Abusos

Vou contar mais uma história pessoal: na minha quinta série, quando tinha dez anos, fui estudar num colégio de classe média que ficava em Porto Alegre (eu morava em Viamão). Neste colégio eu sofri bullying por quase um ano. Eu tinha um colega que devia ter uns dezesseis anos, dizia-se que estava pela terceira vez repetindo. Era o filho do dono do bar, um alemão muito maior que eu, a quem aprendi a temer até doer de medo.

Esse colega foi, digamos, o vetor dos abusos, porque depois que ele começou e eu me amedrontei, muitos outros colegas passaram a fazer algo contra mim.

Não lembro exatamente quando começou, mas provavelmente foi quando o alemão baixou meu calção em plena educação física e fiquei nu em frente a todos os colegas. Pra ajudar, fui reprimido pelo professor, que achou que eu estava de brincadeira com os outros guris.

Teve uma ocasião em que fui colocado no grupo de trabalho de duas colegas, uma negra e uma a quem já conhecia, de Viamão. Combinamos de nos encontrarmos na casa da minha colega negra. Ela me deu o endereço e, na tarde combinada, peguei o ônibus e fui ao local. Procurei, procurei… perguntei… nada. No dia seguinte eu, constrangido por me sentir burro, fui dizer pra elas que não tinha conseguido encontrar a casa e pedir desculpas por não participar do trabalho (não existia celular) e elas começaram a rir de mim, com outros colegas. Haviam me dado o endereço errado para zoar comigo.

Teve outras situações que, confesso, nem lembro direito mais. Eu odiava tanto ir pra escola que começaram a surgir em mim diversas erupções cutâneas, como furúnculos e tersóis. Até que fiz dois amigos e as coisas começaram a melhorar, isso já próximo ao final do ano.

Nunca soube o porquê disso. Desconfiei na época que era porque eu não tinha as roupas que eles tinham, mas não acho hoje que fosse exatamente isso. Hoje acredito que eu tinha uma postura muito introspectiva e isolada, que naturalmente atraía os abusadores e os que gostam de se impor.

Minha mãe teve uma ideia de gênio. Ela não sabia o que eu passava, eu não dizia. Ela intuiu que meu problema era insegurança e me incentivou a voltar às aulas de karatê duas vezes na semana. O karatê meu deu autoconfiança e me ajudou a controlar a minha agressividade. Fiz karatê até os vinte e quatro anos.

Por que trago isso? Porque há uma ideia  (em alguns) de que guris brancos de classe média estão isentos de abusos e de problemas. Há uma ideia de que tudo é problema social e uma inversão de quem são as verdadeiras vítimas. Todos somos potenciais vítimas de abusadores e, se não nos controlarmos, todos somos potenciais abusadores.

Ninguém precisa ser vítima de nada. As pessoas precisam acreditar que podem ser mais fortes do que são, porque todos podem. Todos temos de aprender que contra abusadores, criminosos, agressores o remédio é, antes de mais nada, coragem e coragem.

Uma pessoa sozinha tem certa quantidade de coragem, mas duas pessoas juntas não vão apenas dobrá-la… quiçá quadruplicá-la. Se aprendêssemos a nos unir contra os patifes que nos cercam e cada vez mais se impõe, nós certamente os suplantaríamos. Mas estamos envoltos em teses e mais teses.

Enquanto isso os abusados que aguentem.

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Teses x Realidade

A República é um sistema que, em tese, melhoraria em muito o que se via na Monarquia. Isso desde a Roma e a Grécia antigas. Dom Pedro II assumiu o poder em 1840 com 92% dos brasileiros analfabetos. Deixou o governo em 1889 com 56%. Nunca teve escravos. Aliás, um dos principais motivos para a aristocracia brasileira ter tramado a sua deposição foi justamente porque a família real tinha posição claramente abolicionista e investia nisso. O Brasil, nesse época, era a quarta economia do mundo, com crescimento médio de 8% ao ano e inflação inferior a 2%. Fomos o segundo país do mundo a dispor de educação para surdos e cegos. E a imprensa podia livremente se manifestar contra o regime e a coroa (e o fazia com muita voracidade, mesmo porque os intelectuais sempre se caracterizaram por viver de reclamar da realidade e buscar reformá-la para implantar suas teses). Ao final do ano, era comum a coroa devolver dinheiro aos cofres públicos daquilo que sobrava do seu orçamento, sendo que boa parte já havia sido doado ou investido em causas sociais.

Um mundo sem armas é, em tese, melhor que um mundo de pessoas armadas. Mas a Terra é um planeta com gente de valores muito distintos, não apenas pelas diferenças culturais, mas por toda a complexidade que forma a personalidade humana e, por consequência, as sociedades. Os pacíficos não precisam de armas para resolver disputas entre si, mas o mundo não é composto apenas por eles. Em alguns lugares, temos de admitir, muitas pessoas buscam se impor às demais por meios ilegítimos. Num mundo ideal, de pessoas já amadurecidas, esta tese poderia se tornar uma realidade. Não vivemos nesse mundo. Há países extremamente armados, como o Canadá e a Suíça, que são pacíficos e seguros.

Uma sociedade sem disputas religiosas e ideológicas, onde todos concordassem com rumos sociais e existenciais padronizados seria mais coesa e feliz, em tese. Acontece que, sabemos e já dissemos, o ser humano é complexo e há muita diversidade naquilo que forma uma pessoa e uma sociedade. É impossível pensarmos numa sociedade 100% coesa em ideais num sistema onde a manifestação seja livre.

As drogas são maléficas à saúde e comprometem a qualidade de vida daqueles que se deixam dominar. São, provavelmente, o maior objeto de repressão estatal no mundo. Em tese, uma sociedade sem drogas seria mais saudável e segura. Portugal liberou todas as drogas dentro de uma certa quantidade e desfruta de um dos melhores índices de criminalidade da Europa.

O amor nas relações produz, em tese, pessoas mais seguras, amáveis e maduras. Mas vivemos numa sociedade hedonista e egoísta, mesmo já estando há gerações sob uma nova visão da estrutura familiar em que os pares se formam por interesse recíproco e não por imposição dos pais (ou qualquer outro). Em tese, deixar que as pessoas escolham seus parceiros criaria núcleos familiares mais felizes, mas nossa era é conhecida como a primeira em que a depressão se tornou epidêmica.

A vida não é feita de teses, em que pese seja indispensável pensarmos a respeito dela para construirmos nossos caminhos.

O ser humano, contudo, precisa dispor de mais humildade em reconhecer aquilo que não está funcionando e mudar. Simples assim.

Em tese a vida é fácil. Ou é difícil. Mas na prática é bem diferente.

Cristo(s)

José Saramago, ateu, escreveu “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, livro que lhe alçou ao Nobel de literatura. Nessa obra, um ateu apresenta a sua visão sobre Cristo, onde o Filho do Homem é tratado como um personagem histórico e humano, sem os adjetivos que costumeiramente lhe são atribuídos. Saramago é português e precisava ter extremo cuidado para dar a sua narrativa uma visão que pretendia “humanizar” Jesus sem desrespeitar a fé do seu povo. Conseguiu. A obra é espetacular.

Jesus não é o mesmo personagem divino para Judeus e Muçulmanos. Nestas outras religiões monoteístas, Jesus é um profeta, não o Deus vivo. Essa diferença, provavelmente, é o que faz com que cada uma das crenças se mantenha distinta.

Há um Jesus menos estudado pela maioria das pessoas, um Jesus mais místico, que teria sido casado com Maria de Magdala (Madalena) e com ela teria tido uma filha. Esse Jesus ainda é tratado como um messias e um iluminado, mas menos divino do que a visão católica. Podemos ver essa abordagem no filme (e livro) “O Código Da Vinci”, que é um romance baseado em obras místicas muito antigas e, hoje, retomadas ao debate graças aos Manuscritos do Mar Morto.

Há outro Jesus (e creio que surpreenderei alguns) que é a reencarnação de Buda e Krishna. Ele é tratado na obra “O Redentor”, de Chico Xavier.

Jesus é muito mais do que a Igreja Católica Apostólica Romana pretende e essas abordagens referidas demonstram isso. Mas nenhuma dessas abordagens o desrespeita.

Acho o ateísmo uma soberba, uma imaturidade. Contudo, jamais acharei o ateu uma pessoa menor do que o crente. Todos nós temos aspectos do nosso ser mais ou menos preparados, melhor ou pior desenvolvidos. Digo isso para, primeiro, afirmar que entendo porque alguns não creem em Deus e, segundo, porque acho que isso é aceitável (embora não seja bom). Isso não me dá o direito de debochar, nem ironizar, especialmente de forma pública quem assim pensa.

Numa época em que se brada tanto por aceitação, a melhor forma de aceitarmos o novo é reconhecermos que nem tudo é tão novo, nem tudo é tão velho. As visões de mundo e as reflexões sobre o mundo estão aí há milênios. A cultura humana não chegou até aqui por acaso. O que há de nos diferenciar não são nossas bandeiras, que nos apartam apenas por aspectos externos, mas sim nossas atitudes.

Há muitas visões de Cristo na história e, entre determinados grupos, cada uma delas é debatida e elaborada. Todas são visões de aprofundamento e, de algum maneira, veneração. Os católicos se autodenominam os detentores da verdade sobre Jesus e, para impor sua versão, já fizeram de tudo, desde as Cruzadas à Inquisição. Não o são. Mas isso não faz deles rivais dos demais. Faz deles apenas diferentes. Respeito seu ponto de vista, mas não as suas atitudes de impô-lo no passado.

O que não se compreende é a necessidade dos que não acreditam em Jesus ficarem repetitivamente buscando ofendê-lo e/ou ofender a crença dos que acreditam. É essa a “tolerância” dos nossos dias?! É isso o melhor que se consegue oferecer de oposição ao conservadorismo!?

Jesus é o maior personagem da história humana. Toda menção a ele deve ser feita considerando isso.

 

Além do debate ideológico

Vou começar com uma quase provocação: a vida vai muito além do debate entre direita e esquerda. Dito diferente: o que interessa realmente na vida é muito mais importante do que esse debate.

O debate ideológico polarizado é um evento mundial. Talvez só não ocorra em países regidos por ditadores e em países que nunca se interessaram muito por isso, como o Japão. Onde há internet e liberdade de expressão, há o debate polarizado entre direita e esquerda. E vejamos que o conceito de direita e esquerda não é lá muito claro na maioria dos países… o que aqui no Brasil é direita provavelmente seria esquerda em outros lugares e vice-versa.

Por quê?

Primeiro porque se pode. Todo mundo pode expressar o que pensa. Acabou a contenção milenar do que os homens e mulheres comuns queriam expressar e não podiam porque não tinham voz.

Segundo porque as pessoas precisam se sentir acolhidas e escolher um lado dá essa sensação. Escolhe-se muito mais por motivos afetivos do que filosóficos. Veja, por exemplo, que uns bradam “tolerância, tolerância!” mas são totalmente intolerantes com o pensamento diverso. São tão intolerantes que esquecem que a avó de 90 anos não vai mudar o que pensou e sentiu por toda a vida só por causa deles. Outros gritam “fascista!”, tocam um ovo e recebem o aplauso dos “anti-fascistas”.

Terceiro porque as pessoas têm aspirações existenciais muito diversas. Não se tem mais apenas a vontade de casar e ter filhos, nem de ir pra guerra e conquistar o mundo ou de enriquecer. Hoje em dia todos os desejos existenciais são legítimos e isso confunde a quem precisa se encontrar e encontrar o seu grupo, ou seja, todos.

Quarto: é mais fácil bradar a mudança do mundo do que lapidar a própria.

Somemos isso tudo e muitas coisas mais e dá essa realidade chata, barulhenta e imatura que enfrentamos.

Acredito que vamos deixar de lado essa coisa que exigir que o mundo seja do meu jeito. Mas pensa comigo: se lutássemos por respeito, de verdade, respeitaríamos. Se realmente buscássemos tolerância, toleraríamos. Se efetivamente nos preocupássemos com os problemas sociais trabalharíamos para resolvê-los e não para pedir que os outros os resolvam. Se acreditássemos no que pregamos viveríamos isso e não apenas gritaríamos e escreveríamos nas redes.

Perdemos muito tempo discutindo a regra do jogo, ao invés de jogarmos. Enquanto isso, o jogo está sendo ganho por pessoas inescrupulosas que são ativas e nos roubam dinheiro, suor, respeito, dignidade, vidas. Há valores que estão acima da disputa ideológica, acima de debates filosóficos. Há posturas ideais atemporais que são deixadas de lado enquanto nos digladiamos para sermos ouvidos por quem pensa diferente e tem o direito de assim viver.

“Penso, logo existo”, Descartes.

“Não me envergonho de me contradizer, porque não me envergonho de raciocinar”, Goethe.

“Só há um caminho”, ditado japonês.