Escravidão – Volume I

Terminei de ler recentemente mais esse livro do jornalista Laurentino Gomes. É uma majestosa leitura, complexa e bastante completa. Aborda precisamente a escravidão africana, muito antes do europeu transformá-la em um negócio e muito antes do debate ideológico deformar o trato que se deve dar ao tema.

O autor traz elementos históricos que demonstram a responsabilidade de cada um dos envolvidos na escravidão do período colonial: o europeu, que industrializou e lucrou com um sistema milenar integrante da cultura africana; o africano, que tornou-se operador de um sistema industrial europeu de produção de mão-de-obra cativa; a Igreja, que usou, referendou e permitiu ideologicamente esse holocausto.

Há uma reflexão que entendo necessária sobre o tema: a escravidão é um fato presente em toda história humana, sem privilegiar praticamente nenhum povo ou região. Ameríndios, orientais, europeus, nórdicos, africanos… todos conviveram com a escravidão.

Ao contrário, contudo, do que propõe a forte narrativa dos nossos tempos, os brancos tiveram um papel diferenciado ante o escravismo além do de transformarem a cultura escravista africana num negócio lucrativo por 400 anos: os brancos foram os primeiros a impor ideologicamente, legalmente e, consequentemente, culturalmente o fim do escravismo. Foi a Inglaterra, com sua Revolução Industrial, quem iniciou um debate que resultou no fim da escravatura, seja a africana, seja a que for.

Hoje o debate se acalora nas consequências e nas compensações sociais. Vamos adiante!

Quem conta a história?

Em 1861, diversos estados sulistas norte-americanos se revoltaram contra o governo central em razão da escravidão. O republicano Abraham Lincoln venceu as eleições com a promessa de acabar com a escravidão negra e, com a revolta dos democratas sulistas que exigiam mantê-la, teve início a Guerra de Secessão, que matou aproximadamente um milhão de pessoas. Mais ou menos nessa época, democratas norte-americanos (dentre os quais um antepassado Kennedy) revoltados com a derrota na guerra criaram a Ku Klux Klan.

Quem é taxado de racista nos dias atuais? Republicanos ou Democratas?

Em 1964, sob um forte clamor popular sustentado pela imensa maioria das entidades de classe e pela sociedade civil, dentre as quais a OAB, valendo-se de uma regra constitucional que previa a necessidade de intervenção militar quando a ordem nacional estivesse sob risco, o Congresso Nacional pediu ao Exército que assumisse o Governo Federal. O Exército permaneceu no governo por vinte e dois anos a pedido do Congresso e da Sociedade Civil, transformando uma intervenção constitucional em uma ditadura. Contudo, não foi um golpe. Aproximadamente na mesma época, guerrilhas comunistas se instalavam pela América Latina (inclusive no Brasil), resultando, uma delas, na intervenção cubana que se mantém no governo até os dias atuais. Lembremos que o mundo vivia em meio à Guerra Fria, uma divisão de interesses político-ideológicos entre as ditaduras comunistas e os capitalistas.

Quem é taxado de golpista? Os comunistas ou os militares?

Em meados do século XV, europeus chegam com seus navios mercantes aos bordões africanos e iniciam o escambo. Recebem proposta de venda de seres humanos, numa prática local existente há séculos em que tribos escravizavam tribos rivais perdedoras nas batalhas por interesses religiosos, territoriais ou bélicos. Inicia-se a escravidão negra nas Américas que só se finda quatro séculos depois, com a liderança da Inglaterra sobre todo o mundo ocidental. Apenas em meados do século XX a prática da escravatura cessa no território africano.

Quem é taxado de explorador e de causador da escravidão?

A Segunda Grande Guerra é resultado de sucessões de problemas étnicos e econômicos dentro da Alemanha, que se tornaram objeto de fácil manejo pelos nazistas para justificar a implantação de um regime de extrema-direita (que se dizia social-nacionalismo). Até hoje tem-se que como uma atitude horrenda e reprovável da direita alemã que, por isso mesmo, é condenada praticamente de forma unânime.

Vê a diferença?

Acredito que um dia a prática do aborto será consagrada como uma prática desumana. Acredito que, nesta época futura, a história será novamente distorcida e será contada como se, nos dias atuais, fossem os “conservadores” e os “reacionários” que lutassem pela liberação do aborto.