Novas Intolerâncias

Não foi fácil pra muita gente aceitar os novos ventos da civilização. E estou falando só de Brasil, só da nossa cultura – embora saiba que em muitos países os conservadores têm ainda mais força. O Brasil, ao contrário do que muito se critica, constrói uma sociedade moderna em termos de aceitação às relações homoafetivas, de tolerância ao uso de entorpecentes, de respeito a vieses políticos diversos, direito das mulheres, deficiente e idosos, de efetivação de garantias a grupos raciais, de abrigo a minorias e estrangeiros, dentre muitos outros. Somos uma sociedade multicultural e isso não é fácil de equalizar. Diferentes religiões, etnias, graus de instrução, classes sociais ativas, veias ideológicas. Nossas realizações não são mais efetivas muito mais porque somos maus gestores públicos e investimos recursos financeiros insuficientes.

Mas uma coisa tem me chamado a atenção…

Ao invés de nos modernizarmos em relação ao tema “tolerância”, o que fizemos foi substituir os objetos no nosso acoplador de intolerância. Se antes eramos intolerantes com gays, agora somos intolerantes com conservadores. Se antes eramos com ateus, agora somos com crentes. Antes com mulheres desquitadas, agora com homens com discursos de machão.

Isso mostra que, na verdade, continuamos os mesmos intolerantes de sempre… apenas mudamos de lado, de foco. Não é que nos tornamos tolerantes a novas ideias. Não. Mudamos nosso conceito de novas ideias ou de boas ideias, ou melhor: mudamos nosso conceito de boas pessoas.

Ser tolerante também é saber que pessoas criadas na década de 1950 vão ter mais dificuldades de aceitar relações homoafetivas que as novas gerações, por exemplo. Ser tolerante é saber que as diferenças não incluem apenas o que hoje se brada como bom, mas também o que se acreditou por milênios. Isso é ser tolerante.

Não precisamos ser aceitos por todos. Sejamos fumantes ou não, gordos ou não, ateus ou crentes, veganos ou carnívoros… ninguém precisa ser aceito pelos outros. Precisamos pura e tão somente sermos respeitados em nossas diferenças. Ponto.

Para sermos respeitados em nossas características precisamos reconhecer que existem outras pessoas com as suas características, que frequentarão ambientes onde tal jeito vai ser cultuado. Não posso ir a um restaurante vegano e pedir um cheese-bacon nem entrar pelado numa igreja. Simples assim.

Tem muito paladino da igualdade que entendeu errado o que é igualdade. Homens e mulheres nunca serão iguais. Negros são negros e falar isso não é racismo. Gordos ocupam mais espaço, e daí? Muçulmanos são estranhos sim, para quem viveu a vida inteira vendo o rosto e as coxas das mulheres. Quando visitou uma certa cidade interiorana do nordeste, minha esposa – que é branca e loira – virou centro de observação da comunidade. Imagina se tivesse se sentido agredida por ser observada acintosamente como diferente.

Igualdade é ser tratado de maneira igual, pela lei, pelo Estado, pelas autoridades, por entidades e pessoas que prestam serviços. Igualdade não é ser visto da mesma forma por todos, não é usar o mesmo traje, nem ter acesso aos mesmos recursos. Igualdade é um direito subjetivo, não uma atribuição objetiva. Não é porque o mais competente passou no vestibular que todos terão direito de entrar no mesmo curso; é só pra quem atingir o mesmo critério. Se haverão políticas de compensação – seja do que for – isso não é para promover igualdade. É para ajudar socialmente determinados grupos.

O que não podemos mais admitir é o desrespeito, a violência, o privilégio, a falta de ética e de bom senso. Mesmo a falta de bondade não é algo que podemos combater, simplesmente porque as pessoas têm o direito de não serem boas. Elas não podem é agir de forma maléfica.

Portanto, se você vai lutar por tolerância e igualdade, lembre-se de tolerar os diferentes de você. Sejam eles como forem.