“Estamos lutando por nossos direitos”

Tenho um filho de quatorze anos que pede regularmente de tudo que se possa imaginar. Tem muita coisa que ele me pede que gostaria realmente de poder lhe dar. Noutras vejo seu devaneio juvenil, sua imaturidade e falta de senso de realidade, compreensível na sua idade.

Quando eu era adolescente também pedia algumas coisas aos meus pais que não ganhava. Não era lá muito a minha ficar pedindo, mas tinha duas ou três coisas em que eu era bastante repetitivo e persistente. Uma delas, em especial, consegui. Nós jovens temos tempo pra lutar por nossos direitos.

Hoje os jovens tem ainda mais tempo. Comecei a trabalhar com quatorze anos, mas hoje só se pode depois dos dezesseis. “Jovem tem é de ir pra escola”. Ok. Foi assim comigo também. Seis meses antes de fazer vestibular, aos dezesseis, parei de trabalhar e fui prum cursinho (aliás, onde aprendi 60% da matéria, pois minha escola era muito ruim).

Ei fico aqui pensando se existisse na minha época esses movimentos de protesto, o que eu faria… “Estamos lutando por nossos direitos”. É direito dos jovens estudar? Sim. Com qualidade? Claro. E é direito deles se divertirem? Sim. E não trabalhar antes dos dezesseis? Com certeza, direito constitucional.

Puxa, mas eu fui um jovem violentado pela sociedade e pelo sistema. Fui humilhado, tendo de trabalhar desde os quatorze anos para ajudar meu pai. Fui submetido a uma escola pública opressora da minha enorme capacidade latente, que não conseguiu sequer me repassar o conteúdo básico de vestibular, muito menos fazer com que eu o aprendesse.

Como meus pais me deixaram passar por tamanha opressão e constrangimento?! São pais irresponsáveis, permissivos, tolerantes com as mazelas desse sistema opressor e limitador de capacidades.

Absurdo.

Me formei aos vinte um anos. Esse sistema realmente explora a juventude. Como é possível permitirem que um jovem em tão tenra idade tenha de assumir uma profissão graduada!?

Que país explorador da juventude esse.

Ainda bem que hoje temos jovens que não aceitam isso tudo. Trancam ruas, ocupam escolas, põe fogo em pneus. Estão lá lutando pelos seus direitos. Não se submetem a esse mundo capitalista que exige esforço e trabalho do operário para sustentar o patrão explorador, que paga impostos, dá emprego e produz apenas para explorar as pessoas porque é um ser humano desprezível, egoísta e nefasto. Patrão nasceu para ser mau. Porco-capitalista!

Esses jovens têm futuro garantido na política. Representam milhões de indignados com essa absurda exploração da sociedade.

Esses jovens de hoje são bem diferentes daqueles meus amigos pobres que tinham de trabalhar de dia e estudar de noite. Que moravam em casas simples, criados só pela mãe. Iam na missa de domingo e jogavam bola no campinho que nós mesmos fazíamos em terrenos baldios, até que fossem vendidos e tivéssemos que fazer novo campo em outro lugar. Esses meus amigos, quase todos, hoje homens maduros, vivendo na classe média, criando seus filhos e levando a vida.

Que absurdo! Como puderam vencer tamanha opressão.

Ainda bem que o nosso futuro, com essa juventude indignada, politizada e mobilizada, está garantido.

 

 

 

Anúncios

Estado Mínimo x Constituição

O Rio Grande do Sul tem um déficit fiscal de R$ 2,35bi. O Brasil, superior a R$ 170bi. O Rio de Janeiro e outros Estados atrasam salários e não pagam fornecedores há meses. Resultados de décadas de desajustes, de administrações desregradas, de concessões de benefícios fiscais a empresas e de direitos a servidores desprovidos de suficientes estudos/contraprestação/possibilidade, e de muitas outras estripulias que resultam da despreocupação com a efetividade da atuação estatal.

Diante de todo esse quadro calamitoso se vê algum esforço em dar um curso possível ao Estado e, por outro lado, a resistência dos estadistas, que dizem que os capitalistas/liberais/direita querem o Estado Mínimo e não se preocupam com nada além do seu lucro e da redução de direitos.

O primeiro reparo que sugiro é a reflexão sobre a possibilidade de haver Estado Mínimo no Brasil. Ela não existe. A Constituição estabelece o tamanho do Estado, suas funções, objetivos, seus órgãos para tal, os direitos que há de fazer cumprir e respeitar. Esse conjunto de princípios, normas e atribuições está longe de ser mínimo e, historicamente, cada Constituição brasileira aumentou o Estado, do que se extrai que Estado Mínimo não é um risco efetivo para o Brasil.

Depois, avaliemos de onde vem esse balaio que coloca capitalistas, liberais e a direita juntos?

Não vem da China… lá o capitalismo é de esquerda e oposto aos liberais (que nem existem por lá). Olavo de Carvalho disse que o Marxismo leva ao capitalismo mais voraz que existe: o capitalismo estadista. A China é o exemplo disso.

Não vem dos EUA tampouco. Lá o liberalismo é esquerda.

Nem vem da Europa, onde a direita é estadista, nacionalista e avessa ao liberalismo.

Digo tudo isso para afirmar que as teses de oposição às reformas estruturais que precisamos são imprecisas, demagógicas e antigas. É esse pensamento, essa mentalidade, que nos trouxe até aqui.

O Estado brasileiro tem a característica primeira de se proteger de tudo, a qualquer custo, para se manter e se expandir. Há décadas a única atribuição estatal que funciona é o respeito aos direitos mínimos dos servidores, pois todas as demais atribuições estatais falham. E agora este último baluarte ruiu. O Estado não consegue nem mais sustentar seus quadros, demonstrando de forma inequívoca e inquestionável que algo precisa mudar.

A sociedade civil paga os veículos, o combustível, a telefonia-internet, a eletricidade e os bens manufaturados dos mais caros do mundo justamente em razão da carga tributária altíssima, que existe para manter essa paquidérmica máquina de cargos e direitos exclusivos. E não se venha dizer que chegamos aqui só por culpa dos políticos, pois nunca se avançou no debate das reformas que nos são necessárias justamente pelo corporativismo e protecionismo que sempre vencem e se mantém.

Quem ainda sonha aqueles sonhos estadistas do Século XX precisa acordar. Nossa sociedade não tem mais interesse em pagar tão caro para manter uma estrutura que só se preocupa consigo, que existe para si.

As reformas necessárias precisam ser feitas. Elas permitirão que o Estado cumpra seus objetivos e, de lambuja, farão com que todos tenham direitos e obrigações mais realistas e igualitários. O que, aliás, já deveria ser intrínseco aos efetivos objetivos estatais.