Ideologia ou Corporativismo?

Não gosto da palavra ideologia para se referir a um conjunto de ideias políticos-ideológicas-sociais. Deveria ser filosofia, pronto. Como são as demais proposições filosóficas. Contudo, é palavra corrente e dela nos valemos.

O mundo é regido por valores pessoais que desenvolvem ideias. As ideias podem alterar tais valores, mas elas são posteriores a eles e dependem, para alterá-los, de pessoas mais amadurecidas. Então como regra as ideias representam os valores dos agentes que as produzem.

Quando comparamos, por exemplo, a ideologia fascista com nosso tempo a vemos como um flagrante absurdo: raça superior, intolerância às deficiências, estratificação social forçada e por aí vai. Não parece evidente que são valores transformados em ideias?!

Mesmo no marxismo que com todos os seus erros e acertos é uma ideologia mais útil, se vê a elaboração (complexa e bem fundamentada) dos valores de um homem materialista, que não conseguiu jamais cultivar boas relações familiares e viveu exclusivamente de propor ideias, jamais de exercê-las.

Vejam: as ideologias (como as religiões) são fruto dos valores das pessoas que as criam e com elas se identificam. Por isso, costumam ter os limites pessoais dos agentes envolvidos. Não raro, há mesmo um distanciamento entre o que o seu criador propôs e o que seus seguidores vivem (vide o cristianismo), justamente porque os limites e os valores pessoais envolvidos são lentes que distorcem o debate.

Num mundo institucionalizado como o nosso fica cada vez mais claro que as afinidades ideológicas dizem mais respeito às corporações a que estamos integrados do que aos ideais de transformação pessoal ou social. Na verdade, poucos dos “soldados da guerra ideológica” são mais do que meros soldados. A maioria é reprodutor, com maior ou menor complexidade de ideias, de uma defesa dos seus interesses pessoais. A guerra ideológica do nosso tempo seria menor se fizessem terapia, se as pessoas e as corporações buscassem melhorarem-se antes de exigirem que o mundo e os outros melhorem.

Afinal, o que é ser democrático?

A democracia surgiu na Grécia em cerca de 500a.C. como uma alternativa às formas de governo autocráticas e oligárquicas. Mulheres votavam? Não. Pobres votavam? Não. Estrangeiros e escravos? Não. Presos, servos, menores? Não. Quem votava? Nobres em sua maioria, detentores de terras e de ascendência ateniense.

A democracia daquela época não é, portanto, a mesma proposta pelos norte-americanos ou pelos franceses no Séc. XVIII. Essa também não admitia o voto feminino, também admitia a escravidão e, na prática, também era exercida por nobres ou burgueses.

Veja que a ideia do que é democracia foi mudando com o passar dos anos e foi evoluindo (não é diferente com quase nenhum elemento social ou político, como os conceitos de direita e esquerda, largamente debatidos de forma superficial em nossos dias). Muito mais do que um sistema pronto, os gregos nos ensinaram uma forma de olhar para a governança pública e esse novo olhar foi sendo elaborado pela evolução social humana (que a sociologia dos nossos dias sempre nega).

Então, ao enfrentarmos o questionamento do título deste artigo temos de basilar o momento e o lugar em que tratamos do tema. E o momento é hoje, o lugar é aqui.

Vivemos um momento em que o trato ao tema “democracia” parece desfocado. Militares no primeiro escalão governamental dão um tom de retorno ao período ditatorial. Mas isso está acontecendo? Civis são mais cidadãos, melhores cidadãos? Quais civis seriam melhores? Estamos com a democracia abalada?

Sim, estamos. Sempre estivemos. Brasileiro é antidemocrático, adora ditadores que representam seus valores. Mas não porque este governo está aí que corremos esse risco… não. Este governo não tentou amordaçar a imprensa, não tentou liminar os poderes de investigação do Ministério Público, não tentou desarmar a população (que votou pelo direito de ter armas em um plebiscito). Ainda assim, os governos anteriores que assim agiram foram barrados pela atuação do Poder Legislativo e do Poder Judiciário e, depois, pelo voto, numa demonstração (em que pese a resistência em admitir de muitos) de que há instituições democráticas funcionando.

Então começo a responder sobre a democracia hoje e aqui: ser democrático é admitir o pensamento divergente, mas respeitar a preponderância dos valores da maioria; é ter o direito de divergir, de apresentar os valores que entende melhores, mas tolerar (palavra tão usada apenas para o que interessa) quando os valores da maioria não contemplam os meus; é poder agir politicamente, argumentativamente, socialmente e pessoalmente para exercer direitos e valores que entende importantes, mas se submeter a um ente representativo chamado Estado e ao seu regramento institucional e normativo.

Então continuo respondendo: vivemos um momento de alta elaboração das nossas instituições democráticas nunca antes vivido. Os pesos e contrapesos republicanos têm atuado cada vez mais na balança social e participado da elaboração das nossas instituições, não apenas das estatais, mas das sociais como a imprensa, a família, a igreja, a academia.

O que vivemos hoje é o barulho dos desagradados, que parece sempre maior quando os conservadores estão no poder. Por mais pitoresco (sendo gentil) que seja o comportamento de nosso Presidente (por sinal, o dos últimos presidentes não foi menos pitoresco), o que se vê é a democracia brasileira alternando os polos ideológicos no Poder sem quebra ou ruptura, ainda que grupos de ambos os polos sempre tenham pedido a intervenção no Estado para imposição da sua pauta. O que se vê é um povo que não sabe viver na divergência exigindo que o seu pensamento e os seus valores sejam impostos a todos. Enquanto as instituições estiverem acima dessa imposição juvenil, nossa democracia institucional seguirá evoluindo.

Knock down no governo?

É no momento de crise que se percebe como as pessoas realmente são. Nós, adultos, sabemos disso e, quanto mais velhos ficamos, mais claro é.

O governo Lula enfrentou uma pandemia que nosso Presidente, à época, chamou de “gripezinha”. Hoje Bolsonaro insiste em minimizar a covid. Isso tem um motivo evidente, que está muito além do sempre trazido debate ideológico: governantes detestam crises. Crises instabilizam e, como dito na primeira linha, escancaram quem realmente é competente ou incompetente, bom ou ruim. Há um ditado na política americana: “nunca deixe de aproveitar uma crise”, querendo incitar a oposição.

O governo Bolsonaro enfrenta, neste momento de pandemia, o ápice dos seus enfrentamentos, que nunca foram poucos. Quando Bolsonaro ganhou a eleição de 2018, ousei prever que não ficaria no governo mais de dois anos. Seria impedido, na minha previsão, porque afrontaria uma mentalidade já integrada ao cotidiano nacional, de origem nos dogmas e nas cartilhas marxistas que, infelizmente, permeiam nossa esquerda. Poderíamos ter uma esquerda social-democrata ou progressista, mas não… temos uma esquerda eminentemente marxista (principalmente nos dogmas econômicos), enfim, tema para outro debate. Minha reflexão naquela época é que o enfrentamento dos ideais liberais contra os marxistas geraria a crise política que afastaria Bolsonaro.

Errei feio. Em que pese a resistência ativa dos sindicatos, partidos políticos, setores de mídia e sociais vinculados à esquerda marxista, em 2019 se conseguiu manter uma pauta ativa de revisões e reformas tão importantes. Boa parte da população não apenas aceitou essa pauta, mas pediu e se mobilizou para defendê-la. Ainda é cedo, mas percebe-se que muitos já têm consciência da necessidade de avançarmos e deixarmos o debate ideológico deste nível para outro tempo ou lugar, quem sabe nas aulas de filosofia da USP.

Errei feio não apenas nisso. Não considerei a hipótese de o próprio Presidente ser o criador ou, na melhor das hipóteses, o fomentador da matéria prima que geraria a crise que o derrubaria.

Bolsonaro acertou em quase todas as suas nomeações porque tem boa relação pessoal com diversos setores, mas tudo que depende da política partidária e do jogo que a envolve deixa a desejar, pelo simples fato de que, nesse aspecto, ele próprio deixa a desejar. Bolsonaro tem – não é possível seja acaso – um déficit de respeito às instituições e, sem isso, não há como ser um bom enxadrista neste tabuleiro.

Essa debilidade pessoal do Presidente é evidente. Ele é autoritário e seus seguidores fiéis também o são (como era Lula e os seus. Lembre-se que Lula tentou amordaçar a imprensa, o Ministério Público, desarmou a população afrontando um plebiscito, dentre centenas de outras mudanças que nos trouxeram onde estamos. Brasileiros adoram autocratas). A sua falta de valorização das instituições trouxe este grave momento de embate pessoal contra um herói nacional que, por sua vez, foi no mínimo deselegante no desembarque do governo. Nada disso é por acaso. Ambientes interferem nas pessoas e pessoas interferem no seu ambiente.

Então respondo ao título: sim. O governo tomou um knock down. Bolsonaro vai ter de demonstrar que não quis intervir na Polícia Federal para ajudar os seus. Vai ter de enfrentar mais uma vez os interesses políticos de lados extremamente opostos. Vai ter de ceder para conquistar. Vai ter de aceitar o trilho já construído para conduzir sua locomotiva, até que tenha condição de construir seus próprios trilhos, se é que terá. Dito de outra forma: vai ter de ser mais do que o básico se quiser cumprir o que prometeu e o que se espera de um Presidente.

Conseguirá!?

Punir educa

Nenhuma pessoa sã conectada com o Século XXI tem dúvida de que é a educação a responsável pela evolução, pacificação e realização da humanidade. Na verdade o que se debate é o que constitui educação, do que é feita, como torná-la eficaz.

Apenas no século passado a educação tornou-se pública e instituída como direito fundamental e, decorrente disso, a estrutura estatal dos diversos países, cada um a sua maneira, passou a proporcioná-la. Antes disso, educar era um privilégio.

Educadores do Século XX identificaram o vínculo necessário entre educação e afeto, estabelecendo bases pedagógicas hoje consagradas. Segundo acreditamos, educar imprescinde de vínculos entre educador e educandos, principalmente na primeira infância, seja na educação formal ou informal.

Nos últimos anos, contudo, mistificou-se o papel da educação, dando ao professor um caráter quase mágico de transformar a humanidade. É verdade… a disseminação da educação mudou o mundo em pouco tempo, de uma forma que jamais vimos, alterando bases sociais, políticas, científicas e individuais. Contudo não cabe ao professor estabelecer valores que não são replicados em casa, na família. São pais e mães – ou aqueles que desempenham este papel – os primeiros e principais educadores do ser humano, os responsáveis por transmitir os valores interiorizados de respeito, tolerância, pacificidade, coragem, determinação e todos mais necessários a uma vida plena e socialmente comprometida. A gente que recebe educação formal plena mas carece de educação familiar sobre valores é essa que usa toda uma gama de conhecimentos para subtrair os resultados do esforço alheio, às vezes à custa de outras vidas inclusive.

Como escrito acima, nos últimos anos fomos seduzidos por teorias que transferiram da família para o (Estado) educador a responsabilidade de educar, e isso simplesmente é ridículo. O educador (Estado) participa sim da educação de forma fundamental, mas os valores necessário para se usufruir devidamente da educação formal são precedidos de um esforço familiar cada vez menos presente.

Outra ideia errônea decorrente desta visão retirou dos jovens o dever de trabalho, assunto para outro momento, bem como a possibilidade de sofrer punição. Claro que não estamos falando de palmatórias, de castigos físicos ou qualquer outra violência. Punir virou estigma, palavrão. E, por mais que doa a quem discorda, punir educa e é indispensável, principalmente na educação com afeto, pois uma pessoa que ama punindo outra amada que agiu muito mal está sim cuidando, fortalecendo e prevenindo.

Aqui o papel do Estado na educação ultrapassa os limites do que hoje está estabelecido, ao menos em nosso país. A impunidade deseducou nossa gente e o retorno das punições estatais devidamente medidas e processadas irá nos curar dessa absurda e gigantesca crise de valores que nos torna um dos países mais violentos e menos educados da Terra.

Escravidão – Volume I

Terminei de ler recentemente mais esse livro do jornalista Laurentino Gomes. É uma majestosa leitura, complexa e bastante completa. Aborda precisamente a escravidão africana, muito antes do europeu transformá-la em um negócio e muito antes do debate ideológico deformar o trato que se deve dar ao tema.

O autor traz elementos históricos que demonstram a responsabilidade de cada um dos envolvidos na escravidão do período colonial: o europeu, que industrializou e lucrou com um sistema milenar integrante da cultura africana; o africano, que tornou-se operador de um sistema industrial europeu de produção de mão-de-obra cativa; a Igreja, que usou, referendou e permitiu ideologicamente esse holocausto.

Há uma reflexão que entendo necessária sobre o tema: a escravidão é um fato presente em toda história humana, sem privilegiar praticamente nenhum povo ou região. Ameríndios, orientais, europeus, nórdicos, africanos… todos conviveram com a escravidão.

Ao contrário, contudo, do que propõe a forte narrativa dos nossos tempos, os brancos tiveram um papel diferenciado ante o escravismo além do de transformarem a cultura escravista africana num negócio lucrativo por 400 anos: os brancos foram os primeiros a impor ideologicamente, legalmente e, consequentemente, culturalmente o fim do escravismo. Foi a Inglaterra, com sua Revolução Industrial, quem iniciou um debate que resultou no fim da escravatura, seja a africana, seja a que for.

Hoje o debate se acalora nas consequências e nas compensações sociais. Vamos adiante!

MMXX

Vamos fazer uma retrospectiva do que acontecia no início da segunda década de cada um dos últimos cinco séculos da humanidade!

O Século XVI foi marcado pelas grandes navegações e a ascensão dos países da península ibérica, o que participou para o movimento imperialista que elevou o Ocidente no cenário mundial. Um fato curioso é que este século começou ainda com o calendário Juliano, mas terminou com o nosso usual calendário Gregoriano. 1520 também foi um ano bissexto. Neste ano, Fernão de Magalhães alcançou o fim austral do continente americano, dando nome ao estreito que descobriu e transpôs, que liga a América à Antártica. Ele morreu neste mesmo ano, em data próxima do falecimento do descobridor oficial do Brasil, Pedro Álvares Cabral. Além de ser o século em que o Brasil foi descoberto pelos europeus, foi neste mesmo período que nossas primeiras cidades foram fundadas.

O Século XVII marca a transição da era Moderna à Contemporânea, com o aprimoramento do método científico (cartesiano). No ano de 1620 também tivemos um ano bissexto, mas dessa vez no calendário Gregoriano. A primeira colônia britânica na América do Norte é fundada, com a chegada do navio Mayflower e seus peregrinos. No início do século os holandeses criam a Companhia das Índias Orientais e, décadas depois, invadem a Bahia e Pernambuco. A Europa está em meio à Guerra dos Trinta Anos. O Brasil é governado pela Espanha, em razão da União Ibérica. Uma mudança cultural de escala mundial está em trâmite e uma série de revoltas acontecem no Brasil. É o século em que o tráfico negreiro e o açúcar se estabelecem como principais negócios das economias ocidentais.

O Século XVIII é o primeiro da Era Contemporânea e marca o início da Idades das Luzes, tendo ao seu final a Revolução Francesa e a propagação dos valores de igualdade, fraternidade e liberdade. Neste mesmo século ocorreu a Revolução Industrial na Inglaterra. No Brasil estão estabelecidas como principais cidades Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Na metade do século a coroa portuguesa proíbe a escravidão indígena.

O Século XIX foi marcado pelo declínio de grandes impérios: China, Mongólia, França, Espanha e Sacro Império Romano-Germânico. As guerras napoleônicas marcam a Europa. Marx está na produção da sua teoria sobre a luta de classes e nasce seu parceiro Friedrich Engels. O Brasil ainda é uma colônia em 1820, sustentando o império português e todas as suas colônias com a renda do açúcar e mineração. É novamente um ano bissexto.

O Século XX é o século das Grandes Guerras e da Guerra Fria, que promove uma revolução cultural, política e tecnológica. Em 1920 a Europa está se reconstruindo após o término da Primeira Guerra Mundial e a Rússia já tem implantada a Revolução Bolchevique e está em vias de formar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. No campo artístico o modernismo influencia a pintura, a poesia, a escultura, a música e a cultura em geral. Pela primeira vez atletas brasileiros competem nas Olimpíadas. Nascem neste ano João Cabral de Melo Neto e a Clarice Linspector.

Este resumo ajuda-nos a perceber que as duas primeiras décadas de cada século são marcadas por fatos relevantes que repercutem no final do século. Vivemos uma importante transição cultural, marcada pela liquidez dos valores (Baumann) e transitoriedade das referências existenciais. O Século XXI está se formando sem paradigmas de grande escala, onde cada sociedade e cada cidadão é livre para adequar-se ao que lhe convém, o que poderia ser ótimo se nossa maturidade fosse proporcional à nossa liberdade. O resultado dessa dinâmica é o aprisionamento mental e cultural pelos interventores midiáticos.

O Trânsito

O trânsito é o maior reflexo da educação ou da deseducação de um povo. Ele reflete, em primeiro lugar, a eficiência do Estado, com vias adequadas, boa sinalização, boa fiscalização. Reflete também a organização das pessoas frente aos seus horários e seus compromissos. Reflete o grau de segurança e respeito que as pessoas atribuem ao que fazem e aos outros que estão ao seu redor.

Uma sociedade educada e responsável pode permitir que o motorista tenha algum nível de alcoolemia, porque este motorista estará mais amadurecido para avaliar se tem ou não condição de dirigir. É bem diferente, por óbvio, de se estar embriagado.

Uma sociedade como a nossa, desigual em todos os sentidos (e não apenas no econômico, como se costuma bradar), tem como resultado que as pessoas mais maduras (com desigualdade de responsabilidade) pagam pelos erros dos imaturos.

O Brasil perde anualmente cerca de cinquenta mil vidas no trânsito. Nenhum conflito mundial atual mata mais. Cinquenta mil vidas todos os anos e o sofrimento não nos muda! Afinal, quem não aprende no amor, não deveria aprender ao menos na dor?!

Quando olhamos para o brasileiro médio é fácil identificarmos que ele é um adolescente na sua maturidade. Egoísta, egocêntrico, imediatista, niilista, hedonista.

Muito se diz que a educação é a solução deste tipo de problema (social). É verdade. Mas não a educação curricular essa que nossas escolas mal conseguem cumprir. Essa é pouco útil até para o intelecto, que dirá para a moral. A educação que faz diferença é a produzida com o afeto, pela família, e quando esta falha é a educação da dor, com a punição, com um sistema eficaz de intolerância ao errado.

Acho desnecessário usar cinto de segurança em velocidades baixas. Gosto de sair e beber álcool. Acho chato andar de moto com capacete nos percursos urbanos. Sou uma pessoa comum, que detesta a intromissão do Estado na minha vida. Ainda assim sou obrigado a me submeter a estas imposições porque vejo ao meu redor que as pessoas precisam ser tratadas como crianças, pois não sabem se cuidar.

Sejamos nós a mudança que queremos ver no mundo.

Em que século você vive?

A primeira lei escrita conhecida é o Código de Hamurabi e tem cerca de 4.000 anos. Lá está estabelecido que é proibido roubar e matar. Ainda hoje se rouba e se mata, do que podemos concluir que há pessoas que estão 4.000 anos atrasadas na sua adequação ao mundo.

A História é medida pela criação da escrita, sendo que tudo que há antes disto é chamado (equivocadamente) de pré-história. Quantos pré-históricos conhecemos nos nossos dias?!

No século XIX, com a Revolução Industrial transferindo a elite social da monarquia para a burguesia, quase nenhuma garantia existia para a classe operária que, para lutar por direitos mínimos na sua relação com seus empregadores, costumeiramente fazia manifestações e greves. Hoje temos tribunais, leis, sindicatos, mídias, associações de classe… mas ainda existem os mesmos expedientes de luta por direitos.

Em 1948 a ONU adota a Declaração Universal dos Direitos Humanos que contempla uma série de garantias mínimas para a pessoa e, consequentemente, a sociedade. Nos nossos dias poucos são os países que conseguem cumprir tal resolução. Os demais pararam há setenta anos?!

O mundo é assim, um caleidoscópio de seres em aprendizado, cada um vivendo num momento distinto da sua humanidade.

Ainda matamos por dinheiro sem aceitar que dinheiro se conquista com trabalho, uma lógica elementar. Ainda impomos nossa vontade pela força, ainda exigimos que outros pensem como pensamos, ainda nos contentamos com tantas coisas que deveriam ter ficado no passado.

A humanidade divide o planeta com outros seres que vivem no mesmo tempo. Um leão de hoje é o leão de mil anos. Um carvalho, um rio, uma geleira também o são. O ser humano não o é. O que lhe diferencia e lhe dá a autoridade sobre o mundo – a inteligência – também é o que lhe retira a relação natural com os demais seres e com a natureza.

É a inteligência que nos anima e nos lapida os sentimentos que nos transporta aos patamares divinos ou nos prende aos planos infernais. É também ela que nos mantém como a 10.000 anos ou nos transporta a 2019.

“Sejamos nós a mudança que queremos ver no mundo”, Gandhi.

Aos mestres, meu carinho

Todos nós já recebemos um post informando que, no Japão, apenas os professores não precisam se curvar em frente ao Imperador e que, também lá, se respeitam os velhos e seus cabelos brancos.

Ouso afirmar que já houve um tempo em que ser velho e ser professor eram quase a mesma coisa. Ambos tinham (e tem) o dever de instruir os mais novos, transmitindo conhecimento e ajudando a encontrar soluções.

A profissão de professor é tratada de forma diversa nas mais variadas culturas, mas sempre com respeito e, quase sempre, com veneração. Aqui no Brasil é diferente, especialmente com o professor da rede pública. Ele ganha em média vinte vezes menos que um magistrado, que um auditor, que um delegado… porque, quando desconstruímos os Impérios e nos tornamos uma República, o Estado se preocupou em atender a elite aristocrática e dar a seus filhos funções que lhes mantivessem o status e o padrão de vida. Já naquela época víamos os cargos ligados ao poder estatal como os mais importantes.

A verdade é que o trato aos professores revela quem somos. Uma sociedade pode ser facilmente avaliada pela forma com que trata seus mestres. Uma pessoa, uma família, um município idem. Vamos mudar nosso país quando diminuirmos o custo estatal de certas funções para melhor valorizarmos nossos professores.

Essa desvalorização da função (infelizmente) trouxe uma série de desinteressados para o magistério, gente que não é vocacionada (palavra hoje odiada pela classe) e que entrou na profissão por falta de alternativa. Esses costumam ser os que transformam a profissão em palanque, em palco ou em divã. Mas essa desvalorização também abrilhantou aqueles que são os professores vocacionados, que honram a profissão e moram nas lembranças amorosas das pessoas.

A estes deixo, no seu dia, meu profundo e sincero agradecimento. Obrigado por suportarem a baixa remuneração. Obrigado por transferirem o seu melhor mesmo cansados, desiludidos e sozinhos. Obrigado por levarem a luz mesmo onde ela apenas cega. Obrigado por continuarem sendo pontes. Obrigado, mestres! A todos vocês o nosso eterno carinho.

Leituras que eu li 2

Levou muito tempo, mas estou voltando a sugerir alguns livros. São dicas de leitura para quem gosta. Sem maiores delongas, vamos lá…

Ivair Gontijo narra em “A Caminho de Marte” a sua história de vida, desde pequeno no interior de MInas Gerais , passando pela escola pública e pelo trabalho como capataz de uma fazenda, até chegar ao JPL (Laboratório de Propulsão a Jato, em inglês) na NASA. Além da sua trajetória pessoal, explica o início e os avanços da corrida espacial e descreve o trabalho de enviar o Curiosity ao Planeta Vermelho.

É um livro rico para quem busca evidências de que os sonhos são realizáveis e o esforço pessoal te leva a realizá-los. Ao mesmo tempo, o autor sacia a curiosidade dos interessados em ciência e astronáutica sobre o cotidiano dos profissionais que atuam na área.

Em “O Homem que Amava os Cachorros”, o cubano Leonardo Padura narra duas histórias: a do líder político marxista russo Trotski até encontrar o seu algoz Ramón Mercader, no México, e do personagem Iván, que teria conhecido personagens desta história e a narra com bastante detalhes.

É um livro que ajuda a conhecer os pormenores da luta político-ideológica do início do Século XX, especialmente na Rússia e Espanha, e a repercussão em Cuba, décadas mais tarde. Vale para desconstruir ilusões e melhorar a análise histórica destes fatos.

“A Grande Espera” é um livro psicografado por Coralina Novelino e narra a história do povo Essênio, uma seita hebraica que preexistiu ao cristianismo, constituída de fiéis que esperavam a chegada de Jesus e participaram da sua formação. Os essênios, hoje se sabe, habitaram diversos lugares do Oriente Médio e se tornaram popularmente mais conhecidos depois da descoberta dos Manuscrito do Mar Morto, que tratam dos mesmos temas apontados no livro. Vale pelo conhecimento histórico e religioso.

Se você já leu algum desses, por favor, me diga como foi a tua experiência! Até a próxima!