Olhando o universo de microscópio

Quase metade da população mundial pertence a religiões que acreditam em reencarnação. No mapa das religiões, os cristãos praticamente dominam o mundo (são cerca de 2bi), seguidos por islamitas (1,3bi) e hinduístas (900mi). O ateísmo – que nem sempre é sinônimo de materialismo, como pretendem alguns espiritualistas – é de difícil quantificação, pois existem estudos que atribuem aos japoneses mais de 80mi de ateus, certamente por interpretarem a religiosidade japonesa de forma própria.

Ao contrário do que muitos imaginam, o mundo tende a ser cada vez mais religioso… não o contrário. O acesso ao estudo e à internet participam grandemente disso, mas é especialmente a reflexão mais aprofundada sobre o sentido da vida que leva as pessoas a se identificarem com uma ou outra corrente religiosa, especialmente em razão da sua cultura.

Uma pesquisa de 2007 feita por Phil Zuckerman indicou que metade dos cientistas são religiosos e 1/3 acredita em Deus. 10% se dizem ateus e 2% são cristãos.

A religiosidade serve de suporte individual para o que cada um busca nela. Há busca por consolo, por explicações, por perspectivas… há os que apenas repetem a cultura local, há os que se revoltam contra ela. A religiosidade, portanto, fala um pouco de como a pessoa enfrenta suas adversidades, como se relaciona socialmente e até como olha para si.

O que mais assusta na religiosidade é a tentativa constante de se uniformizar um pensamento religioso ou mesmo ateu. Há uma tentativa de imposição hegemônica ao pensamento mundial, seja ideológica, seja religiosa, fomentada por correntes fundamentalistas que sempre estiveram presentes na história humana, mas hoje lutam com armas mais sofisticadas de influência. O racionalismo, que tem lá seus pontos positivos, se contenta com explicações palpáveis incompletas e leva consigo boa parte da nova geração, seduzida pela ideia de que os problemas materiais (pobreza, por exemplo) se resolvem com a matéria (dinheiro, no caso). No caso do racionalismo que alimenta o fundamentalismo religioso, criam-se disputas teóricas – afinal, discutir se minha religião é melhor que a sua é meramente teórico – que acabam por afastar os debatedores da prática religiosa, numa postura antagonicamente irracional. A par disso, guerras são travadas, numa demonstração inequívoca de que os que se dizem religiosos são tudo menos isso.

Alguns parecem querer olhar o universo com microscópios. Buscam explicações sobre o todo com o seu micro-disponível e se contentam quando encontram conforto em outros que pensam igual a si. A busca por soluções é conflitante com a busca por explicações. Ao contrário do que racionalizam, sua racionalização pouco resolve e pouco explica.

Admiro os evangélicos que atuam nos presídios participando da ressocialização de presos que sistema carcerário algum consegue por si em nosso país. Admiro os espíritas que atendem doentes mentais em seus hospitais. Admiro católicos que acolhem refugiados de guerra no mundo inteiro. Admiro budistas que lecionam sobre o mundo interior e iluminação espiritual. E certamente admirarei muitos outros religiosos ou não que estão por aí exercendo práticas que não se contentam com o debate e vão ao mundo realizar.

Religiosidade é algo vazio quando não nos muda. A mudança íntima é a única reforma possível no mundo. De nada vale todo o conhecimento sem atitude. Olhar o universo de microscópio é pior que vê-lo no espelho.

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Teoria da Esperança

No livro “Cosmos”, do astrofísico Carl Sagan, há uma passagem onde um cientista pede ao padre – que é dos personagens principais – que lhe prove a existência de Deus. O padre pensa alguns segundos e pergunta:

– Você tem filho?

– Sim, tenho. – responde o cientista.

– E você o ama? – pergunta o padre.

– Sim, eu o amo.

– Então prove! – devolve o padre, de forma sagaz.

Carl Sagan era ateu. Conseguiu perceber a questão central que envolve a devoção à divindade, que tento resumir como a fé, a crença em razão do conjunto de nossos pensamentos e sentimentos. Não é necessário provar-se nada com elementos externos, apenas o conjunto de valores, experiências, sensações e desejos internos bastam para acreditar ou não na divindade. E essa crença será, por certo, proporcional a este conjunto de valores, experiências, sensações e desejos individuais de cada um. Pessoas mais insensíveis talvez idealizem divindades mais fortes e imponentes. Pessoas caridosas provavelmente pensam o seu deus como um ser bom e compassivo. E assim por diante.

A esperança é um dos resultados da fé. Talvez por isso os crentes costumem dispor de mais esperança que os descrentes. Talvez por isso as teorias materialistas desenvolvidas ao longo da história (como o marxismo) sejam desprovidas de esperança em algo que não seja a luta por bens materiais e igualdades formalmente estabelecidas.

Sendo a esperança um dos resultados da fé, explica-se porque a descrença na divindade seja tão próxima da falta de esperança. Se não se consegue sentir a divindade, como conseguirá acreditar que algo de melhor possa estar por vir com tantas provas de que o mundo vai mal pacas?!

Carl Sagan era ateu e tinha esperança. Ou, pelo menos, escreveu como se tivesse. Quem sabe era um desesperançado que gostaria de sentir esperança, quiçá de sentir a divindade?! Não o sei. Sei que ele tentou ao máximo incentivar as pessoas a acreditar que há o melhor por vir.

A esperança não é resultado natural das constatações. As constatações costumam ser bem menos interessantes. A esperança demanda a percepção de algo maior do que somos. Sem esperança, cada dor é apenas uma dor. Cada vida apenas uma vida. Cada fato um mero episódio no infinito. Mas com a esperança as coisas mudam de significado, pois as dores e as perdas podem se tornar facilmente lições que ajudarão na melhoria. A morte se transforma em recomeço. A saudade é um pedido de pressa para o reencontro.

Admiro as pessoas que esperam o melhor. Elas são melhores companhias, são mais alegres e motivadas. Imaginemos se o mundo fosse todo como Nietzche ou Sartre, que triste seria! Descrever a dor, por mais elaborado que seja, não passa de uma ode ao sofrimento.

Espero que todos consigamos dispensar à esperança o que Sagan dispensou. Acredite ou não, é melhor a vida de quem acredita.