Cristo(s)

José Saramago, ateu, escreveu “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, livro que lhe alçou ao Nobel de literatura. Nessa obra, um ateu apresenta a sua visão sobre Cristo, onde o Filho do Homem é tratado como um personagem histórico e humano, sem os adjetivos que costumeiramente lhe são atribuídos. Saramago é português e precisava ter extremo cuidado para dar a sua narrativa uma visão que pretendia “humanizar” Jesus sem desrespeitar a fé do seu povo. Conseguiu. A obra é espetacular.

Jesus não é o mesmo personagem divino para Judeus e Muçulmanos. Nestas outras religiões monoteístas, Jesus é um profeta, não o Deus vivo. Essa diferença, provavelmente, é o que faz com que cada uma das crenças se mantenha distinta.

Há um Jesus menos estudado pela maioria das pessoas, um Jesus mais místico, que teria sido casado com Maria de Magdala (Madalena) e com ela teria tido uma filha. Esse Jesus ainda é tratado como um messias e um iluminado, mas menos divino do que a visão católica. Podemos ver essa abordagem no filme (e livro) “O Código Da Vinci”, que é um romance baseado em obras místicas muito antigas e, hoje, retomadas ao debate graças aos Manuscritos do Mar Morto.

Há outro Jesus (e creio que surpreenderei alguns) que é a reencarnação de Buda e Krishna. Ele é tratado na obra “O Redentor”, de Chico Xavier.

Jesus é muito mais do que a Igreja Católica Apostólica Romana pretende e essas abordagens referidas demonstram isso. Mas nenhuma dessas abordagens o desrespeita.

Acho o ateísmo uma soberba, uma imaturidade. Contudo, jamais acharei o ateu uma pessoa menor do que o crente. Todos nós temos aspectos do nosso ser mais ou menos preparados, melhor ou pior desenvolvidos. Digo isso para, primeiro, afirmar que entendo porque alguns não creem em Deus e, segundo, porque acho que isso é aceitável (embora não seja bom). Isso não me dá o direito de debochar, nem ironizar, especialmente de forma pública quem assim pensa.

Numa época em que se brada tanto por aceitação, a melhor forma de aceitarmos o novo é reconhecermos que nem tudo é tão novo, nem tudo é tão velho. As visões de mundo e as reflexões sobre o mundo estão aí há milênios. A cultura humana não chegou até aqui por acaso. O que há de nos diferenciar não são nossas bandeiras, que nos apartam apenas por aspectos externos, mas sim nossas atitudes.

Há muitas visões de Cristo na história e, entre determinados grupos, cada uma delas é debatida e elaborada. Todas são visões de aprofundamento e, de algum maneira, veneração. Os católicos se autodenominam os detentores da verdade sobre Jesus e, para impor sua versão, já fizeram de tudo, desde as Cruzadas à Inquisição. Não o são. Mas isso não faz deles rivais dos demais. Faz deles apenas diferentes. Respeito seu ponto de vista, mas não as suas atitudes de impô-lo no passado.

O que não se compreende é a necessidade dos que não acreditam em Jesus ficarem repetitivamente buscando ofendê-lo e/ou ofender a crença dos que acreditam. É essa a “tolerância” dos nossos dias?! É isso o melhor que se consegue oferecer de oposição ao conservadorismo!?

Jesus é o maior personagem da história humana. Toda menção a ele deve ser feita considerando isso.

 

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Além do debate ideológico

Vou começar com uma quase provocação: a vida vai muito além do debate entre direita e esquerda. Dito diferente: o que interessa realmente na vida é muito mais importante do que esse debate.

O debate ideológico polarizado é um evento mundial. Talvez só não ocorra em países regidos por ditadores e em países que nunca se interessaram muito por isso, como o Japão. Onde há internet e liberdade de expressão, há o debate polarizado entre direita e esquerda. E vejamos que o conceito de direita e esquerda não é lá muito claro na maioria dos países… o que aqui no Brasil é direita provavelmente seria esquerda em outros lugares e vice-versa.

Por quê?

Primeiro porque se pode. Todo mundo pode expressar o que pensa. Acabou a contenção milenar do que os homens e mulheres comuns queriam expressar e não podiam porque não tinham voz.

Segundo porque as pessoas precisam se sentir acolhidas e escolher um lado dá essa sensação. Escolhe-se muito mais por motivos afetivos do que filosóficos. Veja, por exemplo, que uns bradam “tolerância, tolerância!” mas são totalmente intolerantes com o pensamento diverso. São tão intolerantes que esquecem que a avó de 90 anos não vai mudar o que pensou e sentiu por toda a vida só por causa deles. Outros gritam “fascista!”, tocam um ovo e recebem o aplauso dos “anti-fascistas”.

Terceiro porque as pessoas têm aspirações existenciais muito diversas. Não se tem mais apenas a vontade de casar e ter filhos, nem de ir pra guerra e conquistar o mundo ou de enriquecer. Hoje em dia todos os desejos existenciais são legítimos e isso confunde a quem precisa se encontrar e encontrar o seu grupo, ou seja, todos.

Quarto: é mais fácil bradar a mudança do mundo do que lapidar a própria.

Somemos isso tudo e muitas coisas mais e dá essa realidade chata, barulhenta e imatura que enfrentamos.

Acredito que vamos deixar de lado essa coisa que exigir que o mundo seja do meu jeito. Mas pensa comigo: se lutássemos por respeito, de verdade, respeitaríamos. Se realmente buscássemos tolerância, toleraríamos. Se efetivamente nos preocupássemos com os problemas sociais trabalharíamos para resolvê-los e não para pedir que os outros os resolvam. Se acreditássemos no que pregamos viveríamos isso e não apenas gritaríamos e escreveríamos nas redes.

Perdemos muito tempo discutindo a regra do jogo, ao invés de jogarmos. Enquanto isso, o jogo está sendo ganho por pessoas inescrupulosas que são ativas e nos roubam dinheiro, suor, respeito, dignidade, vidas. Há valores que estão acima da disputa ideológica, acima de debates filosóficos. Há posturas ideais atemporais que são deixadas de lado enquanto nos digladiamos para sermos ouvidos por quem pensa diferente e tem o direito de assim viver.

“Penso, logo existo”, Descartes.

“Não me envergonho de me contradizer, porque não me envergonho de raciocinar”, Goethe.

“Só há um caminho”, ditado japonês.

Discurso de Formatura FACSUL/Unitins 2010

Em 2010 fui agraciado com o convite para ser paraninfo da Turma de Fundamentos Jurídicos do centro EAD Facsul, vinculado à Unitins. Eis…

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Excelentíssimos integrantes da mesa, especialmente Sra. Núbia Peixoto, representante do Magnífico Reitor… Sra. Medianeira Sutel, Sra. Silvana Santos e Sra. Valéria Monteiro, paraninfas homenageadas… Sra. Rute Fávero, Sr. Antônio Prestes e Sra. Audrew Tatiani, patronos das turmas… Meu grande e querido amigo Marco Antônio Oliveira, aos parentes e amigos presentes e, especialmente, aos meus amigos e amigas formandos.

Muito boa noite!

É para vocês que quero dizer algumas palavras, queridos!

Lembro com muito carinho de quando nos conhecemos, na Turma de Fundamentos Jurídicos, às quartas-feiras à noite. Desde o início sempre admirei vocês por estarem ali, buscando melhorar, lapidando esse presente divino que é nossa capacidade. Sempre os vi como exemplo gratificante de esforço – embora vocês pudessem ter tido um pouco mais de esforço, como sempre se pode. Era um momento da minha vida em que enfrentei severas dificuldades e tanto a Facsul como este grupo serviram-me de alegre intervalo entre as minhas batalhas.

Muito obrigado!

Estudar é algo mágico!

Nenhuma pessoa entra numa academia e sai do mesmo jeito. Lembro que “academia” é uma palavra de origem grega, que servia para referir a escola criada por Platão para ensinar filosofia aos seus alunos. Platão, se me permitem o breve comentário, foi muito mais do que um filósofo. Ensinou, por exemplo, Aristóteles, que ensinou Alexandre o Grande, que dominou o mundo. Ensinou a tantos, que ensinaram os essênios, que ensinaram Jesus, que mudou o mundo.

Ele trouxe reflexões profundas sobre o se portar, o conviver, como ser uma pessoa melhor… pois isso tudo é a chave da felicidade!

Vejam, o estudo é uma das melhores ferramentas para sermos felizes de verdade! E todos sabemos ou precisamos saber que nosso objetivo de vida é a felicidade!

Não se estuda para ganhar uma promoção. Não se estuda para pendurar um diploma na parede. Não se estuda por estudar. Isso tudo não é estudar!

Estudar é refletir e pôr em prática. Estudar é ver a prática e refletir… e voltar para pôr em prática algo melhor. Como vocês podem perceber, isso é algo que não tem fim… e, como já falei, isso é mágico.
A vida tem muitos mistérios. E ela é muito mais rica para aqueles que são mais perspicazes e atentos. Quanto mais atenção dermos às coisas da vida, mais veremos a sua riqueza. Não a riqueza das jóias, dos eletrônicos, das grandes construções – que são boas riquezas. Falo da riqueza maior, a de sentir a vida!

A vida é mágica porque existem certezas que precisamos nos lembrar e isso não é um problema. Vejam:

Sofreremos! Cedo ou tarde.

Perderemos! Muitas vezes.

Erraremos! E pedir desculpas é o mínimo.

Sentiremos raiva… e precisamos aprender a nos achar para, nestes momentos, não nos perdermos.

Sentiremos culpa… e precisamos aprender a nos desculpar para não morrermos cedo demais.

Nós morreremos e, pior que isso… quem nós amamos morrerá… e precisamos aprender a viver e amar enquanto podemos!

Vejam quantas coisas doloridas referi! E ainda assim temos todas as condições de sermos felizes! É só APRENDERMOS. Essa é uma das mágicas dualidades da vida: a certeza de que passaremos por momentos difíceis e, ainda assim, a certeza de que passaremos por momentos felizes. Os momentos felizes são os que dependem de nós, virão apenas se nos esforçamos.

Aprender é a chave! E aprender é algo absolutamente pessoal. Não se transfere, não se doa, não se herda educação. Ou se esforça em tê-la e em vivê-la, ou não se a conhece.

Por isso o orgulho de vocês! Quem busca a educação diante das dificuldades que são naturais em tê-la, está, na prática, tentando ser feliz! É um atestado que diz mais ou menos assim: “atesto para os devidos fins que eu quero algo melhor para mim”.

Vocês estão atestando isso hoje! Por isso estamos todos nós aqui felizes! Viram como o estudo é mágico!

Para quem vai trabalhar com o Direito, seja como operador, como servidor, como policial, como assessor… afirmo: vocês terão muito trabalho pela frente. O Direito tem essa imagem romântica de que serve para regular a vida das pessoas… e é uma imagem parcialmente equivocada, pois quem regula a vida das pessoas é a educação e o livre-arbítrio de cada um. O Direito apenas nos diz o que o Estado – o centralizador das ideias gerais – quer de cada um de nós.

No nosso sistema, muitas vezes torna-se irrelevante o que está na lei: o Direito que se aplica a cada uma das relações do dia-a-dia é o que escolhemos praticar; o Direito que se aplica a cada uma das pessoas que procura o Poder Judiciário é aquele que o Juiz decreta. Viram, nem uma, nem outra alternativa depende exclusivamente da lei… Por isso a importante habilidade de se construir um bom processo, de se formar uma boa base de fundamentos e de se relacionar e se expressar bem. E isso vem, novamente, através do estudo!

Quanto mais elaborada for a função de vocês, quanto mais velhos vocês se tornarem, quanto mais responsabilidades a vida lhes trouxer, mais chances de errar, de perder, de sofrer vocês terão… porque também terão mais chances de vencer, de acertar, de alegrar. Isso é bom demais! Quando vocês superarem essas dificuldades, mesmo sem platéia, mesmo sem recompensa, mesmo sem manchete… vocês se sentirão como Alexandre o Grande… vocês conquistarão o mundo.

Não fujam das grandes responsabilidades, das árduas dificuldades, das dolorosas conversas, do perigoso enfrentamento… Fugir disso é fugir da chance de serem realmente felizes!

Como disse o ex-astronauta Neil Armstrong ao pisar na lua: “esse é um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. Cada vez que um de nós vencer, a humanidade venceu. Hoje nós todos somos vencedores porque vocês venceram!

Começo a terminar meu discurso aqui, agora, com alguns lembretes:

(1) Não é à toa que os vencedores dizem que precisamos acreditar nos nossos sonhos! Não é à toa.

(2) Tudo que existe no mundo foi criado por alguma mente. Tudo é projeto mental… Tudo que está no mundo material, um dia esteve na idéia de alguém, seja na de um ser humano, seja na de um ser divino.

(3) É muito difícil encontrarmos equilíbrio e felicidade sem quatro grandes pilares: família harmoniosa, corpo saudável, mente rica e alma iluminada. Não esqueçam da alma… é o que tem faltado no mundo de hoje!

(4) Filho de peixe é peixe. Filho de águia é águia. Filho de leão é leão… lembrem-se sempre que somos filhos de Deus.

Que Ele abençoe e ilumine a cada um de vocês! Muito obrigado por esta honra inesquecível que vocês me deram. Boa noite!

Você sabe onde estoura uma greve?

Você sade onde estoura uma greve? A quem ela prejudica? Quem depende daquilo que deixa de funcionar?

Você sabe qual correspondência deixou de chegar, qual exame médico terá de ser adiado, qual produto faltante adiará a conclusão de um trabalho?

Você sabe como vai se distribuir o leite do tacho, a carne já abatida, o tomate já colhido?

Você sabe como a auxiliar de enfermagem vai fazer para chegar ao hospital? E como ela fará para levar sua mãe doente ao hospital?

Você sabe o que o aluno aprenderá nesse dia?

Você sabe como o dono da padaria fará para compensar o dia sem faturamento no cumprimento das suas obrigações com aluguel e tudo mais?

Você sabe se o agente que causa o dano aos manifestantes está sofrendo com a greve como toda a sociedade sofre?

Você acha que ainda vivemos no Século XIX em que não havia nenhuma outra forma de reivindicar direitos que sequer existiam?

Você acha que a maioria das pessoas pode ficar sem trabalhar sem nenhum tipo de dano nas suas vidas? O agricultor, o marceneiro, o padeiro, o açougueiro, o pedreiro, o mecânico, a diarista?

Você acha que greve resolve problemas que não são resolvidos com trabalho, estudo e negociação?

A greve é um ato terrorista contra a sociedade, contra os pequenos, contra os produtivos. Ela não atinge governos, nem megacorporações. Apenas fortalece sindicatos, movimentos partidários e as pessoas que vivem dessa cultura vitimizada.

No mundo real, esse em que manifestações são menos importantes do que efetividades, as pessoas que não trabalham perdem, sofrem, têm danos irreversíveis.

Quem luta por direitos desrespeitando os direitos alheios é infantil. É como a criança que, para pegar o brinquedo, não olha nada além da sua vontade. Eis o que é a cultura da greve: uma infantilidade terrorista contra todos nós que produzimos e dependemos uns dos outros.

 

 

Mas que raios é isso que estão falando?!

Vivemos numa época em que já sabemos que a vida é melhor quando respeitados certos valores: igualdade, compartilhamento, fraternidade, compaixão, respeito, bondade, justiça, tolerância, dentre outros. O que não sabemos ainda é como fazer isso…

Por exemplo: tolerância. Nos nossos dias a palavra é repetitivamente usada para pedir aos conservadores que tolerem as diversidades, mas ela não é usada pelas minorias para tolerar o pensamento conservador. Vamos falar isso de outra forma: o jovem quer que seu avô pense como um jovem.

Outro exemplo: igualdade. É tratar todos iguais? É considerar todos iguais? É exigir que todos pensemos igual, tenhamos valores iguais, ajamos da mesma forma?

Bondade é um exemplo cujo debate tem me assustado um pouco. É cada vez mais ecoado que não existem “pessoas de bem”, no sentido, penso eu, de afirmar que todos somos passíveis de realizar maldades eventuais. É isso mesmo!?

O caminho que escolhemos está num ponto em que os valores historicamente preceituados estão sendo questionados e reformulados. Isso é bom. O que não é boa é a ideia de que os novos valores devem suplantar os anteriores totalmente. Essa ideia de descontinuidade atesta que a lição não foi aprendida, que apenas se mudou de lado, apenas se defende a mesma coisa de antes mas agora pro outro time.

Não há evolução cultural com a ideia de descontinuidade. A cultura humana é cumulativa, com acertos ou com erros. O que hoje é tratado como machismo e valorado como ruim já foi essencial para sobrevivência de certos grupos.

Veja por exemplo a questão da aceitação das relações homoafetivas. O mundo já a enfrentou de diversas formas ao longo da sua história, dependendo do lugar e da época. Na Grécia antiga de Platão – que dá origem a grande parte dos valores ocidentais – as relações entre homens e jovens garotos era tratada com hipocrisia, existindo uma aceitação velada e eventualmente até incentivada, mais ou menos como hoje tratamos o adultério. Então, esse não é um tema atual, nem novo, muito menos decorrente unicamente de valores religiosos ou moralistas. É um debate da própria condição humana, que se resume por motivos ideológicos.

Sabemos, portanto, os valores que nos permitirão viver melhor. Isso está claro. O que não sabemos é como efetivamente cumprir tais valores. Afinal, como se produz igualdade? Como se lida com o machismo, com o feminismo? Como se ensina a tolerar a diversidade?

A humanidade demonstra nesses seus enfrentamentos que, de maneira geral, melhorou tanto quanto a seus ideais quanto à sua prática, pois efetivamente hoje somos menos violentos, menos hipócritas, mais tolerantes. Mas ainda assim nos acusamos diariamente do contrário, como se todo o processo cultural humano fosse um erro imperdoável, como se apenas o que hoje se propõe como bom efetivamente o fosse.

Ora, se fôssemos tão detestáveis assim não teríamos chegado aqui!

A humanidade está num dilema existencial sobre a efetivação de seus valores como sempre esteve. São nossas lideranças que farão diferença, pois a massa humana é manobrável, frágil moralmente e se dispersa. A democracia não é o melhor sistema porque permite que todos tenham a mesma voz, mas porque permite que todos sejam como quiserem e participem se quiserem. A voz que comanda é daqueles mais preparados efetivamente, daqueles que melhor cativam e se impõe. É da nossa condição, não nos iludamos que podemos pular degraus evolutivos. Enquanto alguns de nós querem simplesmente viver sua vida, muitos vivem de debatê-la. O debate é menos importante que viver a vida, mas estão o transformando na própria existência.

A forma de colocar em prática qualquer coisa que se prega é vivê-la, não debatê-la. O debate é formação. A prática é maturidade.

 

Os Irmãos Karamazov

Também não sei porque demorei tanto para ler Dostoiévski. Na verdade, comecei “Crime e Castigo” na faculdade, mas não terminei, não lembro porquê. Contudo, em “Os Irmãos Karamozov” a história me predeu desde o início. Não que a trama seja desde cedo envolvente, mas não é difícil presumir que, tendo três irmãos personalidades tão distintas, algo de  muito interessante haverá de acontecer… e acontece.

Como em “Dom Quixote de La Mancha”, neste livro percebe-se a profundidade das reflexões que o levam a tornar-se um clássico da literatura, atemporal e perpetuamente influenciador.

O autor russo escreveu essa obra no final do século XIX, numa Rússia que lutava contra a monarquia e estava em ebulição com grande influência do Marxismo. Na história, um pai devasso e imoral tem três filhos: o mais velho, militar e imponente; o do meio um intelectual, ateu e influenciado pelo marxismo; e o mais novo um seminarista religioso. Cada um vive diferente do outro, com seus desejos e afinidades.

A trama desenvolve o destino dessas diferentes personalidades, o que cada jeito de viver e de construir suas relações produz existencialmente. Freud comparou a obra a Hamlet e a Édipo Rei, provavelmente devido à reflexão profunda das relações entre pai e filho que o livro faz.

Impressiona como Dostoiévski fala de uma Rússia de 130 anos atrás, mas poderia estar se referindo a cada núcleo familiar da sociedade brasileira nos dias de hoje, onde há grupos que atacam os intelectuais de esquerda por serem excessivamente teóricos e materialistas, em oposição aos direitistas e aos religiosos. Quem se identifica com as reflexões sobre a influência ideológica, a necessidade de mantermos uma postura construtiva e que valoriza as virtudes que se deve buscar não pode deixar de lê-lo.

E, por favor, depois me diga o que achou.

 

Aquela conversa difícil

Todos nós nos deparamos com conversas difíceis, vez ou outra. A conversa da separação, aquele aviso ao amigo que não vamos mais contratá-lo para prestar serviços, a cobrança de outra postura para uma pessoa próxima, mas não tão próxima. Aquela conversa com o chefe sobre uma nova proposta em outra empresa. A difícil conversa sobre o comportamento do enteado ou do filho do melhor amigo. São praticamente tantas quanto forem as relações importantes na vida.

Os grandes problemas das nossas vidas nascem da nossa covardia frente a tais conversas. Não estou falando dos problemas difíceis. Estou falando dos mais que difíceis, daqueles que nos tiram a saúde, nos mudam como pessoas. Quando você olha uma realidade pessoal e vê muitos problemas ao redor de uma pessoa, creia que ali falta muito diálogo, flexibilidade. E coragem.

Eu já fugi de conversas difíceis por covardia. Sei do que estou falando. E quando percebi que isso mudava tudo na vida, mudei de atitude. Não fujo mais de nenhum tipo de conversa. Isso também é difícil, tira o sono, mas não deixamos nada pra trás.

Vivemos num mundo e numa época em que as pessoas buscam um mundo impossível. Queremos diminuir a violência sem abrir mão de comprar celular roubado e fumar um baseado. Queremos um salário melhor mas não queremos aumentar nossas responsabilidades profissionais. Queremos ótimos empregados com média remuneração. Queremos que os filhos do vizinho façam menos barulho, porque com os meus e os dele gritando não consigo ver a novela.

Então é comum você não contratar seu amigo para trabalhar pois tem medo que o rompimento da relação profissional atinja a relação pessoal.

Você evita conversar sobre o comportamento do seu enteado ou do filho do amigo porque não quer ouvir as reclamações sobre o seu filho.

Você se alia a quem deseja o mesmo que você no discurso, para evitar embates, mas não percebe que a atitude dos aliados levará a outros enfrentamentos? É resultado do mesmo tipo de covardia.

Seu país é como a sua família e suas relações multiplicadas por milhões. A forma como aprendemos a lidar com nossos problemas e repercutimos socialmente diz muito do ambiente em que vivemos. Ao mesmo tempo em que reclamar do cocô do cachorro do vizinho na grama é chato, pior é guardar isso dentro da gente.

É impossível enfrentarmos a descompostura alheia sem atitude. E isso vale pra qualquer tipo de descompostura, inclusive essa da criminalidade epidêmica  brasileira. Então, meu amigo, comece aprendendo a conversar…

A cultura da crítica

A humanidade não nasceu pronta, certo?!

É fácil olhar pra qualquer povo, qualquer cultura, em qualquer lugar e apontar um monte de erros e injustiças e absurdos que foram cometidos nas mais diferentes épocas. Jesus, por exemplo. Segundo a tradição católica os apóstolos eram todos homens. Machismo?!

A escravatura, outro exemplo. Ela existiu ao longo de milênios na humanidade, entre brancos, negros, nórdicos, asiáticos, índios. Sacrifícios humanos, decapitações, pena de morte a todos da família… é infindável essa lista.

O ser humano errou muito pra chegar até aqui. Os erros merecem ser considerados erros, não há dúvida. Muito dos grandes líderes humanos, inclusive, foram protagonistas de grandes mudanças porque apontavam aquilo que viam errado e sugeriam um novo caminho.

Precisamos reconhecer o que é possível em cada época, em cada local, para não criticarmos valores e atitudes com fórmulas anacrônicas e impossíveis naquele contexto. Era possível a luta pela igualdade racial no século X? Era possível o pleito de igualdade de gênero antes do século XIX? Seria possível democracia no século XV? Era possível a criação de direitos trabalhistas quando recém se iniciavam as relações laborais no século XVIII?

É óbvio que se fôssemos mais despojados da maldade nossa caminhada já estaria bem mais adiantada. Se o ser humano não olhasse para outros seres humanos como inimigos, mas como potenciais companheiros de caminhada, quanta coisa seria diferente, não?! Mas não somos assim. Ou não fomos assim.

Agora, imaginemos os desbravadores e os colonizadores preocupados com o desmatamento. Ou imaginemos se ao invés dos europeus terem conquistado a América, fosse os chineses ou os africanos. Você sabe como chineses e africanos agiam quando conquistavam? Você sabe como os índios americanos agiam quando conquistavam?

A crítica aos modelos dos quais discordamos precisa ser feita com prudência e racionalidade. É preciso que, ao criticar, apresentemos outro modelo que precisa funcionar, por óbvio. Se não a vida se torna a repetição da crítica e as pessoas passarão a optar por não realizarem nada, por viverem comodamente diante daquilo que já conquistaram ou daquilo que, para se manter, precisará de menos esforço ou esforço alheio. Como vive hoje a imensa maioria dos partidos que explora a demagogia populista no Brasil e que, por mais incrível que pareça, são sustentados por boa parte da intelectualidade universitária.

A cultura da crítica não é revolucionária. É reacionária e juvenil.

Por que a democracia?

A democracia surgiu na Grécia antiga, mesmo lugar onde nasceu a filosofia ocidental. É interessante que um dos pais da filosofia grega, Platão, não acreditava nesse sistema. Para ele um sistema ideal seria aquele em que notáveis governassem, no caso os filósofos, afinal não existiam títulos de pós-doutor em administração pública ou política na época.

Mas hoje existe.

Platão fora discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles. Sócrates, lembrando, foi condenado à morte por envenenamento porque, segundo sua acusação, corrompia a juventude com ideias que eram avessas aos deuses gregos. Fora julgado e condenado por um tribunal democrático com 501 cidadãos.

Platão, talvez por isso, nunca se convenceu que a vontade da maioria é a melhor. Somos dois.

Passados 2.500 anos cá estamos ainda tentando estabelecer no ocidente regimes democráticos efetivos e que funcionem. Por quê? Não está absolutamente claro que a vontade da maioria não significa que seja o melhor? Não está claro que essa vontade só é respeitada pelos governos quando lhes convém?

O mundo poderia, em primeiro lugar, deixar de lado a ideia de que a democracia precisa ser estabelecida em todos os países. Que seja naqueles em que assim se deseja. E tudo bem… há princípios e valores mais importantes para se exigir universalmente. Ética, por exemplo, é um deles. Aliás um dos valores mais exaltados pelos filósofos gregos referidos. Até porque o que chamamos democracia é muito diferente dependendo do lugar e da época.

Estamos prontos para avançar a um novo patamar de Estado, onde a gestão pública deveria ser realizada por técnicos. Assim como temos um poder jurisdicional técnico, devemos instituir um poder administrativo técnico. E o legislativo, eleito democraticamente, permanecerá sendo o orientador e o revisor, o poder que cria a lei que dirá o que é o desejo social.

Os regimes parlamentaristas soam como uma etapa para esse destino que teorizo.

Reflitamos: nossa realidade é a de que a cada mudança de paradigma ideológico ou político o Estado muda sua administração. Não há continuidade. Não há respeito a bases técnicas evidentes. Não há capricho. Não há ética. Não há técnica. Há uma disputa político-ideológica juvenil, muita demagogia, muito paternalismo e pouca efetividade.

Passou da hora de sermos geridos por quem sabe gerir.

Se haverão cotas raciais, redução da jornada de trabalho, igualdade de gênero, liberação da maconha, aposentadoria especial para militares e professores… tudo isso o legislativo dirá. E o órgão de gestão administrativa continuará firme e determinado a fazer funcionar o Estado, sem milhares de CCs, sem partidarismo, sem disputa político-partidária. Como ocorre hoje no judiciário.

Pense nisso.

 

 

Desgovernos em série

É difícil saber quando começaram os desgovernos no Brasil. E é difícil porque a maior parte das nossas análises nunca foi técnica, foi sempre parcial e interessada. Vejamos o segundo império, por exemplo. Pouco se fala do esforço de Pedro II em abolir a escravatura e da sua constante preocupação com a educação e as finanças do império. Pedro II devolvia regularmente, ao final do ano, para o caixa da União aquilo que sobrava no orçamento da família real. Costumeiramente investia do seu próprio bolso no estudo de jovens carentes.

Largou-se o império para implantarmos a tão badalada “República”, a “solução dos nossos problemas”. Vivemos mais de trinta anos na República Café com Leite, famosa pela concentração de interesses e pelas fraudes eleitorais.

Aí veio um golpe promovido por Getúlio Vargas e jogou-se pro alto todos aqueles argumentos iluminados sobre a República. Décadas depois, voltando a democracia, um clima de grande instabilidade política e institucional fez o Brasil chegar a mais uma intervenção, dessa vez pelos militares, em 1964. Tão malfalada, nos alçou à nona  economia do mundo, na época.

Passaram-se mais duas décadas e volta a democracia. Sarney, Collor/Itamar, FHC, Lula, Dilma/Temer. Se é verdade que as instituições brasileiras vem se fortalecendo, seja pela profissionalização dos seus quadros, seja pelo amadurecimento institucional propriamente dito, também é verdade que nossos problemas pouco mudaram. A corrupção, a falta de prioridades estatais efetivas, o desperdício de dinheiro público, o elitismo, o desapego aos interesses públicos e o aparelhamento do Estado continuam em pauta.

Não há sistema que corrija nossos problemas culturais a curto prazo. O mundo tem bons exemplos sociais em países monárquicos, democráticos, parlamentaristas, presidencialistas e, segundo alguns, até em ditaduras (vide Cuba e China). É evidente demais que nossos problemas passam pela nossa baixíssima capacidade educacional. Educação é, na mais das vezes, um quadro, giz, um bom professor e alunos interessados. Muito mais difícil é entregar saúde e segurança, que precisam de outros recursos físicos ainda mais caros e complexos.

Não sou do tipo que se identifica com teorias da conspiração, mas é evidente que alguém não nos quer diferente, melhor. Só não acho que sejam os americanos, nem os comunistas, tampouco os narcotraficantes. Nosso desgoverno é fruto da ausência de lideranças que consigam se impor sobre esse marasmo moral e essa superficialidade existencial que nos permeia. Aqui as grandes cabeças se esforçam duas vezes na vida: passar no vestibular e no concurso público… depois podem relaxar por cinquenta anos. E essa ideia é interessante na nossa cultura, porque enriquecer na iniciativa privada é tido como imoral… o “explorador”, o “ganancioso”. Aqui o elitismo é institucionalizado. O policial nunca será delegado, pois para ser delegado você precisa faculdade e concurso específico para isso. Então, um Comissário de Polícia com trinta anos de carreira é considerado menos preparado para ser delegado que um jovem saído da faculdade de direito que passa no concurso.

Nosso desgoverno é esse apego ao elitismo, ao fácil, à vida aristocrática.

Vamos mudar quando todos – na iniciativa privada e no serviço público – receberem as mesmas exigências e dispuserem dos mesmos direitos. Quando deixarmos pra trás esse ranço de tratar melhor os mais abastados, de sustentar quem não se esforça, de violentar os serviços mais essenciais com parcos salários e estruturas falidas (como pode um hospital não ter ar condicionado e um departamento qualquer o ter?!).

O Brasil tem cura. Mas o remédio é tão amargo que toda uma estirpe e toda uma mentalidade deixariam de existir.