Riqueza

Reflexão sobre o que é riqueza.

Continuando a reflexão sobre Riqueza.

Trânsito como instrumento de educação

Salvo raras exceções, o brasileiro só recebe educação de trânsito quando busca habilitar-se como condutor. Essa realidade demonstra o desinteresse social pelo tema, quando somos todos parte do trânsito, estejamos caminhando na calçada, andando de bicicleta ou usando o transporte coletivo.

A educação de trânsito é um dos três pilares indispensáveis sobre o tema: os outros dois são fiscalização e campanhas (sobre pontos ou momentos específicos de enfrentamento). Só a soma destes três expedientes tem a condição de repercutir em resultados de segurança, funcionalidade e racionalidade.

Pois há uma função da educação de trânsito que tem grande valor social: o trânsito ensina a todos que vale a pena ser respeitoso. Respeito inicialmente às regras, mas não por mero cumprimento burocrático. Respeitar as regras porque isso é respeitar as pessoas e viabilizar conflitos de interesse num mesmo ambiente.

Você já percebeu com certeza que, se está num veículo que passa por uma faixa de pedestres e ali tem uma pessoa, criou-se um conflito de interesses. Você quer passar e a pessoa também, mas isso não pode acontecer ao mesmo tempo. É a regra de trânsito que vai resolver esse pequeno conflito. Até pouquíssimo tempo quem resolvia esta demanda era a lei do mais forte. O pedestre que esperasse, pois se não o fizer vai ser-lhe pior. A lei, contudo, mudou essa relação e exige do motorista que espere, justamente pelo motivo inicialmente proposto: se o mais forte não esperar, poderá causar um dano ao mais frágil.

Poderia ser o oposto? Poderia sim. Essa regra é uma convenção, não é um debate moral ou ético. E é justamente isso que precisamos nós todos, brasileiros, compreender. As regras de trânsito tem uma função convencional de organização e proteção. Elas fazem com que os milhares de interesses conflitantes durante a circulação tenham uma espontânea e imediata solução.

Agora imagina uma sociedade onde tais regras de convivência estão incorporadas ao seu cotidiano. Imagina uma criança que, ao sair da escola, passa pela faixa de pedestres e verifica que os veículos param para que ela atravesse a rua. Ela se sentirá respeitada e perceberá nos condutores uma postura que lhe servirá de referência. Os condutores igualmente sentir-se-ão responsáveis e parte de um gigantesco processo de cuidado e zelo, de educação e organização.

O trânsito tem a grande repercussão de servir de laboratório social. Reflete de forma instantânea a forma com que nos relacionamos com o outro e com os interesses conflitantes. E, por refletir, por espelhar estas soluções frente a pequenos conflitos de interesses diários, tem o poder de promover imediatamente empatia entre os envolvidos. Ou de criar antipatia.

Veja se não valeria a pena, de uma vez por todas, investirmos na educação de trânsito para, quem sabe, dispormos não só de um ambiente mais seguro, mas principalmente de uma convivência mais madura!

Relativismo

Einstein batizou sua teoria de Relatividade, do que um leigo como eu entende que analisou suas premissas considerando que elas se fundam em referências não absolutas, que se alteram dependendo dos fatores. Algo ser relativo é isso, é depender de uma relação entre parâmetros para que se estabeleça um valor; é dizer que determinada conclusão depende de determinada relação.

Filosoficamente o debate entre o absoluto e o relativo existe há milhares de anos. Do ponto de vista racional não fomos capazes de estabelecer definitivamente se tudo é relativo ou se há um absoluto no Universo. Vou além: não conseguimos sequer estabelecer se esta conclusão é pertinente.

Dizermos algo a alguém é muito diferente de se dizer o mesmo a outrem. Dizermos “tome cuidado” a pessoa excessivamente cautelosa pode torná-la inoperante; se dissermos o mesmo a pessoa despreocupada poderemos estar ajudando-a encontra um equilíbrio. Portanto aqui há um relativismo entre o valor “cuidado” e a personalidade dos agentes. Contudo, pensando sob outro de vista, esta relativização só tem relevância se o significado de “cuidado” for o mesmo, pois se houver uma graduação relevante do que significa “cuidado” para cada um dos agentes, a advertência “tome cuidado” perde totalmente o sentido.

Vejamos que do ponto de vista relativista parece que alguma coisa próximo do Absoluto se faz necessária para que exista sentido. Se tudo for sempre relativo, sem qualquer referência absoluta, não haverá significado em nada.

Parei com a reflexão filosófica. Vou para a proposição específica do texto.

O mundo tornou-se excessivamente relativista. Não há mais valores, nem objetivos, nem parâmetros absolutos. Se por milênios o objetivo da vida humana, por exemplo, era casar e ter filhos, hoje isso é eventual. Não há mais nenhum tipo de compromisso individual ao que sustenta o indivíduo, tornando a relativização de tudo um fator de desequilíbrio. E não julgo aqui, estou apenas referindo algo que é evidente em nosso tempo.

Ainda assim, tal desequilíbrio tem uma função existencial, pois decorre de uma elaboração da vida e da individualidade. Haveremos de encontrar um ponto de equilíbrio porque isso é indispensável à vida. A vida dá o seu jeito! A natureza é maior que a razão e maior que o indivíduo.

É um tanto assustador o que se faz para justificar o que se fez. É um tanto assustador o quanto se usa parâmetros (por exemplo, “ser democrático” ou “ser de direita”) sem que haja um elemento efetivo e absoluto sobre isso na utilização, tornando inclusive as classificações e distinções excessivamente relativas. Hoje pouco significam os significados. Servem muito mais como adjetivos do que como substantivos.

A existência humana é marcada por uma busca mais ou menos consciente do Absoluto. É ele quem nos dá segurança. Talvez estejamos no meio de uma escalada existencial onde aprendamos a ter segurança em indispor do absoluto… mas creio que não. Creio intuitivamente que isso é impossível.

O problema é que, hoje, sabemos que indivíduo acredita que sobrevive sem o coletivo melhor do que o coletivo crê possa sobreviver sem o indivíduo. A individualidade está aprendendo a ser livre da manda, porque, afinal, a manada nem sempre é o melhor que poderia. A relativização é que nos fez evoluir tecnológica e socialmente tanto em tão curto período.

Sempre que tiver dúvidas sobre relativizar ou buscar o absoluto, lembre-se que, no fundo, isso é muito parecido e que toda a dúvida dual só será sanada com um terceiro elemento.

Revolucionário

“Se hay gobierno soy contra” disse o médico e revolucionário argentino Ernesto Che Guevara. Por um bom tempo este foi o parâmetro do que é ser revolucionário, especialmente porque o mundo era binário políticamente e parecia que, se estivéssemos submetidos a um dos polos, o outro era a melhor opção.

É verdade que os revolucionários da História tiveram a mesma postura quando falamos em revoluções sociais e políticas (porque existem outras formas de revolucionar). Foi assim na insurgência judaica contra o Império Romano, foi assim na Revolução Francesa, foi assim nos levantes tribais contra o Império Asteca e foi assim nas incontáveis disputas das periferias contra seus governos em quase todos os tempos e continentes. Erramos ao fazer parecer que o eurocentrismo é o problema, pois o mundo foi e é maior que os nossos enfrentamentos.

Os revolucionários sempre se acharam inovadores sem considerar que as revoluções tendem a mudar as personagens mais do que mudar o sistema. A humanidade tem um processo histórico-evolutivo evidente, onde as mudanças não se dão de acordo com a vontade de uma elite ou de uma minoria, tampouco no ritmo de um grupo ou de uma ideologia. Guerras, revoltas, insurgências podem ser necessárias sim. A paz é uma conquista e um privilégio de quem a construiu, não de quem se omite. Mas achar que viver em constante conflito é algo produtivo é digno dos jovens e dos incautos.

Nós, professores de História, devemos sempre enfatizar que o processo histórico de melhoria da sociedade nasce da melhoria individual de alguém que servirá de referência. Devemos ensinar que pouco há de novo em cada período histórico e que são justamente as novidades que modificam tais períodos e, ainda assim, muito lentamente tais modificações vão se elaborando e atingindo outros para, enfim, tornarem-se o germe de uma nova etapa humana. Veja que o ser humano individualmente continua muito próximo do que sempre foi, porque, num mesmo lugar e numa mesma época, existem pessoas com a mentalidade de 1000 anos atrás e outras com mentalidade de 1000 anos à frente. E isso não muda!

Revolucionário é mudar o mundo a partir de si, como ensinou Gandhi. O quanto se impõe disso aos outros, bem… isso é outra coisa.

Tecnocracia

Desde que Voltaire estabeleceu a tríplice partição do poder estatal entre Executivo, Legislativo e Judiciário, os regimes de governo se estruturaram definitivamente com esta ideia. Mesmo governos com menor apelo democrático utilizaram-se desta tripartição, como ocorria com os regimes monárquicos até o Séc. XIX ou com as repúblicas ditatoriais do Séc. XX.

Ao longo dos últimos séculos se concluiu que o a democracia é o melhor regime governamental, com todos os seus desafios, e a forma republicana a melhor companheira de sistema a lhe emprestar institucionalidade. Há, entretanto, democracias das mais variadas. No sistema norte-americano inclusive juízes, procuradores, delegados de polícia são eleitos. Portanto, o Judiciário lá é uma instituição com sufrágio e não uma instituição acessível por concurso, como aqui. No Oriente Médio, especialmente nos países árabes, o poder judiciário tende a vincular-se à hierarquia e preceitos religiosos.

Dito isso, claro está que falarmos em democracia e em divisão do poder estatal não é algo simples. O sistema judiciário brasileiro também é sui generis, na medida em que os seus membros são todos constituídos por servidores de carreira ingressos através de concurso. O quadro pessoal judiciário é, portanto, tecnocrático, posto que é a análise de competência intelectual o requisito de ingresso e, passado o estágio probatório, tornam-se servidores de carreira. Há duas exceções a esta regra: os Tribunais têm um quinto dos seus membros oriundos da advocacia (e do MP, mas estes também são tecnocratas) que apresenta listas tríplices aos Governadores e Presidente e, no caso dos STF, os ministros são escolhidos pelo Presidente da República e avalizados pelo Senado.

Muito se discute no Brasil se é válido este tipo de escolha para os Tribunais, seja através das listas tríplices com a escolha do Chefe de Governo, seja por indicação do Presidente ao STF. Penso que é bom, pois é um meio de não nos rendermos à tecnocracia como forma de governo. Ao contrário do que se costuma debater, termos técnicos para tomar decisões de governo não é bom. Como seria a sua alimentação se apenas nutricionistas lhe determinassem o que comer? Todos os nutricionistas convergiriam para um mesmo cardápio? Veja, por exemplo, como seria o enfrentamento à pandemia se apenas técnicos impusessem o que entendem pertinente. Seria eficaz sob um ponto de vista, mas seria viável sobre outos?

A tecnocracia não é algo viável no nosso tempo. Um dia poderá sê-lo, pois o amadurecimento humano elabora as relações sociais. A democracia não é assim tão boa quando temos uma sociedade de iníquos, mas numa sociedade de justos é bastante diferente (o próprio Platão, ao teu tempo, não acreditava que a democracia seria melhor do que um governo de pessoas notáveis). Se fôssemos hoje governados por tecnocratas que não dependem dos resultados de produção social para sobreviver e que não são subordinados a nada, nem a ninguém, não estaríamos repetindo, com outra roupagem, um sistema de governo discriminatório e autoritário, dessa vez sob o argumento da cientificidade e da técnica?!

Penso que a evolução da tripartição dos poderes irá transformar o Executivo num poder tecnocrata, como é hoje o Judiciário, restando apenas ao Legislativo estabelecer as políticas de governo, as regras estruturais e o ordenamento jurídico de forma geral. Quando isso ocorrer haverá uma evidente sobreposição do Legislativo sobre os demais poderes e, penso, isso será bom, posto que o poder político ainda é uma necessidade humana.

O que não podermos aceitar é que o governo, no nosso tempo, seja imposto por servidores públicos de carreira (ou por qualquer outro grupo). Não podemos aceitar que as decisões sobre a sociedade venham de decisões judiciais sob o vento de “legítimas” e/ou “legais”, quando governar é um ato político. A política não é pior que a tecnocracia, nem melhor, mas é mais sensível. Se aceitarmos que tribunais decidam a vida política estaremos retornando a momentos históricos em que a vontade da maioria era indiferente e que, sob os mais variados argumentos, as elites impunham seus valores e interesses.

Julgar não é criar o Direito. Julgar não é impor Políticas Governamentais. Julgar não é um exercício de execução estatal. Pense: como seria chegar num hospital com grave enfermidade e ouvir do médico: “não posso atendê-lo porque aqui consta que ele cumpre pena por roubo”. Ou ligar para a emergência policial e receber o retorno de que não seria enviada viatura porque “a solicitante está com dívidas ativas com o Estado”. Vejam, não se julga no exercício das atividades estatais, salvo em julgamentos efetivos.

A tecnocracia já serviu de justificativa a governos autoritários do Séc. XX, findados pela falência dos seus propósitos ante a míngua social que impunham.

Tecnocracia não! Não aceite esse retrocesso.

Pandemia de Diversidade

Nos seus mais variados rincões o mundo é muito diferente. O clima, os recursos naturais, a oferta de ar e oxigênio, a proximidade de água, alimento e de terra fértil e tudo mais. Essa diversidade repercute nas profundas diferenças culturais entre os mais longínquos cantos do planeta e isso foi assim, se manifestando e intensificando por séculos e séculos. Até que a modernidade fez com que as pessoas circulassem cada vez mais e interagissem e firmassem vínculos que acabavam por repercutir na cultura que originalmente dispunham, mudando-a.

É por causa da diversidade que existem muitas línguas, muitas religiões, muitos alfabetos, muitas cidades, muitas formas de resolver os mesmos problemas. Essa diversidade é, ao mesmo tempo, fruto do meio e do ser humano e, por isso, também vai sofrendo mudanças, se tornando a diversidade da diversidade. O mundo é assim, concordemos ou não! Quem acredita que possamos viver hoje como se vivia há 100 ou 10.000 anos está errado e o mundo, com sua história, prova isso. Nós mesmos, que já não somos tão jovens, somos provas disso

O sonho de muitos terráqueos é que fôssemos todos iguais, com uma mesma língua, um mesmo governo, mesmos valores. Alguns queriam que um Super Estado regulasse isso. Outros, que isso fosse resultado de uma Super Consciência. A igualdade parece algo, infelizmente, inatingível do ponto de vista mundano. A história está aí a provar também. Ainda que tenhamos mesmos direitos, mesmas oportunidades, mesmos recursos, jamais seremos iguais. E é bom que assim seja, se não nos tornaríamos um rebanho e isso só serviria para que fôssemos conduzidos por aqueles eventualmente detentores do Poder (como, até aqui, tem acontecido nos lugares em que se tentou artificializar a igualdade).

A pandemia convid 19 escancara o resultado da diversidade mundial. O vírus é o mesmo, o resultado diferente. Ainda não sabemos tudo que precisamos sobre isso, mas podemos concluir até aqui com certeza os seguintes pontos:

  • faz muita diferença a forma com que enfrentamos uma mesma dificuldade com base no que já sabemos, não apenas sob o ponto de vista dos recursos materiais, mas principalmente com nossas atitudes
  • faz muita diferença nos entendermos para percebermos quais providências e comportamentos dos outros podem ou não funcionar conosco
  • faz muita diferença durante uma crise aquilo que foi feito antes dela
  • faz muita diferença durante uma crise aquilo que se quer priorizar
  • faz muita diferença durante uma crise de grandes proporções a ética, o interesse e a capacidade

Temos países no mundo em que, embora populosos e altamente densos demograficamente, as taxas de contágio foram de cerca de 0,5% da população, mesmo sem proibições rígidas e sem fechamento em massa por períodos prolongados. Podemos teorizar muito sobre isso, mas uma coisa é certa: são culturas em que há disciplina.

Temos países que providenciaram medidas governamentais rígidas de fechamento e proibição de circulação que serviram mais para impossibilitar a dinâmica social do que para impedir a circulação do vírus, com contágio de cerca de 5% de toda a gente (dez vezes maior que o exemplo acima). O motivo pode ser igualmente teorizado de diversas formas, mas é evidente que os Governos destes lugares negam a condição cultural e social de seu povo ao propor algo que não é cumprido, provavelmente porque não se consiga.

Temos outros países (penso que a maioria) onde se tentou diversas formas de enfrentamento, algumas mais eficazes por um tempo que outras. Enfim, tivemos uma diversidade de políticas de enfrentamento, proporcionais à diversidade cultural de nosso planeta.

A pandemia de covid mostra que as atitudes individuais e coletivas se complementam. Que não há uma única forma de lidarmos, de olharmos e de nos prepararmos para as situações de agravamento. Isso, penso, todos nós percebemos.

O que falta ser percebido é que a diversidade de enfrentamentos não existe apenas entre povos ou entre países. Ao nosso redor ela existe. Ao nosso redor temos pessoas com realidades absolutamente distintas umas das outras e por isso as suas ações também o são. É por isso que protocolos de enfrentamento são tão importantes, pois só assim haverá uma padronização de métodos e resultados.

Em países de maior igualdade social e cultural, certamente será mais fácil a implementação de políticas uniformes. Não é nosso caso. Aqui, onde na mesma rua transitam pessoas de realidades totalmente distintas, a forma de nos igualarmos é providenciando medidas de respeito e prevenção mínimas. Elegemos o distanciamento, o uso de máscaras e de produtos de higienização como instrumentos e eles funcionam! Vejam o resultado nos estabelecimentos que se mantiveram abertos porque são indispensáveis.

Muito se debaterá – com razão – sobre a necessidade disso aqui ou ali, mas veja: mais importante do que estar certo sobre detalhes é produzir resultados suficientes para salvarmos vidas. Não é uma questão governamental, nem de estrutura. Estas, sabemos, sempre foram insuficientes e não será no meio da tempestade que construiremos bons telhados.

Precisamos fazer a nossa parte. Se errarmos, que seja pelo excesso do que poderíamos fazer, jamais pela insuficiência ou pelo desinteresse. Sejamos nós aquilo que todos precisamos.

Re[volução]De Social

Há vinte anos, se um aluno quisesse reclamar do abuso por um professor, iniciaria uma reflexão sobre o melhor caminho para se fazer isso: conto aos meus pais; vou à direção da escola; faço uma comunicação de ocorrência policial; procuro um advogado e busco o Judiciário; inicio terapia.

Há vinte anos, se um subalterno fosse ofendido por seus superiores, se um consumidor fosse enganado, se um compositor amador encontrasse um artista com sua melodia ou se um ex-assessor quisesse denunciar impropriedades dos seus chefes provavelmente percorreria um caminho similar.

Esse caminho convencional tinha como resultado costumeiro a barreira de prosseguimento. Nem sempre por maldade, nem sempre por interesse. Muitas vezes as reclamações e denúncias não iam adiante por impossibilidade cultural, estrutural e institucional. Sempre houve um protocolo, um procedimento digamos, para que as apurações fossem providenciadas e as reclamações levadas a sério.

As redes sociais, tão criticadas (por motivos justos) em nosso tempo, deram voz a uma infinidade de demandas, muitas das quais absolutamente pertinentes. Se é verdade que temos de aprender a não expor em demasia nossa vida por simples respeito à nossa individualidade e privacidade, também é verdade que a exposição automática e generalista destes tipos de casos que referi no início do texto acaba por forçar a providência que, antes, era quase sempre posta embaixo do tapete.

As redes sociais revolucionaram os direitos personalíssimos. Mudaram totalmente a noção de privacidade, de moral, de individualidade. Se antigamente muitas mulheres dedicavam horas a escolher o vestuário para refletir sua intenção de mostrarem-se mais arrojadas ou conservadoras, hoje um perfil no Instagram costuma revelar mundialmente as curvas mais sutis das mais ousadas ou os blogs a revelar as suas reflexões mais profundas.

Para quem foi educado na geração pré-internet isso é assustador (mesmo na Grécia antiga era assustador o comportamento dos jovens para os anciões), mas cabe sempre ao mais maduro o dever de ponderação e o agir mais qualificado, pois esperar que o menos maduro os produza resulta em colher resultados ainda menos confortáveis.

A revolução das redes sociais não é só de exposição de fotos e banalidades, como muito se critica. Não é só uma apologia ao rasteiro e ao improdutivo. Tampouco pode ser resumida como uma instrumentalização das relações humanas. As redes sociais vieram para se tornar um item definitivo em nossas vidas e servem para expor nossa personalidade, com seus traumas, desejos, limites, valores, conteúdo. Há uma revolução do individualismo em andamento que torna pública a individualidade, a ponto de produzir efeitos (e transformações) sociais nunca antes experimentados. Percebem? É uma espécie de dialética dos fatos (sociais) nas mídias. É um contraponto entre extremos em que o resultado ainda é impossível de se avaliar, posto a complexidade, a dinâmica e a infinidade de elementos que o compõe. Os sociólogos finalmente vão conseguir analisar, daqui algumas décadas, o quanto os indivíduos participam da transformação social e o quanto a sociedade os molda, porque estes elementos são cada vez mais palpáveis.

As redes sociais são o novo portal de exposição da identidade do indivíduo e da sociedade, antes presentes em obras, no corpo, na roupa. Nem sempre mostram o que gostaríamos porque os seres humanos são assim. Não digamos que elas são inúteis e desnecessárias… a sua presença em nossas vidas será permanente e já se mostrou, em que pese os seus dejetos, muito de terapêutica, de reflexiva e de transformadora.

A dominação

Costumamos criticar os instrumentos de dominação utilizados pela humanidade como se eles fossem a causa da dominação. Violência, armamento, religião, conhecimento, ciência, política, dinheiro… nada disso é causa da dominação de uns sobre os outros, ainda que, até os nossos dias, essa avaliação nos seja ensinada na escola e até em doutorados.

A vida é regida por diversas leis, dentre as quais uma das mais consensualmente aceitas é a lei de causa e efeito. Esta lei natural é reproduzida pelas filosofias de todos os cantos do mundo em todas as épocas humanas. É chamada de karma por uns, de ação e reação por outros e, por outros mais, de sorte ou azar ou, ainda, de meritocracia.

A lei de causa e efeito determina que há ações que definem os resultados. Muitas vezes são tão complexas as ações e/ou tão complexos os resultados que o vínculo entre ambos torna-se igualmente complexo (afinal, essa relação também se submete à mesma lei).

O homem que quer dominar e dispõe de armas, o faz pela violência (ou ameaça de). O homem que quer dominar e dispõe de ciência o faz com o conhecimento, com a tecnologia. O homem que quer dominar e dispõe do poder político o faz com a burocracia estatal e, se falhar, com a tecnologia ou a violência estatal.

Não é o Estado ou a Igreja ou a Política ou a Ideologia ou mesmo o Exército que dominam. Estes são instrumentos humanos de dominação, como podem se tornar instrumentos humanos de libertação, quando for a liberdade que os instrumentaliza.

A dominação é um expediente dos humanos egocêntricos, que entendem devam os demais se submeter a sua vontade, aos seus valores, aos seus interesses, a sua religião ou a sua ideologia. Reconhecer que outros humanos podem querer dispor de caminhos diferentes é atitude de amadurecimento relacional e, portanto, imprescindível para a vida em sociedade.

A época do uniforme, dos caminhos únicos, da homogeneidade, está findando, porque nos tornamos complexos demais para reduzirmos a humanidade a uma única língua, uma única religião e uma única ideologia. Esta reflexão simples (e elementar) há de nos ensinar que é só o aprendizado frente à diferença de caminhos – claro que com respeito a si e ao outro – que nos permitirá irmos adiante. E, aí, os hoje instrumentos de dominação servirão para outro propósito.

Propostas para o Brasil

1. As atividades mais bem remuneradas do quadro estatal devem ser as vinculadas às principais atividades estatais

Precisamos imediatamente mudar nosso plano de carreira das atividades estatais para melhor remunerar os profissionais da educação, saúde e segurança, tornando-os os mais bem remunerados do serviço público. Já sabemos há longa data que, num corpo institucional, são as atividades mais importantes que devem ser melhor remuneradas. Estes profissionais desempenham a atividade mais importante para os objetivos do Estado. Só por isso já mereceriam a melhor remuneração. Há, contudo, outros bons fundamentos: (a) fim das desigualdades remuneratórias nas carreiras estatais; (b) descentralização dos grandes centros, levando profissionais mais bem remunerados a todo o país; (c) melhor qualificação daqueles que desempenham as atividades mais importantes do Estado, levando os bons profissionais que hoje buscam carreiras burocráticas a desempenhar atividades mais importantes pra sociedade.

2. Fim da impunidade

O brasileiro precisa conscientizar que o crime não compensa. Essa conscientização deveria advir do respeito ao outro, mas se assim não é, que seja pela limitação dos direitos e da liberdade. A educação não é infelizmente o único instrumento de formação desta consciência (é evidente que pessoas bem instruídas também cometem crimes). Precisamos sim de medidas de enfrentamento à criminalidade que sejam mais rigorosas, deixando de lado a impunidade e os discursos demagógicos que até pouco tempo nos eram impostos. É justamente a pessoa mais pobre que mais sofre com a impunidade, pois ela é vítima de crimes em todos os setores da sua vida: desde a parada do ônibus e a sua casa, em local vulnerável, até os abusos de empregadores e de negociantes em geral.

Faz parte deste tópico a obrigação de os presidiários trabalharem e indenizarem suas vítimas e o Estado. O trabalho na vida adulta não é uma opção, principalmente para quem escolheu desviar-se dos valores sociais médios.

3. Educação da liberdade

Precisamos ensinar a educadores e educandos o que é liberdade, as vantagens e consequências. Precisamos conscientizar nossa gente de que a liberdade exige maturidade e respeito ao outro e que é a única forma efetiva de conseguirmos viver uma vida sem o risco de nos imporem valores, condutas, trabalhos e limites que não queremos.

4. O trânsito como laboratório social

O melhor laboratório de relações sociais disponível é o trânsito. Ele nos ensina ordem e respeito e espelha as relações sociais, permitindo constatarmos o nível de efetividade da educação, da ordem, da conscientização e da impunidade de uma sociedade, independentemente do seu tamanho. Uma política educacional que usasse o trânsito como conteúdo e referência serviria de instrumento de elaboração das relações pessoais e sociais.

5. Respeito ao pactuado entre as partes

É claro que o Estado deve regular as atividades sociais, empresariais, negociais e institucionais. Contudo, precisamos que nossa gente aprenda a tomar decisões e assumir a responsabilidade pelo que se compromete. Isso é um dos elementos da liberdade.

6. Meritocracia

Meritocracia é muito mais do que o debate tem lidado. Meritocracia é o que seleciona os servidores em concurso público, é o que constata se um aluno pode mudar de ciclo, é o que informa se um produto é melhor que outro. Não há vida humana sem a valorização do mérito. Se não concordamos com os critérios, mudemos tais critérios, pois não existe nenhuma possibilidade de não valorizarmos mais as pessoas que melhor desempenham suas atividades, sob pena de não existir motivo os menos interessados se interessarem em melhorar.

7. Cargo político não pode ser carreira

Quem quiser participar da Administração Pública como carreira, faça concurso. Cargos políticos devem ser transitórios. Não deve existir a possibilidade de reeleição para nenhum cargo político.

“Sejamos a mudança que queremos ver no mundo”, Gandhi.