Aquela conversa difícil

Todos nós nos deparamos com conversas difíceis, vez ou outra. A conversa da separação, aquele aviso ao amigo que não vamos mais contratá-lo para prestar serviços, a cobrança de outra postura para uma pessoa próxima, mas não tão próxima. Aquela conversa com o chefe sobre uma nova proposta em outra empresa. A difícil conversa sobre o comportamento do enteado ou do filho do melhor amigo. São praticamente tantas quanto forem as relações importantes na vida.

Os grandes problemas das nossas vidas nascem da nossa covardia frente a tais conversas. Não estou falando dos problemas difíceis. Estou falando dos mais que difíceis, daqueles que nos tiram a saúde, nos mudam como pessoas. Quando você olha uma realidade pessoal e vê muitos problemas ao redor de uma pessoa, creia que ali falta muito diálogo, flexibilidade. E coragem.

Eu já fugi de conversas difíceis por covardia. Sei do que estou falando. E quando percebi que isso mudava tudo na vida, mudei de atitude. Não fujo mais de nenhum tipo de conversa. Isso também é difícil, tira o sono, mas não deixamos nada pra trás.

Vivemos num mundo e numa época em que as pessoas buscam um mundo impossível. Queremos diminuir a violência sem abrir mão de comprar celular roubado e fumar um baseado. Queremos um salário melhor mas não queremos aumentar nossas responsabilidades profissionais. Queremos ótimos empregados com média remuneração. Queremos que os filhos do vizinho façam menos barulho, porque com os meus e os dele gritando não consigo ver a novela.

Então é comum você não contratar seu amigo para trabalhar pois tem medo que o rompimento da relação profissional atinja a relação pessoal.

Você evita conversar sobre o comportamento do seu enteado ou do filho do amigo porque não quer ouvir as reclamações sobre o seu filho.

Você se alia a quem deseja o mesmo que você no discurso, para evitar embates, mas não percebe que a atitude dos aliados levará a outros enfrentamentos? É resultado do mesmo tipo de covardia.

Seu país é como a sua família e suas relações multiplicadas por milhões. A forma como aprendemos a lidar com nossos problemas e repercutimos socialmente diz muito do ambiente em que vivemos. Ao mesmo tempo em que reclamar do cocô do cachorro do vizinho na grama é chato, pior é guardar isso dentro da gente.

É impossível enfrentarmos a descompostura alheia sem atitude. E isso vale pra qualquer tipo de descompostura, inclusive essa da criminalidade epidêmica  brasileira. Então, meu amigo, comece aprendendo a conversar…

Ocupação nas Escolas

Eu estudava no terceiro ano do ensino médio quando o Collares (governador gaúcho de 1991 a 1994) implantou o maldito “calendário rotativo”. Era janeiro, verão gaúcho beirando os 40°C, e nós em sala de aula. Aula sem ventilador, com janelas lado leste. Minha escola era considerada das melhores do ensino público técnico, mas era muito, mas muito… mas muito abaixo da qualidade que eu gostaria que fosse. A qualidade era tão ruim que me permitia gazear aula, não estudar pras provas e passar por média, fácil fácil.

Nunca fui de colar, sempre gostei de ler, mas o que eu mais gostava na escola eram os jogos de vôlei. Ah… o vôlei do Protásio era muito bom. E meu colégio ficava ao lado do Tesourinha, que é o ginásio público de Porto Alegre. Então era comum sairmos da aula e ir ver os times de vôlei local treinar.

Eu morava em Viamão, a 20km da escola. Trabalhava numa banca de revistas à tarde a partir das 13h30min, no Centro de Viamão, que fica a 30km da escola. Saia literalmente correndo da aula às 11h45min – porque a minha parada de ônibus ficava a 1km – para chegar em casa às 12h45min e sair às 12h55min pro trabalho. Se eu perdesse o ônibus que passava às 11h50min esculhambava todo esse ciclo. Mas normalmente eu adorava tudo isso.

Em 1991 era época do Collor. Collor foi o primeiro presidente eleito pós regime militar, um empresário de direita que não tinha o menor interesse em fazer um governo de coalizão. Fui cara-pintada. Participei de algumas manifestações e quem participa dessas manifestações, mesmo com 16 anos, têm noção de que a gandaia é muito maior do que o envolvimento político efetivo. Claro que não se vai admitir isso, né!

Enfim, quis dizer que me achava politicamente consciente, envolvido. Tanto que com 17 anos comecei a participar do Partido dos Trabalhadores.

Não existe a menor possibilidade de um diálogo político que não seja de esquerda na escola pública. Não existe a menor possibilidade de se apresentar soluções que demandem participação privada ou empresarial, muito menos de se debater ideais libertários ou progressistas. Não se cogita que o estudo público possa ser cobrado, mesmo que em valores irrisórios de quem puder – eu disse de quem puder – pagar. Quando adulto, criei o Projeto Cresço para apresentar esse debate nas escolas públicas. Funcionou otimamente por três anos até o governo do PT de Viamão descobrir e proibir nosso trabalho. Hoje são contra o “escola sem partido” (também sou), mas na prática só aceitam discutir na escola o que seu partido manda.

A escola pública é formadora ideológica, nos dias atuais, como foi a escola católica nos séculos XVIII e XIX. O esquerdismo marxista aprendeu que é assim que se forma uma cultura. E isso tem dado absolutamente certo na América Latina, ao menos do ponto de vista ideológico.

Do ponto de vista educacional é péssimo (ao contrário do que aconteceu com as escolas católicas referidas). O aluno se acostuma com uma mentalidade rasteira, reivindicatória, onde a responsabilidade é sempre do Estado e o vilão é sempre a iniciativa privada. Estudar é algo que se torna menor na escola. O mais importante é a frequência, são as amizades, é o canudo.

Ocupação de escola é a falência da mentalidade progressista. É o atestado de que a única forma que se conhece de produzir algo, no Brasil, é fazendo protesto para que os políticos façam algo, porque se depender de atitudes efetivas, morrem de fome. São os eternos adolescentes que, crescidos, se tornam dependentes do Estado ou do sindicato.

Querem melhorar a educação, gurizada!? Estudem. Aí no teu celular tem mais informação do que todas as gerações anteriores tiveram acesso em todas as bibliotecas do Brasil. Se tu não tem acesso à internet no teu celular, procura empresários que queiram bancar a internet na tua escola, tu vai achar. Com acesso à internet, vocês podem enriquecer as aulas, os debates científicos, os gráficos e os mapas de geografia, as formações moleculares da química, as fotos dos seres mais sinistros em biologia.

Criançada, vocês estão perdendo um tempo valioso discutindo política. Vocês não sabem ainda, mas vocês não estão prontos pra esse debate. Essa época da vida é a época de descobrir o mundo, de conhecer a história, de dominar as línguas, de aprender a raciocinar. Vocês estão jogando no lixo um tempo que não volta. E o aluno da rede privada está fazendo a parte dele. Daqui a 30 anos vocês vão estar na rua protestado para aumentar o teu salário ou o imposto que o aluno da rede privada vai ter de pagar através da sua empresa que gera emprego, sustenta o Estado e produz.

Querem debate social pertinente à juventude? Debatam os efeitos da maconha na adolescência. Debatam os efeitos do tráfico na sociedade. Debatam o aborto, a pena de morte, a laicidade, a sexualidade na adolescência. Debatam em sala de aula, não na rua, não com ocupação.

Ocupação de escola, gurizada, é coisa de guri mimado.

Agora aos professores que apoiam a ocupação: vocês deviam ter vergonha de incentivar esse tipo de demanda. O Estado remunera mal, dá poucos recursos materiais. Sabemos. O Estado falha em quase tudo que faz. Mas não é esse tipo de atitude que vai mudar essa realidade, professor. Ensina teu aluno a resolver seus problemas se preparando intelectualmente, se capacitando, debatendo. Ensina teu aluno a sonhar sonhos de grandeza, de cura, de soluções. Mostra pra eles como usar as ferramentas que eles dispõe na palma da mão, mostra as fontes mais interessantes da tua disciplina na internet, apresenta tuas aulas no Youtube para teu aluno rever em casa. Se não sabe ensinar isso, professor, pede pra sair. Tu não nasceu pra ensinar. Para de ensinar esse pensamento rasteiro que mantém a América Latina na latrina do mundo.

A vida tem ciclos: nascemos, aprendemos, trabalhamos, ensinamos, cuidamos, olhamos, morremos. Respeitem a fase educacional da vida dos seus alunos. Não quero que meus filhos nem os filhos de ninguém tenham de sustentar o mimimismo de quem foi ensinado a sentar e chorar até ganhar papá.

Vencer!

Veni, vidi, vici… parece fácil, para quem apenas lê, a conquista de Júlio César. Algo como “cheguei, gostei e peguei”. Vencer é o objetivo humano mais remoto, depois de sobreviver. Quiçá sobreviver seja vencer a morte, ao menos por hoje.

O que é vencer? Derrotar, ganhar, obter vitória diz o léxico. Vencer é, portanto, atingir um objetivo. Quando pensamos em vencer pensamos em que? Esporte? Conquistas profissionais? Superar um trauma, uma doença? Receber um dinheiro decorrente de um negócio?

Vencer é o resultado do mérito. O mérito decorre de uma conotação social (ou relacional) e de uma conotação íntima. As duas conotações formam o valor do mérito.

Nos dias de hoje, associa-se a ideia de vencer ao liberalismo capitalista porque, afinal, neste regime o desejo de conquistar é inerente. Se não houver desejo de conquista não haverá o capitalismo. Tal associação criou uma dissociação: a de que a busca pelo mérito, pela vitória, cria desigualdades. É um ledo engano, fomentado e multiplicado por conveniência.

O ser humano que não tem objetivos existenciais não está existindo. O ser humano mais desprovido de condição, de saúde, de meios, sempre estará buscando algo, nem que seja viver (ou sobreviver). É da natureza humana atingir objetivos. Quando se prega a ausência do mérito se está lutando contra a condição humana. É irracional, insensível, até malévolo.

Vencer não é superar o outro apenas. É ser melhor que você mesmo. E se for superar o outro, que seja. Perder faz parte da próxima vitória, eis que nenhuma vitória é perene. E se nenhuma vitória persiste, toda vitória faz parte da próxima derrota. Cabe ao ser humano aprender a vencer e perder, neste eterno ciclo… mas jamais negar ou afrontar a necessidade de buscar seus objetivos e aprender quando não os consegue.

Por que perdemos nosso tempo discutindo mérito no sentido ideológico? Porque se imaginou um mundo impossível brotado de um bem original, de um ser humano ideal que nasce pronto e não transpassa a estrada evolutiva, um ser que não se materializa jamais. Esse mundo impossível prega a mudança do que há pelo que deveria ser, mas exige que esse objetivo se cumpra através de regras impraticáveis, regras que não são praticadas sequer por quem as defende. Como fazer um profissional ser eficiente e eficaz sem o risco de perder o emprego em caso de fracasso? Como dizer que um aluno está pronto sem avaliá-lo? Como não bonificar um êxito se é o êxito que todos precisamos? Como distribuir a riqueza alheia sem distribuir as obrigações que geraram tal riqueza?

A vida sem méritos é a contemplação dos méritos alheios.

A vida em sociedades que se perdem em debates impraticáveis é a contemplação da vida nas sociedades alheias.

Vencer é necessário. Aprender a perder é necessário. Ajudar os outros a vencer é necessário. Ajudar os outros quando perdem é necessário. Viver vencendo e perdendo é viver.

No fundo a vida é mais simples do que tentamos fazê-la e vencer pode ser, simplesmente, atingir um melhor viver.

Meritocracia

Meritocracia – predomínio numa determinada organização daqueles que têm mais méritos – virou ponto de ideologização. Como tudo mais no Brasil. Não entendo porque perdemos tanto tempo discutindo certas coisas… mas vamos lá.

Se vamos formar um time de futebol do condomínio para disputar o campeonato municipal, vamos convocar quem: (a) os mais simpáticos; (b) os mais bonitos; (c) os que jogam melhor?

Se vamos colocar nosso filho numa escola, vamos escolher qual: (a) a mais perto de casa; (b) a maior; (c) a melhor?

Se vamos escolher nosso próximo emprego, escolheremos: (a) o mais perto de casa; (b) o mais fácil; (c) o melhor?

Se vamos tratar doença grave, escolheremos: (a) o tratamento mais barato; (b) o tratamento mais rápido; (c) o melhor tratamento?

Ok. Chegamos no primeiro estágio de reflexão. Já sabemos que praticamente sempre escolheremos o melhor quando tivermos essa opção. A melhor cerveja, a melhor rua para morar, a melhor praia para passar férias. Portanto, o que vai diferir é o que compreende o conceito de melhor para cada um de nós.

Estágio 2. Na Meritocracia é a mesma coisa. Podemos discutir qual é o mérito que vai ser valorado, mas nunca impedir que exista critérios de merecimento para a formação das relações e organização. É óbvio demais, mas vamos continuar.

Se não for pelo critério do mérito, qual será?

Quem ganhará a partida de futebol se não for por ter conseguido fazer gol?

Como se demonstrará melhor conhecimento acadêmico se não for realizando um teste?

Onde você irá trabalhar se não for onde se preparou para fazê-lo eis que, afinal, preparar-se é justamente cumprir o “mérito” para exercer a função?

Reitero a pergunta: se não for por mérito, qual será o critério? Pelo parentesco, pelo partido, pela religião, pela cor da pele, pelo gênero.

O mundo é melhor quando construído a partir do êxito. Isso exige esforço. Não significa que todos devamos ser iguais, nem competitivos, nem gênios. Significa que todos precisamos descobrir aquilo em que somos bons e o que temos a acrescentar. Não podemos nos permitir a mediocridade e a acomodação, pois é isso que cria a desigualdade. Não podemos pedir que as pessoas brilhantes parem de brilhar porque somos opacos. Temos sempre que nos enfrentarmos, nos superarmos, nos melhorarmos para que o sentido existencial não se contente em adquirir superficialidades como objetivos.

Meritocracia é isso, simples e natural. Sempre acompanhou a humanidade. Mas virou tema ideologizado porque, afinal de contas, para uns, se o mundo não é do meu jeito, que mude o mundo.

Discutir a meritocracia e não os seus critérios é coisa de fracassado. Faz parte daquele pacote de ideias que prega o que não faz, que imagina o que não pode ser materializado, que desorganiza porque desagrada. Se nos permitirmos viver nesse mundo de fracassados mentais, somos igualmente fracassados. E aí, o mérito por termos atingindo a mediocridade será de todos nós.

 

Negócios é confiança, crescimento é confiança

A vida é construída a partir das atitudes. Quanto mais omisso é um povo menos desenvolvido será. Quanto mais inerte é uma pessoa menos feliz será.

Quando se pensa numa sociedade desenvolvida se pensa numa sociedade em que os elementos básicos para sobreviver, as necessidades humanas primárias, restam totalmente satisfeitas. Nessa sociedade desenvolvida, as necessidades estão mais elaboradas e se tende a não precisar (re)discutir o caminho que os levou até ali a todo instante. O desenvolvimento vem a partir da premissa de que as coisas do passado, certas ou erradas, produziram o que se tem hoje. Trabalha-se no seu melhoramento, não na sua constante reconstrução. Com este melhoramento chega-se ao objetivo no qual os reconstrutores sonham, mas sem recomeço, sem quebras, sem conflitos sociais. É o único caminho que deu certo até hoje na história humana.

Pois bem… desenvolvimento surge da valorização do que há. E do seu aprimoramento. É o que se está dizendo. Se algo há de ruim, melhora-se. Se algo há de errado, corrige-se. Se algo vai bem, aprimora-se.

Numa sociedade em desenvolvimento as necessidades humanas básicas ainda não estão atendidas. Ainda há preocupação com segurança, com as doenças, com alimentação acima do necessário para desenvolver aptidões mais nobres. Como escrever uma sinfonia em meio à fome? Como pesquisar uma nova vacina em meio a um tiroteio?

No mundo dos negócios aprendemos cedo que negócios são pessoas. Quem não sabe se relacionar costuma ter muitas dificuldades em fazer bons negócios. É óbvio que as pessoas cometem erros e isso significa, cedo ou tarde, que errarão contigo também. Não raro, errarão propositalmente para te prejudicar. Ainda assim, você precisa das pessoas para fazer negócios.

Dito de outra forma: negócios vem da confiança das pessoas envolvidas. Você não contrata um empregado se não confiar nele e ele não trabalhará para você sem confiar. Você não adquire insumos sem confiar que pode produzir e vender seu produto e seu cliente não adquirirá seu produto sem confiar. Ser confiável e fazer com que os outros o percebam assim é desafio de qualquer profissional.

O Brasil vive uma crise de confiança. Os motivos estão aí e não precisam ser repetidos. Mas não desanime. Confie. Todos os erros se encaminham para o acerto, desde que confiemos em algo que direcione a atuação da sociedade. E este direcionamento, quando não vem das lideranças estatais (até porque não sabem ser líderes), deve ser buscado em outras lideranças. Então confie que há outras referências, outros líderes. Confie que o certo produz bons resultados, ao contrário do errado. Confie que a vida oferece significado a todas as experiências, desde que estejamos dispostos. Confie que as pessoas ao seu redor buscam o mesmo que você. Confie nos negócios que estão ao seu redor quando eles forem propostos pelas pessoas que você confia.

Só há um caminho.

 

Por que o estadismo faliu?

Quando acabou o muro de Berlin, em 1989, muito se disse que aquele era o fim do socialismo e isso não entrava na minha cabeça. Eu não conseguia entender porque a queda do muro poderia significar o fim de um sistema político-ideológico em que a prioridade era o bem comum, o social. O socialismo voltou para minha vida com toda a força durante a faculdade de Direito. É sabido que o ambiente universitário brasileiro é apaixonado pelos ideais socialistas, em subversão a este “monstro demoníaco do imperialismo americano!”. Com dezessete anos eu estava na faculdade estudando Marx e Engels e filiado ao Partido dos Trabalhadores. Com dezenove eu já sabia que aquilo tudo na prática era muito diferente do que eu lia.

O conteúdo ideológico de um socialista – leia-se socialista, no Brasil, igual a marxista – parte do princípio de que o Estado é melhor que a iniciativa privada. Então, dar esmolas na sinaleira é errado: você deve doar o dinheiro a uma entidade ou ao Estado para que cuide dos necessitados. Ter armas em casa é ruim. Só os policiais podem tê-las, pois são mais preparados e honestos no seu uso. Cobrar impostos é necessário pois o Estado cuida de todos e a nobreza da vida cidadã está justamente em partilhar parte da sua riqueza com o Estado para que ele cuide dos mais necessitados. O socialista-marxista vê o Estado como um religioso vê a Deus, como algo maior, mais nobre, mais necessário, mais virtuoso.

Este pensar cria uma série de derivados. Por exemplo, trabalhar para o Estado é mais nobre do que trabalhar para si. Outro exemplo: enriquecer é desvirtuoso porque explora o trabalho e o dinheiro alheio para fins particulares. Mais uma: o Estado precisa ser o ente mais forte do país.

Com base nessa mentalidade criam-se as bases estatais, os direitos e deveres que cada um deve ter, pois o Estado não é nada sem as pessoas.

Um dos resultados dessa mentalidade é que ela transfere muito da mão-de-obra capacitada para os quadros estatais. Ali você terá uma série de benefícios e prestígio incomparáveis. E se acomodará.

Só que, ao contrário do que essa ideologia prega, o Estado não é mais virtuoso que a sociedade civil. Nem mais, nem menos.

O Estado é formado por pessoas como as outras. Se a sociedade é corrupta, o Estado o será. Se a sociedade é mal preparada tecnicamente, idem o Estado. Se o cidadão está desestimulado com a vida, o servidor provavelmente estará.

Ver o Estado como algo superior é eleger um salvador que não nos salvará.

O fortalecimento de um país é o fortalecimento da sua sociedade civil, que produz, gera empregos, paga impostos, cria tecnologia, forma pessoas, cultiva alimentos. Existe sociedade civil com Estado mínimo, mas jamais existirá Estado com sociedade civil mínima… a não ser que queiramos voltar ao Absolutismo e ao Feudalismo.

Nós precisamos mudar nossa mentalidade o quanto antes. O mundo já deu incontáveis exemplos de que isso é necessário, sob pena de sucumbirmos ao mesmo que muitas outras nações sucumbiram.

Pergunte-se por que o posto de saúde não atende melhor que a clínica particular, por que a escola particular ensina melhor que a pública e verá a resposta na sua frente com facilidade. Não é culpa das pessoas, é culpa dessa ideia antiga e ridícula que pulveriza sonhos, que acomoda o esforço, que zanga pela insuficiência, que mata pelo descaso, que se perde num labirinto que jamais deveria ter sido construído. Essa ideia gera acomodação, despreparo, desmotivação, ineficiência.

As pessoas sempre viverão melhor se colherem o fruto do seu trabalho. As pessoas sempre viverão melhor com liberdade e proporcionalidade.

O Estado, como ente indispensável que é, deve ser exemplo de líder: que apoia sem gerar acomodação; que ensina com o exemplo; que motiva e cobra; que gasta o necessário; que trata com igualdade; que é rigoroso com os outros como é consigo.

O Estado não é o servidor, o hospital, a delegacia. O Estado somos você e eu. Investidos em cargos ou não, todos o sustentamos e o representamos de alguma forma. O estadismo não faliu e não falirá, mas precisa ser repensado e redimensionado, sob pena de tornar-se igual ao pai fumante que morreu de câncer no pulmão e punia os filhos que fumavam. O que faliu foi esse socialismo criado por filhos de burgueses intelectuais que nunca suaram a camisa para trabalhar e que criaram um mundo de ideias para poderem viver na mesma mordomia que viviam quando eram sustentados pelos pais.

Estadismo não é socialismo. E enquanto uma coisa estiver associada a outra nosso caminho não nos levará ao destino que buscamos.