O direito de ter direito

A lei escrita mais antiga conhecida é o Código de Hamurabi, datado de mais de 1700 anos antes de Cristo, lá da Mesopotâmia (Irã). É uma lei que trata de diversos direitos, como escravidão, família, dívidas, homicídio. Todos estes temas são regrados até hoje e não foi pela existência de uma lei que deixaram de ser desrespeitados nas relações sociais. Por quê? Lei é letra morta. O que lhe dá vida é o que vem antes e depois. Antes, pelo aspecto cultural: se a lei determina algo diverso daquilo que o costume pratica ou possa praticar, tenderá a ser desrespeitada. Depois, pelo aspecto funcional: é princípio jurídico que a lei que não impõe sanção ao seu descumprimento é inócua. Portanto, sanção não aplicada é atuação estatal (e legislativa) inócua.

Acreditou-se, por exemplo, que restringir legislativamente o uso de armas de fogo diminuiria a criminalidade no Brasil, como o fez na Inglaterra e Japão. Não foi feito nada além disso. É óbvio demais, mas o óbvio também precisa ser dito: só quem cumpriu a lei foram as pessoas que respeitam a lei e a sociedade. Os criminosos continuaram andando armados e, pior, se sentindo mais poderosos frente à certeza de que as chances de reação diminuíram consideravelmente.

Essa característica mental que faz acreditar que basta editar uma norma para que a sociedade se torne o que ela propõe deriva de uma imaturidade difícil de ser admitida e que, sob argumentos intelectuais relativamente bem articulados, conquista apoiadores ingênuos e bem intencionados. Quem dera dizer que homicídio é severamente punido pela lei para que os homens deixassem de se matar. Os homens deixam de se matar, primeiramente, porque tem medo. Só os mais evoluídos (e não há outra palavra, infelizmente) é que, por respeito ao outro, lhe poupariam a vida num momento grave.

Bem, há países quebrando mundo a fora porque se acreditou que bastava distribuir direitos que eles automaticamente seriam implementados. Porque a Noruega consegue dar licença maternidade de 35 semanas, acham que é só criar uma lei igual para distribuir o mesmo benefício… e quem pagará por isso? Como pagará?

Além disso, porque a Noruega dá este benefício, se trata como se o mundo civilizado fizesse o mesmo… o dito mundo civilizado trata de forma muito diferente questões como aborto, maconha, adultério, homicídio, greve, serviços públicos, impostos, etc. Há argumento pra todo o lado.

A DIFERENÇA É QUE O MUNDO CIVILIZADO SE PREPARA MELHOR PARA O QUE PRETENDE GARANTIR EM TERMOS DE DIREITOS!

Restringe o uso de armas porque oferece segurança pública. Onde não consegue oferecer, permite que o cidadão se proteja.

Oferece saúde gratuita porque tem base produtiva que paga impostos capazes de manter isso. Onde não tem base, cobra caro pela saúde, pois saúde é caro.

Oferece longa licença maternidade onde as empresas têm contrapartida, não sendo sobrecarregadas pela falência do sistema estatal e transferência de obrigações ao sistema privado.

Nós não. Aqui o negócio é distribuir direitos. É ranço da monarquia, só pode (se bem que há muitos países monárquicos que não tem a mesma cultura de privilégios). Aqui, ser do setor público ou do setor privado significa direitos muito diferentes. A começar pela estabilidade. O servidor só pode ser dispensado se cometer um ilícito… tá, mas e se o cara trabalha numa escola que não precisa mais existir? Ou se ele está num departamento que não consegue atender à função proposta? Não interessa. A culpa não é dele. É sempre do governo. O governo que mude alguma coisa e faça funcionar. Mas não pode mudar a remuneração, nem a carga horária, nem o plano de saúde, nem impor metas, nem a contribuição previdenciária, nem o tipo de trabalho, nem os direitos funcionais, nem a ajuda de custo, nem os adicionais, nem a forma de eleição das diretorias… então, melhor deixar assim, sem funcionar mesmo. A gente aumenta um pouquinho o imposto esse ano e abre outro setor pra ver se ajuda a dar certo. Se não der, ano que vem fazemos outro setor de apoio e aumentamos mais um pouco os impostos. E vamos culpando os empresários, esses gananciosos sonegadores da direita reacionária que enriquecem explorando o povo.

Queremos mudar o Brasil? Não.

Se quiséssemos acabaríamos com os privilégios. Não só o tal foro privilegiado (que nem é tão bom assim). Há muitos, muitos… muitos outros privilégios por aí.

Entra num estabelecimento privado e lê a placa: você está protegido pelo Código de Defesa do Consumidor. Exija a apresentação do mesmo para consultá-lo.

Estra num estabelecimento público e lê a placa: desacato é crime.

Olha a lógica disso: no estabelecimento privado, que o cara entra se quiser e normalmente é bem atendido, você tem direitos a exigir. No estabelecimento público, que o cara entra porque precisa e não costuma receber atendimento satisfatório, você está proibido de reclamar disso. Mesmo que sua mãe esteja morrendo na maca do corredor. Mesmo que o assaltante que lhe tomou o veículo esteja rindo da sua cara no lado de fora.

Sou filho de servidor público. Admiro o serviço público prestado por alguns abnegados, especialmente na segurança, saúde e magistério. Mas não há como negar que esse problema não tem solução mantendo as coisas como estão. E como é impossível mudá-las, prezados, preparem-se para os próximos vinte anos: eles lhes trarão muito mais direitos, mas muito menos possibilidades. E isso tudo vai ser culpa do governo e dos empresários.

 

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A Burguesia

De origem francesa, a palavra designa a classe social dos detentores do capital. Na Wikipédia está que surgiu nos séculos XI e XII na Europa e por volta do século XVIII no ocidente. Marx usou o termo para classificar a classe social “materialista” que detém os meios de produção e esse conceito é até hoje referência de boa parte dos ideários políticos da esquerda brasileira.

Só que o mundo mudou muito nestes 150 anos posteriores a Marx…

Nas comunidades mais simples do Brasil, onde a antiga dona de casa passou a vender comida em forma de marmita para os vizinhos que trabalham no comércio.

Para a cabeleireira que atende na sua garagem e subcontrata uma manicure.

Para o trabalhador da roça que se mudou para a cidade, começou a vender lanches e abriu um restaurante.

Com o pedreiro que passou a trabalhar por conta e, diante da demanda, subcontrata outros pedreiros e serventes.

Com o antigo pequeno agricultor que, ano após ano, arrendando as terras vizinhas e obtendo êxito no plantio, adquiriu novas terras e enriqueceu.

Para a confeiteira que abriu uma rede de cafeterias.

Para o retirante nordestino que se tornou metalúrgico, sindicalista e depois presidente do país.

A burguesia merece esse novo conceito. Que leva em consideração que, nos dia de hoje, o esforço e a competência resultam em êxito. Que ser pequeno ou ser grande depende mais da sua capacidade que do seu bolso. Que há tantas relações profissionais, sociais, negociais, emocionais e pessoais no mundo, que avaliá-lo com conceitos de quase dois séculos atrás é discutir no campo teórico o que já foi discutido, elaborado, constatado, demonstrado e extinto.

Pra quem não percebeu, a burguesia move o mundo. Cura doentes, abre ruas, produz alimentos, constrói casas, distribui trabalho e renda. Só há sociedades ricas e aproximadamente iguais em oportunidades e direitos onde a burguesia se expandiu. A burguesia é tão eficaz que até criou o Estado para ajudá-la a construir um mundo melhor.

Que sejamos todos burgueses…

 

Uma nova cultura

Taylor, antropólogo britânico, ensinou que cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Portanto, a cultura é resultado humano que forma novos humanos. Por sua vez, os novos humanos influenciados pela cultura recebida poderão influenciar a cultura… e assim caminha a humanidade.

É como o ar: mesmo que não a conscientizemos ela nos permeia. Estamos inseridos nela e somos constantemente influenciados por ela. Ainda que apresentemos resistência à cultura, será uma resistência cultural de alguma forma. As disputas de ideias são disputas de influência cultural e de influência na cultura.

Você reconhece uma cultura tipicamente brasileira quanto ao comportamento social? Com suas experiências, você elencaria quais elementos como integrantes da cultura nacional no aspecto comportamental?

Quando acreditamos que estacionar no local proibido por alguns minutos não é problema…

Quando realizamos protestos em vias públicas que prejudicam o deslocamento (e os compromissos inadiáveis e irrecuperáveis) de milhares de pessoas…

Quando contratamos um serviço e não pagamos…

Quando usamos milhares de argumentos para justificar um erro confesso, ao invés de pedir desculpas e reparar os danos…

Quando queremos mudar o mundo para que caiba dentro dos nossos desejos pessoais…

Que tipo de cultura é essa?

O Brasil não gosta de cultuar boas lideranças. Gostamos dos demagogos, dos atalhadores, dos que resumem o mundo para que fique simples no papel. Estamos rodeados de boas pessoas, mas gastamos tempo e esforço criticando as que não prestam. Tivemos incontáveis líderes que produziram obras magníficas, mas procuramos os que superarão Cristo em influência, porque as pequenas realizações positivas não nos captam mais atenção do que as grandes bobagens.

Veja nosso debate político… é ridículo. Criam-se apelidos para denegrir porque evidentemente fica difícil ofender e depreciar uma pessoa que é visivelmente capaz, séria e producente.

Veja nosso comportamento esportivo, onde ludibriar a autoridade é considerado normal e onde a imposição do nosso talento se dá mais por exibição que pelo resultado. Afinal, meritocracia (vencer, atingir objetivos) é o menos importante, não é?!

Veja nosso comportamento nas relações jurídicas e pessoais. Nossa produtividade. Nossos serviços públicos.

Isso tudo é cultura.É tudo resultado de uma proposta de vida falida, mas da qual não nos cansamos de tentar e tentar manter.

Como crianças morais e comportamentais que somos, queremos tudo. Queremos que o novo seja imposto sobre o velho. Queremos drogas sem crime. Queremos democracia com representações exclusivamente nossas. Queremos dinheiro para tudo sem a obrigação de trabalhar proporcionalmente. Queremos isso e aquilo e aquilo lá também.

Admiro culturas de respeito ao passado, como fazem os orientais. Admiro cultura de respeito às lideranças, como fazem os norte-americanos. Admiro a cultura de respeito às diferenças que se vê na Europa. Admiro o esforço e a simplicidade do nosso povo brasileiro. Admiro a religiosidade e a vida familiar dos latino-americanos. Admiro a alegria frente à adversidade dos africanos. Admiro a capacidade de se inovar e receber o diferente dos australianos. Aprendermos o que admirar, quem sabe, faça parte de uma nova cultura… uma que viva de algo além de reclamar, protestar, denegrir e querer mudar o mundo com o esforço dos outros.

 

 

O assistencialismo

Você acha que a maioria das pessoas não querem ver os outros viverem uma boa vida, que não estão nem aí se o governo vai ajudar a conseguir moradia, estudo e saúde? Se você acha, pode parar a leitura por aqui. Essa reflexão é pra quem acredita que o ser humano, de maneira geral, gosta de estar bem e ver os outros bem.

Nós que queremos ver as pessoas ao nosso redor viverem bem, terem acesso ao estudo, ao emprego, à moradia, à felicidade, nós somos pessoas tendentes a concordar com as políticas assistencialistas. Afinal, o assistencialismo é uma forma de permitir que se realize esse nosso desejo, acreditamos.

Nós que achamos aceitável pagar impostos superiores à média mundial porque isso ajuda a sustentar a máquina que permitirá distribuir oportunidades e renda e isso, afinal, faz parte de um plano maior de igualar as pessoas desprivilegiadas, nós pagamos literalmente para que isso ocorra.

O assistencialismo, afinal, é a prestação de assistência a quem precisa. E basta olhar ao nosso redor para percebermos que muitas pessoas precisam.

Ora, é inegável que o Bolsa Família dá renda a pessoas que não tinham meios de atingir aquela renda. É inegável que as políticas cotistas dão vagas a quem não tinha a oportunidade de tê-las. É inegável que uma política fundiária de distribuição de terras vai permitir que famílias de agricultores pobres consigam finalmente a sua propriedade para trabalhar.

E isso é bom, não é?! Não.

O assistencialismo é como o analgésico. Ele é melhor que a dor, mas é pior que a cura. Faz parecer que é a solução para o problema, mas ataca somente a parte mais traumática e urgente.

O primeiro mito que precisa ser encerrado de uma vez por todas é o de que apenas as políticas públicas ajudam a resolver as desigualdades sociais. Isso é balela, é só procurar e verá. O Estado é mais uma das entidade que a cultura humana elaborou. Se é verdade que não visa o lucro – e isso não é mérito nem demérito – também é verdade que, mesmo sob a pecha de “público”, pode servir perfeitamente a interesses privados. Um botequeiro que dá emprego a um vizinho executa uma política social importante (mesmo que não tenha consciência disso) e essa relação é privada.

As políticas assistencialistas que enfrentamos, embora tenham um discurso inclusivo, são demagógicas. Não significa que não consigam proporcionar melhoria na vida de algumas pessoas, significa que não produzem o efeito que pretendem e acabam servindo de elemento de aprisionamento mental, ao invés de servirem de fonte de libertação pessoal.

Quando você estabelece uma cota universitária, por exemplo, está confessando que o sistema educacional predecessor falhou. Aí você coloca uma cota de inclusão na universidade e diz que isso equilibra os estudantes. É uma inverdade. Claro que haverão estudantes cotistas brilhantes, óbvio. Acontece que, como sempre, a grande maioria será engolida por uma rotina educativa inédita e desproporcional ao que conhece. Salvo se aquela universidade se adaptar a esta nova realidade diminuindo a sua exigência, o que prejudicará o sistema. Ou se algum projeto outro de compensação surgir. Por que não melhorar o sistema educacional?!

O Bolsa Família… chega a atender 50.000.000 de pessoas! Um quarto da população! Olha pro lado aí onde você está. Imagina que a cada quatro pessoas ao seu redor, uma recebe valores com a contra-prestação de manter filhos na escola. Essa escola que não forma adequadamente e, depois, dependerá de cota universitária para receber o aluno desprivilegiado. Agora imagina isso sistemicamente. Imagina daqui a 20 anos um aluno que estudou por dinheiro sendo ingresso na universidade porque é pobre. Você entendeu?! Você entendeu que não é mais necessário esforço, mérito, vontade, superação?! Você percebe que pessoas que não estão acostumadas a enfrentar a sua realidade com a vontade de vencer são pessoas que dependerão de alguém?! Nem que seja do Estado?! E que depender de alguém, nem que seja do Estado, não é ser livre?! Não é ser adulto!?

A sociedade é construída a partir dos valores que cultivamos. Quando se diz a uma pessoa que ela precisa se superar para atingir seus objetivos, estamos criando uma sociedade de pessoas que transformam suas dificuldades em motivação para algo melhor. Quando dizemos a uma pessoa que ela é uma coitada e que não se preocupe que iremos ajudá-la, mesmo ela tendo condição de ajudar-se por si, o que estamos construindo!?

É óbvio que desejo que o Estado atenda as pessoas que necessitam. Que dê comida e dê abrigo a miseráveis, que transfira conhecimento a todos. O que não quero é que o Estado pode a principal força de aprimoramento humano que é a autodeterminação. O Estado não pode substituir os sonhos da pessoa, sua capacidade de olhar ao seu redor e identificar-se como parte do problema e da solução. O Estado não pode olhar para 1/4 dos brasileiros e achar que são incapazes, dependentes dos outros 3/4, pois eles podem acreditar nisso. E isso é mentira.

Uma política de inclusão séria desenvolveria o país. Faria com que oportunidades, trabalho, vagas em hospitais e universidades, fossem construídas. Isso é inclusão real, quando as pessoas vão, passo a passo, interagindo com seu ambiente, absorvendo experiências que lhes serão úteis e retornarão à sociedade com a sua contribuição pessoal.

Você já pensou por que existe tanto interesse em fazer as pessoas serem dependentes do Estado?! O Estado, por acaso, é melhor que você e eu?!

O ser humano não pode ser tratado como coitado. Não pode admitir-se o coitadismo. O Estado que transfere recursos de quem produz e trabalha para pagar a segurança, a educação, a saúde básica, a infraestrutura de uma nação, e faz isso plenamente, cumpre o seu papel. Um Estado que não consegue fazer o básico das suas obrigações e poda a capacidade dos seus de se desenvolver, seja porque espreme demais uns ou porque entrega demais a outros, é como o pai que exige demais de um filho e mima o outro. Cedo ou tarde a família estará desunida, com o filho mimado cada vez mais dependente e o outro trabalhador cada vez mais capacitado e calejado.

Enquanto não for valor efetivo o trabalho, a autodeterminação e a liberdade pessoal (liberdade, aqui, aquela em que não dependemos), as políticas assistencialistas ideologizadas servem apenas para mover a roda do populismo e da demagogia.

O preço das coisas

Quase todos nós, quando temos de optar entre dois produtos iguais, compramos o mais barato, certo!?

Por que pagar mais por um produto da loja do shopping se lá no centro é mais barato?

Por que pagar mais no mercado da nossa rua se lá no Walmart é mais barato?

Por que pagar mais na loja física se pela internet é mais barato?

As respostas a estas perguntas podem vir em vários tons. A do shopping, por exemplo. Shopping não é minha praia. Eu dificilmente pagaria mais por algo que está à venda lá. Mas o shopping paga por segurança, ar condicionado, iluminação e uma penca de coisas evidentes que oferece. É impossível oferecer tudo aquilo sem repassar ao preço, e isso parece bastante justo. Pagar por conforto é bom para quem pode.

Agora olha além destes itens “materiais” que listei. O shopping tá cheio de gente trabalhando lá… é um lugar que emprega muitas pessoas, com perfis pessoais e sociais absolutamente distintos. O cara da segurança, a moça da loja de cintos, o técnico em informática, o prestador de consultoria empresarial. É realmente muita gente. Se você olhar sob o aspecto social envolvido, o shopping tem um importante valor até naquilo que podemos chamar de distribuição de renda, pois a sua face capitalista emprega, paga imposto e gera riqueza.

E o mercadinho do bairro?! Você acha que aquele microempreendedor tem alguma chance de lhe oferecer um produto por menos preço que a grande rede?! É impossível. Só se ele encontrar um produto similar, produzido por uma pequena empresa. Mas aí você vai desconfiar da marca, não vai?

Então saiba que pagar mais pelo litro do leite no mercadinho do bairro significa valorizar o esforço daquele cara ali. E pagar menos pelo mesmo produto na grande rede é oferecer centenas de vagas de emprego e sustentar a riqueza já estabelecida. São opções legítimas que, no meu caso, não me geram qualquer dúvida. Adoro mercados menores, menos cheios, com atendimento mais pessoal. Se o mercado do bairro me oferecer algo que posso pagar um pouco a mais mas junto vier um bom atendimento, opto tranquilamente pelo mercadinho.

O preço que pagamos tem a ver com incontáveis itens. Vamos sempre encontrar um dentista, uma psicóloga, uma escola, um sanduíche mais baratos aqui ou lá. Olhemos com os olhos de quem enxerga além do primeiro contato físico, além do mero produto. Pagar significa apenas gastar pra uns, mas pode significar investir num mundo melhor se fizermos isso usando toda a nossa capacidade analítica e depositarmos um tanto de bondade e investimento pessoal.

Na minha visão de mundo, gostaria que os pequenos se multiplicassem. Eles representam esforços pessoais que admiro e, ao mesmo tempo, servem de exemplo e estímulo a outros pequenos. Em termos de números, o pequeno empreendedor e a pequena empresa são tão importantes ao país que justificam só por isso investirmos mais da nossa atenção, tempo e até do nosso dinheiro. Cidades como Caxias do Sul, Santa Maria e até mesmo a capital paulista nasceram dessa dinâmica viva de trabalhar no que é seu e oferecer algo diferente e bom ao cliente e à sociedade.

Lembra sempre que empresas são conjunções de esforços. Escolha as que oferecem o algo mais com que você se identifica. Pague por isso.

Querer ser e ser

Isso não é uma crítica, embora pudesse ser e para alguns pareça. Eu não tenho críticas às críticas que são feitas com boa intenção… as ditas construtivas. E quase não tenho também às demais. São as críticas que motivam as mudanças. Os elogios costumam deixar tudo como sempre foi. Mas isso não é uma crítica, lembre-se.

Se você é daqueles que costumam escolher sua profissão, seus hobbies, suas companhias e tudo o mais com base na facilidade e na segurança, você se sentirá criticado. Mas não o estou criticando.

O mundo é feito por quem quer mais. O mundo é feito por quem não se acomoda. O mundo é feito por quem ousa, quem está descontente, quem levanta a faz.

A mentalidade que cria um empreendedor é totalmente diferente da mentalidade que cria um sindicalista. A mentalidade que cria um líder é diferente da mentalidade que cria um teórico. Ser pai é diferente de ser filho. Ser resoluto é diferente de ser reclamão.

Um Estado que é composto por pessoas que entram em seus quadros porque pensam na aposentadoria e na segurança financeira está fadado ao insucesso. O principal atributo de um servidor estatal deveria ser servir, por certo. Mesmo o ser humano que entra nos quadros funcionais do Estado para servir, se ele não incorpora desafios se acomodará… e o Estado se acomodará, porque o Estado são os homens que o constituem.

Sempre irei apoiar a causa que pede melhor remuneração para os professores, os policiais e os profissionais da área da saúde. Aos professores, principalmente e especialmente, dou irrestrito respeito. Mas professores que só sabem fazer greves para pleitear melhorias assinam um atestado de incompetência. Demonstram que não estão aptos a ensinar os jovens a resolver problemas, pois não sabem sequer resolver os seus.

A educação brasileira é meramente formal há décadas. Dizem que foi a ditadura militar quem causou isso, mas a ditadura acabou há décadas e a coisa só piorou. A melhor maneira de se valorizar é mostrando que se faz bem sua atividade. Quer ser valorizado, mostre o seu melhor… dê justificativa ao seu pleito.

Na iniciativa privada você conseguirá aumento se for um bom profissional e não o conseguirá se não for. Por mais inconveniente a alguns que seja a discussão meritocrática é o único – absolutamente o único – método efetivo que conhecemos de desenvolvimento.

Quando vejo sindicalistas parando trânsito e bradando por direitos me pergunto em que ponto da adolescência aquele ser humano estacionou. Ele ainda acha que tem de reclamar pro papai resolver os seus problemas? Ele ainda acredita que quanto mais chorar maior a chance de ser atendido? Ele ainda se vê como vítima da ingerência dos outros sobre a sua vida?

As mulheres conseguiram o que queriam. Os negros conseguiram o que queriam. Os gays conseguiram o que queriam. Foram décadas e séculos de enfrentamento – respeito se conquista. Enquanto alguns acreditam que foi enchendo o saco dos outros que se evoluiu, acredito que as mulheres, os negros e os gays conseguiram demonstrar o seu valor sem discriminações, fixando no coração dos seus ex-opressores a semente da igualdade. Não foi uma guerra, foi uma conquista. Se fosse uma guerra o lado vencedor oprimiria o lado vencido, como se tenta muitas vezes fazer. Mas, felizmente, a maioria foi tocada em seus corações pela evolução social.

O mundo cansou de mimimi e de chororô. O mundo espera que cada um de nós seja o que quer ser. Espera que tenhamos coragem e postura próprias. O maior país do mundo é governado por um negro. O nosso por uma mulher e, antes, por um retirante nordestino. O tamanho do sonho norteia o tamanho da conquista.

Liberte-se da ideia de que os outros, o Estado ou o patrão tem de resolver os seus problemas… apresente as soluções. Chame pro seu redor aqueles que lhe darão forças para tal e ouse ser tudo que um dia sonhou, com seu próprio suor, olhando para as pessoas ao seu redor como companheiros de batalha e não como inimigos a serem superados.

Crise? Que crise?!

Gosto de história e gosto de pensar em como as coisas já foram no passado. Vamos pegar o século XIX, por exemplo. População quase totalmente rural, sem estrutura estatal quase nenhuma, sem escolas públicas, sem hospitais públicos, sem pedágios, sem segurança, sem sindicatos, sem televisão. Se você precisasse de algo deveria fazer. Se você precisasse de assistência médica teria de procurar uma das Santas Casas ou um curandeiro. Se você precisasse de segurança deveria se armar e solicitar o apoio dos seus vizinhos… e eles fariam o mesmo.

E o início do século XX? Duas grandes guerras, radicalização política, fraudes eleitorais e praticamente todos os problemas do século passado.

Vou pular pros dias de hoje. Claro que enfrentamos uma crise econômica. O título é provocativo. É a segunda maior crise econômica que conheci, a primeira como adulto. Como empresário e autônomo, me esforcei muito para manter os negócios e os empregos dos meus colegas. Não tenho conseguido tudo a que me propus. Estou fazendo escolhas difíceis. Meu patrimônio e minha paciência andam bastante prejudicados.

A provocação que empenho no título vem de uma entrevista que acompanhei à nobreza indiana (eu não sabia que ela existia!). Como sabemos, a Índia é um país maior que o nosso, mais populoso e mais pobre. Então o entrevistador pergunta:

– Vocês têm estes lindos palácios, riquíssimos e, do outro lado da foto, uma pobreza gigantesca. As pessoas aqui não se revoltam com essa disparidade?

– Não. Elas sabem que estes palácios foram construídos por gerações e gerações de famílias que lutaram para defendê-los. E sabem que a riqueza adquirida por estas famílias foi usada ao longo dos séculos para construir hospitais, escolas, habitações para auxiliar nos problemas das pessoas daqui. As pessoas sabem que sua vida seria pior sem os nobres.

Pensei comigo que esse mundão é muito grande e muito diferente mesmo…

Vivo num país que cobra tributos de mais de um terço de tudo que produzo (não estou falando em lucro, estou falando “produzo”!). É um país que tem uma boa rede de assistência pública, mas os serviços infelizmente não conseguem atender a contento. É um país que, como vimos no resumo histórico, já foi pior. Já tivemos nobreza e hoje temos algo parecido, se pensarmos que há grupos que são sustentados pela arrecadação de valores da sociedade sem que retribuam a altura este esforço. Com nossas características, boas e más, pensamos nossa relação com o Estado e tudo o mais de forma absolutamente distinta desta manifestada na entrevista.

Nossa crise financeira é severa, mas nossa crise de valores e referências é gigantesca. Não sabemos para que trabalhamos, para que pagamos tantos impostos, para que respeitamos tantas regras, para que compartilhamos nossos espaços. Somos reféns de uma falta de identidade que nunca foi devidamente abordada. Nunca houvi no Brasil falarmos algo diferente de crise. Crise disso e daquilo.

Há nações que vivem para guerra, outras para o trabalho. Nós, parece, vivemos para o futebol. Se é verdade que toda a crise é passageira espero que em breve eu sofra uma crise de risos.

A era do medo

Medo é o principal instrumento de controle. Com o medo se conseguiu com que três milhões de escravos não se insurgissem contra trinta mil brancos na Bahia colonial. Com o medo se amarra um elefante num toquinho e se cerca um cavalo com tapumes. Com o medo o melhor time se acovarda perante o mais fraco. O medo esfria as relações, empobrece a economia, limita a criatividade, separa povos, afasta crentes divergentes, inibe o progresso.

Existem muitos antídotos para se combater o medo. O otimismo, a tolerância, o exemplo, a compaixão, a perseverança, a fé, a bondade são alguns dos incontáveis ingredientes deste antídoto. Mas não há e jamais haverá combate efetivo ao medo sem duas coisas: liderança e consciência.

Numa época em que se teme sair a rua e perder a vida para um ladrão de carros ou se aventurar num novo negócio e perder todo o seu patrimônio, dispormos de líderes que nos mostrem caminhos seguros é fundamental. Os desbravadores compassivos são os líderes de que mais precisamos neste momento. Pessoas que conseguiram furar o escudo do medo, atingiram seus objetivos e, agora, mostram aos demais que isso é possível. Liderança é importante em todos os aspectos da vida: o professor, na escola; o pastor, no culto; o chefe, na empresa; o capitão, na companhia; o diretor, na estatal; os pais, em casa. A sociedade que não fortalece as lideranças torna-se sem referência, contenta-se com qualquer possibilidade, vislumbra-se com pouco. Liderar hoje é muito diferente do que era no século passado, em que o ter estabelecia o líder. Hoje liderar é saber e mostrar. É fazer. Saber curar, saber combater o crime, saber atrair clientes, saber educar.

Então este saber torna-se o segundo elemento contra o medo: ter consciência. Conhecer-se. Entender-se. Tolerar-se. Motivar-se. Precisamos renovar nas pessoas a intenção de querer ser mais do que são, de buscar mais do que lhes é confortável, não por interesses patrimonialistas (o que também pode ser bom), mas principalmente porque o mundo precisa delas. O mundo precisa de pessoas conscientes dos seus limites, das suas virtudes, da sua missão.

Os líderes são exemplos do que podemos nos tornar. A consciência é meio de liderarmos nossas vidas.

E o medo? O medo é o que prevalece quando não conseguimos nos sentir protegidos nem suficientemente fortes para nos proteger. Seja do assaltante, seja da pobreza. Seja da doença, seja da morte.

Abdica de ouvir notícias que te trazem o medo. Conviva com pessoas destemidas ou, ao menos, ativas. Descubra o que lhe paralisa a iniciativa e o que lhe aquece o coração para nunca parar. Quando o medo chegar, procura em alguém que esteja mais forte e te esforça para não te abateres.

Sentir medo é natural. O que não é natural é permitirmos que este medo seja maior que nossa força de suplantá-lo.

A Elite Judiciária

Você conhece alguma categoria profissional que tenha 60 dias de férias por ano?

Que recebe adicional para cada atividade realizada diversa da atividade principal?

Que substitui colegas em férias e recebe para isso um adicional?

Que recebe diárias quando vai dar palestras em outros lugares, mesmo que tenha de desmarcar os compromissos profissionais agendados há meses?

Que tem porte de arma funcional sem necessidade de demonstrar qualquer habilidade no manuseio?

Que, se for condenado por um crime, recebe como punição a aposentadoria remunerada?

Que tem na sua cúpula o mais alto salário do funcionalismo público, a ponto de servir de referência para todos os demais servidores?

Que, além do excelente salário, recebe auxílio moradia quase cinco vezes superior ao salário mínimo?

E que, agora, luta por outras verbas salariais e indenizatórias, como se tudo o mais que ganha fosse pouco para uma excelente vida?

Não estamos falando dos cavaleiros da idade média, nem da monarquia inglesa ou dinamarquesa. Estamos simplesmente referindo alguns dos benefícios da magistratura brasileira (que atingem Ministério Público e outras categorias).

Um juiz que tem subsídio de R$ 25 mil mensais compromete o esforço tributário de aproximadamente dez pequenas empresas ou trinta trabalhadores. Isso apenas para este subsídio, sem contarmos todo o mais.

Se você tem alguma dúvida de que o Brasil é um país construído para sustentar as elites estatais, eu não tenho.

Não há nada no Brasil – NADA – que funcione melhor do que o cumprimento dos direitos destes servidores. A vida de qualquer outro brasileiro é muito diferente.

Se há uma categoria profissional que deveria ser a primeira a servir de referência são os magistrados. Mas infelizmente não servem… ganham o que quase ninguém ganha. E não estou aqui estabelecendo uma crítica pessoal a nenhum deles. São, na sua imensa maioria, ótimos profissionais. O que lhes falta é senso de realidade. O que lhes sobra de conhecimento teórico talvez esteja transbordando no ego e impedindo-os de sentir o que os outros brasileiros sentem.