Golpe!

Você contrata um pedreiro para reformar parte da sua área de serviço que sofreu infiltração. Compra materiais, pede solicitações condominiais e acerta o início da obra e o valor dos serviços, que deveria durar uma semana. Dois meses depois o valor já foi todo pago e o serviço está pouco adiante da metade. Isso é golpe!

Você leva seu filho no posto de saúde porque está com febre e dores. Espera três horas por atendimento e percebe que na sala de triagem tem três profissionais atendendo seus respectivos smartphones. Isso é golpe!

O Estado constrói escola, contrata professores, os qualifica, compra merenda escolar, compra material e coloca livros na biblioteca. O Estado ainda compra um ônibus para transportar alunos, ônibus esse que passa nas principais vias do município. Mas quando chove, você reclama que a escolar não passa em frente a sua casa para buscar seu filho e diz pra ele que não precisa ir pra escola. Isso é golpe!

Você usa as redes para ofender as pessoas com o que acha que são ofensas (cristão! gay! reacionário! avarento!) mas estaciona na faixa de pedestres, ultrapassa sinal vermelho e joga lixo pela janela do carro. Isso é golpe!

Você vê campanhas e mais campanhas para melhorar a situação dos presídios (que é desumana), mas nenhuma linha, nenhuma palavra sugerindo que os presidiários deixem a vida do crime para lá não precisarem estar. Isto é golpe!

Você diz que seu interesse é humanista, que se preocupa com pessoas. Posta diariamente textos e mais textos sobre elitismo e materialismo. Trabalha como motorista por aplicativos. Chamam você num bairro popular e você não vai porque tem medo. Isso é golpe!

Golpe é o que a postura média do brasileiro faz todos os dias com seus clientes, vizinhos, filhos e relacionados. Quando pararem estes golpes, pouca diferença fará o partido ou o sistema que estiver governando, pois estaremos à caminho do paraíso.

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O chega

O intelectual prega valores racionais. Luta pela democracia porque vê no sistema uma solução aos conflitos de interesses sociais que almejam o poder. Especialmente o intelectual urbano acha que seus interesses são comuns a todos, em qualquer lugar, porque são bons, inteligentes, legítimos. A intelectualidade orgulha-se da sua opinião.
Acontece que há tantas opiniões quanto são as pessoas…
Sempre achei o Estatuto do Desarmamento inconstitucional. Minha opinião.
Em 1988 a Constituição limitava juros em 12% ao ano. Se entrasse na justiça para revisar um contrato em 1989, ganharia a redução, numa sentença que sairia lá por 1992. Aí o banco recorria ao TJ. Depois ao STJ e STF. Esse, o Guardião constitucional, dizia não ser auto-aplicável a regra de 12% e derrubava, uns 7 anos depois, a demanda. Era estranho ler algo expresso na Constituição e o STF dizer que não valia. Opinião do STF. E decisão definitiva.
A democracia exige respeito às instituições. Se não, voltamos à lei do que grita mais, bate mais, mata mais. Essa lei justifica o terrorista, o vândalo, a guerra. É simples assim. Na democracia a discussão termina ao final do processo. Salvo se outro meio legítimo houver.
Foram 14 anos de petismo. Muitas mudanças no país e no mundo. Várias positivas. Várias negativas (minha opinião). Nós que finalmente vencemos a iniquidade ideológica precisamos respeitar o luto dos seus apoiadores. Já passamos por isso.
A democracia é assim. E como a nossa gente não é lá muito democrática (uns lutaram pela ditadura do proletariado e dizem-se anti-ditadura) é prudente festejar o fim do petismo respeitando a dor alheia.
Da minha parte, espero o nascimento de uma nova esquerda, menos rançosa, menos fragmentadora, mais século XXI. E espero que surja uma direita no Brasil, direita de verdade, não essa que a esquerda marxista diz existir que é, se muito, um grande centrão. Quem sabe surgindo opostos ideológicos efetivos, consigamos, enfim, aprender a respeitar as regras de equilíbrio de forças e extinguir a mera imposição, aplicada aqui desde o Império mas demagogicamente chamada de democrática.