Trânsito

Em 1998 fiz um curso de extensão em direito de trânsito na UFRGS. Um dos meus professores, um PRF, disse textualmente: quando se inicia a ultrapassagem no local permitido e se termina em local proibido, está tudo regular (porque não se pode interromper a ultrapassagem, o que aumentaria o risco da manobra). Eu imediatamente levantei o braço e disse que minha primeira autuação tinha sido exatamente por isso.

Pouco depois ele disse outra: durante a ultrapassagem não se avalia o limite de velocidade (porque quanto mais rápida, mais segura é a manobra). Levantei o braço e, novamente, disse que já tinha sido autuado por isso também. Ambas autuações pela PRF.

Nisso o professor me responde: “mas tu é perigoso, né”!? E eu: “na verdade a PRF é que é mal instruída”.

O trânsito é um reflexo da sociedade. É impossível termos um trânsito seguro e educado praticado por pessoas que são displicentes e ignorantes. Isso vale, como se vê no relato verídico, para todos os operadores e usuários do sistema.

Até hoje me questiono por que as autoridades de trânsito permitem que motocicletas circulem entre veículos, desrespeitando as faixas das respectivas pistas e a distância mínima entre veículos. Presumo que seja porque, no Brasil, a lei não basta. É preciso sempre alguém que solicite/determine seja a lei cumprida. E olha que cerca de 2/3 das vítimas estão em motocicletas!

Aqui em Capão da Canoa, onde moro, o trânsito é caótico. Não pela demanda, como nas grandes cidades, mas pelo total desrespeito à sinalização e à lei. A começar porque se estaciona no bordo esquerdo da principal avenida da cidade sem que haja sinalização autorizando. Como não há autorização da sinalização, vale a lei que impede se estacione na faixa esquerda de avenidas (seria como estacionar no bordo da faixa da esquerda da Av. Ipiranga, em Porto Alegre). Vejamos que também aqui é a autoridade de trânsito que não está agindo de acordo com a lei. É possível dar certo algo se o responsável por fazer dar certo não faz o certo?!

Adoro história e geografia. Adoro física, nem tanto química. Mas muito mais importante do que aprendermos isso é aprendermos a viver nossa vida. Escolas deviam curricularmente nos ensinar sobre nossas condições de vida. Nos ensinar devidamente sobre alimentação, circulação em cidades, atitudes de respeito social e pessoal, separação de lixo, uso consciente de recursos públicos e privados, e também comportamento e cumprimento de regras de trânsito.

Perdemos mais de quarenta mil vidas todos os anos em nossas estradas. A imensa maioria resultado de irresponsabilidades, às vezes por negligência, outras por imprudência. E aí incluem-se as estatais também. Por que isso não é enfrentado?! Porque acreditamos que estamos isentos e protegidos. A dor alheia ainda não nos tocou.

O trânsito é o reflexo mais preciso de uma sociedade. Olhe para o da sua cidade e responda: você realmente acha que o problema do Brasil são apenas seus governantes?!

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Aquela conversa difícil

Todos nós nos deparamos com conversas difíceis, vez ou outra. A conversa da separação, aquele aviso ao amigo que não vamos mais contratá-lo para prestar serviços, a cobrança de outra postura para uma pessoa próxima, mas não tão próxima. Aquela conversa com o chefe sobre uma nova proposta em outra empresa. A difícil conversa sobre o comportamento do enteado ou do filho do melhor amigo. São praticamente tantas quanto forem as relações importantes na vida.

Os grandes problemas das nossas vidas nascem da nossa covardia frente a tais conversas. Não estou falando dos problemas difíceis. Estou falando dos mais que difíceis, daqueles que nos tiram a saúde, nos mudam como pessoas. Quando você olha uma realidade pessoal e vê muitos problemas ao redor de uma pessoa, creia que ali falta muito diálogo, flexibilidade. E coragem.

Eu já fugi de conversas difíceis por covardia. Sei do que estou falando. E quando percebi que isso mudava tudo na vida, mudei de atitude. Não fujo mais de nenhum tipo de conversa. Isso também é difícil, tira o sono, mas não deixamos nada pra trás.

Vivemos num mundo e numa época em que as pessoas buscam um mundo impossível. Queremos diminuir a violência sem abrir mão de comprar celular roubado e fumar um baseado. Queremos um salário melhor mas não queremos aumentar nossas responsabilidades profissionais. Queremos ótimos empregados com média remuneração. Queremos que os filhos do vizinho façam menos barulho, porque com os meus e os dele gritando não consigo ver a novela.

Então é comum você não contratar seu amigo para trabalhar pois tem medo que o rompimento da relação profissional atinja a relação pessoal.

Você evita conversar sobre o comportamento do seu enteado ou do filho do amigo porque não quer ouvir as reclamações sobre o seu filho.

Você se alia a quem deseja o mesmo que você no discurso, para evitar embates, mas não percebe que a atitude dos aliados levará a outros enfrentamentos? É resultado do mesmo tipo de covardia.

Seu país é como a sua família e suas relações multiplicadas por milhões. A forma como aprendemos a lidar com nossos problemas e repercutimos socialmente diz muito do ambiente em que vivemos. Ao mesmo tempo em que reclamar do cocô do cachorro do vizinho na grama é chato, pior é guardar isso dentro da gente.

É impossível enfrentarmos a descompostura alheia sem atitude. E isso vale pra qualquer tipo de descompostura, inclusive essa da criminalidade epidêmica  brasileira. Então, meu amigo, comece aprendendo a conversar…

A cultura da crítica

A humanidade não nasceu pronta, certo?!

É fácil olhar pra qualquer povo, qualquer cultura, em qualquer lugar e apontar um monte de erros e injustiças e absurdos que foram cometidos nas mais diferentes épocas. Jesus, por exemplo. Segundo a tradição católica os apóstolos eram todos homens. Machismo?!

A escravatura, outro exemplo. Ela existiu ao longo de milênios na humanidade, entre brancos, negros, nórdicos, asiáticos, índios. Sacrifícios humanos, decapitações, pena de morte a todos da família… é infindável essa lista.

O ser humano errou muito pra chegar até aqui. Os erros merecem ser considerados erros, não há dúvida. Muito dos grandes líderes humanos, inclusive, foram protagonistas de grandes mudanças porque apontavam aquilo que viam errado e sugeriam um novo caminho.

Precisamos reconhecer o que é possível em cada época, em cada local, para não criticarmos valores e atitudes com fórmulas anacrônicas e impossíveis naquele contexto. Era possível a luta pela igualdade racial no século X? Era possível o pleito de igualdade de gênero antes do século XIX? Seria possível democracia no século XV? Era possível a criação de direitos trabalhistas quando recém se iniciavam as relações laborais no século XVIII?

É óbvio que se fôssemos mais despojados da maldade nossa caminhada já estaria bem mais adiantada. Se o ser humano não olhasse para outros seres humanos como inimigos, mas como potenciais companheiros de caminhada, quanta coisa seria diferente, não?! Mas não somos assim. Ou não fomos assim.

Agora, imaginemos os desbravadores e os colonizadores preocupados com o desmatamento. Ou imaginemos se ao invés dos europeus terem conquistado a América, fosse os chineses ou os africanos. Você sabe como chineses e africanos agiam quando conquistavam? Você sabe como os índios americanos agiam quando conquistavam?

A crítica aos modelos dos quais discordamos precisa ser feita com prudência e racionalidade. É preciso que, ao criticar, apresentemos outro modelo que precisa funcionar, por óbvio. Se não a vida se torna a repetição da crítica e as pessoas passarão a optar por não realizarem nada, por viverem comodamente diante daquilo que já conquistaram ou daquilo que, para se manter, precisará de menos esforço ou esforço alheio. Como vive hoje a imensa maioria dos partidos que explora a demagogia populista no Brasil e que, por mais incrível que pareça, são sustentados por boa parte da intelectualidade universitária.

A cultura da crítica não é revolucionária. É reacionária e juvenil.

A ilógica do crime

Existem diversas histórias que reivindicam a origem dos contratos de seguros. A mais remota que já li diz que, em rios chineses, muito antes do Cristo, transportadores criaram uma espécie de fundo para diminuir os prejuízos decorrentes da perda de produtos, fosse por roubo ou afundamento da embarcação. Em geral as pessoas buscam antídotos para suas adversidades, a ponto de chegarmos ao grande momento tecnológico de hoje. Evoluir é, evidentemente, uma aspiração humana, em que pese muito lenta e muito sútil às vezes.

Sempre houve e sempre haverá os contra-evolucionistas, seja no discurso, seja nas atitudes. O criminoso é um deles. O criminoso é o pior tipo materialista, pois coloca todos os valores abaixo do dinheiro. Por dinheiro vale desrespeitar o esforço do trabalho alheio, vale invadir a privacidade, vale machucar e tirar a vida. Gostar de ser criminoso, vangloriar-se de conseguir bens e vantagens à custa dos outros é burrice, por mais esperteza que pareça ser. Uma burrice egoísta e autodestrutiva.

Tudo na sociedade é interligado. Quando um bando assalta um caminhão cheio de eletrodomésticos na Rio-Santos está fazendo com que todos paguemos mais por isso. Não só aqueles que querem adquirir produtos similares, que terão de pagar os custos de segurança e seguro que se adicionarão, mas todos nós, porque a estrutura estatal que lida com tais problemas também deverá crescer e, portanto, custar mais ao bolso do contribuinte. Gastando mais em segurança, se gastará menos em saúde e educação ou em praças e eventos culturais. Quando se gasta menos nisso, se gasta menos em viver e adoecer ou morrer se torna cada vez mais possível.

Gostamos de atribuir nossos problemas sociais à ganância dos mais ricos, mas a ganância não escolhe classe social. O pobre e rico que roubam produzem os mesmos danos. Detonam seu redor de forma regular e, embora pareça que os locupletantes vençam num primeiro momento, a verdade é que todos perdem e eles ainda tendem a ir presos.

E educação que precisamos nas escolas é essa que ensine a refletir o básico da vida. Gastamos tanto tempo falando em ideologias justamente porque acreditamos que é esse debate que elevará a reflexão social, mas não é. Da maneira que refletimos sobre isso, neste momento, apenas dividimos as aspirações ideológicas, criando grupos desnecessariamente rivais que, parecem, buscam o mesmo desenvolvimento usando métodos distintos.

Muito antes de discutirmos aspectos político-ideológicos nas escolas, deveríamos mesmo é falar de valores. Valor, desde sua etimologia até o reflexo prático da sua reflexão. Vale mais trabalhar ou reivindicar? Vale trabalhar para sustentar quem não pode trabalhar e/ou quem não quer trabalhar? Vale mais o que se ganha ou o que se conquista? E os que não podem conquistar, como ajudá-los a buscar seus objetivos?

Valor é muito mais que moral, embora seja seu integrante. Valores são cada órgão do corpo moral. Precisam de integração para tudo funcionar. Se um está inadequado sobrecarrega os outros e pode levar ao colapso.

Imaginemos todos esses brasileiros que se dedicam ao crime produzindo algo positivo com o mesmo ímpeto! Poxa, os caras compram fuzis, enfrentam a polícia, usam dinamite. Se escondem da vida, se arriscam por dinheiro. Imagina toda essa coragem e esforço numa atividade legítima e produtiva!

Mas o problema é justamente a falta de valores. No fundo, eles não fazem tudo isso apenas por dinheiro. Fazem porque não enxergam algum significado existencial. Acham viver banal e tornam insignificantes as reflexões sobre isso.

A falta de lógica vem da falta de educação. A criminalidade é reflexo do que deixamos de ensinar em nosso país. Melhorar a educação pode ser sistêmico, mas sempre será pessoal. Sempre dependerá de alguém que faça a diferença e transforme o lógico em algo humano.

A educação nos salvará das nossas mazelas… lógico, quando resolvermos valorizá-la.

 

Escola com educação

A primeira vez que fui à Espanha me assustei quando, no que parecia ser uma rodovia que ligava o aeroporto ao centro da cidade, tinham dois meninos jogando bola no gramado central. Do nada, eles pararam de jogar, pegaram a bola e, sem nenhum olhar lateral, iniciaram a travessia da pista, na faixa de pedestre. O fluxo intenso de carros naturalmente reduziu e parou para os meninos. Pra mim aquilo era impactante. Pra eles uma rotina.

Sou daqueles que vê na educação a saída para o Brasil. Aliás, para qualquer lugar. Educação primária e secundária não são prédios, nem laboratórios, nem computadores… embora isso tudo seja muito importante. Educação são professores. Bons professores, vocacionados, motivados, bem remunerados.

Tenho comigo que o primeiro sintoma da falta de educação é não se percebe-la. Einstein disse que uma mente se expande e nunca mais retroage ao tamanho anterior depois do aprendizado. O trabalho do educador não é trazer conhecimento… é abrir espaço na mente de seus alunos para que o conhecimento entre. Se temos tamanhos problemas com a educação de nossa gente é porque nossos professores, alunos e mentores não admitem que esse sistema educacional não educa, e não é porque faltam prédios, laboratórios e computadores, mas porque não abre espaço na mente de ninguém para novas ideias, novos interesses, para o autoconhecimento e para a manifestação das vocações. Nossa educação é formal. Visa diplomar e transformar o aluno em mão-de-obra.

Por que fórmula de bhaskara? Por que história antiga? Por que tempos verbais e química orgânica e trigonometria? Se o aluno não souber responder isso, nada disso serve. Ainda assim todos os dias, em todas as cidades, há professores dedicados ensinando seus alunos sobre isso. E depois, com 30 ou 50 anos, eles ainda não saberão porque estudaram isso. Os professores provavelmente também não sabem ao certo a utilidade do que ensinam.

A escola é muito mais que a disciplina de conteúdo. Ouso dizer que, para nós brasileiros, interessa muito mais o que é a escola além da disciplina. A escola que ensina a resolver os conflitos, que ouve todos os lados, que ouve o aluno. A escola que motiva seus professores, agrega a presença dos pais, insere-se no contexto social da sua localidade, prestando serviços e ensinando seu corpo discente a sentir-se útil. A escola que associa conteúdo e realidade, que mostra porque drogas fazem mal, que mostra porque exercícios fazem bem, que mostra com o exemplo o que devemos fazer. Essa escola depende muito das pessoas… e esse tem sido nosso problema maior.

Nós precisamos aprender sobre as pessoas. Ouvi-las, respeita-las, valoriza-las. Por melhor que seja um sistema, ele dependerá das pessoas. Discutir política é importante?! Talvez, mas se querem discutir, discutamos. Ser de direita ou de esquerda é bom?! Sei lá, mas vamos debater sobre isso. E religião, escola pública precisa de ensino religioso?! Tenho minha opinião, mas qual é a sua?

Pouca coisa é mais ridícula do que acreditar que sistemas são melhores educadores que pessoas.

Há uns anos participei da criação de um projeto que visava levar aos alunos de escolas públicas motivação e algumas destas respostas que perguntei e me pergunto há anos. Foi, modestamente, um sucesso. Na primeira escola que trabalhamos, a direção pediu que apresentássemos o projeto inclusive ao corpo docente. Fizemos isso por cinco anos. Certa vez percebi que um dos professores de uma escola municipal não estava se agradando com o que dizíamos. Sonhos, vocação, riqueza, espiritualização… são assuntos não gratos a determinadas correntes mentais. Resultado: nunca mais conseguimos autorização da Prefeitura que, por sinal, estava na mão de um partido reconhecido por não gostar destes temas.

Bom, este texto não é político. É sobre educação. E eu quis apenas exemplificar o que não é educação.

A mentalidade do professor que transfere aos outros a resolução dos seus problemas é a mentalidade que forma alunos dependentes. Dependentes do dinheiro, do Estado, do patrão, dos homens livres das amarras mentais. Professor preso em grades mentais cria alunos presos a grades mentais. E, por mais conhecimento que se tenha, as grades estão ali. E todo homem preso tem raiva, tem desejo de vingança, tem amargor e necessidade de fugir da sua realidade.

Então… a escola que forma pessoas livres só pode existir lidando com a liberdade. Não a liberdade de disciplina, de autodeterminação. A liberdade de ideias, de ideais. É trabalhoso, mas certamente menos trabalhoso que lidar com adultos frustrados, infelizes e negativos.