Trânsito como instrumento de educação

Salvo raras exceções, o brasileiro só recebe educação de trânsito quando busca habilitar-se como condutor. Essa realidade demonstra o desinteresse social pelo tema, quando somos todos parte do trânsito, estejamos caminhando na calçada, andando de bicicleta ou usando o transporte coletivo.

A educação de trânsito é um dos três pilares indispensáveis sobre o tema: os outros dois são fiscalização e campanhas (sobre pontos ou momentos específicos de enfrentamento). Só a soma destes três expedientes tem a condição de repercutir em resultados de segurança, funcionalidade e racionalidade.

Pois há uma função da educação de trânsito que tem grande valor social: o trânsito ensina a todos que vale a pena ser respeitoso. Respeito inicialmente às regras, mas não por mero cumprimento burocrático. Respeitar as regras porque isso é respeitar as pessoas e viabilizar conflitos de interesse num mesmo ambiente.

Você já percebeu com certeza que, se está num veículo que passa por uma faixa de pedestres e ali tem uma pessoa, criou-se um conflito de interesses. Você quer passar e a pessoa também, mas isso não pode acontecer ao mesmo tempo. É a regra de trânsito que vai resolver esse pequeno conflito. Até pouquíssimo tempo quem resolvia esta demanda era a lei do mais forte. O pedestre que esperasse, pois se não o fizer vai ser-lhe pior. A lei, contudo, mudou essa relação e exige do motorista que espere, justamente pelo motivo inicialmente proposto: se o mais forte não esperar, poderá causar um dano ao mais frágil.

Poderia ser o oposto? Poderia sim. Essa regra é uma convenção, não é um debate moral ou ético. E é justamente isso que precisamos nós todos, brasileiros, compreender. As regras de trânsito tem uma função convencional de organização e proteção. Elas fazem com que os milhares de interesses conflitantes durante a circulação tenham uma espontânea e imediata solução.

Agora imagina uma sociedade onde tais regras de convivência estão incorporadas ao seu cotidiano. Imagina uma criança que, ao sair da escola, passa pela faixa de pedestres e verifica que os veículos param para que ela atravesse a rua. Ela se sentirá respeitada e perceberá nos condutores uma postura que lhe servirá de referência. Os condutores igualmente sentir-se-ão responsáveis e parte de um gigantesco processo de cuidado e zelo, de educação e organização.

O trânsito tem a grande repercussão de servir de laboratório social. Reflete de forma instantânea a forma com que nos relacionamos com o outro e com os interesses conflitantes. E, por refletir, por espelhar estas soluções frente a pequenos conflitos de interesses diários, tem o poder de promover imediatamente empatia entre os envolvidos. Ou de criar antipatia.

Veja se não valeria a pena, de uma vez por todas, investirmos na educação de trânsito para, quem sabe, dispormos não só de um ambiente mais seguro, mas principalmente de uma convivência mais madura!

Punir educa

Nenhuma pessoa sã conectada com o Século XXI tem dúvida de que é a educação a responsável pela evolução, pacificação e realização da humanidade. Na verdade o que se debate é o que constitui educação, do que é feita, como torná-la eficaz.

Apenas no século passado a educação tornou-se pública e instituída como direito fundamental e, decorrente disso, a estrutura estatal dos diversos países, cada um a sua maneira, passou a proporcioná-la. Antes disso, educar era um privilégio.

Educadores do Século XX identificaram o vínculo necessário entre educação e afeto, estabelecendo bases pedagógicas hoje consagradas. Segundo acreditamos, educar imprescinde de vínculos entre educador e educandos, principalmente na primeira infância, seja na educação formal ou informal.

Nos últimos anos, contudo, mistificou-se o papel da educação, dando ao professor um caráter quase mágico de transformar a humanidade. É verdade… a disseminação da educação mudou o mundo em pouco tempo, de uma forma que jamais vimos, alterando bases sociais, políticas, científicas e individuais. Contudo não cabe ao professor estabelecer valores que não são replicados em casa, na família. São pais e mães – ou aqueles que desempenham este papel – os primeiros e principais educadores do ser humano, os responsáveis por transmitir os valores interiorizados de respeito, tolerância, pacificidade, coragem, determinação e todos mais necessários a uma vida plena e socialmente comprometida. A gente que recebe educação formal plena mas carece de educação familiar sobre valores é essa que usa toda uma gama de conhecimentos para subtrair os resultados do esforço alheio, às vezes à custa de outras vidas inclusive.

Como escrito acima, nos últimos anos fomos seduzidos por teorias que transferiram da família para o (Estado) educador a responsabilidade de educar, e isso simplesmente é ridículo. O educador (Estado) participa sim da educação de forma fundamental, mas os valores necessário para se usufruir devidamente da educação formal são precedidos de um esforço familiar cada vez menos presente.

Outra ideia errônea decorrente desta visão retirou dos jovens o dever de trabalho, assunto para outro momento, bem como a possibilidade de sofrer punição. Claro que não estamos falando de palmatórias, de castigos físicos ou qualquer outra violência. Punir virou estigma, palavrão. E, por mais que doa a quem discorda, punir educa e é indispensável, principalmente na educação com afeto, pois uma pessoa que ama punindo outra amada que agiu muito mal está sim cuidando, fortalecendo e prevenindo.

Aqui o papel do Estado na educação ultrapassa os limites do que hoje está estabelecido, ao menos em nosso país. A impunidade deseducou nossa gente e o retorno das punições estatais devidamente medidas e processadas irá nos curar dessa absurda e gigantesca crise de valores que nos torna um dos países mais violentos e menos educados da Terra.

Leituras que eu li 2

Levou muito tempo, mas estou voltando a sugerir alguns livros. São dicas de leitura para quem gosta. Sem maiores delongas, vamos lá…

Ivair Gontijo narra em “A Caminho de Marte” a sua história de vida, desde pequeno no interior de MInas Gerais , passando pela escola pública e pelo trabalho como capataz de uma fazenda, até chegar ao JPL (Laboratório de Propulsão a Jato, em inglês) na NASA. Além da sua trajetória pessoal, explica o início e os avanços da corrida espacial e descreve o trabalho de enviar o Curiosity ao Planeta Vermelho.

É um livro rico para quem busca evidências de que os sonhos são realizáveis e o esforço pessoal te leva a realizá-los. Ao mesmo tempo, o autor sacia a curiosidade dos interessados em ciência e astronáutica sobre o cotidiano dos profissionais que atuam na área.

Em “O Homem que Amava os Cachorros”, o cubano Leonardo Padura narra duas histórias: a do líder político marxista russo Trotski até encontrar o seu algoz Ramón Mercader, no México, e do personagem Iván, que teria conhecido personagens desta história e a narra com bastante detalhes.

É um livro que ajuda a conhecer os pormenores da luta político-ideológica do início do Século XX, especialmente na Rússia e Espanha, e a repercussão em Cuba, décadas mais tarde. Vale para desconstruir ilusões e melhorar a análise histórica destes fatos.

“A Grande Espera” é um livro psicografado por Coralina Novelino e narra a história do povo Essênio, uma seita hebraica que preexistiu ao cristianismo, constituída de fiéis que esperavam a chegada de Jesus e participaram da sua formação. Os essênios, hoje se sabe, habitaram diversos lugares do Oriente Médio e se tornaram popularmente mais conhecidos depois da descoberta dos Manuscrito do Mar Morto, que tratam dos mesmos temas apontados no livro. Vale pelo conhecimento histórico e religioso.

Se você já leu algum desses, por favor, me diga como foi a tua experiência! Até a próxima!

Educar é político

Educar sempre foi algo que diferenciava a elite dos demais, em todos os tempos. Sempre. Por milênios a humanidade reproduziu de geração em geração as lições entre os seus. O agricultor ensinava a seus filhos a agricultura. O pescador a pescaria. O militar a luta. O pedreiro a construção. E assim vai. Então, a ideia de educar era funcional (aprendia-se o que se necessitada no trabalho) e socialmente fixa (as classes sociais ou grupos sociais se mantinham no mesmo patamar socio-econômico).

Foi no Século XX que a ideia de educação pública se proliferou e mudou o mundo. Ainda se aplicava à educação o objetivo funcional, mas pouco a pouco se incorporou a ideia de liberdade de pensamento e, portanto, de objetivos. Educar buscava libertar o pensamento e, portanto, o aprendiz e, mais adiante, a sociedade.

Libertar do que?!

Bem, educar historicamente foi político. A política familiar era produzir mão-de-obra. Quando se criaram os estabelecimentos de ensino a politica era produzir mão-de-obra qualificada. Hoje a política educacional é produzir seres livres das amarras funcionais da educação… mas vinculados a que?!

Se não bastasse vivermos numa época em que o processo educacional precisa se adaptar à tecnologia, à geração Alfa e ao gigantismo das informações, hoje questionamos a que se destina o processo educacional, afinal de contas. Porque no passado já sabíamos que um filho de carpinteiro deveria aprender a carpintaria. Sabíamos que a universidade formaria saberes superiores sempre necessários. Mas e hoje?!

A liberdade é tremendamente complexa. Quando se dá liberdade sem preparar o liberto e o ambiente onde ele atuará, simplesmente não há de funcionar. Pelo simples fato de que poucos intuem o que devem fazer da sua vida de forma elaborada. Libertar antes do momento certo é aprisionar o ser na sua própria casca, no seu próprio limite pessoal.

Hoje há um compromisso geral dos educadores em libertar os alunos dos conceitos que entendem aprisioná-los, mas infelizmente os novos conceitos não conseguiram libertá-los das suas próprias limitações pessoais. O educando é cada vez mais dependente do Estado, em consequência do objetivo de libertá-lo do Mercado.

Por outro lado, escolas caras e inatingíveis para a imensa maioria das pessoas ensinam a potencializar suas habilidades, a conviver com diferenças complexas, a conhecer mecanismos de busca e aprimoramento de última geração. Afinal, como dizemos na primeira frase, educar sempre foi algo que diferenciava a elite dos demais.

Então temos, de um lado, um grupo formando mão-se-obra pensante e atuante nos corpos estatais e, do outro, uma elite que voa baixo, que domina a comunicação, a gestão de pessoas, o uso de recursos tecnológicos e naturais e os meios de produção. Há de um lado pessoas que pedem e dependem e, do outro, pessoas que realizam e produzem. Há cada vez mais a intensificação dos meios de dependência e controle.

Educar é político. Enquanto uns ensinam o senso político, o pensamento crítico político, os conceitos histórico-políticos e o agir coletivo dentro deste sistema, outros ensinam a manejar o conhecimento para capacitar o ser humano a estabelecer os seus próprios interesses políticos. Educar é politico e, às vezes, libertador.

Professor-líder

Há pelo menos vinte anos o conceito de liderança mudou. Por quase toda a nossa história, liderar foi mandar. Era um cargo, um título, uma distinção formal. Contudo, nas últimas décadas se constatou que a verdadeira liderança decorre de outros valores mais efetivos, que giram em torno da ideia de potencializar o grupo e os indivíduos, de solver demandas, de viabilizar ideias, de compensar deficiências, de elaborar e intermediar conflitos e de, acima de tudo, ser exemplo. Foi-se o tempo em que o líder mandava e cobrava. Hoje é dele a responsabilidade pela efetividade daquilo que o grupo, a instituição ou a sociedade necessita realizar.

Quando se analisa uma personalidade histórica qualquer torna-se cada vez mais evidente a efetividade daquilo que tal personagem se propôs. Gandhi era um pacifista e libertou um país. Outros pacifistas existiriam e, em que pese sejam pessoalmente valiosos para os seus, a efetividade do que Gandhi produziu o diferencia.

Jesus, Maomé, Moisés, Buda, Alexandre o Grande, Gengis Khan… são exemplos de lideranças que se tornaram aquilo que pretendiam para o mundo. Eram a personificação da sua filosofia, líderes no conceito clássico e na nova nomenclatura. A lista não encerra o exemplo de lideranças efetivas que, sem dúvida, beira à infinidade. Ela serve para referenciar o que se propõe aqui: liderar é, antes de tudo e de mais nada, ser o que está proposto.

Pois o professor não é treinado a liderar. Talvez sequer se veja nesta condição. Melhor dizendo: o professor não é treinado a liderar de acordo com essa nova visão que se adquiriu sobre liderança.

Por certo, quanto menores os alunos, mais pedagógico será o trabalho letivo. O professor-líder para além do pedagogo é mais exigido na medida em que crescem seus discentes.

A vocação da liderança e de educar pode e deve ser aprimorada pelas academias e envolver os valores que disso participam. Ensinar a vencer-se ao invés de vencer o outro, a unir, a ouvir, a respeitar, a aceitar, a não desistir, a solucionar são atributos que demandam, na nova ordem pedagógica, um novo professor que não é apenas detentor de conceitos e conteúdos.

Vai ensinar fórmulas e por que elas existem. Vai contar sobre fatos históricos e respeitar o tempo e os valores envolvidos. Vai falar de outros povos e lugares apontando diferenças a serem valorizadas e igualdades a serem reconhecidas. Vai trazer outros idiomas como pontes indispensáveis ao novo mundo sem fronteiras.

Quando assume o papel de liderança o professor ensina agindo. Quando critica, ensina a criticar. Quando analisa desvalorizando, ensina a olhar sem valor. Quando professa quebras de paradigmas, de hierarquias e de ordens pode estar desnorteando quem, no início, precisa de referências mais do que liberdade.

Há uma crise de autoridade e de identidade neste novo método de estar na sala de aula como facilitador, potencializador e, ao mesmo tempo, conteudista curricular. Elaborar-se é fundamental.

O professor-líder é um gestor, um educador, um ouvinte, um debatedor. É também um apresentador, um resolutor, um interventor. Cada turma demanda um método e cada aluno uma faceta sua. O compromisso é o resultado, não apenas o conteúdo, nem tampouco uma pauta.

Trânsito é fiel

Vivo há dois anos numa cidade litorânea gaúcha com cinquenta mil habitantes que, na temporada de verão, cresce umas seis vezes. É uma cidade tranquila, muito boa pra se viver, onde a violência ainda é pequena, os serviços públicos são bons e as pessoas têm boa qualidade de vida.

Mas uma coisa em especial me desagrada aqui: o trânsito. Para uma cidade turística, me espanta a despreocupação com esse tema. Sequer existe fiscalização.

Sou motociclista e já tive de usar severamente meus freios dezenas de vezes, em situações que poderiam ter me matado. Não se respeita preferência em rótulas, não se sinaliza, não se respeita faixa de pedestres, sequer se respeita o sentido das ruas no centro da cidade. Próximo à escola do meu filho pequeno os veículos andam na contramão, param em fila dupla, estacionam sobre faixa de pedestres e por aí vai.

Mais do que me queixar, quero entender isso.

O trânsito é o resultado da cultura de um local. Ele reflete a educação, o senso de responsabilidade, a atuação das autoridades, o respeito às regras de convivência. Quando vi às 11h da manhã de uma quarta-feira motoqueiros empinando suas motos numa das principais avenidas, onde fica o Fórum e a Câmara de Vereadores, tive certeza de que a cultura de impunidade e da imaturidade estava implementada. Aquilo é típico de um jovem de quatorze anos, mas era realizado por jovens dos seus vinte e cinco que se lixam pro mundo ao seu redor.

Recentemente reclamei de um veículo estacionado em fila dupla pela esquerda do meio fio, na avenida da escola de meu filho, e o motorista me ameaçou de morte. É o sinal da barbárie e da falta de valores elementares, que nos tornam o país que somos. Concluí que não tem outro jeito, se não pensar numa forma de levar educação de trânsito às escolas e plantar uma semente para, quem sabe, meus filhos usufruírem.

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”, M. L. King.

 

Trânsito

Em 1998 fiz um curso de extensão em direito de trânsito na UFRGS. Um dos meus professores, um PRF, disse textualmente: quando se inicia a ultrapassagem no local permitido e se termina em local proibido, está tudo regular (porque não se pode interromper a ultrapassagem, o que aumentaria o risco da manobra). Eu imediatamente levantei o braço e disse que minha primeira autuação tinha sido exatamente por isso.

Pouco depois ele disse outra: durante a ultrapassagem não se avalia o limite de velocidade (porque quanto mais rápida, mais segura é a manobra). Levantei o braço e, novamente, disse que já tinha sido autuado por isso também. Ambas autuações pela PRF.

Nisso o professor me responde: “mas tu é perigoso, né”!? E eu: “na verdade a PRF é que é mal instruída”.

O trânsito é um reflexo da sociedade. É impossível termos um trânsito seguro e educado praticado por pessoas que são displicentes e ignorantes. Isso vale, como se vê no relato verídico, para todos os operadores e usuários do sistema.

Até hoje me questiono por que as autoridades de trânsito permitem que motocicletas circulem entre veículos, desrespeitando as faixas das respectivas pistas e a distância mínima entre veículos. Presumo que seja porque, no Brasil, a lei não basta. É preciso sempre alguém que solicite/determine seja a lei cumprida. E olha que cerca de 2/3 das vítimas estão em motocicletas!

Aqui em Capão da Canoa, onde moro, o trânsito é caótico. Não pela demanda, como nas grandes cidades, mas pelo total desrespeito à sinalização e à lei. A começar porque se estaciona no bordo esquerdo da principal avenida da cidade sem que haja sinalização autorizando. Como não há autorização da sinalização, vale a lei que impede se estacione na faixa esquerda de avenidas (seria como estacionar no bordo da faixa da esquerda da Av. Ipiranga, em Porto Alegre). Vejamos que também aqui é a autoridade de trânsito que não está agindo de acordo com a lei. É possível dar certo algo se o responsável por fazer dar certo não faz o certo?!

Adoro história e geografia. Adoro física, nem tanto química. Mas muito mais importante do que aprendermos isso é aprendermos a viver nossa vida. Escolas deviam curricularmente nos ensinar sobre nossas condições de vida. Nos ensinar devidamente sobre alimentação, circulação em cidades, atitudes de respeito social e pessoal, separação de lixo, uso consciente de recursos públicos e privados, e também comportamento e cumprimento de regras de trânsito.

Perdemos mais de quarenta mil vidas todos os anos em nossas estradas. A imensa maioria resultado de irresponsabilidades, às vezes por negligência, outras por imprudência. E aí incluem-se as estatais também. Por que isso não é enfrentado?! Porque acreditamos que estamos isentos e protegidos. A dor alheia ainda não nos tocou.

O trânsito é o reflexo mais preciso de uma sociedade. Olhe para o da sua cidade e responda: você realmente acha que o problema do Brasil são apenas seus governantes?!

Aquela conversa difícil

Todos nós nos deparamos com conversas difíceis, vez ou outra. A conversa da separação, aquele aviso ao amigo que não vamos mais contratá-lo para prestar serviços, a cobrança de outra postura para uma pessoa próxima, mas não tão próxima. Aquela conversa com o chefe sobre uma nova proposta em outra empresa. A difícil conversa sobre o comportamento do enteado ou do filho do melhor amigo. São praticamente tantas quanto forem as relações importantes na vida.

Os grandes problemas das nossas vidas nascem da nossa covardia frente a tais conversas. Não estou falando dos problemas difíceis. Estou falando dos mais que difíceis, daqueles que nos tiram a saúde, nos mudam como pessoas. Quando você olha uma realidade pessoal e vê muitos problemas ao redor de uma pessoa, creia que ali falta muito diálogo, flexibilidade. E coragem.

Eu já fugi de conversas difíceis por covardia. Sei do que estou falando. E quando percebi que isso mudava tudo na vida, mudei de atitude. Não fujo mais de nenhum tipo de conversa. Isso também é difícil, tira o sono, mas não deixamos nada pra trás.

Vivemos num mundo e numa época em que as pessoas buscam um mundo impossível. Queremos diminuir a violência sem abrir mão de comprar celular roubado e fumar um baseado. Queremos um salário melhor mas não queremos aumentar nossas responsabilidades profissionais. Queremos ótimos empregados com média remuneração. Queremos que os filhos do vizinho façam menos barulho, porque com os meus e os dele gritando não consigo ver a novela.

Então é comum você não contratar seu amigo para trabalhar pois tem medo que o rompimento da relação profissional atinja a relação pessoal.

Você evita conversar sobre o comportamento do seu enteado ou do filho do amigo porque não quer ouvir as reclamações sobre o seu filho.

Você se alia a quem deseja o mesmo que você no discurso, para evitar embates, mas não percebe que a atitude dos aliados levará a outros enfrentamentos? É resultado do mesmo tipo de covardia.

Seu país é como a sua família e suas relações multiplicadas por milhões. A forma como aprendemos a lidar com nossos problemas e repercutimos socialmente diz muito do ambiente em que vivemos. Ao mesmo tempo em que reclamar do cocô do cachorro do vizinho na grama é chato, pior é guardar isso dentro da gente.

É impossível enfrentarmos a descompostura alheia sem atitude. E isso vale pra qualquer tipo de descompostura, inclusive essa da criminalidade epidêmica  brasileira. Então, meu amigo, comece aprendendo a conversar…

A cultura da crítica

A humanidade não nasceu pronta, certo?!

É fácil olhar pra qualquer povo, qualquer cultura, em qualquer lugar e apontar um monte de erros e injustiças e absurdos que foram cometidos nas mais diferentes épocas. Jesus, por exemplo. Segundo a tradição católica os apóstolos eram todos homens. Machismo?!

A escravatura, outro exemplo. Ela existiu ao longo de milênios na humanidade, entre brancos, negros, nórdicos, asiáticos, índios. Sacrifícios humanos, decapitações, pena de morte a todos da família… é infindável essa lista.

O ser humano errou muito pra chegar até aqui. Os erros merecem ser considerados erros, não há dúvida. Muito dos grandes líderes humanos, inclusive, foram protagonistas de grandes mudanças porque apontavam aquilo que viam errado e sugeriam um novo caminho.

Precisamos reconhecer o que é possível em cada época, em cada local, para não criticarmos valores e atitudes com fórmulas anacrônicas e impossíveis naquele contexto. Era possível a luta pela igualdade racial no século X? Era possível o pleito de igualdade de gênero antes do século XIX? Seria possível democracia no século XV? Era possível a criação de direitos trabalhistas quando recém se iniciavam as relações laborais no século XVIII?

É óbvio que se fôssemos mais despojados da maldade nossa caminhada já estaria bem mais adiantada. Se o ser humano não olhasse para outros seres humanos como inimigos, mas como potenciais companheiros de caminhada, quanta coisa seria diferente, não?! Mas não somos assim. Ou não fomos assim.

Agora, imaginemos os desbravadores e os colonizadores preocupados com o desmatamento. Ou imaginemos se ao invés dos europeus terem conquistado a América, fosse os chineses ou os africanos. Você sabe como chineses e africanos agiam quando conquistavam? Você sabe como os índios americanos agiam quando conquistavam?

A crítica aos modelos dos quais discordamos precisa ser feita com prudência e racionalidade. É preciso que, ao criticar, apresentemos outro modelo que precisa funcionar, por óbvio. Se não a vida se torna a repetição da crítica e as pessoas passarão a optar por não realizarem nada, por viverem comodamente diante daquilo que já conquistaram ou daquilo que, para se manter, precisará de menos esforço ou esforço alheio. Como vive hoje a imensa maioria dos partidos que explora a demagogia populista no Brasil e que, por mais incrível que pareça, são sustentados por boa parte da intelectualidade universitária.

A cultura da crítica não é revolucionária. É reacionária e juvenil.

A ilógica do crime

Existem diversas histórias que reivindicam a origem dos contratos de seguros. A mais remota que já li diz que, em rios chineses, muito antes do Cristo, transportadores criaram uma espécie de fundo para diminuir os prejuízos decorrentes da perda de produtos, fosse por roubo ou afundamento da embarcação. Em geral as pessoas buscam antídotos para suas adversidades, a ponto de chegarmos ao grande momento tecnológico de hoje. Evoluir é, evidentemente, uma aspiração humana, em que pese muito lenta e muito sútil às vezes.

Sempre houve e sempre haverá os contra-evolucionistas, seja no discurso, seja nas atitudes. O criminoso é um deles. O criminoso é o pior tipo materialista, pois coloca todos os valores abaixo do dinheiro. Por dinheiro vale desrespeitar o esforço do trabalho alheio, vale invadir a privacidade, vale machucar e tirar a vida. Gostar de ser criminoso, vangloriar-se de conseguir bens e vantagens à custa dos outros é burrice, por mais esperteza que pareça ser. Uma burrice egoísta e autodestrutiva.

Tudo na sociedade é interligado. Quando um bando assalta um caminhão cheio de eletrodomésticos na Rio-Santos está fazendo com que todos paguemos mais por isso. Não só aqueles que querem adquirir produtos similares, que terão de pagar os custos de segurança e seguro que se adicionarão, mas todos nós, porque a estrutura estatal que lida com tais problemas também deverá crescer e, portanto, custar mais ao bolso do contribuinte. Gastando mais em segurança, se gastará menos em saúde e educação ou em praças e eventos culturais. Quando se gasta menos nisso, se gasta menos em viver e adoecer ou morrer se torna cada vez mais possível.

Gostamos de atribuir nossos problemas sociais à ganância dos mais ricos, mas a ganância não escolhe classe social. O pobre e rico que roubam produzem os mesmos danos. Detonam seu redor de forma regular e, embora pareça que os locupletantes vençam num primeiro momento, a verdade é que todos perdem e eles ainda tendem a ir presos.

E educação que precisamos nas escolas é essa que ensine a refletir o básico da vida. Gastamos tanto tempo falando em ideologias justamente porque acreditamos que é esse debate que elevará a reflexão social, mas não é. Da maneira que refletimos sobre isso, neste momento, apenas dividimos as aspirações ideológicas, criando grupos desnecessariamente rivais que, parecem, buscam o mesmo desenvolvimento usando métodos distintos.

Muito antes de discutirmos aspectos político-ideológicos nas escolas, deveríamos mesmo é falar de valores. Valor, desde sua etimologia até o reflexo prático da sua reflexão. Vale mais trabalhar ou reivindicar? Vale trabalhar para sustentar quem não pode trabalhar e/ou quem não quer trabalhar? Vale mais o que se ganha ou o que se conquista? E os que não podem conquistar, como ajudá-los a buscar seus objetivos?

Valor é muito mais que moral, embora seja seu integrante. Valores são cada órgão do corpo moral. Precisam de integração para tudo funcionar. Se um está inadequado sobrecarrega os outros e pode levar ao colapso.

Imaginemos todos esses brasileiros que se dedicam ao crime produzindo algo positivo com o mesmo ímpeto! Poxa, os caras compram fuzis, enfrentam a polícia, usam dinamite. Se escondem da vida, se arriscam por dinheiro. Imagina toda essa coragem e esforço numa atividade legítima e produtiva!

Mas o problema é justamente a falta de valores. No fundo, eles não fazem tudo isso apenas por dinheiro. Fazem porque não enxergam algum significado existencial. Acham viver banal e tornam insignificantes as reflexões sobre isso.

A falta de lógica vem da falta de educação. A criminalidade é reflexo do que deixamos de ensinar em nosso país. Melhorar a educação pode ser sistêmico, mas sempre será pessoal. Sempre dependerá de alguém que faça a diferença e transforme o lógico em algo humano.

A educação nos salvará das nossas mazelas… lógico, quando resolvermos valorizá-la.