Por que greve?!

Imagina que você está numa relação amorosa onde deposita todos os seus melhores sentimentos e atitudes em prol do outro(a), mas não recebe o mesmo… passam-se meses, anos e você ali, com a mesma atenção e zelo, o mesmo carinho… vai acabar isso, não vai?!

Agora imagina que, para manter-se na relação e pedir valorização, você comece a fazer birra, dizer que não vai mais dar beijo nem carinho, depois não vai mais conversar, até dizer que vai se matar se o relacionamento acabar. Tem alguma chance disso se tornar uma relação boa pros dois lados?!

Pensa que você ama demais essa pessoa, mas um dia você percebe que o relacionamento de vocês não tem chance de fazê-los felizes, porque vocês querem coisas distintas, são diferentes demais nos seus propósitos, modo de ser, nas expectativas. É triste, mas com bastante reflexão e maturidade resolvem se separar e tentar um novo relacionamento quando a vida assim permitir…

A relação entre empregador e empregado não é diferente.

Patrão e empregado querem o mesmo (ou deveriam): que a empresa cresça, que tenha clientes, que ganhe muito dinheiro, que prospere e dê uma vida confortável e justa aos seus colaboradores e atenda adequadamente seus clientes. Quando um dos dos lados não está sendo respeitado pelo outro algo está errado. Talvez aquele não seja o melhor patrão para você. Talvez aquele não seja o melhor colega para atingir seus objetivos pessoais e profissionais. Talvez você esteja precisando de mais coragem para ir adiante, buscar quem lhe respeita, quem vai valorizar toda a capacidade profissional e os valores que você tem.

Claro que, eventualmente, não haverá outra saída a uma demanda profissional que não seja a reivindicação através de greve. Mas não tem outra forma de fazer isso?! Penso rápido em outras formas de reivindicar melhorias salariais e outras demandas:

(1) reduzir a jornada em 2h diárias e, depois do expediente, ir protestar em frente à sede do empregador;

(2) apresentar um projeto de aumento de produção vinculado ao aumento de rendimentos aos empregados;

(3) fazer uma operação padrão mostrando que, se mudasse X ou Y na atividade, se ganharia tempo/produtividade/eficácia;

(4) fazer uma campanha com os clientes para que entrassem em contato com o empregador através da plataforma Z e dissessem se acham válido a demanda por A ou B direitos.

Greve é um instrumento do Século XIX, quando não haviam sequer direitos trabalhistas, quando a polícia matava quem se negava a trabalhar 14h por dia. Greve é um desrespeito ao direito de um sem fim de pessoas que precisam dos serviços paralisados. E afeta eminentemente a população mais pobre, pois evidentemente os mais abonados e afortunados têm meios de resolver seus problemas de outras formas.

Greve é, nos dias atuais, uma forma de terrorismo light. Se explode o direito dos outros para pleitear o que se acha correto para si. E se espera apoio?!

Nós precisamos adequar nossa mentalidade ao Século XXI não apenas quanto às relações amorosas, quanto ao respeito à natureza, quanto às demandas sociais… passou da hora.

 

Banda Larga

Partiu da Presidência da Agência Nacional de Telecomunicações a informação de que a chamada banda larga deixaria de ser larga no Brasil. Isso foi em abril. De lá pra cá a Anatel suspendeu e retomou esse assunto algumas vezes, até que decidiu realizar audiência pública para ouvir a sociedade a respeito.

Vamos lá…

A Anatel é uma agência reguladora. Sua função é fiscalizar a regular a atuação dos serviços de telecomunicação. Seu Presidente é escolhido pelo Conselho Consultivo. Este conselho é escolhido por um conjunto de órgãos federais, dentre os quais a Presidência, o Senado, Câmara e as próprias entidades envolvidas.

Eu tenho um plano de dados no meu celular com 3GB. Ele funciona bem na maioria dos lugares. Recentemente testei a sua utilização no Netflix: 1h de utilização do 4G em alta resolução me consumiu 1,1GB. Testei no plano da minha esposa: 1h de utilização do seu 4G em baixa resolução consumiu 470MB do seu plano.

Sou advogado e, como tal, costumo trabalhar em casa. Como é de se esperar, a maioria dos tribunais já opera com o sistema de processos eletrônicos, onde não existirão mais os famosos processos de papel. Tudo é virtual e digital.

Meus filhos usam a internet full time. Eles provavelmente ficam mais tempo na internet do que em qualquer outra atividade, seja para estudar, jogar, ouvir música, conversar com amigos, ver um filme.

Na minha empresa, praticamente todos os serviços de atendimento são virtuais. Para cada vinte operações nossas, uma é pessoalmente e duas por telefone. Todas as demais pela internet. Meus funcionários falam com suas famílias e seus amigos usando o wi fi.

Vou ao banco duas vezes por ano, pessoalmente; pela internet, todos os dias. Agendo a visita dos prestadores de serviço da TV a cabo e do meu telefone por aplicativos. Leio notícias, estudo, converso, me divirto pela rede. Tudo é feito pela internet.

Como pode a agência reguladora do serviço de internet sugerir limitar isso?!

A Anatel deveria estar cobrando que as operadoras oferecessem serviços mais estáveis, mais rápidos, mais eficientes. Se a Anatel fizesse adequadamente sua fiscalização, não veríamos as filas de advogados e clientes aguardando para entrar em audiência nos Juizados Especiais Cíveis contra e a favor das operadoras. Se a Anatel fiscalizasse adequadamente as operadoras, a Oi provavelmente não chegaria no estado em que chegou.

Que tudo é caro no Brasil estamos cansados de saber… seja um iPhone, seja um plano de telefonia celular. Mas ser caro e limitado, é isso mesmo que pensa a agência que deveria fomentar o desenvolvimento do setor?!

Ok, estamos acostumados a nos pedirem que gastemos menos água, menos energia, menos combustíveis fósseis… isso faz sentido. Gastar menos internet serve pra que?! Pra pensar menos?! Pra saber menos?! Pra se comunicar menos?!

“As empresas de telefonia não podem mais sustentar este sistema”, dizem. Então mudem de atividade. Vão vender pastel. Ou, se preferirem continuar num setor que quer restringir usos, vão fiscalizar a produção de garrafas pet ou de alimentos com gordura trans.

O serviço de internet precisa ser ilimitado, é da sua natureza, da sua essência. É impossível imaginar um mundo onde as pessoas precisarão contar o número de palavras que serão ditas, o número de minutos em que ouvirão músicas e notícias, a quantidade de capítulos da sua aula EAD.

Tentar restringir o acesso à internet ilimitada é motivo de demissão por justa causa para o Presidente da Anatel. É como o Presidente do Tribunal de Justiça dizer que só podem julgar X processos por dia. Se alguém estiver precisando de uma liminar para ser internado num hospital com urgência, que espere amanhã ou contrate um Plano Top Plus Judiciário. É como o Boechat dizer no meio do Jornal da Band: “nos despedimos aqui do pessoal que tem plano de notícias econômico. No próximo bloco, você que tem plano de Notícias Max News saberá tudo sobre as investigações da Lava Jato e verá os gols da rodada”.

É isso mesmo: ridículo. É dividir o mundo da informação, da comunicação, do entretenimento em planos. É uma nova formação de castas, um novo modelo de controle social. Só um gestor comprometido com algo que não é o interesse público pode propor uma aberração destas.

A banda larga é a infraestrutura básica da comunicação de uma nação. É impossível limitá-la sem limitar o horizonte do país.

 

 

Haters gonna hate

Ódio é uma fonte inesgotável de maldade. Só há maldade sem ódio em psicopatas. Eles não sentem nada mesmo. Mas no resto, a maldade precisa do ódio.

Toda vez que nos manifestamos agressivamente contra uma pessoa, um comportamento ou um tipo de ideia estamos extravasando um pouco do nosso ódio e potencialmente fomentando o ódio alheio, a favor e contra nossa posição. O ódio é desses combustíveis mentais que vai inflamando… e é tão potente que, muitos de nós, achamos que precisamos odiar os que odeiam. É uma metástase racional do ódio. Um jogo de argumentação, onde nos convencemos de que esse ódio que sentimos do “mau” é bom.

Cresci numa família de caçadores. Em certa época da infância de meu pai, caçar era necessário para sobreviver. Convivi toda a minha vida com armas, por quase todos ao meu redor. Lá com meus dezoito anos, achei que não era mais necessário ter armas… dizia pra mim mesmo que não teria. Casei com 23 anos e com 24 fui morar numa casa com um grande pátio. Ali começaram meus problemas com a minha rejeição ao uso de armas. Várias vezes me acordei com barulhos no meu pátio. Comprei um cachorro. Criei mecanismos de defesa para me alertar se alguém tentasse entrar na minha casa. Ligar pra polícia, sem chance… duas viaturas para atender 100.000 pessoas na madrugada; era o que ouvíamos. Por um bom tempo tentei manter minha ideia de que não era necessário eu ter uma arma. Um dia eu estava a 130km de Viamão (eu morava lá) e um cara entrou no pátio enquanto minha ex-esposa estava tomando banho e tentou entrar em casa para violentá-la. Liguei pra polícia (nada, como sempre) e liguei para um tio que, por não estar em casa, não estava com sua arma… mas ele pegou um bastão e correu para a minha casa.

Não podemos viver de ideologias. A maturidade exige que saibamos olhar para a nossa realidade, participarmos da sua evolução mas não nos submetermos às suas maldades. Ter arma não faz alguém melhor ou pior que outro e pode sim resultar numa tragédia durante um surto de ódio.

Se tentou impedir que nós, brasileiros, tivéssemos armas por isso. Se disse que a arma é a responsável pelo imenso números de mortes violentas (cerca de 50mil todos os anos) no Brasil. Acontece que a maldade não precisa de armas e isso é fácil de se constatar. A arma é o último recurso que pode restar entre uma pessoa frágil e um agressor forte.

Nós precisamos perceber que as armas matam porque as pessoas querem matar. Armas não amam e não odeiam.

Um dia, quando tivermos uma polícia altamente preparada, uma sociedade mais participativa, honesta e pacífica, poderemos reavaliar a necessidade de se dispor de armas. Não é impedir o uso de armas que irá nos proteger da maldade humana. É impedir o uso da maldade que o fará. E isso depende da mudança de muitas coisas… nas pessoas.

Odiar é odioso. Só acredito na cura dessa onda de ódio que existe se nos dedicarmos a falar das coisas que funcionam, que dão certo, que podem mudar pra melhor. Reverenciar as coisas boas dos nossos adversários, dos nossos oponentes, dos nossos rivais, das nossas. Quanto mais falarmos que brancos odeiam negros, que muçulmanos odeiam ocidentais, que odiamos o vizinho, mais alimentaremos essa vibe. Deixemos nossas armas que atiram no ódio e na maldade coldreadas e travadas, para só a utilizarmos como defesa de quem as engatilhou, em último caso.

O assistencialismo

Você acha que a maioria das pessoas não querem ver os outros viverem uma boa vida, que não estão nem aí se o governo vai ajudar a conseguir moradia, estudo e saúde? Se você acha, pode parar a leitura por aqui. Essa reflexão é pra quem acredita que o ser humano, de maneira geral, gosta de estar bem e ver os outros bem.

Nós que queremos ver as pessoas ao nosso redor viverem bem, terem acesso ao estudo, ao emprego, à moradia, à felicidade, nós somos pessoas tendentes a concordar com as políticas assistencialistas. Afinal, o assistencialismo é uma forma de permitir que se realize esse nosso desejo, acreditamos.

Nós que achamos aceitável pagar impostos superiores à média mundial porque isso ajuda a sustentar a máquina que permitirá distribuir oportunidades e renda e isso, afinal, faz parte de um plano maior de igualar as pessoas desprivilegiadas, nós pagamos literalmente para que isso ocorra.

O assistencialismo, afinal, é a prestação de assistência a quem precisa. E basta olhar ao nosso redor para percebermos que muitas pessoas precisam.

Ora, é inegável que o Bolsa Família dá renda a pessoas que não tinham meios de atingir aquela renda. É inegável que as políticas cotistas dão vagas a quem não tinha a oportunidade de tê-las. É inegável que uma política fundiária de distribuição de terras vai permitir que famílias de agricultores pobres consigam finalmente a sua propriedade para trabalhar.

E isso é bom, não é?! Não.

O assistencialismo é como o analgésico. Ele é melhor que a dor, mas é pior que a cura. Faz parecer que é a solução para o problema, mas ataca somente a parte mais traumática e urgente.

O primeiro mito que precisa ser encerrado de uma vez por todas é o de que apenas as políticas públicas ajudam a resolver as desigualdades sociais. Isso é balela, é só procurar e verá. O Estado é mais uma das entidade que a cultura humana elaborou. Se é verdade que não visa o lucro – e isso não é mérito nem demérito – também é verdade que, mesmo sob a pecha de “público”, pode servir perfeitamente a interesses privados. Um botequeiro que dá emprego a um vizinho executa uma política social importante (mesmo que não tenha consciência disso) e essa relação é privada.

As políticas assistencialistas que enfrentamos, embora tenham um discurso inclusivo, são demagógicas. Não significa que não consigam proporcionar melhoria na vida de algumas pessoas, significa que não produzem o efeito que pretendem e acabam servindo de elemento de aprisionamento mental, ao invés de servirem de fonte de libertação pessoal.

Quando você estabelece uma cota universitária, por exemplo, está confessando que o sistema educacional predecessor falhou. Aí você coloca uma cota de inclusão na universidade e diz que isso equilibra os estudantes. É uma inverdade. Claro que haverão estudantes cotistas brilhantes, óbvio. Acontece que, como sempre, a grande maioria será engolida por uma rotina educativa inédita e desproporcional ao que conhece. Salvo se aquela universidade se adaptar a esta nova realidade diminuindo a sua exigência, o que prejudicará o sistema. Ou se algum projeto outro de compensação surgir. Por que não melhorar o sistema educacional?!

O Bolsa Família… chega a atender 50.000.000 de pessoas! Um quarto da população! Olha pro lado aí onde você está. Imagina que a cada quatro pessoas ao seu redor, uma recebe valores com a contra-prestação de manter filhos na escola. Essa escola que não forma adequadamente e, depois, dependerá de cota universitária para receber o aluno desprivilegiado. Agora imagina isso sistemicamente. Imagina daqui a 20 anos um aluno que estudou por dinheiro sendo ingresso na universidade porque é pobre. Você entendeu?! Você entendeu que não é mais necessário esforço, mérito, vontade, superação?! Você percebe que pessoas que não estão acostumadas a enfrentar a sua realidade com a vontade de vencer são pessoas que dependerão de alguém?! Nem que seja do Estado?! E que depender de alguém, nem que seja do Estado, não é ser livre?! Não é ser adulto!?

A sociedade é construída a partir dos valores que cultivamos. Quando se diz a uma pessoa que ela precisa se superar para atingir seus objetivos, estamos criando uma sociedade de pessoas que transformam suas dificuldades em motivação para algo melhor. Quando dizemos a uma pessoa que ela é uma coitada e que não se preocupe que iremos ajudá-la, mesmo ela tendo condição de ajudar-se por si, o que estamos construindo!?

É óbvio que desejo que o Estado atenda as pessoas que necessitam. Que dê comida e dê abrigo a miseráveis, que transfira conhecimento a todos. O que não quero é que o Estado pode a principal força de aprimoramento humano que é a autodeterminação. O Estado não pode substituir os sonhos da pessoa, sua capacidade de olhar ao seu redor e identificar-se como parte do problema e da solução. O Estado não pode olhar para 1/4 dos brasileiros e achar que são incapazes, dependentes dos outros 3/4, pois eles podem acreditar nisso. E isso é mentira.

Uma política de inclusão séria desenvolveria o país. Faria com que oportunidades, trabalho, vagas em hospitais e universidades, fossem construídas. Isso é inclusão real, quando as pessoas vão, passo a passo, interagindo com seu ambiente, absorvendo experiências que lhes serão úteis e retornarão à sociedade com a sua contribuição pessoal.

Você já pensou por que existe tanto interesse em fazer as pessoas serem dependentes do Estado?! O Estado, por acaso, é melhor que você e eu?!

O ser humano não pode ser tratado como coitado. Não pode admitir-se o coitadismo. O Estado que transfere recursos de quem produz e trabalha para pagar a segurança, a educação, a saúde básica, a infraestrutura de uma nação, e faz isso plenamente, cumpre o seu papel. Um Estado que não consegue fazer o básico das suas obrigações e poda a capacidade dos seus de se desenvolver, seja porque espreme demais uns ou porque entrega demais a outros, é como o pai que exige demais de um filho e mima o outro. Cedo ou tarde a família estará desunida, com o filho mimado cada vez mais dependente e o outro trabalhador cada vez mais capacitado e calejado.

Enquanto não for valor efetivo o trabalho, a autodeterminação e a liberdade pessoal (liberdade, aqui, aquela em que não dependemos), as políticas assistencialistas ideologizadas servem apenas para mover a roda do populismo e da demagogia.

Recomeçar

Goethe sentenciou que preferia a injustiça à insegurança e isso se tornou um mantra de repúdio por boa parte das cabeças libertárias. Quando disse isso, o filósofo alemão estava justificando que entre eventuais atitudes injustas causadas pelo erro de atuação da autoridade estatal e a ausência desta atuação – que gerava insegurança seja pela omissão, seja por não se saber o que poderia ou não poderia ser feito diante do Estado e da sociedade – preferia a primeira hipótese, pois ao menos a ideia de injustiça exara o sentido de que se sabe o certo e o errado, enquanto a insegurança é justamente o desatino destes sentidos.

Uma sociedade permeada de direitos impraticáveis é melhor que uma sociedade com direitos mínimos mas respeitados?!

Uma sociedade que, nos seus indivíduos, se permite a prática do que é moralmente condenável tem legitimidade de exigir do Estado que lhes preste a devida segurança?!

Um Estado que privilegia seus integrantes e exige do conjunto privado o que não exige dos seus é capaz de promover a alardeada “justiça social”?!

O cenário atual só poderia ser mais agravado em termos de insegurança social se estivéssemos em guerra. Com mais de 110.000 mortes violentas por ano, o Brasil supera qualquer país do mundo em números proporcionais ou absolutos de mortes, salvo os em conflito bélico.

E isso muda algo?! Mesmo que seja uma mudança errada, daquelas que demonstram que ao menos se tem atitude frente ao que acontece… algo muda?! Digo que sim. A lei. A lei no Brasil muda corriqueiramente. É o positivismo pregado por Goethe aplicado subversivamente pelo nosso jeitinho. No Brasil, toda vez que a autoridade governamental não sabe como resolver algo ela muda a lei. E aí, ao menos oficialmente, tudo está resolvido. A culpa, se der errado, é dos que não a cumprem.

Acontece que nosso problema é justamente esse! O Brasil é formado por uma exército de pessoas que acham que podem fazer o que querem e não haverá consequências. Acham que a velocidade excessiva não mata. Acham que o aumento de adicionais e subsídios é mais importante que o repasse de valores aos hospitais. Acham que o ar condicionado no gabinete é mais útil que na escola. Acham que o lixo no bueiro não dá nada. Acham que comprar contrabando, pagar por TV clandestina e colocar rádio roubado no carro é bobagem.

Existe uma sociedade hipócrita sim no Brasil, mas não apenas com relação ao racismo, às diferenças de gênero e aos casos de abuso noticiados. Nossa hipocrisia é achar que podemos agir mal e viver bem, é olhar pela janela de binóculo e no espelho de revesgueio.

O mundo civilizado está percebendo, com os ataques terroristas, que não há Estado capaz de impedir a má atuação humana. O que nos protege de nós outros são nossas atitudes. O que assegura que meu vizinho não me fará mal é o meu relacionamento com ele, a minha e a sua posturas. O máximo que o Estado pode fazer é punir aquele que já ultrapassou a barreira da legalidade.

Pois bem, no Brasil ainda esperamos que os outros resolvam nossas paradas… seja a polícia, seja o governo, seja o Judiciário, seja o Badanha. Tem meia dúzia de sem vergonhas que fazem o que querem, servem de mau exemplo aos incautos e o resto assiste omisso.

Que 2016 marque um recomeço individual em nossas vidas onde deixemos de esperar que o externo faça algo por nós e passemos nós a fazer algo pelos demais.

 

 

Planejamento Previdenciário Pessoal

Todos nós um dia nos aposentaremos. Alguns, infelizmente, passarão por isso antes do tempo desejado. A todos os trabalhadores que se empenham ao longo da vida para desenvolver a sua atividade laboral cabe o direito de se aposentar após determinado período de contribuições ou de ser pensionado em caso de incapacidade. A seguridade social é um dos elementos de maior relevância da atuação estatal, estando garantida constitucionalmente a todos os brasileiros e estrangeiros que trabalham no Brasil.

Agora me responda uma coisa: por que ainda nos preocupamos com nossa aposentadoria apenas quando vai chegando a época de requerê-la? Não estou falando quanto ao pagamento das contribuições, mas quanto ao conjunto de informações que servirão para a concessão do benefício?

No Brasil, o INSS possui o CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais – para acessá-lo clique aqui). Nele estão inseridas todas as informações laborais e contributárias do segurado da Previdência Social. É uma espécia de Carteira de Trabalho digitalizada. É com base neste banco de informações que os benefícios do segurado/trabalhador serão analisados.

É por esta razão que se faz tão importante o Planejamento Previdenciário Pessoal. Recomenda-se que a cada cinco anos, no máximo, o segurado solicite no INSS uma cópia do seu CNIS e consulte um advogado previdenciarista para verificar se as anotações que constam estão adequadas. Caso não estejam – o que é absolutamente comum – deve-se buscar o mais rápido possível a correção.

Pense comigo: daqui a 30 anos você resolve pedir o benefício da Aposentadoria por Tempo de Contribuição. Lá chegando no INSS você percebe que vários salários do seu segundo emprego, há 28 anos atrás, estão errados. A empresa nem existe mais. Você deverá apresentar uma CTPS que for extraviada pelo seu quinto empregador. Entendeu?!

Se o trabalhador mantém atualizados e corretos os seus dados previdenciários junto ao CNIS, sempre que precisar de algum dos benefícios da Previdência Social com certeza verá a sua concessão ser mais rápida e correta.

Não deixa de acompanhar regularmente o seu CNIS e consulte um advogado previdenciarista sempre que tiver dúvidas ou pretender corrigir equívocos ali verificados.

A sua solicitação do CNIS pode ser feita em qualquer agência do INSS no país, sem necessidade de prévio agendamento.

Por que o estadismo faliu?

Quando acabou o muro de Berlin, em 1989, muito se disse que aquele era o fim do socialismo e isso não entrava na minha cabeça. Eu não conseguia entender porque a queda do muro poderia significar o fim de um sistema político-ideológico em que a prioridade era o bem comum, o social. O socialismo voltou para minha vida com toda a força durante a faculdade de Direito. É sabido que o ambiente universitário brasileiro é apaixonado pelos ideais socialistas, em subversão a este “monstro demoníaco do imperialismo americano!”. Com dezessete anos eu estava na faculdade estudando Marx e Engels e filiado ao Partido dos Trabalhadores. Com dezenove eu já sabia que aquilo tudo na prática era muito diferente do que eu lia.

O conteúdo ideológico de um socialista – leia-se socialista, no Brasil, igual a marxista – parte do princípio de que o Estado é melhor que a iniciativa privada. Então, dar esmolas na sinaleira é errado: você deve doar o dinheiro a uma entidade ou ao Estado para que cuide dos necessitados. Ter armas em casa é ruim. Só os policiais podem tê-las, pois são mais preparados e honestos no seu uso. Cobrar impostos é necessário pois o Estado cuida de todos e a nobreza da vida cidadã está justamente em partilhar parte da sua riqueza com o Estado para que ele cuide dos mais necessitados. O socialista-marxista vê o Estado como um religioso vê a Deus, como algo maior, mais nobre, mais necessário, mais virtuoso.

Este pensar cria uma série de derivados. Por exemplo, trabalhar para o Estado é mais nobre do que trabalhar para si. Outro exemplo: enriquecer é desvirtuoso porque explora o trabalho e o dinheiro alheio para fins particulares. Mais uma: o Estado precisa ser o ente mais forte do país.

Com base nessa mentalidade criam-se as bases estatais, os direitos e deveres que cada um deve ter, pois o Estado não é nada sem as pessoas.

Um dos resultados dessa mentalidade é que ela transfere muito da mão-de-obra capacitada para os quadros estatais. Ali você terá uma série de benefícios e prestígio incomparáveis. E se acomodará.

Só que, ao contrário do que essa ideologia prega, o Estado não é mais virtuoso que a sociedade civil. Nem mais, nem menos.

O Estado é formado por pessoas como as outras. Se a sociedade é corrupta, o Estado o será. Se a sociedade é mal preparada tecnicamente, idem o Estado. Se o cidadão está desestimulado com a vida, o servidor provavelmente estará.

Ver o Estado como algo superior é eleger um salvador que não nos salvará.

O fortalecimento de um país é o fortalecimento da sua sociedade civil, que produz, gera empregos, paga impostos, cria tecnologia, forma pessoas, cultiva alimentos. Existe sociedade civil com Estado mínimo, mas jamais existirá Estado com sociedade civil mínima… a não ser que queiramos voltar ao Absolutismo e ao Feudalismo.

Nós precisamos mudar nossa mentalidade o quanto antes. O mundo já deu incontáveis exemplos de que isso é necessário, sob pena de sucumbirmos ao mesmo que muitas outras nações sucumbiram.

Pergunte-se por que o posto de saúde não atende melhor que a clínica particular, por que a escola particular ensina melhor que a pública e verá a resposta na sua frente com facilidade. Não é culpa das pessoas, é culpa dessa ideia antiga e ridícula que pulveriza sonhos, que acomoda o esforço, que zanga pela insuficiência, que mata pelo descaso, que se perde num labirinto que jamais deveria ter sido construído. Essa ideia gera acomodação, despreparo, desmotivação, ineficiência.

As pessoas sempre viverão melhor se colherem o fruto do seu trabalho. As pessoas sempre viverão melhor com liberdade e proporcionalidade.

O Estado, como ente indispensável que é, deve ser exemplo de líder: que apoia sem gerar acomodação; que ensina com o exemplo; que motiva e cobra; que gasta o necessário; que trata com igualdade; que é rigoroso com os outros como é consigo.

O Estado não é o servidor, o hospital, a delegacia. O Estado somos você e eu. Investidos em cargos ou não, todos o sustentamos e o representamos de alguma forma. O estadismo não faliu e não falirá, mas precisa ser repensado e redimensionado, sob pena de tornar-se igual ao pai fumante que morreu de câncer no pulmão e punia os filhos que fumavam. O que faliu foi esse socialismo criado por filhos de burgueses intelectuais que nunca suaram a camisa para trabalhar e que criaram um mundo de ideias para poderem viver na mesma mordomia que viviam quando eram sustentados pelos pais.

Estadismo não é socialismo. E enquanto uma coisa estiver associada a outra nosso caminho não nos levará ao destino que buscamos.

Crise? Que crise?!

Gosto de história e gosto de pensar em como as coisas já foram no passado. Vamos pegar o século XIX, por exemplo. População quase totalmente rural, sem estrutura estatal quase nenhuma, sem escolas públicas, sem hospitais públicos, sem pedágios, sem segurança, sem sindicatos, sem televisão. Se você precisasse de algo deveria fazer. Se você precisasse de assistência médica teria de procurar uma das Santas Casas ou um curandeiro. Se você precisasse de segurança deveria se armar e solicitar o apoio dos seus vizinhos… e eles fariam o mesmo.

E o início do século XX? Duas grandes guerras, radicalização política, fraudes eleitorais e praticamente todos os problemas do século passado.

Vou pular pros dias de hoje. Claro que enfrentamos uma crise econômica. O título é provocativo. É a segunda maior crise econômica que conheci, a primeira como adulto. Como empresário e autônomo, me esforcei muito para manter os negócios e os empregos dos meus colegas. Não tenho conseguido tudo a que me propus. Estou fazendo escolhas difíceis. Meu patrimônio e minha paciência andam bastante prejudicados.

A provocação que empenho no título vem de uma entrevista que acompanhei à nobreza indiana (eu não sabia que ela existia!). Como sabemos, a Índia é um país maior que o nosso, mais populoso e mais pobre. Então o entrevistador pergunta:

– Vocês têm estes lindos palácios, riquíssimos e, do outro lado da foto, uma pobreza gigantesca. As pessoas aqui não se revoltam com essa disparidade?

– Não. Elas sabem que estes palácios foram construídos por gerações e gerações de famílias que lutaram para defendê-los. E sabem que a riqueza adquirida por estas famílias foi usada ao longo dos séculos para construir hospitais, escolas, habitações para auxiliar nos problemas das pessoas daqui. As pessoas sabem que sua vida seria pior sem os nobres.

Pensei comigo que esse mundão é muito grande e muito diferente mesmo…

Vivo num país que cobra tributos de mais de um terço de tudo que produzo (não estou falando em lucro, estou falando “produzo”!). É um país que tem uma boa rede de assistência pública, mas os serviços infelizmente não conseguem atender a contento. É um país que, como vimos no resumo histórico, já foi pior. Já tivemos nobreza e hoje temos algo parecido, se pensarmos que há grupos que são sustentados pela arrecadação de valores da sociedade sem que retribuam a altura este esforço. Com nossas características, boas e más, pensamos nossa relação com o Estado e tudo o mais de forma absolutamente distinta desta manifestada na entrevista.

Nossa crise financeira é severa, mas nossa crise de valores e referências é gigantesca. Não sabemos para que trabalhamos, para que pagamos tantos impostos, para que respeitamos tantas regras, para que compartilhamos nossos espaços. Somos reféns de uma falta de identidade que nunca foi devidamente abordada. Nunca houvi no Brasil falarmos algo diferente de crise. Crise disso e daquilo.

Há nações que vivem para guerra, outras para o trabalho. Nós, parece, vivemos para o futebol. Se é verdade que toda a crise é passageira espero que em breve eu sofra uma crise de risos.

A era do medo

Medo é o principal instrumento de controle. Com o medo se conseguiu com que três milhões de escravos não se insurgissem contra trinta mil brancos na Bahia colonial. Com o medo se amarra um elefante num toquinho e se cerca um cavalo com tapumes. Com o medo o melhor time se acovarda perante o mais fraco. O medo esfria as relações, empobrece a economia, limita a criatividade, separa povos, afasta crentes divergentes, inibe o progresso.

Existem muitos antídotos para se combater o medo. O otimismo, a tolerância, o exemplo, a compaixão, a perseverança, a fé, a bondade são alguns dos incontáveis ingredientes deste antídoto. Mas não há e jamais haverá combate efetivo ao medo sem duas coisas: liderança e consciência.

Numa época em que se teme sair a rua e perder a vida para um ladrão de carros ou se aventurar num novo negócio e perder todo o seu patrimônio, dispormos de líderes que nos mostrem caminhos seguros é fundamental. Os desbravadores compassivos são os líderes de que mais precisamos neste momento. Pessoas que conseguiram furar o escudo do medo, atingiram seus objetivos e, agora, mostram aos demais que isso é possível. Liderança é importante em todos os aspectos da vida: o professor, na escola; o pastor, no culto; o chefe, na empresa; o capitão, na companhia; o diretor, na estatal; os pais, em casa. A sociedade que não fortalece as lideranças torna-se sem referência, contenta-se com qualquer possibilidade, vislumbra-se com pouco. Liderar hoje é muito diferente do que era no século passado, em que o ter estabelecia o líder. Hoje liderar é saber e mostrar. É fazer. Saber curar, saber combater o crime, saber atrair clientes, saber educar.

Então este saber torna-se o segundo elemento contra o medo: ter consciência. Conhecer-se. Entender-se. Tolerar-se. Motivar-se. Precisamos renovar nas pessoas a intenção de querer ser mais do que são, de buscar mais do que lhes é confortável, não por interesses patrimonialistas (o que também pode ser bom), mas principalmente porque o mundo precisa delas. O mundo precisa de pessoas conscientes dos seus limites, das suas virtudes, da sua missão.

Os líderes são exemplos do que podemos nos tornar. A consciência é meio de liderarmos nossas vidas.

E o medo? O medo é o que prevalece quando não conseguimos nos sentir protegidos nem suficientemente fortes para nos proteger. Seja do assaltante, seja da pobreza. Seja da doença, seja da morte.

Abdica de ouvir notícias que te trazem o medo. Conviva com pessoas destemidas ou, ao menos, ativas. Descubra o que lhe paralisa a iniciativa e o que lhe aquece o coração para nunca parar. Quando o medo chegar, procura em alguém que esteja mais forte e te esforça para não te abateres.

Sentir medo é natural. O que não é natural é permitirmos que este medo seja maior que nossa força de suplantá-lo.

Políticas Públicas

Você fica observando uma barreira policial ser montada numa grande avenida. Radar, bafômetro, vários agentes. Passa um motorista sem cinto de segurança… nada. Passa outro falando ao celular… nada. O agente do radar flagra um veículo 20% acima da velocidade permitida… nada. Nem uma autuação. Você se encoraja a pegar o seu carro que está com os faróis queimados, passa pela barreira e é autuado. Qual a sensação que fica?

Você está numa churrascaria saboreando uma picanha mal passada, quando entra um grupo de ativistas vegetarianos militando contra a mortandade dos animais que são servidos aos humanos carnívoros, entoando palavras prudentes sobre a desnecessidade de sacrificarmos outros animais para nossa alimentação. Qual a sensação que fica?

Seu filho está na escola privada católica, que é a sua religião, quando recebe a visita de um grupo de monges budistas que foram ao local por determinação do governo para destituir os conceitos religiosos que você gostaria que seu filho adquirisse. Os monges passam a esclarecer que, em verdade, existe reencarnação e interdependência entre todos os seres da Terra. Qual a sensação que ficaria?

As políticas públicas brasileiras estão sendo praticadas de forma similar ao que apresento nos relatos fictícios acima. Escolhe-se o que é repreendido pelo Estado de acordo com objetivos políticos e ideológicos. Escolhe-se o que é defendido pela máquina estatal, desinteressando os valores que cada um deveria poder escolher para si e sua família, mas sim de acordo com os valores que o Estado entende devam ser reproduzidos pela massa.

Quando buscamos realmente a igualdade, o primeiro passo é não nos preocuparmos em discriminar. Por que aceitamos que, para curar discriminações, discriminemos!? Por que os valores de quem quer que seja devem ser impostos aos outros?!

Um Estado maduro exige que os serem humanos se tratem com respeito. Eu respeito seu culto, suas tradições, suas escolhas e você respeita as minhas. Eu e meus valores seremos parte de um grupo que se identifique e você e seus valores serão parte de outro. Cada um de nós frequentará os lugares que desejar para manifestar nossas crenças, valores e sentimentos e, quando estivermos em locais comuns, nos respeitaremos porque somos seres humanos, diferentes em escolhas mas iguais em importância e significado. Você não precisa acreditar no meu Deus, nem amar quem eu amo. Você não precisa se preocupar em me agradar e não precisa temer minha diferença.

Estamos a todo instante mudando a regra do jogo de acordo com interesses sazonais porque, por enquanto, estes interesses ainda não são beligerantes… mas, nesse andar, logo serão. Não é mais fácil o Estado garantir o direito à diferença dos diferentes? Não é mais maduro o Estado exigir o respeito e a liberdade de todos e não apenas de uns?

Um olhar atendo permitiria constatar que, se num estádio de futebol se propaga todo tipo de insulto, insultar é que deveria ser repreendido. Se numa igreja os valores pregados divergem dos meus, eu vou em outra. Há padronizações justas e padronizações injustas. O Estado deve padronizar sua atuação de forma a tratar todos com igualdade e de forma a permitir que as pessoas sejam respeitadas em suas diferenças. São as políticas públicas que definem a atuação do Estado nestas padronizações… você tem certeza que as padronizações hoje escolhidas são boas?