Relativismo

Einstein batizou sua teoria de Relatividade, do que um leigo como eu entende que analisou suas premissas considerando que elas se fundam em referências não absolutas, que se alteram dependendo dos fatores. Algo ser relativo é isso, é depender de uma relação entre parâmetros para que se estabeleça um valor; é dizer que determinada conclusão depende de determinada relação.

Filosoficamente o debate entre o absoluto e o relativo existe há milhares de anos. Do ponto de vista racional não fomos capazes de estabelecer definitivamente se tudo é relativo ou se há um absoluto no Universo. Vou além: não conseguimos sequer estabelecer se esta conclusão é pertinente.

Dizermos algo a alguém é muito diferente de se dizer o mesmo a outrem. Dizermos “tome cuidado” a pessoa excessivamente cautelosa pode torná-la inoperante; se dissermos o mesmo a pessoa despreocupada poderemos estar ajudando-a encontra um equilíbrio. Portanto aqui há um relativismo entre o valor “cuidado” e a personalidade dos agentes. Contudo, pensando sob outro de vista, esta relativização só tem relevância se o significado de “cuidado” for o mesmo, pois se houver uma graduação relevante do que significa “cuidado” para cada um dos agentes, a advertência “tome cuidado” perde totalmente o sentido.

Vejamos que do ponto de vista relativista parece que alguma coisa próximo do Absoluto se faz necessária para que exista sentido. Se tudo for sempre relativo, sem qualquer referência absoluta, não haverá significado em nada.

Parei com a reflexão filosófica. Vou para a proposição específica do texto.

O mundo tornou-se excessivamente relativista. Não há mais valores, nem objetivos, nem parâmetros absolutos. Se por milênios o objetivo da vida humana, por exemplo, era casar e ter filhos, hoje isso é eventual. Não há mais nenhum tipo de compromisso individual ao que sustenta o indivíduo, tornando a relativização de tudo um fator de desequilíbrio. E não julgo aqui, estou apenas referindo algo que é evidente em nosso tempo.

Ainda assim, tal desequilíbrio tem uma função existencial, pois decorre de uma elaboração da vida e da individualidade. Haveremos de encontrar um ponto de equilíbrio porque isso é indispensável à vida. A vida dá o seu jeito! A natureza é maior que a razão e maior que o indivíduo.

É um tanto assustador o que se faz para justificar o que se fez. É um tanto assustador o quanto se usa parâmetros (por exemplo, “ser democrático” ou “ser de direita”) sem que haja um elemento efetivo e absoluto sobre isso na utilização, tornando inclusive as classificações e distinções excessivamente relativas. Hoje pouco significam os significados. Servem muito mais como adjetivos do que como substantivos.

A existência humana é marcada por uma busca mais ou menos consciente do Absoluto. É ele quem nos dá segurança. Talvez estejamos no meio de uma escalada existencial onde aprendamos a ter segurança em indispor do absoluto… mas creio que não. Creio intuitivamente que isso é impossível.

O problema é que, hoje, sabemos que indivíduo acredita que sobrevive sem o coletivo melhor do que o coletivo crê possa sobreviver sem o indivíduo. A individualidade está aprendendo a ser livre da manda, porque, afinal, a manada nem sempre é o melhor que poderia. A relativização é que nos fez evoluir tecnológica e socialmente tanto em tão curto período.

Sempre que tiver dúvidas sobre relativizar ou buscar o absoluto, lembre-se que, no fundo, isso é muito parecido e que toda a dúvida dual só será sanada com um terceiro elemento.

Revolucionário

“Se hay gobierno soy contra” disse o médico e revolucionário argentino Ernesto Che Guevara. Por um bom tempo este foi o parâmetro do que é ser revolucionário, especialmente porque o mundo era binário políticamente e parecia que, se estivéssemos submetidos a um dos polos, o outro era a melhor opção.

É verdade que os revolucionários da História tiveram a mesma postura quando falamos em revoluções sociais e políticas (porque existem outras formas de revolucionar). Foi assim na insurgência judaica contra o Império Romano, foi assim na Revolução Francesa, foi assim nos levantes tribais contra o Império Asteca e foi assim nas incontáveis disputas das periferias contra seus governos em quase todos os tempos e continentes. Erramos ao fazer parecer que o eurocentrismo é o problema, pois o mundo foi e é maior que os nossos enfrentamentos.

Os revolucionários sempre se acharam inovadores sem considerar que as revoluções tendem a mudar as personagens mais do que mudar o sistema. A humanidade tem um processo histórico-evolutivo evidente, onde as mudanças não se dão de acordo com a vontade de uma elite ou de uma minoria, tampouco no ritmo de um grupo ou de uma ideologia. Guerras, revoltas, insurgências podem ser necessárias sim. A paz é uma conquista e um privilégio de quem a construiu, não de quem se omite. Mas achar que viver em constante conflito é algo produtivo é digno dos jovens e dos incautos.

Nós, professores de História, devemos sempre enfatizar que o processo histórico de melhoria da sociedade nasce da melhoria individual de alguém que servirá de referência. Devemos ensinar que pouco há de novo em cada período histórico e que são justamente as novidades que modificam tais períodos e, ainda assim, muito lentamente tais modificações vão se elaborando e atingindo outros para, enfim, tornarem-se o germe de uma nova etapa humana. Veja que o ser humano individualmente continua muito próximo do que sempre foi, porque, num mesmo lugar e numa mesma época, existem pessoas com a mentalidade de 1000 anos atrás e outras com mentalidade de 1000 anos à frente. E isso não muda!

Revolucionário é mudar o mundo a partir de si, como ensinou Gandhi. O quanto se impõe disso aos outros, bem… isso é outra coisa.

Tecnocracia

Desde que Voltaire estabeleceu a tríplice partição do poder estatal entre Executivo, Legislativo e Judiciário, os regimes de governo se estruturaram definitivamente com esta ideia. Mesmo governos com menor apelo democrático utilizaram-se desta tripartição, como ocorria com os regimes monárquicos até o Séc. XIX ou com as repúblicas ditatoriais do Séc. XX.

Ao longo dos últimos séculos se concluiu que o a democracia é o melhor regime governamental, com todos os seus desafios, e a forma republicana a melhor companheira de sistema a lhe emprestar institucionalidade. Há, entretanto, democracias das mais variadas. No sistema norte-americano inclusive juízes, procuradores, delegados de polícia são eleitos. Portanto, o Judiciário lá é uma instituição com sufrágio e não uma instituição acessível por concurso, como aqui. No Oriente Médio, especialmente nos países árabes, o poder judiciário tende a vincular-se à hierarquia e preceitos religiosos.

Dito isso, claro está que falarmos em democracia e em divisão do poder estatal não é algo simples. O sistema judiciário brasileiro também é sui generis, na medida em que os seus membros são todos constituídos por servidores de carreira ingressos através de concurso. O quadro pessoal judiciário é, portanto, tecnocrático, posto que é a análise de competência intelectual o requisito de ingresso e, passado o estágio probatório, tornam-se servidores de carreira. Há duas exceções a esta regra: os Tribunais têm um quinto dos seus membros oriundos da advocacia (e do MP, mas estes também são tecnocratas) que apresenta listas tríplices aos Governadores e Presidente e, no caso dos STF, os ministros são escolhidos pelo Presidente da República e avalizados pelo Senado.

Muito se discute no Brasil se é válido este tipo de escolha para os Tribunais, seja através das listas tríplices com a escolha do Chefe de Governo, seja por indicação do Presidente ao STF. Penso que é bom, pois é um meio de não nos rendermos à tecnocracia como forma de governo. Ao contrário do que se costuma debater, termos técnicos para tomar decisões de governo não é bom. Como seria a sua alimentação se apenas nutricionistas lhe determinassem o que comer? Todos os nutricionistas convergiriam para um mesmo cardápio? Veja, por exemplo, como seria o enfrentamento à pandemia se apenas técnicos impusessem o que entendem pertinente. Seria eficaz sob um ponto de vista, mas seria viável sobre outos?

A tecnocracia não é algo viável no nosso tempo. Um dia poderá sê-lo, pois o amadurecimento humano elabora as relações sociais. A democracia não é assim tão boa quando temos uma sociedade de iníquos, mas numa sociedade de justos é bastante diferente (o próprio Platão, ao teu tempo, não acreditava que a democracia seria melhor do que um governo de pessoas notáveis). Se fôssemos hoje governados por tecnocratas que não dependem dos resultados de produção social para sobreviver e que não são subordinados a nada, nem a ninguém, não estaríamos repetindo, com outra roupagem, um sistema de governo discriminatório e autoritário, dessa vez sob o argumento da cientificidade e da técnica?!

Penso que a evolução da tripartição dos poderes irá transformar o Executivo num poder tecnocrata, como é hoje o Judiciário, restando apenas ao Legislativo estabelecer as políticas de governo, as regras estruturais e o ordenamento jurídico de forma geral. Quando isso ocorrer haverá uma evidente sobreposição do Legislativo sobre os demais poderes e, penso, isso será bom, posto que o poder político ainda é uma necessidade humana.

O que não podermos aceitar é que o governo, no nosso tempo, seja imposto por servidores públicos de carreira (ou por qualquer outro grupo). Não podemos aceitar que as decisões sobre a sociedade venham de decisões judiciais sob o vento de “legítimas” e/ou “legais”, quando governar é um ato político. A política não é pior que a tecnocracia, nem melhor, mas é mais sensível. Se aceitarmos que tribunais decidam a vida política estaremos retornando a momentos históricos em que a vontade da maioria era indiferente e que, sob os mais variados argumentos, as elites impunham seus valores e interesses.

Julgar não é criar o Direito. Julgar não é impor Políticas Governamentais. Julgar não é um exercício de execução estatal. Pense: como seria chegar num hospital com grave enfermidade e ouvir do médico: “não posso atendê-lo porque aqui consta que ele cumpre pena por roubo”. Ou ligar para a emergência policial e receber o retorno de que não seria enviada viatura porque “a solicitante está com dívidas ativas com o Estado”. Vejam, não se julga no exercício das atividades estatais, salvo em julgamentos efetivos.

A tecnocracia já serviu de justificativa a governos autoritários do Séc. XX, findados pela falência dos seus propósitos ante a míngua social que impunham.

Tecnocracia não! Não aceite esse retrocesso.

Pandemia de Diversidade

Nos seus mais variados rincões o mundo é muito diferente. O clima, os recursos naturais, a oferta de ar e oxigênio, a proximidade de água, alimento e de terra fértil e tudo mais. Essa diversidade repercute nas profundas diferenças culturais entre os mais longínquos cantos do planeta e isso foi assim, se manifestando e intensificando por séculos e séculos. Até que a modernidade fez com que as pessoas circulassem cada vez mais e interagissem e firmassem vínculos que acabavam por repercutir na cultura que originalmente dispunham, mudando-a.

É por causa da diversidade que existem muitas línguas, muitas religiões, muitos alfabetos, muitas cidades, muitas formas de resolver os mesmos problemas. Essa diversidade é, ao mesmo tempo, fruto do meio e do ser humano e, por isso, também vai sofrendo mudanças, se tornando a diversidade da diversidade. O mundo é assim, concordemos ou não! Quem acredita que possamos viver hoje como se vivia há 100 ou 10.000 anos está errado e o mundo, com sua história, prova isso. Nós mesmos, que já não somos tão jovens, somos provas disso

O sonho de muitos terráqueos é que fôssemos todos iguais, com uma mesma língua, um mesmo governo, mesmos valores. Alguns queriam que um Super Estado regulasse isso. Outros, que isso fosse resultado de uma Super Consciência. A igualdade parece algo, infelizmente, inatingível do ponto de vista mundano. A história está aí a provar também. Ainda que tenhamos mesmos direitos, mesmas oportunidades, mesmos recursos, jamais seremos iguais. E é bom que assim seja, se não nos tornaríamos um rebanho e isso só serviria para que fôssemos conduzidos por aqueles eventualmente detentores do Poder (como, até aqui, tem acontecido nos lugares em que se tentou artificializar a igualdade).

A pandemia convid 19 escancara o resultado da diversidade mundial. O vírus é o mesmo, o resultado diferente. Ainda não sabemos tudo que precisamos sobre isso, mas podemos concluir até aqui com certeza os seguintes pontos:

  • faz muita diferença a forma com que enfrentamos uma mesma dificuldade com base no que já sabemos, não apenas sob o ponto de vista dos recursos materiais, mas principalmente com nossas atitudes
  • faz muita diferença nos entendermos para percebermos quais providências e comportamentos dos outros podem ou não funcionar conosco
  • faz muita diferença durante uma crise aquilo que foi feito antes dela
  • faz muita diferença durante uma crise aquilo que se quer priorizar
  • faz muita diferença durante uma crise de grandes proporções a ética, o interesse e a capacidade

Temos países no mundo em que, embora populosos e altamente densos demograficamente, as taxas de contágio foram de cerca de 0,5% da população, mesmo sem proibições rígidas e sem fechamento em massa por períodos prolongados. Podemos teorizar muito sobre isso, mas uma coisa é certa: são culturas em que há disciplina.

Temos países que providenciaram medidas governamentais rígidas de fechamento e proibição de circulação que serviram mais para impossibilitar a dinâmica social do que para impedir a circulação do vírus, com contágio de cerca de 5% de toda a gente (dez vezes maior que o exemplo acima). O motivo pode ser igualmente teorizado de diversas formas, mas é evidente que os Governos destes lugares negam a condição cultural e social de seu povo ao propor algo que não é cumprido, provavelmente porque não se consiga.

Temos outros países (penso que a maioria) onde se tentou diversas formas de enfrentamento, algumas mais eficazes por um tempo que outras. Enfim, tivemos uma diversidade de políticas de enfrentamento, proporcionais à diversidade cultural de nosso planeta.

A pandemia de covid mostra que as atitudes individuais e coletivas se complementam. Que não há uma única forma de lidarmos, de olharmos e de nos prepararmos para as situações de agravamento. Isso, penso, todos nós percebemos.

O que falta ser percebido é que a diversidade de enfrentamentos não existe apenas entre povos ou entre países. Ao nosso redor ela existe. Ao nosso redor temos pessoas com realidades absolutamente distintas umas das outras e por isso as suas ações também o são. É por isso que protocolos de enfrentamento são tão importantes, pois só assim haverá uma padronização de métodos e resultados.

Em países de maior igualdade social e cultural, certamente será mais fácil a implementação de políticas uniformes. Não é nosso caso. Aqui, onde na mesma rua transitam pessoas de realidades totalmente distintas, a forma de nos igualarmos é providenciando medidas de respeito e prevenção mínimas. Elegemos o distanciamento, o uso de máscaras e de produtos de higienização como instrumentos e eles funcionam! Vejam o resultado nos estabelecimentos que se mantiveram abertos porque são indispensáveis.

Muito se debaterá – com razão – sobre a necessidade disso aqui ou ali, mas veja: mais importante do que estar certo sobre detalhes é produzir resultados suficientes para salvarmos vidas. Não é uma questão governamental, nem de estrutura. Estas, sabemos, sempre foram insuficientes e não será no meio da tempestade que construiremos bons telhados.

Precisamos fazer a nossa parte. Se errarmos, que seja pelo excesso do que poderíamos fazer, jamais pela insuficiência ou pelo desinteresse. Sejamos nós aquilo que todos precisamos.

Re[volução]De Social

Há vinte anos, se um aluno quisesse reclamar do abuso por um professor, iniciaria uma reflexão sobre o melhor caminho para se fazer isso: conto aos meus pais; vou à direção da escola; faço uma comunicação de ocorrência policial; procuro um advogado e busco o Judiciário; inicio terapia.

Há vinte anos, se um subalterno fosse ofendido por seus superiores, se um consumidor fosse enganado, se um compositor amador encontrasse um artista com sua melodia ou se um ex-assessor quisesse denunciar impropriedades dos seus chefes provavelmente percorreria um caminho similar.

Esse caminho convencional tinha como resultado costumeiro a barreira de prosseguimento. Nem sempre por maldade, nem sempre por interesse. Muitas vezes as reclamações e denúncias não iam adiante por impossibilidade cultural, estrutural e institucional. Sempre houve um protocolo, um procedimento digamos, para que as apurações fossem providenciadas e as reclamações levadas a sério.

As redes sociais, tão criticadas (por motivos justos) em nosso tempo, deram voz a uma infinidade de demandas, muitas das quais absolutamente pertinentes. Se é verdade que temos de aprender a não expor em demasia nossa vida por simples respeito à nossa individualidade e privacidade, também é verdade que a exposição automática e generalista destes tipos de casos que referi no início do texto acaba por forçar a providência que, antes, era quase sempre posta embaixo do tapete.

As redes sociais revolucionaram os direitos personalíssimos. Mudaram totalmente a noção de privacidade, de moral, de individualidade. Se antigamente muitas mulheres dedicavam horas a escolher o vestuário para refletir sua intenção de mostrarem-se mais arrojadas ou conservadoras, hoje um perfil no Instagram costuma revelar mundialmente as curvas mais sutis das mais ousadas ou os blogs a revelar as suas reflexões mais profundas.

Para quem foi educado na geração pré-internet isso é assustador (mesmo na Grécia antiga era assustador o comportamento dos jovens para os anciões), mas cabe sempre ao mais maduro o dever de ponderação e o agir mais qualificado, pois esperar que o menos maduro os produza resulta em colher resultados ainda menos confortáveis.

A revolução das redes sociais não é só de exposição de fotos e banalidades, como muito se critica. Não é só uma apologia ao rasteiro e ao improdutivo. Tampouco pode ser resumida como uma instrumentalização das relações humanas. As redes sociais vieram para se tornar um item definitivo em nossas vidas e servem para expor nossa personalidade, com seus traumas, desejos, limites, valores, conteúdo. Há uma revolução do individualismo em andamento que torna pública a individualidade, a ponto de produzir efeitos (e transformações) sociais nunca antes experimentados. Percebem? É uma espécie de dialética dos fatos (sociais) nas mídias. É um contraponto entre extremos em que o resultado ainda é impossível de se avaliar, posto a complexidade, a dinâmica e a infinidade de elementos que o compõe. Os sociólogos finalmente vão conseguir analisar, daqui algumas décadas, o quanto os indivíduos participam da transformação social e o quanto a sociedade os molda, porque estes elementos são cada vez mais palpáveis.

As redes sociais são o novo portal de exposição da identidade do indivíduo e da sociedade, antes presentes em obras, no corpo, na roupa. Nem sempre mostram o que gostaríamos porque os seres humanos são assim. Não digamos que elas são inúteis e desnecessárias… a sua presença em nossas vidas será permanente e já se mostrou, em que pese os seus dejetos, muito de terapêutica, de reflexiva e de transformadora.

A dominação

Costumamos criticar os instrumentos de dominação utilizados pela humanidade como se eles fossem a causa da dominação. Violência, armamento, religião, conhecimento, ciência, política, dinheiro… nada disso é causa da dominação de uns sobre os outros, ainda que, até os nossos dias, essa avaliação nos seja ensinada na escola e até em doutorados.

A vida é regida por diversas leis, dentre as quais uma das mais consensualmente aceitas é a lei de causa e efeito. Esta lei natural é reproduzida pelas filosofias de todos os cantos do mundo em todas as épocas humanas. É chamada de karma por uns, de ação e reação por outros e, por outros mais, de sorte ou azar ou, ainda, de meritocracia.

A lei de causa e efeito determina que há ações que definem os resultados. Muitas vezes são tão complexas as ações e/ou tão complexos os resultados que o vínculo entre ambos torna-se igualmente complexo (afinal, essa relação também se submete à mesma lei).

O homem que quer dominar e dispõe de armas, o faz pela violência (ou ameaça de). O homem que quer dominar e dispõe de ciência o faz com o conhecimento, com a tecnologia. O homem que quer dominar e dispõe do poder político o faz com a burocracia estatal e, se falhar, com a tecnologia ou a violência estatal.

Não é o Estado ou a Igreja ou a Política ou a Ideologia ou mesmo o Exército que dominam. Estes são instrumentos humanos de dominação, como podem se tornar instrumentos humanos de libertação, quando for a liberdade que os instrumentaliza.

A dominação é um expediente dos humanos egocêntricos, que entendem devam os demais se submeter a sua vontade, aos seus valores, aos seus interesses, a sua religião ou a sua ideologia. Reconhecer que outros humanos podem querer dispor de caminhos diferentes é atitude de amadurecimento relacional e, portanto, imprescindível para a vida em sociedade.

A época do uniforme, dos caminhos únicos, da homogeneidade, está findando, porque nos tornamos complexos demais para reduzirmos a humanidade a uma única língua, uma única religião e uma única ideologia. Esta reflexão simples (e elementar) há de nos ensinar que é só o aprendizado frente à diferença de caminhos – claro que com respeito a si e ao outro – que nos permitirá irmos adiante. E, aí, os hoje instrumentos de dominação servirão para outro propósito.

Propostas para o Brasil

1. As atividades mais bem remuneradas do quadro estatal devem ser as vinculadas às principais atividades estatais

Precisamos imediatamente mudar nosso plano de carreira das atividades estatais para melhor remunerar os profissionais da educação, saúde e segurança, tornando-os os mais bem remunerados do serviço público. Já sabemos há longa data que, num corpo institucional, são as atividades mais importantes que devem ser melhor remuneradas. Estes profissionais desempenham a atividade mais importante para os objetivos do Estado. Só por isso já mereceriam a melhor remuneração. Há, contudo, outros bons fundamentos: (a) fim das desigualdades remuneratórias nas carreiras estatais; (b) descentralização dos grandes centros, levando profissionais mais bem remunerados a todo o país; (c) melhor qualificação daqueles que desempenham as atividades mais importantes do Estado, levando os bons profissionais que hoje buscam carreiras burocráticas a desempenhar atividades mais importantes pra sociedade.

2. Fim da impunidade

O brasileiro precisa conscientizar que o crime não compensa. Essa conscientização deveria advir do respeito ao outro, mas se assim não é, que seja pela limitação dos direitos e da liberdade. A educação não é infelizmente o único instrumento de formação desta consciência (é evidente que pessoas bem instruídas também cometem crimes). Precisamos sim de medidas de enfrentamento à criminalidade que sejam mais rigorosas, deixando de lado a impunidade e os discursos demagógicos que até pouco tempo nos eram impostos. É justamente a pessoa mais pobre que mais sofre com a impunidade, pois ela é vítima de crimes em todos os setores da sua vida: desde a parada do ônibus e a sua casa, em local vulnerável, até os abusos de empregadores e de negociantes em geral.

Faz parte deste tópico a obrigação de os presidiários trabalharem e indenizarem suas vítimas e o Estado. O trabalho na vida adulta não é uma opção, principalmente para quem escolheu desviar-se dos valores sociais médios.

3. Educação da liberdade

Precisamos ensinar a educadores e educandos o que é liberdade, as vantagens e consequências. Precisamos conscientizar nossa gente de que a liberdade exige maturidade e respeito ao outro e que é a única forma efetiva de conseguirmos viver uma vida sem o risco de nos imporem valores, condutas, trabalhos e limites que não queremos.

4. O trânsito como laboratório social

O melhor laboratório de relações sociais disponível é o trânsito. Ele nos ensina ordem e respeito e espelha as relações sociais, permitindo constatarmos o nível de efetividade da educação, da ordem, da conscientização e da impunidade de uma sociedade, independentemente do seu tamanho. Uma política educacional que usasse o trânsito como conteúdo e referência serviria de instrumento de elaboração das relações pessoais e sociais.

5. Respeito ao pactuado entre as partes

É claro que o Estado deve regular as atividades sociais, empresariais, negociais e institucionais. Contudo, precisamos que nossa gente aprenda a tomar decisões e assumir a responsabilidade pelo que se compromete. Isso é um dos elementos da liberdade.

6. Meritocracia

Meritocracia é muito mais do que o debate tem lidado. Meritocracia é o que seleciona os servidores em concurso público, é o que constata se um aluno pode mudar de ciclo, é o que informa se um produto é melhor que outro. Não há vida humana sem a valorização do mérito. Se não concordamos com os critérios, mudemos tais critérios, pois não existe nenhuma possibilidade de não valorizarmos mais as pessoas que melhor desempenham suas atividades, sob pena de não existir motivo os menos interessados se interessarem em melhorar.

7. Cargo político não pode ser carreira

Quem quiser participar da Administração Pública como carreira, faça concurso. Cargos políticos devem ser transitórios. Não deve existir a possibilidade de reeleição para nenhum cargo político.

“Sejamos a mudança que queremos ver no mundo”, Gandhi.

O que o marxismo acertou?

O marxismo é uma ideologia filosófico-sociológica de crítica à sociedade capitalista, baseada em diversos pilares importantes. Começo, assim, respondendo a pergunta formulada no título dizendo que o marxismo muito acertou no diagnóstico social do seu tempo, criando elementos de análise então inéditos e precisos sobre a sociedade, especialmente a sociedade alemã de início e meados do Séc. XIX. Estes elementos são basicamente os seguintes:

  • classes sociais: Marx bem entendeu que a sociedade é constituída por classes sociais, basicamente dividida entre aqueles que detém os meios de produção (o capital) – sejam terras, indústrias, fábricas ou empresas de serviços – e aqueles que trabalham nos meios de produção (o proletariado).
  • infraestrutura: é a base produtiva material da sociedade;
  • superestrutura: é a base extra-material da sociedade, basicamente a esfera política, a ideológica e a jurídica. Estes são os elementos determinantes do Estado.
  • para Marx a superestrutura representa a infraestrutura e reproduz os mesmos valores, virtudes e defeitos.

O marxismo acertou na elaboração destes conceitos, trazendo uma nova forma de analisar a sociedade até então inexistente. Contudo já ultrapassamos diversas etapas do primitivismo capitalista que não foram previstas por Marx, bem como foram socialmente elaboradas e vem sendo superadas pelo aperfeiçoamento social.

Marx viveu numa época em que a burguesia ainda representava basicamente a mesma sucessão familiar dos meios de poder que sempre existiram na história humana. O burguês daquele capitalismo primitivo era pouco diferente do nobre das eras anteriores, transferindo aos seus herdeiros os meios de produção como o nobre transmitia aos seus herdeiros terras e títulos. Naquele contexto histórico-social não existia possibilidade de uma pessoa nascida em uma classe social proletária ascender e adquirir meios de produção como terras ou fábricas (o que, mesmo naquela época é questionável, embora compreensível). Nos nossos dias é sabido que essa ascensão social é plenamente possível, pois a sociedade é altamente complexa em seus modelos produtivos, permitindo que se modifique a classe social de nascimento de diversas maneiras.

Outro elemento superado na teoria marxista diz respeito ao seu caráter excessivamente materialista, de onde decorre que a ideia de que se distribuindo renda ou meios de produção se geraria igualdade. A igualdade, sabemos hoje, decorre muito mais de elementos mentais e dos valores de uma sociedade. Nos nossos dias vemos evidente que, mesmo se dividíssemos os meios de produção em partes iguais entre todos os seres, certamente passado algum tempo restaria mantida a diferença social entre uns e outros, decorrente dos seus valores, capacidades e interesses.

Para Marx caberia ao Estado administrar estes elementos para promover uma sociedade mais justa e, aqui, novamente erra o marxismo. Acreditava que se o Estado administrasse os meios de produção não haveria como o burguês impor-se sobre os proletários. A história mostrou que quando o Estado substitui os meios de produção e usa a superestrutura para impor tais valores, aqueles que detém o governo tornam-se passíveis de cometerem ainda mais abusos do que a burguesia, pois frente ao monopólio do poder estatal apenas a revolução ou a mudança de sistema de governo pode se impor. Lembremo-nos de que a burguesia não é um grupo coeso, impositivo e fechado como avaliou Marx nos seus dias.

Hoje a perspectiva marxista é evidentemente ultrapassada. Em que pese tenha Marx muito colaborado com suas reflexões sobre a sociedade e seus elementos de formação e manutenção, o liberalismo tornou o mundo muito diferente e permitiu contemplarmos a superação de tal narrativa pela realidade imposta ao longo da Guerra Fria.

A China espelha uma reflexão moderna sobre a melhor tentativa de impor-se uma sociedade de valores marxistas.

Já o capitalismo é o sistema presente entre todos os países industrializados e considerados de primeiro mundo, tendo cada um construído sua trajetória de forma distinta.

Fortalecer x Vitimizar

Você acredita que o presente momento social fortalece ou enfraquece as pessoas? Você sente que os jovens são mais determinados e auto-confiantes hoje em dia? Você identifica divergências relevantes entre os seus valores pessoais e os valores sociais? Existe a possibilidade de termos uma sociedade forte com pessoas fracas? A sociedade pode ser melhor do que seus membros?

Estas (antigas) reflexões são pertinentes em demasia no nosso tempo. Vivemos numa época em que há um grande dilema sobre o quanto as liberdades individuais devem ser limitadas para garantir-se o equilíbrio entre as pessoas. O debate acerca das liberdades individuais sempre estará ao lado do debate acerca dos interesses sociais, pois nas sociedades mais heterogêneas (em termos de valores, cultura e recursos materiais) as divergências tendem a ser maiores e, por consequência, os conflitos igualmente. Este cenário traz o enfrentamento de dar-se mais flexibilidade às diferenças ou dar-se mais padronização ao grupo. Quanto mais valorizarmos o direito individual, mais estaremos promovendo o respeito ao diferente. Ao valorizarmos o interesse coletivo, tenderemos a estabelecer padrões de comportamento e de valores.

Numa sociedade complexa, com diversas perspectivas existenciais, com valores dissonantes e diferenças sociais e culturais expressivas, o fortalecimento individual é indispensável. Não há como mantermos a ideia de que o outro deve ser como eu quero no nosso tempo. Precisamos aprender a respeitar o outro sem nos desrespeitarmos e isso significa sermos capazes de nos defendermos dos abusos que as diferenças podem promover, sejam físicas, afetivas, econômicas ou de que natureza for.

É romântico em demasia a ideia de que numa sociedade heterogênea não haverá conflitos. Dentro de uma família, criada com laços afetivos e valores comuns, os conflitos são indissociáveis… imagina no mundo lá fora!

Outra ideia romântica é a de que em sociedades evoluídas estaremos seguros e não precisamos exercer o uso da força. Em algum ponto do nosso mundo, alguém está se colocando em risco para que nos mantenhamos em segurança, seja do ponto de vista da saúde, seja do ponto de vista social ou mesmo do ponto de vista do manejo da violência. Leis que proíbem matar, por exemplo, existem há milhares de anos e, ainda assim, o ser humano mata. Portanto, não é apenas o fortalecimento institucional e a evolução sócio-cultural que nos garantirá segurança existencial.

Nosso tempo é o do debate público e difuso. Todos tem direito e meios de opinião e de uma individualidade livre. Todos tem acesso aos recursos de conhecimento e aprimoramento individual. Isso só causa mais heterogeneidade e, potencialmente, mais conflitos. São as instituições que os mediarão, mas somos nós mesmos que nos protegeremos. Fortaleçamo-nos para que tenhamos menos vítimas, no sentido que for, e para que cada um possa viver sua vida da maneira que desejar.

Preconceito?!

Quando me mudei para a cidade em que cresci, aos cinco anos de idade, deixei de ser cuidado pela minha avó materna e passei a ficar diariamente com empregadas domésticas, enquanto meus pais trabalhavam. Quando tinha cerca de sete anos de idade fui autorizado a sair para brincar sozinho na vila. Era assim que chamávamos onde morávamos: a vila.

Meu pai cresceu na vila. Meu avô ajudou a construí-la e torná-la habitável; ele foi um mestre-de-obras notável… outra hora vou escrever sobre isso. Meus tios e primos moravam todos na vila. Minha mãe viveu lá por um tempo, na juventude. E eu simplesmente adorava estar lá!

A vila sempre teve um preço emocional muito grande para mim. Morávamos numa casa alugada de madeira enquanto nossa nova casa estava sendo construída… infelizmente em outra vila. Mas eu nem pensava nisso com sete anos. Queria simplesmente aproveitar o tempo que tinha livre para jogar bola, andar de bicicleta, brincar com meus primos e amigos.

Depois de muitos anos percebi que passei por “dificuldades” na minha infância que não fazem parte do contexto de enfrentamentos e reflexões comuns. Seria preconceito reverso? Uma espécie de classefobia?

Minha mãe é médica. E eu morava numa vila. Isso resume o que quero dizer. Em todos os lugares em que ia pela primeira vez (no campo de futebol, na casa de um novo amigo, em uma nova rua brincar de pega-pega) eu era apresentado como o filho da médica. E o próximo passo era sempre provar que eu poderia estar ali, que não era um filhinho-de-papai ou um riquinho (como se muitos lá não fossem bem mais metidos e filhinhos-de-papai!). Muitas vezes fui o único a não ser escolhido para jogar bola por isso. Algumas vezes me bateram por isso. Muitas vezes eu fiquei sozinho por isso.

Isso me entristecia? Claro. Mas não existia essa coisa de hoje de ficarmos perdendo tempo com nosso sofrimento. Falar sobre isso com qualquer outras pessoa? Jamais. Naquela época íamos adiante. Simplesmente assim.

Aprendi a ser mais forte (ou talvez já fosse!) e isso fez toda a diferença na minha vida. Não forte fisicamente, óbvio. Aprendi que se era preciso jogar bola melhor, que fosse. Que se era preciso correr mais rápido, que fosse. Tocar um instrumento, ser competitivo em jogos de tabuleiro, ajudar os outros com tarefas escolares, limpar um terreno baldio para torná-lo um campo de futebol… simplesmente eu ia me tornando melhor do que eu era ontem, mais forte e mais determinado. Alguns jamais se tornaram meus amigos, mas a maioria sim. E isso era, naquela época, o meu trofeu.

O mundo e a vida são ambientes difíceis. Sou dos que acredita que isso tem um propósito e que suavizar este ambiente artificialmente é uma hipocrisia, uma demagogia, uma ideologia. O mundo pode sim ser mais feliz com pessoas melhores, mas isso não decorrerá de uma pauta, senão de uma busca pessoal de cada um. Vivi no mesmo ambiente que muitos outros; a maioria de nós se tornou um adulto responsável, mas nem todos. O esforço pessoal é parte importante daquilo que nos tornamos.

Fico imaginando se eu estivesse submetido desde aquela época a um discurso vitimizado e de enfrentamento. Como seria? Eu hoje teria medo e desrespeitaria pessoas mais simples? Eu debocharia de quem era menos inteligente para revidar as agressões que sofri? Talvez eu acreditasse que o mundo é dividido entre pessoas boas (eu e os meus) e más (meus agressores)?

O preconceito existe. Sempre existiu. E para aqueles que vivem no mundo real em que pautas são menos importantes do que a vida em si, o preconceito sempre existirá e sempre ensinará aos que o enfrentam com coragem e bondade. Estes são os que realmente acabarão com ele… ao menos em relação a si.