Fortalecer x Vitimizar

Você acredita que o presente momento social fortalece ou enfraquece as pessoas? Você sente que os jovens são mais determinados e auto-confiantes hoje em dia? Você identifica divergências relevantes entre os seus valores pessoais e os valores sociais? Existe a possibilidade de termos uma sociedade forte com pessoas fracas? A sociedade pode ser melhor do que seus membros?

Estas (antigas) reflexões são pertinentes em demasia no nosso tempo. Vivemos numa época em que há um grande dilema sobre o quanto as liberdades individuais devem ser limitadas para garantir-se o equilíbrio entre as pessoas. O debate acerca das liberdades individuais sempre estará ao lado do debate acerca dos interesses sociais, pois nas sociedades mais heterogêneas (em termos de valores, cultura e recursos materiais) as divergências tendem a ser maiores e, por consequência, os conflitos igualmente. Este cenário traz o enfrentamento de dar-se mais flexibilidade às diferenças ou dar-se mais padronização ao grupo. Quanto mais valorizarmos o direito individual, mais estaremos promovendo o respeito ao diferente. Ao valorizarmos o interesse coletivo, tenderemos a estabelecer padrões de comportamento e de valores.

Numa sociedade complexa, com diversas perspectivas existenciais, com valores dissonantes e diferenças sociais e culturais expressivas, o fortalecimento individual é indispensável. Não há como mantermos a ideia de que o outro deve ser como eu quero no nosso tempo. Precisamos aprender a respeitar o outro sem nos desrespeitarmos e isso significa sermos capazes de nos defendermos dos abusos que as diferenças podem promover, sejam físicas, afetivas, econômicas ou de que natureza for.

É romântico em demasia a ideia de que numa sociedade heterogênea não haverá conflitos. Dentro de uma família, criada com laços afetivos e valores comuns, os conflitos são indissociáveis… imagina no mundo lá fora!

Outra ideia romântica é a de que em sociedades evoluídas estaremos seguros e não precisamos exercer o uso da força. Em algum ponto do nosso mundo, alguém está se colocando em risco para que nos mantenhamos em segurança, seja do ponto de vista da saúde, seja do ponto de vista social ou mesmo do ponto de vista do manejo da violência. Leis que proíbem matar, por exemplo, existem há milhares de anos e, ainda assim, o ser humano mata. Portanto, não é apenas o fortalecimento institucional e a evolução sócio-cultural que nos garantirá segurança existencial.

Nosso tempo é o do debate público e difuso. Todos tem direito e meios de opinião e de uma individualidade livre. Todos tem acesso aos recursos de conhecimento e aprimoramento individual. Isso só causa mais heterogeneidade e, potencialmente, mais conflitos. São as instituições que os mediarão, mas somos nós mesmos que nos protegeremos. Fortaleçamo-nos para que tenhamos menos vítimas, no sentido que for, e para que cada um possa viver sua vida da maneira que desejar.