A Liberdade

Nada pode ser efetivo sem liberdade. Nada. O casamento precisa de liberdade. A produção precisa de liberdade. A governança, a literatura, a ciência, o esporte, a amizade… tudo precisa de liberdade.

Gandhi ensinou que “de nada adianta a liberdade se não temos a liberdade de errar”. Liberdade de errar não é podermos errar de propósito, tampouco errarmos por maldade. É o erro buscando o acerto, pois caso contrário não houve um erro mas uma intenção.

Já a filosofia clássica grega dizia que os homens apaixonados e os viciados não são livres. A liberdade decorre da extinção das nossas limitações, pois, caso contrário, embora possamos fazer o que quisermos, ainda estaremos subjugados a algo. E onde há jugo não há liberdade.

Quem trabalha por dinheiro não é livre. Quem casa por interesse não é livre. Quem realiza por vaidade não é livre.

Ainda que não se dê valor a isso do ponto de vista prático, a vida está aí a ensinar (especialmente os mais maduros) que isso está provado ser assim. A vida prova todos dias que depende de construções e valores para se manter.

Há nas Cortes Superiores de diversos países o debate se a vida é mais importante que a liberdade (quando se julga, por exemplo, o suicídio e a eutanásia). Esse debate, em verdade, é menos sobre liberdade e mais sobre a vida, porque ambos valores tem a mesma grandeza.

Vivemos uma época de liberdade plena. Ao menos no ocidente. Ainda que haja os retrógrados de todos os polos ideológicos que entendem devamos limitar a liberdade dos opositores, a verdade é que, mesmo com todo esse esforço, a liberdade tem prevalecido no campo individual, precisando chegar de forma madura às instituições, especialmente nas estatais.

O elemento de construção da liberdade é a disciplina e o elemento de manutenção da liberdade é a responsabilidade. A liberdade, portanto, não existe como valor por si. Se optarmos em tornar a liberdade um valor absoluto, precisamos disciplinarmo-nos para tal (há um ditado japonês que ensina: “a disciplina é mais importante que a inteligência”). Com o aprendizado, perceberemos que só há liberdade responsável, aquela em que podemos errar mas seremos responsáveis pelo erro e, portanto, pela reparação quando for necessário e possível.

Numa época em que todos podemos dizer o que quisermos, em que todos podemos optar por viver como quisermos, o debate sobre o uso e a manutenção da liberdade deveria ser incorporado à educação formal que, por sinal, tem ensinado demasiadamente conteúdos sem valor, fazendo com que o aluno estude e não entenda o porquê. É a disciplina (etimologicamente falando) que nos falta para desfrutarmos plenamente nossa liberdade.

 

Anúncios

A mecânica existencial

Sou um admirador da mecânica existencial. Ela é incrivelmente habilidosa em produzir os efeitos que deseja e em alterar os resultados indesejados.

Veja por exemplo a necessidade de êxito. Existem profissionais que se esforçam profundamente para serem bem-sucedidos. Boa parte deles possui um senso de responsabilidade profissional e social. Sabem que do seu esforço surge um determinado resultado desejado por seus clientes. Nem todos, contudo, produzem tal resultado motivados por sentimentos altruístas ou valores mais nobres. Alguns simplesmente são excelentes profissionais porque são ambiciosos. Outros porque são vaidosos e orgulhosos.

A mecânica existencial encontra meios de atingir seus objetivos valendo-se dos espíritos mais variados, seja através das virtudes seja através dos vícios.

A perpetuação da espécie humana é um exemplo. A natureza não precisa do amor entre os casais, tampouco de maiores compromissos. Ela não precisa sequer de beleza ou muita saúde. Contenta-se com parcas atrações ocasionais e fugazes.

Outro exemplo é o aprendizado existencial… quem disse que precisamos ser bons ou sábios para existir?! Que nada. Para sermos felizes, sim. Creio que a sabedoria é a principal ferramenta da felicidade e ela, ao contrário do que muitos pensam, não depende de grande estudo, muito menos de grande capacidade intelectual. Mas para existirmos – e assim cumprir uma formalidade existencial acima do nosso poder de compreensão – não precisamos de nada disso. E ainda assim aprenderemos e nos tornaremos mais sábios ao final da vida do que éramos ao iniciá-la. É um compromisso de mérito infalível que, quanto mais eficaz, mais chances de se propagar e se prolongar.

A mecânica existencial abusa das bobagens nos bobos e das virtudes nos virtuosos. Ela sabe precisamente alimentar em cada um o que for necessário para dispor do resultado que pretende.

 

 

O que vem primeiro? O que é importante?

Vi reportagem de que em São José dos Campos a Prefeitura está usando alta tecnologia para gerenciar o trânsito da cidade. Lá, motoristas usam aplicativo no celular que informa em tempo real o sistema de controle de trânsito e, através de inteligência artificial, o sistema regula quais sinaleiras devem estar mais tempo abertas e fechadas de acordo com a quantidade de veículos em cada via e sentido.

O sistema controla também os veículos que ficam mais tempo que o permitido nos estacionamentos públicos rotativos. Por certo sabe a velocidade de cada veículo que está conectado.

Outro resultado de tamanha vigilância é que o número de veículos furtados/roubados é o menor em dezesseis anos.

Esse sistema é ótimo para quem não se importa em dividir a sua privacidade.

E quem se importa? Mesmo que por motivos legítimos?

E se esse sistema for usado por governantes ou administradores autoritários e desvirtuados do interesse público?

O debate sobre valores é sempre anterior a qualquer sistema. É impossível um sistema compensar os valores humanos, seja um sistema de controle de trânsito, seja um sistema de gestão pública ou privada, seja um sistema ideológico.

Os valores humanos são o alicerce da sociedade. Quando fragilizamos os valores que nos identificam, quando flexibilizamos nossas regras de respeito e convívio, passamos a ser reféns do sistema, seja ele qual for.

Quando alguém vende a ideia de igualdade precisa tratar todos com igualdade. Quando se vende a ideia de segurança precisa agir de forma segura. Toda ideia que não é valor é método de controle e de desvio.

Não há sistema que compense a falta de valores.

Imposição x Construção

Todos nós conhecemos a máxima de que não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar. É uma regra de educação humana e pode ser perfeitamente relacionada a qualquer aspecto da educação humana.

As sociedades são resultado da cultura e, ao mesmo tempo, construtoras da cultura. A cultura pode ser alterada por imposições ou por construções. Estou lendo um livro que fala da história do conhecimento, de como ele foi transmitido ao longo do tempo (A reinvenção do conhecimento, de Alexandria à internet). Os autores trazem de forma didática e interessante que muito do que criticamos foi, na verdade, muito eficaz para a transmissão do conhecimento humano. Um dos exemplo são os mosteiros. A igreja foi por muito tempo considerada a monopolizadora do conhecimento na idade antiga e medieval, como se fizesse isso com ardil e maldade. Na verdade, os mosteiros serviram de abrigo a diversas obras antigas, gregas e romanas na maioria, que se estivessem na mão dos governantes ou de particulares provavelmente teriam sido saqueadas, queimadas ou destruídas como muitas outras foram.

Muito do que se olha sobre a história é tratado de forma negativa e crítica. Faz-se um anacronismo avaliativo e julga-se o passado com os valores de hoje. Quase sempre que isso for feito o resultado vai ser uma avaliação crítica e negativa.

Pois a humanidade é feita de construções. Avança a passos largos ou lentos em direção a algo melhor do que já foi. Sem considerar a avaliação dos que acham que somos iguais ao que sempre fomos, pois evidentemente somos melhores do que o homem das cavernas, as construções realizadas por nossos antepassados funcionam como imposições no nosso tempo.

Não podemos escolher outro idioma, outros algarismos, outra estrutura social, outra cultura. Nascemos sobre condições impostas pela história. Há condições pregressas que não podemos alterar e ponto. Outras são indispensáveis sejam alteradas. A medida desta evolução é o que nos causa os embates de hoje e sempre foi assim.

Há evoluções que não parecem evoluções. Há mudanças que não são percebidas senão ao longo do tempo. A cultura é assim, volúvel, volátil e, ao mesmo tempo, hermética. Há os que mexem na cultura de forma definitiva, como Cristo, cujo nascimento baliza inclusive nossa marcação dos anos (quando viveu, Jesus não era o que é hoje). Há os que ensinam pelo mau exemplo. Somos biliões de almas que já passaram pela Terra, há muito de cada uma delas no que vivemos hoje.

Acredito que o modelo construtivo seja melhor que o impositivo nas relações humanas. Ensinar a construir e acreditar que isso produz resultados é melhor que impor a todos que atinjam tais resultados. E isso serve para quase todas os objetivos, características e valores humanos. Bondade, por exemplo. Ensinar a ser bondoso é muito diferente de impor a bondade. Impo-la cria hipocrisias, falsidades naqueles que ainda não aprenderam a sê-lo. Isso serve a qualquer demanda.

As imposições só devem existir quanto àquelas condutas extremas que, descumpridas, lesam suas vítimas. A violência, por exemplo. Ela precisa ser contida com repressão.

Então novamente voltamos ao grande dilema do equilíbrio entre o que deve ser construído e o que deve ser imposto. A veia dessa construção é a sabedoria. Sabedoria não é ser complacente, benevolente, tolerante. É, muitas vezes, ser impositivo.

O agir por imposição tem como elementos imprescindíveis os valores que se impõe. Quando perdemos essa referência, todo o mais se esvai. Se quero impor a igualdade de gênero, por exemplo, tenho que fazê-lo tratando a todos igualmente. Se quero que respeitem minha crença religiosa ou ideológica preciso respeitar a religião e a ideologia alheia.

Mas isso é dificílimo! E é isso que nos faz sermos tão conflitantes e polarizados.

Não há outra saída entre interesses divergentes que não seja a discussão dos valores que os norteiam. Precisamos construir e impor valores de igualdade, liberdade e fraternidade. Aos que vivem de discursar tais valores mas exercê-los apenas em favor de uns e não de todos, que imponhamos sejam respeitados. Aos que já estão dispostos a concretizar tais valores, que venhamos a construir laços de afinidade.

O que não podemos é permitir nos imponham valores distorcidos, que beneficiam uns e não todos, que criem privilégios, que sejam sustentados por demagogias e hipocrisias.

Os brasileiros são melhores do que têm se dito. Tirando uma turma barulhenta e imatura que pede que os outros façam sua parte, a maioria está na labuta de construir-se melhor a cada dia.

Mas que raios é isso que estão falando?!

Vivemos numa época em que já sabemos que a vida é melhor quando respeitados certos valores: igualdade, compartilhamento, fraternidade, compaixão, respeito, bondade, justiça, tolerância, dentre outros. O que não sabemos ainda é como fazer isso…

Por exemplo: tolerância. Nos nossos dias a palavra é repetitivamente usada para pedir aos conservadores que tolerem as diversidades, mas ela não é usada pelas minorias para tolerar o pensamento conservador. Vamos falar isso de outra forma: o jovem quer que seu avô pense como um jovem.

Outro exemplo: igualdade. É tratar todos iguais? É considerar todos iguais? É exigir que todos pensemos igual, tenhamos valores iguais, ajamos da mesma forma?

Bondade é um exemplo cujo debate tem me assustado um pouco. É cada vez mais ecoado que não existem “pessoas de bem”, no sentido, penso eu, de afirmar que todos somos passíveis de realizar maldades eventuais. É isso mesmo!?

O caminho que escolhemos está num ponto em que os valores historicamente preceituados estão sendo questionados e reformulados. Isso é bom. O que não é boa é a ideia de que os novos valores devem suplantar os anteriores totalmente. Essa ideia de descontinuidade atesta que a lição não foi aprendida, que apenas se mudou de lado, apenas se defende a mesma coisa de antes mas agora pro outro time.

Não há evolução cultural com a ideia de descontinuidade. A cultura humana é cumulativa, com acertos ou com erros. O que hoje é tratado como machismo e valorado como ruim já foi essencial para sobrevivência de certos grupos.

Veja por exemplo a questão da aceitação das relações homoafetivas. O mundo já a enfrentou de diversas formas ao longo da sua história, dependendo do lugar e da época. Na Grécia antiga de Platão – que dá origem a grande parte dos valores ocidentais – as relações entre homens e jovens garotos era tratada com hipocrisia, existindo uma aceitação velada e eventualmente até incentivada, mais ou menos como hoje tratamos o adultério. Então, esse não é um tema atual, nem novo, muito menos decorrente unicamente de valores religiosos ou moralistas. É um debate da própria condição humana, que se resume por motivos ideológicos.

Sabemos, portanto, os valores que nos permitirão viver melhor. Isso está claro. O que não sabemos é como efetivamente cumprir tais valores. Afinal, como se produz igualdade? Como se lida com o machismo, com o feminismo? Como se ensina a tolerar a diversidade?

A humanidade demonstra nesses seus enfrentamentos que, de maneira geral, melhorou tanto quanto a seus ideais quanto à sua prática, pois efetivamente hoje somos menos violentos, menos hipócritas, mais tolerantes. Mas ainda assim nos acusamos diariamente do contrário, como se todo o processo cultural humano fosse um erro imperdoável, como se apenas o que hoje se propõe como bom efetivamente o fosse.

Ora, se fôssemos tão detestáveis assim não teríamos chegado aqui!

A humanidade está num dilema existencial sobre a efetivação de seus valores como sempre esteve. São nossas lideranças que farão diferença, pois a massa humana é manobrável, frágil moralmente e se dispersa. A democracia não é o melhor sistema porque permite que todos tenham a mesma voz, mas porque permite que todos sejam como quiserem e participem se quiserem. A voz que comanda é daqueles mais preparados efetivamente, daqueles que melhor cativam e se impõe. É da nossa condição, não nos iludamos que podemos pular degraus evolutivos. Enquanto alguns de nós querem simplesmente viver sua vida, muitos vivem de debatê-la. O debate é menos importante que viver a vida, mas estão o transformando na própria existência.

A forma de colocar em prática qualquer coisa que se prega é vivê-la, não debatê-la. O debate é formação. A prática é maturidade.

 

Aquela conversa difícil

Todos nós nos deparamos com conversas difíceis, vez ou outra. A conversa da separação, aquele aviso ao amigo que não vamos mais contratá-lo para prestar serviços, a cobrança de outra postura para uma pessoa próxima, mas não tão próxima. Aquela conversa com o chefe sobre uma nova proposta em outra empresa. A difícil conversa sobre o comportamento do enteado ou do filho do melhor amigo. São praticamente tantas quanto forem as relações importantes na vida.

Os grandes problemas das nossas vidas nascem da nossa covardia frente a tais conversas. Não estou falando dos problemas difíceis. Estou falando dos mais que difíceis, daqueles que nos tiram a saúde, nos mudam como pessoas. Quando você olha uma realidade pessoal e vê muitos problemas ao redor de uma pessoa, creia que ali falta muito diálogo, flexibilidade. E coragem.

Eu já fugi de conversas difíceis por covardia. Sei do que estou falando. E quando percebi que isso mudava tudo na vida, mudei de atitude. Não fujo mais de nenhum tipo de conversa. Isso também é difícil, tira o sono, mas não deixamos nada pra trás.

Vivemos num mundo e numa época em que as pessoas buscam um mundo impossível. Queremos diminuir a violência sem abrir mão de comprar celular roubado e fumar um baseado. Queremos um salário melhor mas não queremos aumentar nossas responsabilidades profissionais. Queremos ótimos empregados com média remuneração. Queremos que os filhos do vizinho façam menos barulho, porque com os meus e os dele gritando não consigo ver a novela.

Então é comum você não contratar seu amigo para trabalhar pois tem medo que o rompimento da relação profissional atinja a relação pessoal.

Você evita conversar sobre o comportamento do seu enteado ou do filho do amigo porque não quer ouvir as reclamações sobre o seu filho.

Você se alia a quem deseja o mesmo que você no discurso, para evitar embates, mas não percebe que a atitude dos aliados levará a outros enfrentamentos? É resultado do mesmo tipo de covardia.

Seu país é como a sua família e suas relações multiplicadas por milhões. A forma como aprendemos a lidar com nossos problemas e repercutimos socialmente diz muito do ambiente em que vivemos. Ao mesmo tempo em que reclamar do cocô do cachorro do vizinho na grama é chato, pior é guardar isso dentro da gente.

É impossível enfrentarmos a descompostura alheia sem atitude. E isso vale pra qualquer tipo de descompostura, inclusive essa da criminalidade epidêmica  brasileira. Então, meu amigo, comece aprendendo a conversar…

A ilógica do crime

Existem diversas histórias que reivindicam a origem dos contratos de seguros. A mais remota que já li diz que, em rios chineses, muito antes do Cristo, transportadores criaram uma espécie de fundo para diminuir os prejuízos decorrentes da perda de produtos, fosse por roubo ou afundamento da embarcação. Em geral as pessoas buscam antídotos para suas adversidades, a ponto de chegarmos ao grande momento tecnológico de hoje. Evoluir é, evidentemente, uma aspiração humana, em que pese muito lenta e muito sútil às vezes.

Sempre houve e sempre haverá os contra-evolucionistas, seja no discurso, seja nas atitudes. O criminoso é um deles. O criminoso é o pior tipo materialista, pois coloca todos os valores abaixo do dinheiro. Por dinheiro vale desrespeitar o esforço do trabalho alheio, vale invadir a privacidade, vale machucar e tirar a vida. Gostar de ser criminoso, vangloriar-se de conseguir bens e vantagens à custa dos outros é burrice, por mais esperteza que pareça ser. Uma burrice egoísta e autodestrutiva.

Tudo na sociedade é interligado. Quando um bando assalta um caminhão cheio de eletrodomésticos na Rio-Santos está fazendo com que todos paguemos mais por isso. Não só aqueles que querem adquirir produtos similares, que terão de pagar os custos de segurança e seguro que se adicionarão, mas todos nós, porque a estrutura estatal que lida com tais problemas também deverá crescer e, portanto, custar mais ao bolso do contribuinte. Gastando mais em segurança, se gastará menos em saúde e educação ou em praças e eventos culturais. Quando se gasta menos nisso, se gasta menos em viver e adoecer ou morrer se torna cada vez mais possível.

Gostamos de atribuir nossos problemas sociais à ganância dos mais ricos, mas a ganância não escolhe classe social. O pobre e rico que roubam produzem os mesmos danos. Detonam seu redor de forma regular e, embora pareça que os locupletantes vençam num primeiro momento, a verdade é que todos perdem e eles ainda tendem a ir presos.

E educação que precisamos nas escolas é essa que ensine a refletir o básico da vida. Gastamos tanto tempo falando em ideologias justamente porque acreditamos que é esse debate que elevará a reflexão social, mas não é. Da maneira que refletimos sobre isso, neste momento, apenas dividimos as aspirações ideológicas, criando grupos desnecessariamente rivais que, parecem, buscam o mesmo desenvolvimento usando métodos distintos.

Muito antes de discutirmos aspectos político-ideológicos nas escolas, deveríamos mesmo é falar de valores. Valor, desde sua etimologia até o reflexo prático da sua reflexão. Vale mais trabalhar ou reivindicar? Vale trabalhar para sustentar quem não pode trabalhar e/ou quem não quer trabalhar? Vale mais o que se ganha ou o que se conquista? E os que não podem conquistar, como ajudá-los a buscar seus objetivos?

Valor é muito mais que moral, embora seja seu integrante. Valores são cada órgão do corpo moral. Precisam de integração para tudo funcionar. Se um está inadequado sobrecarrega os outros e pode levar ao colapso.

Imaginemos todos esses brasileiros que se dedicam ao crime produzindo algo positivo com o mesmo ímpeto! Poxa, os caras compram fuzis, enfrentam a polícia, usam dinamite. Se escondem da vida, se arriscam por dinheiro. Imagina toda essa coragem e esforço numa atividade legítima e produtiva!

Mas o problema é justamente a falta de valores. No fundo, eles não fazem tudo isso apenas por dinheiro. Fazem porque não enxergam algum significado existencial. Acham viver banal e tornam insignificantes as reflexões sobre isso.

A falta de lógica vem da falta de educação. A criminalidade é reflexo do que deixamos de ensinar em nosso país. Melhorar a educação pode ser sistêmico, mas sempre será pessoal. Sempre dependerá de alguém que faça a diferença e transforme o lógico em algo humano.

A educação nos salvará das nossas mazelas… lógico, quando resolvermos valorizá-la.

 

Dia Internacional da Paz

Que mundo, não é?! Precisamos de um dia para lembrarmos de valorizar as mulheres, os negros, os médicos, as secretárias, os estudantes, os professores… e até a paz!

No caso do 21 de setembro – que até parece o 1º de janeiro, mas este é Dia Mundial da Paz e aquele Dia Internacional – chama a atenção que com experiência civilizatória de mais de 15.000 anos ainda precisemos lembrar que vale a pena viver em paz.

A paz não é uma construção fácil, sabemos. Depende, para existir e ser mantida, de uma série de fatores que demandam muito esforço pessoal e social. Porque toda pessoa que se sente agredida se legitima a revidar a agressão, normalmente com outra agressão. E o enfrentamento sobre a primeira agressão e a segunda, suas razões, a intensidade, a forma, tudo é fator de desequilíbrio da paz e acirramento da agressividade. A injustiça é o fermento e a agressividade é o forno da discórdia, que são os primeiros destruidores da paz.

Creio que o mais maduro é que resolve os problemas. Quanto mais centrada, mais equilibrada, mais interessada for uma das partes, mais fácil de ser resolvido será o problema. Dois desequilibrados quebram o pau com certeza. Dois equilibrados, ainda que se sentindo injustiçados, contêm-se e buscam o diálogo. Uma sociedade violenta como a nossa resulta dessa falta de maturidade, de civilidade. E não é que não existam os maduros e centrados entre nós… não é isso. É que no confronto violento entre o equilibrado e o desequilibrado, este costuma levar vantagem. Aquele hesita, este não. Aquele quer algo além do que este quer. Eis uma constatação civilizatória importante: sem um mediador eficiente, o desequilibrado e mais violento domina os demais.

Essa a primeira função do Estado. A mais importante, a única que não pode ser transferida, embora possa ser compartilhada. Dar segurança e promover a paz social é a base civilizatória. Nada há antes disso que não seja a luta pela aquisição dos interesses individuais.

Toda vez que vemos quem desafia a paz social com depredação, agressão, violência, imposição dos seus interesses, estamos vendo uma postura anti-civilizatória que, evidentemente, coloca em risco a paz. Contra o violento adianta o diálogo?

Na condição histórica em que nos encontramos não interessam as ideologias nem as justificativas subjacentes: se o exercício de tais posturas atenta contra a paz, não serve. Porque depois que se desequilibra a estabilidade do sistema social, será a força que irá se impor. E o uso da força é comprovado historicamente como cheio de efeitos colaterais.

Veja o assaltante. Ele impõe-se frente ao proprietário de algo que lhe interessa usando da violência ou grave ameaça. A lei que proíbe tal conduta falhou em conter sua vontade. A partir do momento em que ele age com violência autorizou, mesmo que inconscientemente, que se lhe contenham com a violência. Pode ser contido por sua vítima, pelo Estado, pela sociedade. Para o ser humano racional é óbvio que o risco de ser violentado não vale o permitir-se violentar. Mas…

Alguns, menos conscientes, dirão que não é justo conter um assaltante que visa um bem material tirando-lhe a vida, por exemplo. Também acho, em tese. Mas constato que no momento em que ele ameaçou a vida de alguém, permitiu deduzir-se que é violento e que, para ser contido, pode ferir. Isso é óbvio, mas ainda precisa ser dito.

A humanidade é isso, a mistura dos mais e menos humanos. Quando desprezamos as instituições que existem para promover a estabilidade social, estamos fomentando o que nos retira a humanidade. Por mais nobre que achemos ser a nossa causa.

Quem não aprendeu a viver com a civilização atenta contra ela. E, nessa luta, é o Estado que media e impõe. A paz é, por assim dizer, o primeiro ideal estatal e o principal elemento da base social.

Sejamos nós, nesse mundo tão conflitante, a paz que desejamos, como nos ensinou Gandhi, o homem que representa a luta sem desrespeito à paz.

 

Ciclos

Num belo domingo de sol duas irmãs param o carro na sinaleira e são abordadas por dois jovens que recém chegavam de um trabalho realizado no interior. Eles mandam elas saírem do carro. Sem saber ao certo se tenta arrancar para fugir ou se movimenta o carro involuntariamente com o susto, um dos rapazes dá três tiros que vitimam a motorista. Eles retiram-na do carro e fogem, roubando-o. Horas depois o veículo é encontrado queimado, com o documento de um deles dentro. Já não servia para o desmanche ou para a clonagem, porque os receptadores não gostam de receber veículos que estão sendo procurados pela polícia. A morte foi em vão, como são todas. A vida fez com que deixassem cair a carteira que os identificaria.

Ser assaltante é pior que ser traficante. O usuário escolhe sua condição de vítima do tráfico, na maioria das vezes. O assaltado não. A morte por vício costuma ser lenta, à prestação. A morte por tiro é à vista.

Hoje ainda recebi pelo WhatsApp um vídeo de uma jovem que mora distante mas tem alguma relação comigo, onde ela está fazendo sexo com dois homens. Ela tem apenas 18 anos, certamente só pensava em se divertir e não fez nada de tão absurdo assim… mas a sociedade vai cobrar dela esse deslise para sempre. Se for médica ou fisioterapeuta, seus pacientes lembrarão. Se for advogada, juíza, policial, seus investigados lembrarão. Se for vendedora, cabeleireira, diarista, seus clientes lembrarão.

Recentemente um amigo sofreu um sequestro relâmpago e ficou cerca de uma hora e meia refém de dois ex-presidiários. Me disse ele que não sentiu raiva, até se compadeceu, de certa forma, do fato de que eles diziam precisar roubar porque não conseguiam trabalho. Estranhei. Sempre o achei severo com tais atitudes. O carro dele não foi recuperado. A seguradora já lhe deu um novo.

Julgamos e somos julgados a todo instante. Tomamos decisões e nos omitimos a toda hora. Ciclos constantes de ação e reação, atitude e espera, plantio e colheita.

Temos nos iludido com tantos discursos falsos sobre o comportamento humano que nos falta a convicção do certo e do errado para as coisas mais básicas socialmente. O bom e o ruim já não são unânimes como foram por séculos de humanidade. E isso tem lá seu lado bom, é inegável. O que não se pode jamais é deixar de lado aquilo que norteia a vida social.

A moralidade não deve ser construção ideológica. Certo e errado podem ser ideologicamente maleáveis, mas o bem e o mal não. A vida necessita que o que lhe faz bem seja valorizado e repudiado o que lhe faz mal. 

O ciclo da vida é acertar e errar. O que se faz e o que acontece depois que se erra é que nos diferencia como pessoas e como sociedade. Aceita-se, perdoa-se, tolera-se, pune-se, entende-se, regenera-se. Ou nada acontece, ao menos aparentemente.

Se estás atento ao teu redor, o universo explica muita coisa. Em cada dor, em cada alegria, em cada perda. A vida está sempre neste balançar e não deixa de pedir e dar a cada instante, a cada um de nós. Não estamos livres de nada disso.

Vou falar uma banalidade ocorrida comigo. Quebrou uma prótese dentária minha ontem à noite. Típica coisa chata, que incomoda. Enquanto me lamentava disso lia algumas postagens no Face e me compadeci com uma que pedia doação a um jovem com câncer. Fiz uma pequena doação. Bem, hoje pela manhã tentei alguns dentistas conhecidos para corrigir meu problema. Acabei encontrando horário com um senhor que nunca tinha visto nem ouvido falar, sem qualquer referência. Ele me atendeu prontamente. Me explicou uma série de coisas, pediu raio x, colou a prótese. Ao sair lhe agradeci e perguntei o valor. Ele me respondeu: nada. Foi apenas uma colagem, não vou lhe cobrar.

Vencer!

Veni, vidi, vici… parece fácil, para quem apenas lê, a conquista de Júlio César. Algo como “cheguei, gostei e peguei”. Vencer é o objetivo humano mais remoto, depois de sobreviver. Quiçá sobreviver seja vencer a morte, ao menos por hoje.

O que é vencer? Derrotar, ganhar, obter vitória diz o léxico. Vencer é, portanto, atingir um objetivo. Quando pensamos em vencer pensamos em que? Esporte? Conquistas profissionais? Superar um trauma, uma doença? Receber um dinheiro decorrente de um negócio?

Vencer é o resultado do mérito. O mérito decorre de uma conotação social (ou relacional) e de uma conotação íntima. As duas conotações formam o valor do mérito.

Nos dias de hoje, associa-se a ideia de vencer ao liberalismo capitalista porque, afinal, neste regime o desejo de conquistar é inerente. Se não houver desejo de conquista não haverá o capitalismo. Tal associação criou uma dissociação: a de que a busca pelo mérito, pela vitória, cria desigualdades. É um ledo engano, fomentado e multiplicado por conveniência.

O ser humano que não tem objetivos existenciais não está existindo. O ser humano mais desprovido de condição, de saúde, de meios, sempre estará buscando algo, nem que seja viver (ou sobreviver). É da natureza humana atingir objetivos. Quando se prega a ausência do mérito se está lutando contra a condição humana. É irracional, insensível, até malévolo.

Vencer não é superar o outro apenas. É ser melhor que você mesmo. E se for superar o outro, que seja. Perder faz parte da próxima vitória, eis que nenhuma vitória é perene. E se nenhuma vitória persiste, toda vitória faz parte da próxima derrota. Cabe ao ser humano aprender a vencer e perder, neste eterno ciclo… mas jamais negar ou afrontar a necessidade de buscar seus objetivos e aprender quando não os consegue.

Por que perdemos nosso tempo discutindo mérito no sentido ideológico? Porque se imaginou um mundo impossível brotado de um bem original, de um ser humano ideal que nasce pronto e não transpassa a estrada evolutiva, um ser que não se materializa jamais. Esse mundo impossível prega a mudança do que há pelo que deveria ser, mas exige que esse objetivo se cumpra através de regras impraticáveis, regras que não são praticadas sequer por quem as defende. Como fazer um profissional ser eficiente e eficaz sem o risco de perder o emprego em caso de fracasso? Como dizer que um aluno está pronto sem avaliá-lo? Como não bonificar um êxito se é o êxito que todos precisamos? Como distribuir a riqueza alheia sem distribuir as obrigações que geraram tal riqueza?

A vida sem méritos é a contemplação dos méritos alheios.

A vida em sociedades que se perdem em debates impraticáveis é a contemplação da vida nas sociedades alheias.

Vencer é necessário. Aprender a perder é necessário. Ajudar os outros a vencer é necessário. Ajudar os outros quando perdem é necessário. Viver vencendo e perdendo é viver.

No fundo a vida é mais simples do que tentamos fazê-la e vencer pode ser, simplesmente, atingir um melhor viver.