Ciclos de Progresso

Quando somos assalariados nos vinculamos a um ciclo produtivo que representa o período entre a produção e o próximo dia do pagamento. Às vezes, faz parte deste ciclo outros subciclos, como o período de cumprimento de metas, o período de elaboração de projetos e tantos outros. Mas, de uma maneira geral, nossa relação com a produção e a contraprestação do que produzimos costuma ser mensal.

Quando se sai dessa relação temporal entre trabalhar e receber, onde o que se trabalha é relativamente estável e o que se recebe também, o sentido da palavra produção ganha outra relevância, especialmente quando se empreende. Primeiro, porque empreender é assumir o risco. É significativamente diversa a relação entre trabalho e produção do assalariado e do empreendedor, porque o empreendedor não tem nenhuma garantia de que, com sua produção, irá receber o que pretende ou prevê. Segundo, porque empreender é precisar resolver e superar o maior número possível das adversidades que surgirem. Se não o fizer, não recebe ou, se receber, não será suficiente.

No capitalismo há dois conjuntos de capital que interessam: o dinheiro e o saber. Quando se tem um, naturalmente se busca o outro. Quando se tem os dois se enriquece. Nos países mais desenvolvidos, este conjunto é valorizado através de regras, de costumes, de benefícios que naturalmente se sustentam. Se você tem dinheiro, a atividade produtiva lhe procura. Se você tem know-how, idem. Nosso país trata isso de forma diferente. Se você tem o capital financeiro, você é incentivado a ser investidor, não produtor. Aqui produzir é caro e extremamente arriscado. Se você tem capital intelectual, é incentivado a trabalhar para os grandes contratantes, que costumam ser o Estado e as grandes empresas. Crescer como empreendedor, neste ambiente, é muito adverso. Esse sistema tende a se proteger, criando um ciclo de repetição onde quem está em cima lá fica e tudo o mais continua como está. Essa, uma das razões porque não se geram grandes empresas facilmente por aqui. Flexibilizar regras contratuais, facilitar financiamento, desburocratizar o sistema estatal não são condições que ajudarão os grandes… são elementos indispensáveis para que os pequenos cresçam e surjam novos pequenos, num novo ciclo de crescimento.

Cada empreendedor é uma espécie de agricultor urbano. Ali, diariamente, planta o que almeja colher em breve. Mas a colheita depende, assim como na agricultura, de fatores adversos ao seu domínio. Por isso tão importante se preparar antes de empreender (plantar). Uma das adversidades mais comuns do empreendedor é que os ciclos não são mensais, como suas obrigações. O que investe no início do negócio, por exemplo, pode levar anos para retornar. Uma única oportunidade de negócio perdida pode representar meses de negociações e investimentos. Costumeiramente, o empreendedor trabalha no prejuízo em ciclos mensais, vindo a conseguir equilíbrio nos ciclos semestrais e lucros em ciclos bianuais. São relações que demandam muita maturidade, persistência, estudo e dedicação.

Essa cultura de valorização do empreendedor é incipiente em nosso país. Olhamos para os pequenos empresários e não vemos o conjunto de esforços que se têm para ali estar. Costumo dizer que, quando se abre uma empresa, se criam algumas certezas: o governo vai receber seus impostos, os empregados vão receber seus salários, os fornecedores vão receber por seus produtos e serviços, os donos do prédio vão receber o aluguel, o banco vai receber pelo financiamento, o franqueador vai receber seus royalties, o cliente vai receber seu serviço ou produto… e o empreendedor, se sobrar.

Sempre que puder, conheça os pequenos negócios da sua região e valorize aqueles que têm algo a lhe oferecer. Dê seu feed-back. Cobre o que não ficou a contento. Não desista daquele prestador se percebes um bom profissional. Bons prestadores nem sempre atendem bons clientes, mas bons clientes formam bons prestadores, porque lhes enriquecem no campo do dinheiro e do saber, bases do capitalismo.

Cada vez mais ouvimos falar das empresas socialmente comprometidas. Valorize-as, sem dúvida. Mas seja você também socialmente comprometido com as empresas que merecem continuar no cenário social. Elas dependem de você mais do que pensa. Os ciclos de progresso dependem de um conjunto de atitudes que vai muito além do prestador, do empregado, do governo, do professor, do policial, do cliente… e abrange todos estes e todos mais.

Lembra sempre que para cada servidor de primeiro escalão (juízes, delegados, deputados) precisamos dos impostos de cerca de dez empresas com três empregados cada. Considerando dois sócios, são cinquenta pessoas que trabalham para manter aquele servidor. Para cada escola, quantas precisamos? Para cada quartel da polícia militar ou delegacia, quantas empresas e trabalhadores estão produzindo?

As sociedades modernas e justas são movidas pelo empreendedorismo. E empreender denota condição pessoal e aceitação social. Se o único critério para comprar produtos e serviços for o preço, estaremos sempre à mercê do que de mais rasteiro o capitalismo oferece. Valorize o que há de mais valoroso e todos colheremos os resultados dos novos ciclos de progresso.

 

 

 

Uber x O resto do mundo

Quem se prestar a procurar informações sobre a Uber, vai descobrir que o aplicativo gera um turbilhão de polêmicas e problemas por onde passa. Veja que a Uber, criada em São Francisco em 2009 e hoje avaliada em US$ 41bi, está longe de ser um pequeno negócio ou um mero aplicativo. É um serviço global que veio para mudar profundamente o modal de transporte de passageiros. Há quem aposte que essa nova ideia irá reduzir inclusive o poder do automóvel no mundo, onde não mais se adquirirá um, mas sim se compartilharão vários. Só que, ao lado desse objetivo visionário e revolucionário, está uma empresa que não demonstra muita habilidade no trato com os representantes estatais por onde passa. Muito menos com os taxistas.

Aqui em Porto Alegre visivelmente as autoridades se sentem contrariadas pela postura dos representantes locais da Uber. E é compreensível. Antes de buscarem qualquer regularização do negócio iniciaram suas atividades, um dia antes da reunião agendada com os representantes da cidade. A reunião foi cancelada e a Câmara Municipal legislou pela ilegalidade dos serviços.

O serviço de transporte de passageiros é constitucionalmente regulado pelos municípios (art. 30, V ), devendo o legislador municipal elaborar as normas que limitarão a atuação do transportador. Aqui e em todos os municípios brasileiros só cumprindo a lei uma pessoa estará regularizada para transportar alguém por pagamento. Se o governo municipal não cumprir esta fiscalização, pode ser responsabilizado. E é assim porque a sociedade pede que seja. Imaginemos veículos escolares sem um sistema formal de controle! Seria o caos.

Na China, Itália, Espanha, no Kansas (EUA), Austrália e em quase todos os lugares em que opera (ou tenta), a Uber sempre foi recebida com muito barulho e até violência. Em várias cidades de primeiro mundo ele é proibido. Em quase todas, seus escritórios estão em locais sem placas e informações externas.

A ideia da Uber é excepcional. Excepcional! Mas o fato de você ter uma ideia excepcional não te autoriza a chegar nos lugares impondo sua ideia. É assim que penso.

Em lugares menos civilizados, como aqui em Porto Alegre, se estabelecer um cenário de guerra entre “legalizados” e “irregulares” pode ser algo realmente perigoso. E a Uber é sim responsável por isso, como são, do outro lado, os que agridem os seus motoristas.

Esse cenário de guerra que a criadora do aplicativo encontra no mundo demonstra que falta muita, mas muita, maturidade negocial. Falta bom senso, conhecimento jurídico, marketing de implantação e principalmente humildade. É quase como descobrir a energia nuclear e criar bombas que caem nas mãos de terroristas.

Desejo que a Uber se torne uma realidade no mundo. Que ela funcione e ajude a desenvolvermos um novo modal de transporte, mais acessível ao passageiro e ao transportador. E desejo, para que isso aconteça, que a Uber amadureça e perceba que suas práticas de implantação precisam do mesmo brilho que dispensou na sua criação.

Empreender… Por quê?

Empreender é vocacional e demanda um gigantesco esforço, mas poucas coisas podem nos realizar mais na vida.

Em quase todas as sociedades desenvolvidas incentiva-se o empreendedorismo. Em sociedades mais maduras, sabe-se que as pessoas com iniciativa e disposição para empreender são quem incitam o mercado a produzir (gerar riqueza), criar empregos (renda para o trabalhador) e pagar impostos (recursos estatais). Por causa disso, na maioria destes países o Estado e a iniciativa privada (bancos, especialmente, que também lucram com o desenvolvimento social) fomentam o empreendedorismo, seja com juros mais baratos para investimentos, seja com benefícios fiscais ou sociais.

Sabe por que é importante essa ajuda? Porque o empreendedor fica, muitas vezes, meses ou anos sem conseguir ganhar dinheiro. Por mais que isso pareca incrível a quem não tem qualquer conhecimento de causa sobre a vida empresarial, esta é a verdade.

Quando você abre uma empresa, que pode representar um sonho vocacional ou uma necessidade, você provavelmente terá cinco grupos que receberão alguma contra-prestação desde a abertura das portas, imediatamente: (1) os empregados, sem os quais o negócio tende a ser inoperante ou pequeno; (2) os fornecedores, indispensáveis para a existência do negócio; (3) os financiadores, sem os quais você, que não nasceu em berço de ouro, não terá como iniciar seu negócio; (4) os clientes, que precisam sair do seu estabelecimento com o que buscaram; (5) e o Estado, que mesmo sem qualquer incentivo e muito antes do lucro da sua empresa fica com boa parte do seu faturamento (sem contar a imensa carga tributária indireta). Veja que em nenhum destes grupos está a pessoa que deu impulso ao negócio: o empreendedor.

O empreendedor é o último a ganhar, mas desde o início: assume compromissos financeiros, treina pessoal, transfere conhecimento, resolve pendências operacionais e pessoais, lida com empregados, fornecedores, clientes, colaboradores, fiscais públicos, refinancia dívidas quando o negócio leva mais tempo do que esperava para decolar… em outras palavras, assume inteiramente o risco. Se a empresa der errado, seu patrimônio estará comprometido para fazer valer os direitos de todos os envolvidos. Se a empresa der certo, primeiro recuperará o investimento para, muito depois, lucrar. Portanto fica claro que ao empreendedor só resta uma saída.

Estes dias participei de um fórum onde informei que comumente o empreendedor levava anos trabalhando sem receber, apenas investindo esforço e dinheiro, e um dos participantes disse que eu estava lhe chamando de otário; que aquilo seria impossível. Imediatamente pensei: otário, pelo jeito, é quem empreende em nosso país, pois sequer este reconhecimento (de que há muito esforço no ato de empreender) se têm.

Então respondo à pergunta que proponho no título: devemos empreender porque é isso que move um país e é isso que se espera de quem é vocacionado a liderar esta importante iniciativa. Seria mais fácil se preparar para um grande cargo estatal? Não sei. Seria mais fácil lucrar comprando imóveis e alugando-os? Possivelmente. Seria mais fácil aplicar o valor investido num banco? Certamente. Mas empreender é algo que demanda um compromisso social e pessoal maior. Empreender é deixar de esperar que qualquer outro ente resolva determinada necessidade e partir para resolvê-la.

Costumo dizer às pessoas que trabalham comigo que poucas sensações são mais gratificantes do que a de estar em casa, à noite, jantando com sua família e saber que outras famílias naquele mesmo instante estão jantando graças à renda que você consegue transferir a elas. Ou quando você vê uma propaganda de certa entidade assistencial na TV e sabe que sua empresa, por pouco que seja, participa daquela ideia. Empreender é algo que realiza essa necessidade pessoal de que estamos participando das soluções que o mundo precisa.

Queria eu que nosso país ensinasse isso. E, talvez, nossos conterrâneos contemplassem uma outra forma de viver a vida em prol de todos e de si próprios diferente da via que é proposta pela ideologia governante, onde todos acabam, de uma forma ou de outra, dependendo sempre do Estado. E o Estado, bem sabemos, não nasceu para empreender.

Se você é daquelas pessoas idealistas que quer ajudar o mundo a ser melhor e está disposto a trabalhar muito, mas muito por isso, você tem a centelha inicial de um bom empreendedor. Agora só falta todo o resto.