Ponto de Vista

Ponto um: eu me cansei de ser genericamente chamado de machista, racista, homofóbico e explorador por ser homem, branco, hétero e empresário. Já faz uns três ou quatro anos que estou farto disso e, para não começar a odiar quem vive repetindo esse discurso pobre e triste, me desliguei.

Ponto dois: é por sentir isso que me compadeço com o que passam os gays, os negros, as mulheres vítimas de seus companheiros e todas as demais pessoas que são desrespeitadas por este ou aquele agressor. É sempre importante reconhecermos que existem sim problemas graves de desrespeito e intolerância. Contudo temos de reconhecer também que a forma de se lidar com tais problemas tem sido muitas vezes retribuir a agressão com outro tipo de agressão, a discriminação com outro tipo de discriminação, a violência com outra forma de violência e o desrespeito com um revide de desrespeitos.

Ponto três: sabendo disso, temos de parar de criar divisões e impor condutas. As pessoas têm todo o direito de serem diferentes e de pensar diferente. Elas têm até mesmo o direito de odiar… desde que se mantenham contidas nessa postura. Chega de ficarmos criticando quem quer mudar ou quem quer continuar sendo como sempre foi.

Ponto quatro: numa época de superexposição, parece importante expor tudo o que somos e pensamos. Nem tudo precisa ser exposto, principalmente aquilo que não vai colaborar, que vai apenas extravasar algo que é nosso e não precisa ser compartilhado. Guarde seu ódio e o leve para seu terapeuta. Trate sua raiva ou sua frustração, seja a de ser hétero, de ser homo, de ser burro, de ser corno, a que for. Tudo tem meios de ser melhorado com a conduta adequada.

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Haters gonna hate

Ódio é uma fonte inesgotável de maldade. Só há maldade sem ódio em psicopatas. Eles não sentem nada mesmo. Mas no resto, a maldade precisa do ódio.

Toda vez que nos manifestamos agressivamente contra uma pessoa, um comportamento ou um tipo de ideia estamos extravasando um pouco do nosso ódio e potencialmente fomentando o ódio alheio, a favor e contra nossa posição. O ódio é desses combustíveis mentais que vai inflamando… e é tão potente que, muitos de nós, achamos que precisamos odiar os que odeiam. É uma metástase racional do ódio. Um jogo de argumentação, onde nos convencemos de que esse ódio que sentimos do “mau” é bom.

Cresci numa família de caçadores. Em certa época da infância de meu pai, caçar era necessário para sobreviver. Convivi toda a minha vida com armas, por quase todos ao meu redor. Lá com meus dezoito anos, achei que não era mais necessário ter armas… dizia pra mim mesmo que não teria. Casei com 23 anos e com 24 fui morar numa casa com um grande pátio. Ali começaram meus problemas com a minha rejeição ao uso de armas. Várias vezes me acordei com barulhos no meu pátio. Comprei um cachorro. Criei mecanismos de defesa para me alertar se alguém tentasse entrar na minha casa. Ligar pra polícia, sem chance… duas viaturas para atender 100.000 pessoas na madrugada; era o que ouvíamos. Por um bom tempo tentei manter minha ideia de que não era necessário eu ter uma arma. Um dia eu estava a 130km de Viamão (eu morava lá) e um cara entrou no pátio enquanto minha ex-esposa estava tomando banho e tentou entrar em casa para violentá-la. Liguei pra polícia (nada, como sempre) e liguei para um tio que, por não estar em casa, não estava com sua arma… mas ele pegou um bastão e correu para a minha casa.

Não podemos viver de ideologias. A maturidade exige que saibamos olhar para a nossa realidade, participarmos da sua evolução mas não nos submetermos às suas maldades. Ter arma não faz alguém melhor ou pior que outro e pode sim resultar numa tragédia durante um surto de ódio.

Se tentou impedir que nós, brasileiros, tivéssemos armas por isso. Se disse que a arma é a responsável pelo imenso números de mortes violentas (cerca de 50mil todos os anos) no Brasil. Acontece que a maldade não precisa de armas e isso é fácil de se constatar. A arma é o último recurso que pode restar entre uma pessoa frágil e um agressor forte.

Nós precisamos perceber que as armas matam porque as pessoas querem matar. Armas não amam e não odeiam.

Um dia, quando tivermos uma polícia altamente preparada, uma sociedade mais participativa, honesta e pacífica, poderemos reavaliar a necessidade de se dispor de armas. Não é impedir o uso de armas que irá nos proteger da maldade humana. É impedir o uso da maldade que o fará. E isso depende da mudança de muitas coisas… nas pessoas.

Odiar é odioso. Só acredito na cura dessa onda de ódio que existe se nos dedicarmos a falar das coisas que funcionam, que dão certo, que podem mudar pra melhor. Reverenciar as coisas boas dos nossos adversários, dos nossos oponentes, dos nossos rivais, das nossas. Quanto mais falarmos que brancos odeiam negros, que muçulmanos odeiam ocidentais, que odiamos o vizinho, mais alimentaremos essa vibe. Deixemos nossas armas que atiram no ódio e na maldade coldreadas e travadas, para só a utilizarmos como defesa de quem as engatilhou, em último caso.

A era do medo

Medo é o principal instrumento de controle. Com o medo se conseguiu com que três milhões de escravos não se insurgissem contra trinta mil brancos na Bahia colonial. Com o medo se amarra um elefante num toquinho e se cerca um cavalo com tapumes. Com o medo o melhor time se acovarda perante o mais fraco. O medo esfria as relações, empobrece a economia, limita a criatividade, separa povos, afasta crentes divergentes, inibe o progresso.

Existem muitos antídotos para se combater o medo. O otimismo, a tolerância, o exemplo, a compaixão, a perseverança, a fé, a bondade são alguns dos incontáveis ingredientes deste antídoto. Mas não há e jamais haverá combate efetivo ao medo sem duas coisas: liderança e consciência.

Numa época em que se teme sair a rua e perder a vida para um ladrão de carros ou se aventurar num novo negócio e perder todo o seu patrimônio, dispormos de líderes que nos mostrem caminhos seguros é fundamental. Os desbravadores compassivos são os líderes de que mais precisamos neste momento. Pessoas que conseguiram furar o escudo do medo, atingiram seus objetivos e, agora, mostram aos demais que isso é possível. Liderança é importante em todos os aspectos da vida: o professor, na escola; o pastor, no culto; o chefe, na empresa; o capitão, na companhia; o diretor, na estatal; os pais, em casa. A sociedade que não fortalece as lideranças torna-se sem referência, contenta-se com qualquer possibilidade, vislumbra-se com pouco. Liderar hoje é muito diferente do que era no século passado, em que o ter estabelecia o líder. Hoje liderar é saber e mostrar. É fazer. Saber curar, saber combater o crime, saber atrair clientes, saber educar.

Então este saber torna-se o segundo elemento contra o medo: ter consciência. Conhecer-se. Entender-se. Tolerar-se. Motivar-se. Precisamos renovar nas pessoas a intenção de querer ser mais do que são, de buscar mais do que lhes é confortável, não por interesses patrimonialistas (o que também pode ser bom), mas principalmente porque o mundo precisa delas. O mundo precisa de pessoas conscientes dos seus limites, das suas virtudes, da sua missão.

Os líderes são exemplos do que podemos nos tornar. A consciência é meio de liderarmos nossas vidas.

E o medo? O medo é o que prevalece quando não conseguimos nos sentir protegidos nem suficientemente fortes para nos proteger. Seja do assaltante, seja da pobreza. Seja da doença, seja da morte.

Abdica de ouvir notícias que te trazem o medo. Conviva com pessoas destemidas ou, ao menos, ativas. Descubra o que lhe paralisa a iniciativa e o que lhe aquece o coração para nunca parar. Quando o medo chegar, procura em alguém que esteja mais forte e te esforça para não te abateres.

Sentir medo é natural. O que não é natural é permitirmos que este medo seja maior que nossa força de suplantá-lo.