Golpe!

Você contrata um pedreiro para reformar parte da sua área de serviço que sofreu infiltração. Compra materiais, pede solicitações condominiais e acerta o início da obra e o valor dos serviços, que deveria durar uma semana. Dois meses depois o valor já foi todo pago e o serviço está pouco adiante da metade. Isso é golpe!

Você leva seu filho no posto de saúde porque está com febre e dores. Espera três horas por atendimento e percebe que na sala de triagem tem três profissionais atendendo seus respectivos smartphones. Isso é golpe!

O Estado constrói escola, contrata professores, os qualifica, compra merenda escolar, compra material e coloca livros na biblioteca. O Estado ainda compra um ônibus para transportar alunos, ônibus esse que passa nas principais vias do município. Mas quando chove, você reclama que a escolar não passa em frente a sua casa para buscar seu filho e diz pra ele que não precisa ir pra escola. Isso é golpe!

Você usa as redes para ofender as pessoas com o que acha que são ofensas (cristão! gay! reacionário! avarento!) mas estaciona na faixa de pedestres, ultrapassa sinal vermelho e joga lixo pela janela do carro. Isso é golpe!

Você vê campanhas e mais campanhas para melhorar a situação dos presídios (que é desumana), mas nenhuma linha, nenhuma palavra sugerindo que os presidiários deixem a vida do crime para lá não precisarem estar. Isto é golpe!

Você diz que seu interesse é humanista, que se preocupa com pessoas. Posta diariamente textos e mais textos sobre elitismo e materialismo. Trabalha como motorista por aplicativos. Chamam você num bairro popular e você não vai porque tem medo. Isso é golpe!

Golpe é o que a postura média do brasileiro faz todos os dias com seus clientes, vizinhos, filhos e relacionados. Quando pararem estes golpes, pouca diferença fará o partido ou o sistema que estiver governando, pois estaremos à caminho do paraíso.

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A adolescência social

Vamos deixar claro de início que estou falando do Ocidente.

Até o Século XIX o Ocidente vivia na infância social, compare: tudo que se fazia era determinado de cima para baixo, incluindo aí não apenas aspectos estruturais da sociedade (como meios e controle de produção, estrutura burocrática, etc.) como também os valores individuais que deveriam ser cultuados. O(s) detentor(es) do poder diziam o que se produziria, no que se acreditaria, o que se estudaria e por aí vai.

O Século XX marca o início da adolescência social ocidental, onde as liberdades individuais vão se firmando e exigindo que cada pessoa assuma a responsabilidade por sua vida e suas decisões.

Esse emaranhado polarizado de debates infindáveis, penso, decorre justamente desse momento histórico. Estamos aprendendo (socialmente e coletivamente falando) a sermos mais do que crianças mandadas.

Trazemos no inconsciente coletivo os resquícios daquela fase histórica e, creio, seja por isso ainda existem muitos que sonham com um Estado gigante que tudo cuide e tudo regule. É uma projeção social de uma condição pessoal que a psicologia explica, onde na adolescência se aprende a lidar com os limites mas ainda se sente mais confortável quando estes limites são impostos verticalmente por quem confiamos.

Por óbvio, há povos e países que já estão à frente deste momento histórico e lidam muito melhor com as liberdades. Infelizmente não é o caso daqueles povos em que a religião funcionou como cabresto (e não como libertação ou instrumento de espiritualização).

Tenho uma sugestão de atitude neste momento: não deixa de exercitar a melhor postura possível; não deixa de servir de referência das coisas que devem ser feitas; não te contagia com a eterna conduta adolescente de reclamar e transferir responsabilidades.

Nas lição de Gandhi, seja a mudança que quer ver no mundo.

Generalização.BR

Adoramos uma generalização, não é! Gostamos tanto que ela é absolutamente institucionalizada. 

A escola pública, por exemplo. Ninguém paga mensalidade. Achamos que todo o estudante de escola pública está impossibilitado de pagar qualquer quantia pelo estudo que recebe. Generalizamos o tipo de estudante, a sua condição financeira e o seu interesse em (não) contribuir. Agora imagina numa escola, mil alunos contribuindo com R$ 30 mensais durante dez meses. A escola renovaria a sua estrutura todos os anos, teria computadores modernos, laboratório de química e física e biblioteca. E o aluno que não pudesse contribuir, por óbvio, seria isento.

E no posto de saúde? R$ 10 a consulta é demais? Cem consultas por dia renderiam mil reais que poderiam manter a farmácia ou o laboratório.

Os comerciantes não podem diferenciar quem paga em dinheiro e quem paga com cartão de crédito ou cheque pré-datado. Quem perde com essa generalização (que tem como fundamento a igualdade de tratamento entre clientes)?! O cliente, óbvio. Porque o comerciante não consegue manter o preço mais barato para duas operações diferentes e acaba cobrando o preço mais caro de todos. Aí, se resolver dar um desconto para uma compra vultuosa paga em dinheiro, estará comente do uma irregularidade em tese… vai entender…

Vivemos há muito tempo com outra generalização ruim pacas: políticos. Tratamos todos como corruptos e incompententes. Quem ganha são justamente os políticos corruptos e incompetentes, que se veem igualados aos demais.

E os empresários? Tudo explorador e sonegador.

Servidor público? Tudo vagabundo.

Jogador de futebol? Tudo salto alto, mercenário.

A direita? Tudo reacionário. 

E a esquerda? Vagabundagem que vive do dinheiro dos outros.

Viram? Temos generalizações pra quase tudo. E quem perde são todos os diferentes, os que se destacam, os que se esforçam para fazer e ser melhor.

O jeito é olhar pra tudo (generalizando!) com um novo olhar e se permitir diferenciar, dando a cada atitude e a cada esforço o seu devido valor.