A humanidade caminha à sua média

Imagine um militante contra a escravidão há dois mil anos. Ele provavelmente não seria respeitado nem mesmo por um escravo eslavo ou por um galês, pois estes, se deixassem a condição de escravos dos romanos, lutariam as suas guerras para terem seus próprios escravos. Um militante contra a escravidão não seria respeitado nem mesmo no norte da África há 400 anos, seja porque a religião muçulmana autorizava (e para alguns, incentivava) a escravidão dos vencidos, seja porque a cultura de diversos povos africanos não islamizados vivia isso há séculos.

Imagine uma militante feminista há mil anos numa tribo indo-americana. Ela provavelmente seria convencida por algum ancião compreensivo e generoso a deixar suas ideias de lado e concentrar-se no trato de sua família.

Imagine um pacifista budista tibetano tentando convencer os chineses a serem pacíficos e deixarem a invasão do Tibet em meados do Séc. XX, pouco antes do Dalai Lama ser forçado a deixar seu país e refugiar-se na Índia.

Imagine certo governante vegano em nossos tempos determinando que todos os cidadãos do seu país se abstenham de sacrificar animais para alimentar-se, sob o argumento de que nossa tecnologia já nos permite encontrar outras formas de alimentação que dispensem o aprisionamento e a morte de animais.

Imagine determinar-se há 1000 anos que todas as pessoas só começassem a trabalhar depois de concluir treze anos de ensino fundamental. Provavelmente seria o fim daquela sociedade por insuficiência de alimentos em não mais que duas gerações.

A humanidade caminha à sua média. Não é possível impormos valores a uma geração. Não é possível!

Podemos, por óbvio, impor regras e leis… não os valores das pessoas. Podemos, contudo, impor regras e leis que, gradualmente, vão alterar os seus valores. Mas podemos principalmente ensinar valores. Isso sim!

Contudo, jamais poderemos ensinar valores que são incompatíveis com a realidade daquela sociedade. Um exemplo claro é a imposição desarmamentista aos brasileiros, só respeitada por quem desejava essa condição romântica (e ainda impossível) de desfazimento das armas quando ainda há os violentos e desprovidos de respeito humano por aí.

Há muito mais a ser refletido sobre o título deste texto… mas veja você que mesmo Jesus Cristo ou Buda ou qualquer outro grande nome da humidade (mesmo estes outros que são tidos como grandes nomes ainda que não o sejam) não foram capazes de impor valores. Sequer foram devidamente compreendidos e apenas muito lentamente o são por aqueles que já atingiram uma maturidade pessoal compatível para tal.

A humanidade é assim mesmo. Toda militância em mudar o mundo é minimamente eficaz se tenta impor o que ainda não está no coração e na mente dos demais.

Ao tentarmos impor o pacifismo, por exemplo, corremos o risco de conquistar ideologicamente os pacifistas, mas nos tornarmos reféns dos violentos não-pacíficos que, assim, tornam-se soberanos. Esse o perigo de qualquer ilusão além das possibilidades do seu tempo, como é a ideia de que podemos ser brandos com criminosos contumazes que, livres e impunes, continuam a tirar vidas e restringir o esforço laboral de muitos.

Você quer mudar o mundo? Mude-se. Seja melhor hoje do que foi ontem. Mudando-se, conquista aqueles que seu exemplo for capaz de atingir no coração. Todo o mais é apenas e tão somente um sonho de Ícaro. A mudança é sempre interior e, para mudar nosso interior, só dois elementos são eficazes: amor e dor. Infelizmente é assim.

Violência e amadurecimento

Como são fracos os que precisam da força.

Refletimos cedo sobre o papel da violência na manutenção da vida em nosso planeta. É inegável que, sem a violência, a vida seria diferente por aqui. Leões, tubarões, ursos e louva-deus seriam herbívoros ou não existiriam. A seleção natural teria outro resultado.

Nascemos violentos ou não violentos? É uma resposta complexa e penso, embora desejasse o contrário, que é errônea a certeza que somos não violentos ao nascer. A certeza que tenho é que não nascemos preparados para o agir violento. Os genitores contudo, da espécie que forem, precisaram da violência para nos proteger e nos alimentar e isso, por si, demonstra a dificuldade da resposta.

A reflexão que proponho tem como menos relevante a nossa característica de nascimento e como mais relevante o que o processo de evolução da humanidade nos permite vivenciar (fica claro que não sou dos que acha que a humanidade não evolui e lamento muito que haja setores consideráveis da ciência em nossos dias que defendam isso).

Grandes nomes da humanidade se transformaram em ícones por sua forma de lidar com o poder e, consequentemente, com os outros seres. Júlio César, Zumbi dos Palmares e Napoleão através do uso da violência. Jesus Cristo, Buda e Gandhi através da não violência. Para estes últimos, o poder a ser buscado é o de elaboração pessoal e, por isso, não é necessária a violência para tornar-se poderoso e mudar o mundo. Essa simples elaboração atesta diversos valores que devem ser enfrentados para a reflexão do tema.

O uso da violência é sempre mais imperativo quando não sabemos nos relacionar conosco e com nosso meio. Uns dirão: mas e quando o meio é violento contigo, vais te submeter? Bem, Jesus Cristo se submeteu. E também se insurgiu. A sua insubmissão, contudo, não primou pela agressão ao agressor. Buscou mostrar que a elaboração pessoal e a reformulação no trato aos outros, especialmente com os que nos agridem (“se ofenderem tua face esquerda, oferece a direita”), é a única solução efetiva para o problema. Buda, Gandhi, Krishna, Zoroastro e muitos outros foram pelo mesmo caminho.

Há, contudo, um limite que admito dificílimo ao enfrentamento: diz respeito a tolerar a violência contra quem amamos. Você se sacrificar (como fez Jesus e Gandhi) por uma causa é muito mais fácil do que permitir o sacrifício dos seus filhos, seus pais ou qualquer outro ente amado.

Chico Xavier ensinou que a violência é o fato de filtragem do nosso plano existencial. Chegará um ponto da evolução humana em que os violentos serão deserdados, pois impedirão o prosseguimento do processo evolutivo. Contra o violento que não busca se corrigir pouco adianta a melhor das pessoas, pois ele responderá com uma imposição física ante a imposição moral e espiritual.

Então afirmo que a violência é um fator de distinção entre os seres humanos que querem melhorarem-se e os que não querem. No nosso atual momento, só poderia ser aceita em caso de legítima defesa e em nenhum outro mais, muito menos uma violência institucionalizada ou recomendada. Não estou dizendo com isso que o pacifismo como ideologia nos basta… infelizmente não basta, pois se assumirmos essa postura, seremos suplantados pelos violentos imorais. Ainda precisamos administrar doses defensivas de violência sempre que necessário, especialmente para nos defendermos da injustiça (inclusive da estatal ou da institucional) bem como para defender nossos entes queridos. Devemos fazer isso única e exclusivamente neste caso, para prosseguirmos nosso aprimoramento e preservarmos nosso planeta.

Por fim, reflita que isso significa muita coisa, dentre as quais que não podemos tolerar infanticídios indígenas, penas de morte, abortos por mero interesse e quaisquer outros atos de violência.