Ciclos

Num belo domingo de sol duas irmãs param o carro na sinaleira e são abordadas por dois jovens que recém chegavam de um trabalho realizado no interior. Eles mandam elas saírem do carro. Sem saber ao certo se tenta arrancar para fugir ou se movimenta o carro involuntariamente com o susto, um dos rapazes dá três tiros que vitimam a motorista. Eles retiram-na do carro e fogem, roubando-o. Horas depois o veículo é encontrado queimado, com o documento de um deles dentro. Já não servia para o desmanche ou para a clonagem, porque os receptadores não gostam de receber veículos que estão sendo procurados pela polícia. A morte foi em vão, como são todas. A vida fez com que deixassem cair a carteira que os identificaria.

Ser assaltante é pior que ser traficante. O usuário escolhe sua condição de vítima do tráfico, na maioria das vezes. O assaltado não. A morte por vício costuma ser lenta, à prestação. A morte por tiro é à vista.

Hoje ainda recebi pelo WhatsApp um vídeo de uma jovem que mora distante mas tem alguma relação comigo, onde ela está fazendo sexo com dois homens. Ela tem apenas 18 anos, certamente só pensava em se divertir e não fez nada de tão absurdo assim… mas a sociedade vai cobrar dela esse deslise para sempre. Se for médica ou fisioterapeuta, seus pacientes lembrarão. Se for advogada, juíza, policial, seus investigados lembrarão. Se for vendedora, cabeleireira, diarista, seus clientes lembrarão.

Recentemente um amigo sofreu um sequestro relâmpago e ficou cerca de uma hora e meia refém de dois ex-presidiários. Me disse ele que não sentiu raiva, até se compadeceu, de certa forma, do fato de que eles diziam precisar roubar porque não conseguiam trabalho. Estranhei. Sempre o achei severo com tais atitudes. O carro dele não foi recuperado. A seguradora já lhe deu um novo.

Julgamos e somos julgados a todo instante. Tomamos decisões e nos omitimos a toda hora. Ciclos constantes de ação e reação, atitude e espera, plantio e colheita.

Temos nos iludido com tantos discursos falsos sobre o comportamento humano que nos falta a convicção do certo e do errado para as coisas mais básicas socialmente. O bom e o ruim já não são unânimes como foram por séculos de humanidade. E isso tem lá seu lado bom, é inegável. O que não se pode jamais é deixar de lado aquilo que norteia a vida social.

A moralidade não deve ser construção ideológica. Certo e errado podem ser ideologicamente maleáveis, mas o bem e o mal não. A vida necessita que o que lhe faz bem seja valorizado e repudiado o que lhe faz mal. 

O ciclo da vida é acertar e errar. O que se faz e o que acontece depois que se erra é que nos diferencia como pessoas e como sociedade. Aceita-se, perdoa-se, tolera-se, pune-se, entende-se, regenera-se. Ou nada acontece, ao menos aparentemente.

Se estás atento ao teu redor, o universo explica muita coisa. Em cada dor, em cada alegria, em cada perda. A vida está sempre neste balançar e não deixa de pedir e dar a cada instante, a cada um de nós. Não estamos livres de nada disso.

Vou falar uma banalidade ocorrida comigo. Quebrou uma prótese dentária minha ontem à noite. Típica coisa chata, que incomoda. Enquanto me lamentava disso lia algumas postagens no Face e me compadeci com uma que pedia doação a um jovem com câncer. Fiz uma pequena doação. Bem, hoje pela manhã tentei alguns dentistas conhecidos para corrigir meu problema. Acabei encontrando horário com um senhor que nunca tinha visto nem ouvido falar, sem qualquer referência. Ele me atendeu prontamente. Me explicou uma série de coisas, pediu raio x, colou a prótese. Ao sair lhe agradeci e perguntei o valor. Ele me respondeu: nada. Foi apenas uma colagem, não vou lhe cobrar.

A era do medo

Medo é o principal instrumento de controle. Com o medo se conseguiu com que três milhões de escravos não se insurgissem contra trinta mil brancos na Bahia colonial. Com o medo se amarra um elefante num toquinho e se cerca um cavalo com tapumes. Com o medo o melhor time se acovarda perante o mais fraco. O medo esfria as relações, empobrece a economia, limita a criatividade, separa povos, afasta crentes divergentes, inibe o progresso.

Existem muitos antídotos para se combater o medo. O otimismo, a tolerância, o exemplo, a compaixão, a perseverança, a fé, a bondade são alguns dos incontáveis ingredientes deste antídoto. Mas não há e jamais haverá combate efetivo ao medo sem duas coisas: liderança e consciência.

Numa época em que se teme sair a rua e perder a vida para um ladrão de carros ou se aventurar num novo negócio e perder todo o seu patrimônio, dispormos de líderes que nos mostrem caminhos seguros é fundamental. Os desbravadores compassivos são os líderes de que mais precisamos neste momento. Pessoas que conseguiram furar o escudo do medo, atingiram seus objetivos e, agora, mostram aos demais que isso é possível. Liderança é importante em todos os aspectos da vida: o professor, na escola; o pastor, no culto; o chefe, na empresa; o capitão, na companhia; o diretor, na estatal; os pais, em casa. A sociedade que não fortalece as lideranças torna-se sem referência, contenta-se com qualquer possibilidade, vislumbra-se com pouco. Liderar hoje é muito diferente do que era no século passado, em que o ter estabelecia o líder. Hoje liderar é saber e mostrar. É fazer. Saber curar, saber combater o crime, saber atrair clientes, saber educar.

Então este saber torna-se o segundo elemento contra o medo: ter consciência. Conhecer-se. Entender-se. Tolerar-se. Motivar-se. Precisamos renovar nas pessoas a intenção de querer ser mais do que são, de buscar mais do que lhes é confortável, não por interesses patrimonialistas (o que também pode ser bom), mas principalmente porque o mundo precisa delas. O mundo precisa de pessoas conscientes dos seus limites, das suas virtudes, da sua missão.

Os líderes são exemplos do que podemos nos tornar. A consciência é meio de liderarmos nossas vidas.

E o medo? O medo é o que prevalece quando não conseguimos nos sentir protegidos nem suficientemente fortes para nos proteger. Seja do assaltante, seja da pobreza. Seja da doença, seja da morte.

Abdica de ouvir notícias que te trazem o medo. Conviva com pessoas destemidas ou, ao menos, ativas. Descubra o que lhe paralisa a iniciativa e o que lhe aquece o coração para nunca parar. Quando o medo chegar, procura em alguém que esteja mais forte e te esforça para não te abateres.

Sentir medo é natural. O que não é natural é permitirmos que este medo seja maior que nossa força de suplantá-lo.