincheira ideológica entre as pessoas, porque ninguém neste planeta pensa 100% igual a outro, nem mesmo pai e filho, nem mesmo gêmeos. Não se vislumbra sucesso em qualquer Estado que não valoriza a diferença e a liberdade, mesmo porque a liberdade gera naturalmente a diferença e é esta característica que comprova a sua existência.

Tenho comigo que as mudanças sempre graduam-se de acordo com os valores dos envolvidos. Mudam os valores, ocorrem mudanças. Mantem-se os valores, mudam apenas os atores, quando muito. Esperamos todos que nossa mudança seja efetivamente de valores.

A Liberdade

Nada pode ser efetivo sem liberdade. Nada. O casamento precisa de liberdade. A produção precisa de liberdade. A governança, a literatura, a ciência, o esporte, a amizade… tudo precisa de liberdade.

Gandhi ensinou que “de nada adianta a liberdade se não temos a liberdade de errar”. Liberdade de errar não é podermos errar de propósito, tampouco errarmos por maldade. É o erro buscando o acerto, pois caso contrário não houve um erro mas uma intenção.

Já a filosofia clássica grega dizia que os homens apaixonados e os viciados não são livres. A liberdade decorre da extinção das nossas limitações, pois, caso contrário, embora possamos fazer o que quisermos, ainda estaremos subjugados a algo. E onde há jugo não há liberdade.

Quem trabalha por dinheiro não é livre. Quem casa por interesse não é livre. Quem realiza por vaidade não é livre.

Ainda que não se dê valor a isso do ponto de vista prático, a vida está aí a ensinar (especialmente os mais maduros) que isso está provado ser assim. A vida prova todos dias que depende de construções e valores para se manter.

Há nas Cortes Superiores de diversos países o debate se a vida é mais importante que a liberdade (quando se julga, por exemplo, o suicídio e a eutanásia). Esse debate, em verdade, é menos sobre liberdade e mais sobre a vida, porque ambos valores tem a mesma grandeza.

Vivemos uma época de liberdade plena. Ao menos no ocidente. Ainda que haja os retrógrados de todos os polos ideológicos que entendem devamos limitar a liberdade dos opositores, a verdade é que, mesmo com todo esse esforço, a liberdade tem prevalecido no campo individual, precisando chegar de forma madura às instituições, especialmente nas estatais.

O elemento de construção da liberdade é a disciplina e o elemento de manutenção da liberdade é a responsabilidade. A liberdade, portanto, não existe como valor por si. Se optarmos em tornar a liberdade um valor absoluto, precisamos disciplinarmo-nos para tal (há um ditado japonês que ensina: “a disciplina é mais importante que a inteligência”). Com o aprendizado, perceberemos que só há liberdade responsável, aquela em que podemos errar mas seremos responsáveis pelo erro e, portanto, pela reparação quando for necessário e possível.

Numa época em que todos podemos dizer o que quisermos, em que todos podemos optar por viver como quisermos, o debate sobre o uso e a manutenção da liberdade deveria ser incorporado à educação formal que, por sinal, tem ensinado demasiadamente conteúdos sem valor, fazendo com que o aluno estude e não entenda o porquê. É a disciplina (etimologicamente falando) que nos falta para desfrutarmos plenamente nossa liberdade.

 

Triste rotina

A tragédia brasileira é rotina.
A tragédia brasileira é empresas que só buscam lucro, servidores que só buscam estabilidade, cidadãos que só buscam benefícios.
A tragédia brasileira é ser mais ou menos em quase tudo, sem exigir muito para também não ser exigido.
A tragédia brasileira é uns aceitarem (e lutarem por isso!) ganhar R$ 50 mil numa estrutura em que outros ganham só R$ 3 mil.
A tragédia brasileira é viver no debate e não no esforço.
A tragédia brasileira é culpar os outros.
A tragédia brasileira é se acostumar.
A tragédia brasileira é não gostar de ler, não valorizar as diferenças, não buscar melhorar.
A tragédia brasileira é rotina.
A tragédia brasileira é andar na contra-mão só por alguns metros, é estacionar em fila dupla só por cinco minutos, é deixar de arrumar o carro sempre justificando que não tem dinheiro.
A tragédia brasileira é dar importância demais ao dinheiro e de menos ao que deveria justificar a sua aquisição.
A tragédia brasileira é ir se amontoando em morros e aguardar a próxima enxurrada.
A tragédia brasileira é existirem leis maravilhosamente rigorosas com todos os pequenos e curiosamente ineficazes contra os gigantes.
A tragédia brasileira é desperdiçar talentos e genialidades em carreiras burocráticas, porque a estabilidade e o dinheiro justificam.
A tragédia brasileira é dar mais valor a quem diverte do que aos que produzem.
A tragédia brasileira é liberar o que interessa e proibir o que vale a pena liberar por interesse.
A tragédia brasileira é perder-se em si e encontrar-se longe demais,
A tragédia brasileira é rotina.

Por que desarmar deu errado?!

Sou completamente contra o Estado impedir as pessoas de beber (certa quantidade) e dirigir. Pronto, falei diretamente isso mas não vou discorrer sobre esse assunto agora. Falei isso pra dizer que embora eu seja contra esse ideal, sou OBRIGADO a admitir que esta mudança de postura legal e social surtiu efeitos positivos. Temos um trânsito muito melhor do que há quinze anos, resultado desta e outras mudanças da última década.

Usando o mesmo modelo de raciocínio, me pergunto o que melhorou com o Estatuto do Desarmamento que já completou quinze anos?! Melhorou qualquer índice de violência no período?! Suicídios diminuíram?! Violência entre vizinhos?! O tráfico?! Pior: diminuiu a violência doméstica?!

Vejamos que já há tempo suficiente de imposição legal para analisarmos os efeitos sociais desta medida. Ela deu errado em todos os sentidos. Todos.

Há um motivo primário para ter dado errado: ela se fundamentou em premissas falsas, que ainda são usadas para defender a ideia falsa que a sustentava.

A arma não é responsável por nada. As pessoas são o problema (penso seja óbvio e todos concordemos!).

Quando você entende (por idealismo) que o Estado deve dispor da exclusividade no uso de armas, você está dizendo que as pessoas do corpo estatal (policiais) são mais confiáveis que a sociedade. É um silogismo. Pois isso é uma ilusão, quase um absurdo. O policial é um ser humano médio da sociedade como quase todos nós. A capacidade técnica dele no uso da arma é uma das tantas habilidades que precisa para exercer sua função. Esta capacidade técnica pode ser exigida de qualquer pessoa que se preste a dispor de uma arma e é isso que precisamos entender.

Essa primeira premissa (de que o Estado deve dispor do monopólio do armamento) é tirânica. Um gaúcho com mais de trinta anos com certeza viveu numa sociedade muito mais armada… e mais segura!

Essa é a segunda premissa a ser enfrentada. Não há relação efetiva entre a arma legal e a criminalidade. E olha que há quinze anos os problemas de violência doméstica e machismo, alcoolismo, eram muito piores. Muito piores!

O terceiro fator que deu errado é que o Estado não pode proibir algo que ele não pode suprir. Primeiro o Estado precisa garantir sua segurança para depois retirar o seu direito de se defender. (Elementar, mas precisa ser dito).

Como eu disse lá no início, deu errado porque a ideia que sustentava essa medida era falsa. O seu objetivo jamais foi diminuir a criminalidade, mas foi tão somente desarmar as pessoas. E no início até os operadores da Segurança Pública acharam boa a ideia, seja porque parecia que funcionaria, seja porque eles permaneceriam com o monopólio do armamento legal e isso lhes rendeu muito nos serviços extras de segurança privada.

Armas sem critérios dará errado. Já não vivemos mais essa época também. O que precisamos é de regras de posse e uso, seja de armas, seja de qualquer coisa. Nós, sociedade, somos mais importantes que o Estado. E o Estado deve unicamente nos representar, jamais nos sobrepor.

O exercício do possível

Em algumas pessoas o resultado do sofrimento é a revolta. Encontram meios de extravasar tudo de ruim que sentem por meio da insurgência, numa espécie de projeção em algo ou alguém daquilo que acreditam poderá aliviá-las, um pouco que seja.

Em algumas pessoas o resultado do sofrimento é a mudança. Ainda que inconscientemente, entendem-se responsáveis pelos acontecimentos da sua vida e, portanto, veem-se como agentes da mudança que evitará a repetição do que lhes aflige.

Em algumas pessoas o resultado do sofrimento é a incapacitação. Sentem-se fracas, incapazes de enfrentá-lo. Afundam naquele momento, numa inércia intransponível.

Na vida aparentemente perfeita (aos olhos dos outros) há muito esforço não contemplado ou ilusão. Tudo que parece fácil é superficial. Tudo que soa descabido teve seus motivos. Tudo que está funcionando foi devidamente construído, seja um relacionamento, seja um equipamento.

Pela criação tem-se ideia do criador. Pelo resultado tem-se ideia do esforço. Pela estabilidade tem-se noção da estrutura. Pela distância tem-se noção do tempo.

Não há vida sem dor, nem há dor sem vida. O pêndulo da existência, que busca a estabilidade, vagueia entre extremos e depende do antagonismo para movimentar-se. Há de compreendermos, cedo ou tarde, que viver é lidar com isso tudo e que a revolta que assim seja é, por si, o problema, longe de ser a solução.

A vida é o exercício do possível. Toda teoria é testada. Toda energia é empregada. Toda atitude produz resultados. Toda omissão será cobrada. Nunca desista de ser melhor do que ontem porque é isso que movimenta a existência e felicita o existente.