Imposição x Construção

Todos nós conhecemos a máxima de que não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar. É uma regra de educação humana e pode ser perfeitamente relacionada a qualquer aspecto da educação humana.

As sociedades são resultado da cultura e, ao mesmo tempo, construtoras da cultura. A cultura pode ser alterada por imposições ou por construções. Estou lendo um livro que fala da história do conhecimento, de como ele foi transmitido ao longo do tempo (A reinvenção do conhecimento, de Alexandria à internet). Os autores trazem de forma didática e interessante que muito do que criticamos foi, na verdade, muito eficaz para a transmissão do conhecimento humano. Um dos exemplo são os mosteiros. A igreja foi por muito tempo considerada a monopolizadora do conhecimento na idade antiga e medieval, como se fizesse isso com ardil e maldade. Na verdade, os mosteiros serviram de abrigo a diversas obras antigas, gregas e romanas na maioria, que se estivessem na mão dos governantes ou de particulares provavelmente teriam sido saqueadas, queimadas ou destruídas como muitas outras foram.

Muito do que se olha sobre a história é tratado de forma negativa e crítica. Faz-se um anacronismo avaliativo e julga-se o passado com os valores de hoje. Quase sempre que isso for feito o resultado vai ser uma avaliação crítica e negativa.

Pois a humanidade é feita de construções. Avança a passos largos ou lentos em direção a algo melhor do que já foi. Sem considerar a avaliação dos que acham que somos iguais ao que sempre fomos, pois evidentemente somos melhores do que o homem das cavernas, as construções realizadas por nossos antepassados funcionam como imposições no nosso tempo.

Não podemos escolher outro idioma, outros algarismos, outra estrutura social, outra cultura. Nascemos sobre condições impostas pela história. Há condições pregressas que não podemos alterar e ponto. Outras são indispensáveis sejam alteradas. A medida desta evolução é o que nos causa os embates de hoje e sempre foi assim.

Há evoluções que não parecem evoluções. Há mudanças que não são percebidas senão ao longo do tempo. A cultura é assim, volúvel, volátil e, ao mesmo tempo, hermética. Há os que mexem na cultura de forma definitiva, como Cristo, cujo nascimento baliza inclusive nossa marcação dos anos (quando viveu, Jesus não era o que é hoje). Há os que ensinam pelo mau exemplo. Somos biliões de almas que já passaram pela Terra, há muito de cada uma delas no que vivemos hoje.

Acredito que o modelo construtivo seja melhor que o impositivo nas relações humanas. Ensinar a construir e acreditar que isso produz resultados é melhor que impor a todos que atinjam tais resultados. E isso serve para quase todas os objetivos, características e valores humanos. Bondade, por exemplo. Ensinar a ser bondoso é muito diferente de impor a bondade. Impo-la cria hipocrisias, falsidades naqueles que ainda não aprenderam a sê-lo. Isso serve a qualquer demanda.

As imposições só devem existir quanto àquelas condutas extremas que, descumpridas, lesam suas vítimas. A violência, por exemplo. Ela precisa ser contida com repressão.

Então novamente voltamos ao grande dilema do equilíbrio entre o que deve ser construído e o que deve ser imposto. A veia dessa construção é a sabedoria. Sabedoria não é ser complacente, benevolente, tolerante. É, muitas vezes, ser impositivo.

O agir por imposição tem como elementos imprescindíveis os valores que se impõe. Quando perdemos essa referência, todo o mais se esvai. Se quero impor a igualdade de gênero, por exemplo, tenho que fazê-lo tratando a todos igualmente. Se quero que respeitem minha crença religiosa ou ideológica preciso respeitar a religião e a ideologia alheia.

Mas isso é dificílimo! E é isso que nos faz sermos tão conflitantes e polarizados.

Não há outra saída entre interesses divergentes que não seja a discussão dos valores que os norteiam. Precisamos construir e impor valores de igualdade, liberdade e fraternidade. Aos que vivem de discursar tais valores mas exercê-los apenas em favor de uns e não de todos, que imponhamos sejam respeitados. Aos que já estão dispostos a concretizar tais valores, que venhamos a construir laços de afinidade.

O que não podemos é permitir nos imponham valores distorcidos, que beneficiam uns e não todos, que criem privilégios, que sejam sustentados por demagogias e hipocrisias.

Os brasileiros são melhores do que têm se dito. Tirando uma turma barulhenta e imatura que pede que os outros façam sua parte, a maioria está na labuta de construir-se melhor a cada dia.

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Vencer!

Veni, vidi, vici… parece fácil, para quem apenas lê, a conquista de Júlio César. Algo como “cheguei, gostei e peguei”. Vencer é o objetivo humano mais remoto, depois de sobreviver. Quiçá sobreviver seja vencer a morte, ao menos por hoje.

O que é vencer? Derrotar, ganhar, obter vitória diz o léxico. Vencer é, portanto, atingir um objetivo. Quando pensamos em vencer pensamos em que? Esporte? Conquistas profissionais? Superar um trauma, uma doença? Receber um dinheiro decorrente de um negócio?

Vencer é o resultado do mérito. O mérito decorre de uma conotação social (ou relacional) e de uma conotação íntima. As duas conotações formam o valor do mérito.

Nos dias de hoje, associa-se a ideia de vencer ao liberalismo capitalista porque, afinal, neste regime o desejo de conquistar é inerente. Se não houver desejo de conquista não haverá o capitalismo. Tal associação criou uma dissociação: a de que a busca pelo mérito, pela vitória, cria desigualdades. É um ledo engano, fomentado e multiplicado por conveniência.

O ser humano que não tem objetivos existenciais não está existindo. O ser humano mais desprovido de condição, de saúde, de meios, sempre estará buscando algo, nem que seja viver (ou sobreviver). É da natureza humana atingir objetivos. Quando se prega a ausência do mérito se está lutando contra a condição humana. É irracional, insensível, até malévolo.

Vencer não é superar o outro apenas. É ser melhor que você mesmo. E se for superar o outro, que seja. Perder faz parte da próxima vitória, eis que nenhuma vitória é perene. E se nenhuma vitória persiste, toda vitória faz parte da próxima derrota. Cabe ao ser humano aprender a vencer e perder, neste eterno ciclo… mas jamais negar ou afrontar a necessidade de buscar seus objetivos e aprender quando não os consegue.

Por que perdemos nosso tempo discutindo mérito no sentido ideológico? Porque se imaginou um mundo impossível brotado de um bem original, de um ser humano ideal que nasce pronto e não transpassa a estrada evolutiva, um ser que não se materializa jamais. Esse mundo impossível prega a mudança do que há pelo que deveria ser, mas exige que esse objetivo se cumpra através de regras impraticáveis, regras que não são praticadas sequer por quem as defende. Como fazer um profissional ser eficiente e eficaz sem o risco de perder o emprego em caso de fracasso? Como dizer que um aluno está pronto sem avaliá-lo? Como não bonificar um êxito se é o êxito que todos precisamos? Como distribuir a riqueza alheia sem distribuir as obrigações que geraram tal riqueza?

A vida sem méritos é a contemplação dos méritos alheios.

A vida em sociedades que se perdem em debates impraticáveis é a contemplação da vida nas sociedades alheias.

Vencer é necessário. Aprender a perder é necessário. Ajudar os outros a vencer é necessário. Ajudar os outros quando perdem é necessário. Viver vencendo e perdendo é viver.

No fundo a vida é mais simples do que tentamos fazê-la e vencer pode ser, simplesmente, atingir um melhor viver.

Novas Intolerâncias

Não foi fácil pra muita gente aceitar os novos ventos da civilização. E estou falando só de Brasil, só da nossa cultura – embora saiba que em muitos países os conservadores têm ainda mais força. O Brasil, ao contrário do que muito se critica, constrói uma sociedade moderna em termos de aceitação às relações homoafetivas, de tolerância ao uso de entorpecentes, de respeito a vieses políticos diversos, direito das mulheres, deficiente e idosos, de efetivação de garantias a grupos raciais, de abrigo a minorias e estrangeiros, dentre muitos outros. Somos uma sociedade multicultural e isso não é fácil de equalizar. Diferentes religiões, etnias, graus de instrução, classes sociais ativas, veias ideológicas. Nossas realizações não são mais efetivas muito mais porque somos maus gestores públicos e investimos recursos financeiros insuficientes.

Mas uma coisa tem me chamado a atenção…

Ao invés de nos modernizarmos em relação ao tema “tolerância”, o que fizemos foi substituir os objetos no nosso acoplador de intolerância. Se antes eramos intolerantes com gays, agora somos intolerantes com conservadores. Se antes eramos com ateus, agora somos com crentes. Antes com mulheres desquitadas, agora com homens com discursos de machão.

Isso mostra que, na verdade, continuamos os mesmos intolerantes de sempre… apenas mudamos de lado, de foco. Não é que nos tornamos tolerantes a novas ideias. Não. Mudamos nosso conceito de novas ideias ou de boas ideias, ou melhor: mudamos nosso conceito de boas pessoas.

Ser tolerante também é saber que pessoas criadas na década de 1950 vão ter mais dificuldades de aceitar relações homoafetivas que as novas gerações, por exemplo. Ser tolerante é saber que as diferenças não incluem apenas o que hoje se brada como bom, mas também o que se acreditou por milênios. Isso é ser tolerante.

Não precisamos ser aceitos por todos. Sejamos fumantes ou não, gordos ou não, ateus ou crentes, veganos ou carnívoros… ninguém precisa ser aceito pelos outros. Precisamos pura e tão somente sermos respeitados em nossas diferenças. Ponto.

Para sermos respeitados em nossas características precisamos reconhecer que existem outras pessoas com as suas características, que frequentarão ambientes onde tal jeito vai ser cultuado. Não posso ir a um restaurante vegano e pedir um cheese-bacon nem entrar pelado numa igreja. Simples assim.

Tem muito paladino da igualdade que entendeu errado o que é igualdade. Homens e mulheres nunca serão iguais. Negros são negros e falar isso não é racismo. Gordos ocupam mais espaço, e daí? Muçulmanos são estranhos sim, para quem viveu a vida inteira vendo o rosto e as coxas das mulheres. Quando visitou uma certa cidade interiorana do nordeste, minha esposa – que é branca e loira – virou centro de observação da comunidade. Imagina se tivesse se sentido agredida por ser observada acintosamente como diferente.

Igualdade é ser tratado de maneira igual, pela lei, pelo Estado, pelas autoridades, por entidades e pessoas que prestam serviços. Igualdade não é ser visto da mesma forma por todos, não é usar o mesmo traje, nem ter acesso aos mesmos recursos. Igualdade é um direito subjetivo, não uma atribuição objetiva. Não é porque o mais competente passou no vestibular que todos terão direito de entrar no mesmo curso; é só pra quem atingir o mesmo critério. Se haverão políticas de compensação – seja do que for – isso não é para promover igualdade. É para ajudar socialmente determinados grupos.

O que não podemos mais admitir é o desrespeito, a violência, o privilégio, a falta de ética e de bom senso. Mesmo a falta de bondade não é algo que podemos combater, simplesmente porque as pessoas têm o direito de não serem boas. Elas não podem é agir de forma maléfica.

Portanto, se você vai lutar por tolerância e igualdade, lembre-se de tolerar os diferentes de você. Sejam eles como forem.

A Burguesia

De origem francesa, a palavra designa a classe social dos detentores do capital. Na Wikipédia está que surgiu nos séculos XI e XII na Europa e por volta do século XVIII no ocidente. Marx usou o termo para classificar a classe social “materialista” que detém os meios de produção e esse conceito é até hoje referência de boa parte dos ideários políticos da esquerda brasileira.

Só que o mundo mudou muito nestes 150 anos posteriores a Marx…

Nas comunidades mais simples do Brasil, onde a antiga dona de casa passou a vender comida em forma de marmita para os vizinhos que trabalham no comércio.

Para a cabeleireira que atende na sua garagem e subcontrata uma manicure.

Para o trabalhador da roça que se mudou para a cidade, começou a vender lanches e abriu um restaurante.

Com o pedreiro que passou a trabalhar por conta e, diante da demanda, subcontrata outros pedreiros e serventes.

Com o antigo pequeno agricultor que, ano após ano, arrendando as terras vizinhas e obtendo êxito no plantio, adquiriu novas terras e enriqueceu.

Para a confeiteira que abriu uma rede de cafeterias.

Para o retirante nordestino que se tornou metalúrgico, sindicalista e depois presidente do país.

A burguesia merece esse novo conceito. Que leva em consideração que, nos dia de hoje, o esforço e a competência resultam em êxito. Que ser pequeno ou ser grande depende mais da sua capacidade que do seu bolso. Que há tantas relações profissionais, sociais, negociais, emocionais e pessoais no mundo, que avaliá-lo com conceitos de quase dois séculos atrás é discutir no campo teórico o que já foi discutido, elaborado, constatado, demonstrado e extinto.

Pra quem não percebeu, a burguesia move o mundo. Cura doentes, abre ruas, produz alimentos, constrói casas, distribui trabalho e renda. Só há sociedades ricas e aproximadamente iguais em oportunidades e direitos onde a burguesia se expandiu. A burguesia é tão eficaz que até criou o Estado para ajudá-la a construir um mundo melhor.

Que sejamos todos burgueses…

 

Uma nova cultura

Taylor, antropólogo britânico, ensinou que cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Portanto, a cultura é resultado humano que forma novos humanos. Por sua vez, os novos humanos influenciados pela cultura recebida poderão influenciar a cultura… e assim caminha a humanidade.

É como o ar: mesmo que não a conscientizemos ela nos permeia. Estamos inseridos nela e somos constantemente influenciados por ela. Ainda que apresentemos resistência à cultura, será uma resistência cultural de alguma forma. As disputas de ideias são disputas de influência cultural e de influência na cultura.

Você reconhece uma cultura tipicamente brasileira quanto ao comportamento social? Com suas experiências, você elencaria quais elementos como integrantes da cultura nacional no aspecto comportamental?

Quando acreditamos que estacionar no local proibido por alguns minutos não é problema…

Quando realizamos protestos em vias públicas que prejudicam o deslocamento (e os compromissos inadiáveis e irrecuperáveis) de milhares de pessoas…

Quando contratamos um serviço e não pagamos…

Quando usamos milhares de argumentos para justificar um erro confesso, ao invés de pedir desculpas e reparar os danos…

Quando queremos mudar o mundo para que caiba dentro dos nossos desejos pessoais…

Que tipo de cultura é essa?

O Brasil não gosta de cultuar boas lideranças. Gostamos dos demagogos, dos atalhadores, dos que resumem o mundo para que fique simples no papel. Estamos rodeados de boas pessoas, mas gastamos tempo e esforço criticando as que não prestam. Tivemos incontáveis líderes que produziram obras magníficas, mas procuramos os que superarão Cristo em influência, porque as pequenas realizações positivas não nos captam mais atenção do que as grandes bobagens.

Veja nosso debate político… é ridículo. Criam-se apelidos para denegrir porque evidentemente fica difícil ofender e depreciar uma pessoa que é visivelmente capaz, séria e producente.

Veja nosso comportamento esportivo, onde ludibriar a autoridade é considerado normal e onde a imposição do nosso talento se dá mais por exibição que pelo resultado. Afinal, meritocracia (vencer, atingir objetivos) é o menos importante, não é?!

Veja nosso comportamento nas relações jurídicas e pessoais. Nossa produtividade. Nossos serviços públicos.

Isso tudo é cultura.É tudo resultado de uma proposta de vida falida, mas da qual não nos cansamos de tentar e tentar manter.

Como crianças morais e comportamentais que somos, queremos tudo. Queremos que o novo seja imposto sobre o velho. Queremos drogas sem crime. Queremos democracia com representações exclusivamente nossas. Queremos dinheiro para tudo sem a obrigação de trabalhar proporcionalmente. Queremos isso e aquilo e aquilo lá também.

Admiro culturas de respeito ao passado, como fazem os orientais. Admiro cultura de respeito às lideranças, como fazem os norte-americanos. Admiro a cultura de respeito às diferenças que se vê na Europa. Admiro o esforço e a simplicidade do nosso povo brasileiro. Admiro a religiosidade e a vida familiar dos latino-americanos. Admiro a alegria frente à adversidade dos africanos. Admiro a capacidade de se inovar e receber o diferente dos australianos. Aprendermos o que admirar, quem sabe, faça parte de uma nova cultura… uma que viva de algo além de reclamar, protestar, denegrir e querer mudar o mundo com o esforço dos outros.

 

 

O assistencialismo

Você acha que a maioria das pessoas não querem ver os outros viverem uma boa vida, que não estão nem aí se o governo vai ajudar a conseguir moradia, estudo e saúde? Se você acha, pode parar a leitura por aqui. Essa reflexão é pra quem acredita que o ser humano, de maneira geral, gosta de estar bem e ver os outros bem.

Nós que queremos ver as pessoas ao nosso redor viverem bem, terem acesso ao estudo, ao emprego, à moradia, à felicidade, nós somos pessoas tendentes a concordar com as políticas assistencialistas. Afinal, o assistencialismo é uma forma de permitir que se realize esse nosso desejo, acreditamos.

Nós que achamos aceitável pagar impostos superiores à média mundial porque isso ajuda a sustentar a máquina que permitirá distribuir oportunidades e renda e isso, afinal, faz parte de um plano maior de igualar as pessoas desprivilegiadas, nós pagamos literalmente para que isso ocorra.

O assistencialismo, afinal, é a prestação de assistência a quem precisa. E basta olhar ao nosso redor para percebermos que muitas pessoas precisam.

Ora, é inegável que o Bolsa Família dá renda a pessoas que não tinham meios de atingir aquela renda. É inegável que as políticas cotistas dão vagas a quem não tinha a oportunidade de tê-las. É inegável que uma política fundiária de distribuição de terras vai permitir que famílias de agricultores pobres consigam finalmente a sua propriedade para trabalhar.

E isso é bom, não é?! Não.

O assistencialismo é como o analgésico. Ele é melhor que a dor, mas é pior que a cura. Faz parecer que é a solução para o problema, mas ataca somente a parte mais traumática e urgente.

O primeiro mito que precisa ser encerrado de uma vez por todas é o de que apenas as políticas públicas ajudam a resolver as desigualdades sociais. Isso é balela, é só procurar e verá. O Estado é mais uma das entidade que a cultura humana elaborou. Se é verdade que não visa o lucro – e isso não é mérito nem demérito – também é verdade que, mesmo sob a pecha de “público”, pode servir perfeitamente a interesses privados. Um botequeiro que dá emprego a um vizinho executa uma política social importante (mesmo que não tenha consciência disso) e essa relação é privada.

As políticas assistencialistas que enfrentamos, embora tenham um discurso inclusivo, são demagógicas. Não significa que não consigam proporcionar melhoria na vida de algumas pessoas, significa que não produzem o efeito que pretendem e acabam servindo de elemento de aprisionamento mental, ao invés de servirem de fonte de libertação pessoal.

Quando você estabelece uma cota universitária, por exemplo, está confessando que o sistema educacional predecessor falhou. Aí você coloca uma cota de inclusão na universidade e diz que isso equilibra os estudantes. É uma inverdade. Claro que haverão estudantes cotistas brilhantes, óbvio. Acontece que, como sempre, a grande maioria será engolida por uma rotina educativa inédita e desproporcional ao que conhece. Salvo se aquela universidade se adaptar a esta nova realidade diminuindo a sua exigência, o que prejudicará o sistema. Ou se algum projeto outro de compensação surgir. Por que não melhorar o sistema educacional?!

O Bolsa Família… chega a atender 50.000.000 de pessoas! Um quarto da população! Olha pro lado aí onde você está. Imagina que a cada quatro pessoas ao seu redor, uma recebe valores com a contra-prestação de manter filhos na escola. Essa escola que não forma adequadamente e, depois, dependerá de cota universitária para receber o aluno desprivilegiado. Agora imagina isso sistemicamente. Imagina daqui a 20 anos um aluno que estudou por dinheiro sendo ingresso na universidade porque é pobre. Você entendeu?! Você entendeu que não é mais necessário esforço, mérito, vontade, superação?! Você percebe que pessoas que não estão acostumadas a enfrentar a sua realidade com a vontade de vencer são pessoas que dependerão de alguém?! Nem que seja do Estado?! E que depender de alguém, nem que seja do Estado, não é ser livre?! Não é ser adulto!?

A sociedade é construída a partir dos valores que cultivamos. Quando se diz a uma pessoa que ela precisa se superar para atingir seus objetivos, estamos criando uma sociedade de pessoas que transformam suas dificuldades em motivação para algo melhor. Quando dizemos a uma pessoa que ela é uma coitada e que não se preocupe que iremos ajudá-la, mesmo ela tendo condição de ajudar-se por si, o que estamos construindo!?

É óbvio que desejo que o Estado atenda as pessoas que necessitam. Que dê comida e dê abrigo a miseráveis, que transfira conhecimento a todos. O que não quero é que o Estado pode a principal força de aprimoramento humano que é a autodeterminação. O Estado não pode substituir os sonhos da pessoa, sua capacidade de olhar ao seu redor e identificar-se como parte do problema e da solução. O Estado não pode olhar para 1/4 dos brasileiros e achar que são incapazes, dependentes dos outros 3/4, pois eles podem acreditar nisso. E isso é mentira.

Uma política de inclusão séria desenvolveria o país. Faria com que oportunidades, trabalho, vagas em hospitais e universidades, fossem construídas. Isso é inclusão real, quando as pessoas vão, passo a passo, interagindo com seu ambiente, absorvendo experiências que lhes serão úteis e retornarão à sociedade com a sua contribuição pessoal.

Você já pensou por que existe tanto interesse em fazer as pessoas serem dependentes do Estado?! O Estado, por acaso, é melhor que você e eu?!

O ser humano não pode ser tratado como coitado. Não pode admitir-se o coitadismo. O Estado que transfere recursos de quem produz e trabalha para pagar a segurança, a educação, a saúde básica, a infraestrutura de uma nação, e faz isso plenamente, cumpre o seu papel. Um Estado que não consegue fazer o básico das suas obrigações e poda a capacidade dos seus de se desenvolver, seja porque espreme demais uns ou porque entrega demais a outros, é como o pai que exige demais de um filho e mima o outro. Cedo ou tarde a família estará desunida, com o filho mimado cada vez mais dependente e o outro trabalhador cada vez mais capacitado e calejado.

Enquanto não for valor efetivo o trabalho, a autodeterminação e a liberdade pessoal (liberdade, aqui, aquela em que não dependemos), as políticas assistencialistas ideologizadas servem apenas para mover a roda do populismo e da demagogia.

E daqui a 300 anos?

A história humana é uma história de lutas, violência, imposição de força, tramoias, desrespeito. E uma história de conquistas, de aperfeiçoamento, de elaboração de valores, de soluções.

Imaginemos pretender denegrir a imagem do Rei Davi entre os judeus, porque fora violento e sanguinário. Ou de Maomé, por ser insurgente e guerreiro. Imagine criticar Jesus de machista porque seus discípulos próximos eram todos homens. Ou chamar Buda de fanático porque, ao invés de transferir a riqueza da sua família aos pobres, escolheu “iluminá-los”.

Imagine condenar seus avós por serem patriarcais. Condenar seus pais porque brincaram com as diferenças de gênero. Imagine condenar as pessoas que têm dificuldade de se adaptar aos novos tempos e aos novos ventos com o mesmo rigor que se combatiam os novos tempos e novos ventos no passado.

Não pense você que, um dia, não olharão para nosso tempo e nos acharão bárbaros. Criar animais – seres que sentem e sofrem – para sacrificá-los e devorá-los. Trabalhar por dinheiro e não por vocação, não por aptidão. Comprar bens que podem ser compartilhados. Desperdiçar água. Estudar para saber sem saber para que.

Esses que usam o passado para tudo condenar, elegendo vítimas e agressores genericamente demonstram saber muito pouco sobre evolução. E analisam a história com pequenez.

Ser intolerante com quem ainda não consegue se desprender de valores ultrapassados é tão odioso quanto ser discriminatório. A tolerância é uma via de mão dupla, caso contrário não pode ser o mote da mudança.

O puritanismo que se exige raramente é o que se entrega. A maturidade individual costuma ensinar que os mais maduros e adaptados à vida já erraram muito. E aprenderam com isso. A tolerar. A ajudar. A seguir adiante.

Nessa época de intransigência política porque uns discutem ideologias e outros pregam valores, Oxalá consigamos extrair o que de melhor nossa humanidade produziu. Se fosse fácil já estaria resolvido. Quis o destino que nós todos estivéssemos diante destes enfrentamentos, mas a solução não virá de outro resultado que não for do nosso esforço construtivo.

Sou dos que usa a moral como referência. A moral, não o moralismo (se tiver interesse, pesquise a diferença). A razão e a sensibilidade humana precisam de referências construtivas, se não tudo é discussão, tudo é paixão.

Daqui a 300 anos certamente haverão valores morais outros… mas tenho esperança que os irmãos do futuro, ao contrário dos de hoje, saberão reconhecer que, embora não estejamos prontos, estivemos nos esforçando para fazer o melhor.

Meritocracia

Meritocracia – predomínio numa determinada organização daqueles que têm mais méritos – virou ponto de ideologização. Como tudo mais no Brasil. Não entendo porque perdemos tanto tempo discutindo certas coisas… mas vamos lá.

Se vamos formar um time de futebol do condomínio para disputar o campeonato municipal, vamos convocar quem: (a) os mais simpáticos; (b) os mais bonitos; (c) os que jogam melhor?

Se vamos colocar nosso filho numa escola, vamos escolher qual: (a) a mais perto de casa; (b) a maior; (c) a melhor?

Se vamos escolher nosso próximo emprego, escolheremos: (a) o mais perto de casa; (b) o mais fácil; (c) o melhor?

Se vamos tratar doença grave, escolheremos: (a) o tratamento mais barato; (b) o tratamento mais rápido; (c) o melhor tratamento?

Ok. Chegamos no primeiro estágio de reflexão. Já sabemos que praticamente sempre escolheremos o melhor quando tivermos essa opção. A melhor cerveja, a melhor rua para morar, a melhor praia para passar férias. Portanto, o que vai diferir é o que compreende o conceito de melhor para cada um de nós.

Estágio 2. Na Meritocracia é a mesma coisa. Podemos discutir qual é o mérito que vai ser valorado, mas nunca impedir que exista critérios de merecimento para a formação das relações e organização. É óbvio demais, mas vamos continuar.

Se não for pelo critério do mérito, qual será?

Quem ganhará a partida de futebol se não for por ter conseguido fazer gol?

Como se demonstrará melhor conhecimento acadêmico se não for realizando um teste?

Onde você irá trabalhar se não for onde se preparou para fazê-lo eis que, afinal, preparar-se é justamente cumprir o “mérito” para exercer a função?

Reitero a pergunta: se não for por mérito, qual será o critério? Pelo parentesco, pelo partido, pela religião, pela cor da pele, pelo gênero.

O mundo é melhor quando construído a partir do êxito. Isso exige esforço. Não significa que todos devamos ser iguais, nem competitivos, nem gênios. Significa que todos precisamos descobrir aquilo em que somos bons e o que temos a acrescentar. Não podemos nos permitir a mediocridade e a acomodação, pois é isso que cria a desigualdade. Não podemos pedir que as pessoas brilhantes parem de brilhar porque somos opacos. Temos sempre que nos enfrentarmos, nos superarmos, nos melhorarmos para que o sentido existencial não se contente em adquirir superficialidades como objetivos.

Meritocracia é isso, simples e natural. Sempre acompanhou a humanidade. Mas virou tema ideologizado porque, afinal de contas, para uns, se o mundo não é do meu jeito, que mude o mundo.

Discutir a meritocracia e não os seus critérios é coisa de fracassado. Faz parte daquele pacote de ideias que prega o que não faz, que imagina o que não pode ser materializado, que desorganiza porque desagrada. Se nos permitirmos viver nesse mundo de fracassados mentais, somos igualmente fracassados. E aí, o mérito por termos atingindo a mediocridade será de todos nós.

 

Direitos Humanos

O Brasil é um país que tem um nação refém de balelas midiáticas e ideológicas porque nos contentamos em não saber. Nossa ignorância não é suficiente para nossa vida: pegamos emprestada a ignorância dos outros também. E uma das mais repetidas, seja para o lado da intolerância quanto do paternalismo, é a ideia sobre o que são direitos humanos.

Uns acham que representa o excesso de tolerância que temos com a bandidagem – e às vezes essa ideia é tão batida que se torna um efetivo comportamento estatal. Outros, com base na mesma ideia, veem como um porto seguro que lhes garante que, mesmo não respeitando os direitos alheios, devem ter respeitados os seus. É mais ou menos como as pessoas que não têm moradia se permitirem invadir a moradia alheia sob o fundamento de que precisam de lar, sem se importar de retirar o lar dos outros.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 é um conjunto de garantias mínimas para que o ser humano possa viver em sociedade. São direitos fundamentais, inseridos nas principais legislações do mundo para que todos tenhamos meios de exercer nossa vida, liberdade, igualdade, cultura, religião e intelectualidade.

Direitos Humanos não são proteção a vagabundos para que continuem na vagabundagem. Nem a malandros para que continuem na malandragem. São o direito de não ser violentado, não ser injustamente preso, não ser reprimido pelo que pensa ou defende. Portanto, sim são direitos de todos, incluindo você e eu, sejamos nós quem formos. São direitos que competem a policiais e bandidos, a servidores estatais e trabalhadores privados, a ricos e pobres, gays ou heterossexuais.

Aqui não pretendo falar do direito que se dá a refugiados de guerra, nem a vítimas de violência estatal ou familiar, tampouco a garantias personalíssimas essenciais das pessoas de bem. Isso tudo é óbvio que deve ser defendido ardorosamente pela grandeza que representa.

Falo do indivíduo que se permite exceder os seus limites de direitos e violentar o direito dos outros. Ele deve ter a noção mínima de que, na defesa dos seus direitos legítimos, a sociedade poderá eventualmente cometer abusos da mesma ordem. Isso não é institucional, é humano (e errado), como humano (e errado) é desrespeitar o direito dos outros. Existe uma régua moral que não pode ser exigida unicamente de quem é bom e justo porque ela importará na sobreposição dos bons e justos pelos injustos que se permitem qualquer coisa.

Eu sei, eu sei… se defendermos isso poderão ocorrer injustiças demasiadas. Poderão, por exemplo, surgir vinganças, pré-julgamentos, erros de análise. Por isso que é importante deixar unicamente aos canais competentes, respeitado o devido processo legal, a tarefa de julgar. Mas não é isso que estou querendo dizer. Não é isso que estou defendendo.

Estou defendendo a ideia de que não permitamos que os direitos invocados sejam exigidos por quem flagrantemente não os respeita. Mesmo estes direitos humanos mínimos. Desculpem, mas isso é o que penso sobre a vida.

O cara que se permite atirar num pai de família para roubar o seu carro escolheu, de forma tácita, renunciar ao pacto sobre direitos humanos. Ele está dizendo que não acredita nisso, não quer isso. Está dizendo que os seus direitos são maiores que os direitos humanos, na sua régua de valores. E está permitindo, portanto, que a régua usada contra si não seja essa que as pessoas de bem convencionaram. É uma opção dele, não nossa.

A partir do momento em que ele assim opta e age nossa opção precisa reconsiderar isso. E temos de escolher se vamos ser peremptórios ou vamos continuar nos submetendo aos seus critérios. Vamos nos iludir que sendo permissivos com quem não respeita os nossos direitos humanos eles um dia aprenderão a respeita-los? Vamos apostar a vida dos nossos filhos nisso?

Falando mais cruamente. Não estou dizendo que quero que os policiais linchem os bandidos. Estou dizendo que entendo os eventuais excessos dos policiais contra bandidos que vivem cometendo excessos. E estou dizendo que os policiais que vivem cometendo excessos um dia serão tratados com esse mesmo excesso por alguém, pois acabam se tornando bandidos. Vejam, a um limite claro do que é direito humano e não é.

Direitos não são premissas individuais. Direitos são sempre premissas coletivas, que servem à vida em sociedade. O indivíduo sozinho no pico da montanha não precisa do estado democrático de direito se lá permanecer. Portanto, quem renuncia as premissas que regulam a vida em sociedade deve ter a maturidade mínima de saber que, na defesa de direitos legítimos, o ser humano também pode se exceder. Só isso. Isso não permite vingança, linchamento ou maldades. Mas também não permite que se viva à mercê de quem não respeita ninguém.

Guarda Compartilhada – beligerância entre os pais

É batido que o regime da Guarda Compartilhada passou a ser, desde 2008, aquele que deve prevalecer, sempre que a guarda unilateral não se apresentar como mais favorável ao filho. Há diversas razões que podem levar à fixação da guarda unilateral, sendo das que mais se observa na jurisprudência a “tenra idade do filho” e a “beligerância” entre as partes.

A tenra idade é razão de ordem biológica, acima de tudo. Não há como se questionar que o bebê necessita da mãe em medida superior ao pai, principalmente durante o período de amamentação. Nesta idade o pai só conseguirá manter-se com a guarda unilateral quando demonstrar que falta à genitora os requisitos mínimos para que se mantenha na guarda do filho, sendo um exemplo quando a mesma é dependente química.

Questão muito mais complexa é o estado de beligerância entre os genitores. Vejamos que a aplicação generalista deste argumento pode resultar em estratégia comportamental daquele que já detém a guarda do filho para manter-se assim. Imaginemos um pai que detém a guarda do filho porque, no passado, isso era mais vantajoso à criança e hoje, ciente de que a lei prefere o regime Compartilhado, começa a criar motivos de desacordo com a genitora. Os ânimos são acirrados por provocação e, a partir disso, cria-se um ambiente de intransigência que resulta na manutenção da guarda unilateral em favor do pai porque “há beligerância entre os genitores, devendo a criança permanecer onde já está adaptada”.

No exemplo, não há alienação parental. Há tão somente um genitor criando ou provocando razões de discussão. E isso chega ao ponto de tornar impossível a abordagem conjunta dos assuntos de interesse da criança.

Sabemos todos que o Judiciário não costuma ter meios mais amplos de efetividade na busca por elementos mais profundos de análise. Contenta-se com a prova aparente, com um formalismo pragmático. Não raro, promotores conhecem o debate lendo, ligeiros, as peças nos momentos iniciais das audiências… e, mesmo assim, sugestionam com a segurança de quem já sabe como resolver a complexa relação que ali se propõe. Não raro o interesse é compor e, não sendo possível, que se arraste o processo até que as partes cansem de discutir. Esse cenário infelizmente não permite que se atinja eficazmente as razões do litígio.

Por esta razão, mesmo nos casos de beligerância, a Guarda Compartilhada deve ser intentada. Se mostrando impossível, é indispensável que se avalie os motivos que levam os genitores ao excesso de litígio, estabelecendo-se punições ao genitor que não se dispõe a negociar e se mostra irredutível de forma insensata.

Os operadores envolvidos devem sempre trabalhar com a ideia de que o bem do menor decorre do amadurecimento da relação entre os genitores, sendo o compartilhamento da guarda seu principal instrumento.