Imprensa Polarizada

Confesso que estou surpreso com o tipo de comentários a que reduzimos nosso debate. Não é só em política. É sobre a sociedade, sobre relações humanas, sobre economia. Sobre criminalidade. Sobre casamento e comportamento.

Ao escolhermos ressuscitar a Guerra Fria criamos um problema difícil de resolver. Porque, afinal, já estivemos nesse período e o resultado dele é estarmos onde estamos. Ainda assim as pessoas estão divididas entre os anti-comunistas e os anti-fascistas (como há cem anos!), com suas razões plausíveis e com suas paranoias, criticando pela diferença de bandeira e não porque a reflexão assim determina. Tudo ficou polarizado e a imprensa não seria alienada deste fenômeno, inclusive com as leviandades que disso resultam.

Vejamos que se estivéssemos debatendo valores independente de ideologias e divisões de que natureza fossem, os problemas talvez estivessem em vias de serem efetivamente enfrentados. A coisa de ficarmos discutindo apenas ideologias nos fez deixar o debate reflexivo de lado e tudo que se produz são arrazoados mais ou menos inteligentes sobre os valores que não foram estabelecidos. Assim, quando um negro ativista é assassinado existe um tipo de reação diferente de quando um negro não ativista o é. Quando uma decisão administrativa produz um resultado, dependendo de quem a produziu tem-se uma aceitação ou rejeição. Veja que se defende há décadas no Brasil que não se reaja a investida de criminosos, mas quando uma mulher foi barbaramente espancada pelo marido se bradou que faltou quem a defendesse. Ora, falta que nos defendamos de tudo no Brasil! Nos tornamos bananas, ovelhas a espera do abate. E assim seguimos cavando trincheiras que interessam a quem quer manter a guerra… e essa guerra é ideológica.

O Brasil caminha para um governo de direita depois de Getúlio Vargas, o último dessa linha efetivamente (ainda que Collor assim fosse classificado, pouco fez nesse sentido). Getúlio era um quase fascista, simpatizante do nazismo e opositor do imperialismo americano por ser nacionalista. Ele criou diversas garantias legais a trabalhadores, criminosos, sindicatos, pautas que hoje seriam defendidas por outro espectro ideológico. Ainda assim, se aliou ao Ocidente na Grande Guerra porque os valores envolvidos assim determinaram. Era coerente, correto, necessário.

Hoje lemos, vemos e ouvimos incessantes artigos e reportagens absurdamente parciais. Parecem resultado de jornalistas educados sem entender que toda parcialidade histórica imprescinde de valores que a determinem, sob pena de tornarem-se propaganda e só isso. Os jornalistas se tornaram entregadores de argumentos dos ideólogos, como uma espécie de panfleteiros. Deixaram de olhar os fatos como tal e de analisar os argumentos com imparcialidade. É intolerável tudo em nossos dias, mas ser parcial e incoerente não.

Parte da imprensa critica aqueles que se identificam com os valores do imperialismo americano com argumentos que serviriam perfeitamente para aqueles que se identificam com os valores do imperialismo marxista. Fazem isso porque nos reduzimos a debatedores irreflexivos e esse nível de debate está nas salas de aula, nas mesas de bar, nas redes sociais.

A imprensa tem um papel indispensável na efetivação da democracia e da liberdade. Todo governo que cogita limitar a imprensa age contra a liberdade de pensamento, que é a primeira e mais importante das liberdades.

Que surjam jornalistas mais imparciais, mais conhecedores da história e mais preocupados em resolver isso que está posto e não apenas aptos a propagar esses rasos valores que mantém isso que está aí.

 

 

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Incoerência Polarizada

Caso você se preste a analisar os argumentos das disputas no espectro político-ideológico não terá dificuldade de constatar que há em cada lado o que se acusa no outro.

Veja, por exemplo, a crítica do pessoal de esquerda aos cristãos, de que são armamentistas e, assim, nem tão pacifistas quando seu mestre ensinou deviam ser. Seu mestre, continuam, não julgaria gays e marginais como o fazem.

Do outro lado, a crítica do pessoal da direita aos marxistas de Iphone, grande maioria oriunda de universidades e da classe média, como Marx, que nunca soube o que era trabalho duro e exigia que os ricos dividissem sua própria riqueza, mais não se dispunha nem a criar mais riqueza para fazê-lo, nem a dividir a que já tinha.

Esquerda grita com ódio nos olhos que os brancos e ricos odeiam os negros e pobres.

Direita rebate dizendo com ódio no discurso que os esquerdistas demagogos criam esta disputa por estratégia ideológica, ao invés de provar em atitudes que não são o que lhe acusam.

Há idiotia em qualquer classe social, em qualquer cor de pele, em qualquer orientação sexual. Há ódio e raiva em qualquer alma humana e a capacidade de reverter isso em algo mais nobre também. Não tenho relutância em afirmar que o discurso da esquerda marxista é bobo, imaturo e repleto de incoerências que se provam pela simples impossibilidade de implementação em qualquer época, em qualquer lugar, sempre que se tentou. E no caso sul-americano, o marxismo é tão presente que considera a social-democracia parte da direita… um absurdo. Foi o Partido Social Democrata alemão que transformou Marx no mito que hoje se conhece.

A direita, que é mais madura efetivamente em seu discurso, poderia sê-lo também ao rebater os frágeis argumentos marxistas. Sabem por que não é!? Porque todos temos nossos limites, nossos defeitos. Todos somos dotados de acertos e erros em nossas avaliações, em nossas análises.

A disputa de argumentos vai longe ainda. Poderíamos passar para um outro nível de diálogo, em que a efetividade fosse mais importante.

Dou exemplo (e posso estar errado): sou contra a liberação da maconha, mas sou a favor de liberá-la para que se verifique se a tal liberação ajudará a diminuir a criminalidade. Nos países em que se está tentando, há experiências positivas e negativas. Tenho particular convicção de que não vai, como tive com relação ao desarmamento da população civil. Mas precisamos permitir que certos experimentos sociais sejam implementados e precisamos olhá-los exatamente como experimentos, com atenção e olhar crítico.

Por outro lado, também precisamos acirrar nossa luta contra a impunidade e deixar de lado o discurso permissivo e vitimista. Do jeito que alguns pensam no Brasil, parece que por se ser pobre e vileiro o indivíduo precisa ser criminoso… o que é um sofisma infantil.

Brasileiro é violento, é desrespeitoso, é leviano, é parcial. Mas também é persistente e alegre e empático. Quem nos estuda deve considerar isso ao propor suas teses. Ficar alardeando que aqui se mata mais gays que em qualquer outro lugar do mundo é hipócrita, pois aqui é dos lugares que se mata mais qualquer tipo de gente. É desse tipo de debate que não precisamos.

Há hoje no mundo – não é um privilégio só nosso – uma polarização hipócrita e incoerente. Virou jogo de futebol a discussão política. Quero crer que seja positivo, pois ao menos estamos popularizando o debate. Contudo, o ser humano depende de suas lideranças – crer que a massa das pessoas vai agir com nobreza é algo, infelizmente, impensável. E as lideranças no regime democrático sabem dizer o que a maioria quer ouvir, ainda que seja o lixo. Por isso que aqueles que têm condição de lutar contra essa mesmice, contra essas bobagens, contra a adolescência da humanidade, precisam ajudar o debate a ir adiante.

É do mais preparado que precisamos esperar mais… e os mais preparados têm fugido desta responsabilidade.

 

A polarização é a falência do raciocínio

Disse Nelson Rodrigues que toda a unanimidade é burra e digo eu que a polarização é pior. Não que a polarização seja necessariamente burra, não o é, mas é pior porque nela a razão foi posta de lado. A polarização transforma o debate em embate, é paixão. O melhor raciocínio não é utilizado para avaliar a pauta, mas para afirmar o seu argumento diante do argumento alheio.

A polarização desconstrói o que foi construído, desvaloriza o oponente como uma disputa de guarda no Direito de Família, como se todo o amor que um dia se possa ter sentido tivesse se transformado em rancor e raiva.

A polarização deixa de lado qualquer possibilidade de entendimento quanto mais se passa o tempo, porque são tantos os ataques e os contra-ataques que, anos depois, não se sabe nem o motivo da disputa. Cada lado se sente o defensor da verdade e usa todo o seu arsenal para defendê-la. É como se alguém te xingasse e você sacasse uma arma e atirasse em revide e depois dissesse: “mas foi em legítima defesa, ele começou”. O tempo não ajuda o debate, o piora. São os debatedores (alguns) que, mais maduros, mudam o jeito de debater.

É a atitude polarizada que afirma que “bandido bom é bandido morto”, que “empresário só pensa em dinheiro”, que “funcionário público só olha pros seus privilégios” e por aí vai. Porque muitas vezes essas frases podem ser verdadeiras a esse ou aquele caso concreto, mas o raciocínio polarizado generaliza a análise e radicaliza a atitude.

Tenho de admitir uma coisa, contudo: a polarização é uma evolução à apatia. Sou dos que acredita que o ser humano jamais deixa um extremo para centrar-se. Ele cambaleia entre os extremos, num movimento pendular, até que esse pêndulo perde a força e acaba ao centro, no meio termo. Assim somos nós e nossas atitudes.

Então, meus amigos e amigas, respeitemos quem ainda não está pronto para debater com maturidade certos temas. Não que tenhamos de aceitar passivos suas impertinências… mas entendamos que tudo tem seu tempo. Chegaremos lá.