A Arma

Nasci numa família de homens armados. Armas de caça e de defesa eram comuns ao meu redor desde que era criança. Lembro de uma vez em que fui pescar com meu tio e primos, peguei seu revólver no porta-luvas do fusca, lá pelos doze anos, e fui severamente reprimido pelo tio na frente de todos por ter feito isso. A presença da arma exige disciplina e cuidado, regras que eu ainda não conhecia sobre a convivência com ela.

Na adolescência me tornei antibelicista. Achava desnecessária a presença das armas. Até meus vinte e poucos anos tive essa convicção fundada em diversas crenças que permeavam minhas reflexões existenciais. Aí, certa vez, já casado, acordei no meio da noite com um cara mexendo em materiais nos fundos do meu pátio. Esposa dormindo, suor na testa e um espeto na mão, cuidando para ver se o interesse do criminoso ia ser também pelo que estava dentro de casa. Ligar para o 190 foi inútil, sequer me atenderam.

Tempos depois, recebi uma ligação da minha esposa no meio da tarde, apavorada. Um cara tentara entrar em casa enquanto ela tomava banho. Gritou por socorro, nenhum vizinho ouviu. O desgraçado não conseguiu entrar porque as grades da janela impediram, mas ele tentou muito e gritou diversas bobagens pra ela.

Meu antibelicismo estava balançado mas ainda não tinha me rendido. E veio a primeira ameaça de morte. Vida de advogado que defende policiais nem sempre é fácil. Ali caiu a ficha de que não há sistema que te defenda da maldade. Não existe isso. Não ao menos nesse mundo de hoje, com os recursos e valores de hoje.

Meu antibelicismo vinha da ideia de que armas só causam dor,  maldades, danos. Projetava na arma apenas seu aspecto destrutivo, sem captar tudo que ela simboliza. Hoje percebo que era uma ideia juvenil e superficial. É a ideia de quem se sente seguro (ou não se sente responsável pela sua segurança), de quem vive em ambientes protegidos. Quando nos tornamos adultos e responsáveis pela segurança da nossa família isso ganha outros contornos.

As pessoas costumeiramente generalizam. Quem vive num apartamento ou numa casa de condomínio em zonas urbanas centrais tende a achar que todos gozam daquela mesma proteção. Ilusão! Devo ter ligado dezenas de vezes para a PM na minha vida. Lembro de uma única vez em que enviaram uma viatura, quando vi um cara no pátio da casa de um vizinho que estava veraneando. Todas as outras (e nelas incluem invasões a casas e estabelecimentos) não fui atendido. Fico imaginando como é em rincões ainda mais isolados, onde sequer se consegue sinal telefônico ou referências geográficas para que uma guarnição da PM te ache, se puderem atender a ocorrência.

Não é só a questão de defender-se de uma invasão a domicílio. É muito mais do que isso. É mais simbólico e representativo. Abdicar do direito de defesa quando se vive num ambiente de insegurança é negligência, covardia. Muito se diz que não se deve reagir e comprometer a vida por causa de um bem material. Acontece que esse discurso de valores (vida x bens) não é relevante ao teu opositor, o criminoso. O criminoso não se compadece com essa filosofia, pelo contrário. Ele se fortalece. Se sente mais seguro para a sua imposição. E isso repetido por anos e décadas cria uma sociedade dividida, onde a cultura da imposição criminosa e da não-reação se encaixam perfeitamente aos interesses do crime.

É óbvio que nem todas as pessoas têm condição de usar armas. Nem todas têm condição de dirigir, de pilotar, de graduarem-se. Essa análise de aptidão é relevante. O que não se pode é restringir o direito de defesa com base em crenças ideológicas, filosofia de apartamento ou teses inócuas. Não é sadio nem maduro viver num mundo que só existe na nossa cabeça. Essa imposição do artificial frente ao real é que nos faz perder cinquenta mil vidas por ano com a violência sem mudar o que dá errado.

Mais humildade! Mais autocrítica! As pessoas precisam enfrentar sua realidade.

Voltando às armas: elas são instrumentos, só isso. Como todos os instrumentos, podem ser usados de diversas formas, para diversos fins.

Imagina que só a bandidagem e os agentes estatais possam usar a internet, andar de carro, portar celulares. Bobo, não é?! Pois é isso que não podemos admitir com relação às armas, que são instrumentos de defesa imprescindíveis no mundo em que vivemos.

Vou adiante: precisamos parar de pautar a vida de todos como se fosse a vida de alguns. Se em determinada igreja não se admite determinado comportamento, pronto. Se em determinados bares se aceita, pronto. O mundo é grande demais para querermos que sejam todos iguaizinhos. Vamos tolerar as diferenças. Vamos aceitar que as crenças (e as necessidades) podem ser distintas e cada uma vivida no seu lugar. E nos lugares comuns, respeito.

Respeito é o que falta para que a criminalidade deixe de existir. Não é problema econômico, não é falta de inclusão, não é disputa de beleza ideológica. É falta de respeito e de instrumentos de imposição do respeito.

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Crise de Segurança

Quando morei em minha última casa, em Viamão, costumeiramente era acordado com algazarras na esquina feitas por uma gurizada que se reunia ali para fumar maconha e brincar. Era gente dos 15 aos 40 anos. No início, como eu conhecia de vista a maioria deles, eu pedia que eles saíssem dali para que pudéssemos dormir e para que parasse o cheiro de maconha dentro do quarto dos meus filhos e eles atendiam prontamente, até me pediam desculpas. Mas passou o tempo, o grupo foi aumentando, foram chegando adultos e a coisa foi saindo do controle.

Um dia estacionaram dois caminhões guincho, desses que trabalham para o DETRAN, e um taxi. O grupo devia ter umas 25 pessoas. Era um dia de semana comum, perto das 2h da madrugada. Eu abri a janela do quarto dos meus filhos e pedi que eles fossem para outro lugar pois precisávamos descansar, além do cheiro estar forte. Alguns que eu conhecia responderam que sim. Fechei a janela. Mas ouvi uns que eu não conhecia falar: “quem é esse imbecil? Ele que vá…”. Eles não saíram. Liguei para a PM diversas vezes, nem me atenderam.

No outro dia, sem ter ajuda do Estado, sem ter outra forma de lidar com o problema se não deixar as coisas se agravarem, fui eu mesmo procurar um jeito de resolver isso. Na moda antiga, velho oeste americano. Tive sorte, consegui. Mas podia ter dado tudo errado. E tudo porque uma gurizada começou a fumar maconha na esquina da minha casa.

A crise na segurança pública não é à toa. E não é só culpa do governo, da polícia, do Judiciário, nem das leis, embora sejam estas instituições que podem resolver o problema. No Brasil, insistimos em acreditar que nosso comportamento não faz diferença para resultado de mundo que temos. O tráfico de drogas é uma mazela mundial. Destruiu a Colômbia, a Bolívia, o Peru, a Venezuela, o México. Destruiu a periferia do Rio de Janeiro, de São Paulo e está destruindo a nossa em Porto Alegre. Liberar o uso recreativo da maconha pode até ser uma forma de lidar, mas evidentemente não vai resolver o problema, pois o tráfico pouco se importa se a droga é vendida legalmente ou não. Mesmo que se criem regras de uso, é evidente que o tráfico vai continuar pois é mais vantajoso a venda fora da legalidade.

Leio diariamente incontáveis críticas a todo tipo de autoridade e instituições, muitas bastante articuladas e precisas. Mas ninguém ter coragem de apontar o usuário como participante desse lixo de situação? Seria como dizer que se eu compro um celular roubado, que custou a vida do seu legítimo proprietário, a culpa é da polícia e do governo?

O Brasil tem uma forma tão ridícula e infantil de enfrentar seus problemas que é desanimador pensar a respeito. As pessoas acham, por exemplo, que é possível lidar com a maior crise financeira da história brasileira sem cortar gastos! As pessoas lutam contra o levante anti-corrupção iniciado nos últimos anos porque atinge quem idolatram! As pessoas debocham dos poucos que efetivamente produzem e colocam no mesmo saco tudo e todos que podem para que, ao final, ninguém tenha moral de mudar nada.

Mas voltando à questão da segurança pública…

Enquanto tiver toda uma geração que cogita a extinção da polícia militar, que debocha das pessoas que se preocupam com a preservação de valores morais – mesmo que sejam divergentes -, enquanto não começarmos a valorizar as pessoas que fazem algo de bom e buscam melhorar a sociedade através das suas posturas, não haverá estrutura pública que dê conta de tanta falcatrua.

 

Segurança x Balela

A desigualdade social diminuiu. A população civil foi desarmada. O uso de entorpecentes foi flexibilizado. A educação superior chegou a todas as classes sociais. O trânsito se tornou mais rigoroso. E nada disso jamais participou de qualquer redução nos índices de criminalidade. Por quê?

Seria porque desgualdade social, ao contrário do que se pregava, não é justificativa para a falta de transferência e de exigência de valores?

Seria porque o desarmamento só atingiu quem respeita a lei e serviu para aumentar a sensação de poder dos que vivem de impor medo à cidadania?

Seria porque a educação superior desprovida de qualidade e sem o devido vínculo vocacional serve apenas para vender diplomas e criar mão-de-obra barata?

Seria porque, no trânsito, regras rigorosas sem fiscalização e punição servem, quando muito, para capitalizar cofres públicos?

Nós brasileiros costumamos responsabilizar os políticos pelas nossas mazelas, muitas efetivamente resultantes da sua incompetência. Mas quando se fala de segurança pública, o caminho é bem mais longo e complexo.

Para existir um criminoso falhou, primeiro, a família. Depois dela a escola. Depois ainda a inserção no mercado de trabalho, que é ditada pela política econômica. Falhou também os modelos assistencialistas da sociedade civil, sejam religiosos, sejam culturais. Depois falhou o policiamento ostensivo e a inteligência policial. Falhou o sistema judicial. Falhou o sistema prisional. É complexo, dinâmico, temporal. Por isso, precisamos de regras e valores claros e definidos, fáceis de serem compreendidos e representados pela cultura social.

Quando a polícia age com rigor e, até, com violência contra deliquentes precisa ser apoiada. Critiquem-na quando ultrapassar os limites com inocentes. Assim estaremos dizendo de forma simbólica e direta a todos os delinquentes que esse é o resultado socialmente aceito. Quando o judiciário receber um delinquente trate-o como tal, não como um potencial injustiçado social e processual. 

As teses, deixem-nas com os advogados, com os filósofos, com os sociológos.  Quem tem de agir deve fazê-lo.

Nossa crise de segurança pública no Rio Grande do Sul é tão grande que vejo pessoas que viveram a vida sustentando o mundo do crime com compras e aquisições ilegais refletindo finalmente sobre sua conduta. Só há o caos quando a sociedade, como um todo, se permite sucumbir.

Sucumbimos à balela marxista. Sucumbimos à idiotia garantista. Nos curvamos a teorias que nunca deram certo em parte alguma do mundo sobre educação, economia, sociedade, valores. Estamos quebrados enquanto Estado e enquanto sociedade porque investimos no que não pode nos dar retorno e o que pode – a atividade produtiva, a educação vocacionada,  o serviço público com metas – é tratado como lixo, idiotia, pelos lixos idiotas que cagam sua ideologia pela boca.

Não há mais o que ser dito. Passou da hora de cada um fazer a sua parte para acabar com o predomínio dos criminosos sobre a sociedade. Faça o máximo que puder, não se renda, não se acomode… porque a água já bateu no queixo.