Teses x Realidade

A República é um sistema que, em tese, melhoraria em muito o que se via na Monarquia. Isso desde a Roma e a Grécia antigas. Dom Pedro II assumiu o poder em 1840 com 92% dos brasileiros analfabetos. Deixou o governo em 1889 com 56%. Nunca teve escravos. Aliás, um dos principais motivos para a aristocracia brasileira ter tramado a sua deposição foi justamente porque a família real tinha posição claramente abolicionista e investia nisso. O Brasil, nesse época, era a quarta economia do mundo, com crescimento médio de 8% ao ano e inflação inferior a 2%. Fomos o segundo país do mundo a dispor de educação para surdos e cegos. E a imprensa podia livremente se manifestar contra o regime e a coroa (e o fazia com muita voracidade, mesmo porque os intelectuais sempre se caracterizaram por viver de reclamar da realidade e buscar reformá-la para implantar suas teses). Ao final do ano, era comum a coroa devolver dinheiro aos cofres públicos daquilo que sobrava do seu orçamento, sendo que boa parte já havia sido doado ou investido em causas sociais.

Um mundo sem armas é, em tese, melhor que um mundo de pessoas armadas. Mas a Terra é um planeta com gente de valores muito distintos, não apenas pelas diferenças culturais, mas por toda a complexidade que forma a personalidade humana e, por consequência, as sociedades. Os pacíficos não precisam de armas para resolver disputas entre si, mas o mundo não é composto apenas por eles. Em alguns lugares, temos de admitir, muitas pessoas buscam se impor às demais por meios ilegítimos. Num mundo ideal, de pessoas já amadurecidas, esta tese poderia se tornar uma realidade. Não vivemos nesse mundo. Há países extremamente armados, como o Canadá e a Suíça, que são pacíficos e seguros.

Uma sociedade sem disputas religiosas e ideológicas, onde todos concordassem com rumos sociais e existenciais padronizados seria mais coesa e feliz, em tese. Acontece que, sabemos e já dissemos, o ser humano é complexo e há muita diversidade naquilo que forma uma pessoa e uma sociedade. É impossível pensarmos numa sociedade 100% coesa em ideais num sistema onde a manifestação seja livre.

As drogas são maléficas à saúde e comprometem a qualidade de vida daqueles que se deixam dominar. São, provavelmente, o maior objeto de repressão estatal no mundo. Em tese, uma sociedade sem drogas seria mais saudável e segura. Portugal liberou todas as drogas dentro de uma certa quantidade e desfruta de um dos melhores índices de criminalidade da Europa.

O amor nas relações produz, em tese, pessoas mais seguras, amáveis e maduras. Mas vivemos numa sociedade hedonista e egoísta, mesmo já estando há gerações sob uma nova visão da estrutura familiar em que os pares se formam por interesse recíproco e não por imposição dos pais (ou qualquer outro). Em tese, deixar que as pessoas escolham seus parceiros criaria núcleos familiares mais felizes, mas nossa era é conhecida como a primeira em que a depressão se tornou epidêmica.

A vida não é feita de teses, em que pese seja indispensável pensarmos a respeito dela para construirmos nossos caminhos.

O ser humano, contudo, precisa dispor de mais humildade em reconhecer aquilo que não está funcionando e mudar. Simples assim.

Em tese a vida é fácil. Ou é difícil. Mas na prática é bem diferente.

Anúncios