Independência

A Princesa Maria Leopoldina nasceu na Áustria em 1797, na nobilíssima família dos Habsburgos. Lá era arquiduquesa, filha do imperador Francisco. Casou-se com Dom Pedro por procuração em Viena, em 1817. Era uma mulher culta, fluente em quatro ou cinco idiomas, admiradora das ciências naturais e comprometida com os valores que as famílias reais de sua época dispunham, dentre os quais a religiosidade, a fidelidade e a família.

Diz-se que Leopoldina sempre fora apaixonada por Pedro até morrer, em 1826. Essa paixão começou antes mesmo do convite de casamento, que foi providenciado pelo embaixador brasileiro através de um séquito com dezenas de carruagens que circularam por Viena para o cortejo. Naquela época Portugal era uma das potências mundiais e a união das famílias dos Habsburgos com os Bragança representava um imponente comprometimento internacional.

Pois é impossível falarmos da Independência do Brasil sem falar da Princesa Leopoldina: foi ela, em 02 de setembro de 1822, quem assinou o Decreto de Independência, com a influência e o apoio do Conselheiro Real José Bonifácio. A Princesa estava exercendo a regência governamental do país desde 13 de agosto, quando Pedro fora para São Paulo sob a justificativa oficial de lidar com turbulências políticas regionais. Sendo uma governante habilidosa no trato humano, era respeitada e profundamente integrada aos assuntos de interesse político e administrativo do Brasil. Percebendo que os movimentos imperiais portugueses de revide ao crescente levante republicano e de independência que ocorriam por aqui levariam Portugal a intervir mais violentamente na política brasileira, Leopoldina foi advertida pelo Conselho de Estado de que não havia mais tempo a se esperar para a separação com Portugal. Havia o risco iminente de o Brasil tornar-se um campo de batalhas regionais em busca de independência para a formação de repúblicas, como ocorrera na América espanhola, o que não só fracionaria o Brasil, mas colocaria uns contra os outros na delimitação de territórios e na formação de governos locais.

A Princesa assina, assim, o Decreto e manda um mensageiro procurar por Pedro em São Paulo, informando a decisão do Conselho de Estado e sugerindo que ele providenciasse a Proclamação da Independência publicamente.

No dia 7 de setembro a mensagem chega ao conhecimento do Príncipe Regente às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo. Pedro encontrava-se amolado com uma indisposição intestinal e, sem o glamour que muito tentou-se dar ao ato, montado provavelmente em uma mula (tipo de montaria que se usava nas viagens daquela região) e acompanhado de uma guarda formada por apoiadores e admiradores da monarquia (longe de ser os Dragões da Independência que hoje conhecemos), Pedro declara a independência do Brasil e devolve a mensagem para que fossem tomadas as providências oficiais pertinentes.

A Independência do Brasil naquele momento torna-se um dos motivos pelos quais nos mantivemos unidos como país, sem o fracionamento do território de acordo com os interesses regionais, principalmente porque a monarquia é mantida. Uma coisa sustentou a outra. Se mantivéssemos o vínculo com Portugal, certamente os movimentos republicanos de cada região teriam se insurgido contra o governo central.

Leopoldina torna-se rainha no mesmo ano. Com Pedro teve sete filhos, sendo que os dois meninos mais velhos morreram nos primeiros anos de vida, repetindo uma sina comum aos Bragança. O seu filho mais novo, Pedro, tornou-se o segundo imperador brasileiro (adquirindo muito dos valores e do comportamento da mãe).

A Imperatriz Leopoldina faleceu no final de 1826, louca e depressiva. A causa seria resultado de anos de desgostos matrimoniais causados pelos casos públicos de infidelidade do marido. Leopoldina ressentia-se pela dedicação dada ao marido, à família e ao Brasil, sem o respeito do Imperador. Sua morte foi motivo de comoção nacional e de indignação, pois a população da capital conhecia os motivos do sofrimento da amada matriarca da independência.

A humanidade caminha à sua média

Imagine um militante contra a escravidão há dois mil anos. Ele provavelmente não seria respeitado nem mesmo por um escravo eslavo ou por um galês, pois estes, se deixassem a condição de escravos dos romanos, lutariam as suas guerras para terem seus próprios escravos. Um militante contra a escravidão não seria respeitado nem mesmo no norte da África há 400 anos, seja porque a religião muçulmana autorizava (e para alguns, incentivava) a escravidão dos vencidos, seja porque a cultura de diversos povos africanos não islamizados vivia isso há séculos.

Imagine uma militante feminista há mil anos numa tribo indo-americana. Ela provavelmente seria convencida por algum ancião compreensivo e generoso a deixar suas ideias de lado e concentrar-se no trato de sua família.

Imagine um pacifista budista tibetano tentando convencer os chineses a serem pacíficos e deixarem a invasão do Tibet em meados do Séc. XX, pouco antes do Dalai Lama ser forçado a deixar seu país e refugiar-se na Índia.

Imagine certo governante vegano em nossos tempos determinando que todos os cidadãos do seu país se abstenham de sacrificar animais para alimentar-se, sob o argumento de que nossa tecnologia já nos permite encontrar outras formas de alimentação que dispensem o aprisionamento e a morte de animais.

Imagine determinar-se há 1000 anos que todas as pessoas só começassem a trabalhar depois de concluir treze anos de ensino fundamental. Provavelmente seria o fim daquela sociedade por insuficiência de alimentos em não mais que duas gerações.

A humanidade caminha à sua média. Não é possível impormos valores a uma geração. Não é possível!

Podemos, por óbvio, impor regras e leis… não os valores das pessoas. Podemos, contudo, impor regras e leis que, gradualmente, vão alterar os seus valores. Mas podemos principalmente ensinar valores. Isso sim!

Contudo, jamais poderemos ensinar valores que são incompatíveis com a realidade daquela sociedade. Um exemplo claro é a imposição desarmamentista aos brasileiros, só respeitada por quem desejava essa condição romântica (e ainda impossível) de desfazimento das armas quando ainda há os violentos e desprovidos de respeito humano por aí.

Há muito mais a ser refletido sobre o título deste texto… mas veja você que mesmo Jesus Cristo ou Buda ou qualquer outro grande nome da humidade (mesmo estes outros que são tidos como grandes nomes ainda que não o sejam) não foram capazes de impor valores. Sequer foram devidamente compreendidos e apenas muito lentamente o são por aqueles que já atingiram uma maturidade pessoal compatível para tal.

A humanidade é assim mesmo. Toda militância em mudar o mundo é minimamente eficaz se tenta impor o que ainda não está no coração e na mente dos demais.

Ao tentarmos impor o pacifismo, por exemplo, corremos o risco de conquistar ideologicamente os pacifistas, mas nos tornarmos reféns dos violentos não-pacíficos que, assim, tornam-se soberanos. Esse o perigo de qualquer ilusão além das possibilidades do seu tempo, como é a ideia de que podemos ser brandos com criminosos contumazes que, livres e impunes, continuam a tirar vidas e restringir o esforço laboral de muitos.

Você quer mudar o mundo? Mude-se. Seja melhor hoje do que foi ontem. Mudando-se, conquista aqueles que seu exemplo for capaz de atingir no coração. Todo o mais é apenas e tão somente um sonho de Ícaro. A mudança é sempre interior e, para mudar nosso interior, só dois elementos são eficazes: amor e dor. Infelizmente é assim.

Lockdown

Fecha tudo!

Você diarista, contente-se com R$ 600. Estamos salvando sua vida. Não seja gananciosa. Você motorista do uber, você pedreiro, você advogado, você confeiteira… casa, já! Ah, você advogado não tem direito aos R$ 600, viu!? Não seja desonesto. Deixe pra quem precisa. E não seja avarento, seu materialista insensível. Não está vendo que já morreram oitenta mil pessoas no Brasil?! Seu merda… fiquei em casa e não reclame. Grande coisa não conseguir pagar seu financiamento do automóvel, seu plano de saúde, suas prestações… é só negociar.

Fecha tudo!

Não tem como pagar o aluguel do escritório? Negocia. Use essa sua cabeça, poh. Como assim o locador só deu 50% de desconto. Que insensível. Que absurdo.

Fecha tudo!

Não, espera… deixa o produtor de leite e o posto de gasolina aberto. Ah… o mercado e a farmácia também. Precisamos muito deles. Ah, o frigorifico também. Não interessa que seja um dos locais de maior foco de contaminação… deixa aberto. É essencial. Essencial pra quem? Pra sociedade, poh… não é pra mim, não.

Ei, não mexe no meu salário. No meu não. Tenho direito constitucional de não ganhar um centavo a menos. No meu você não vai mexer. Não mexe nos meus investimentos! Sai daí.

Fecha tudo! Quase tudo!

E o técnico de internet que não chega? Como vou mandar meu trabalho pro sistema eletrônico?

Fecha tudo, menos os hospitais né. Precisamos deles. São nossos heróis. Deixa o transporte coletivo ativo só pra eles. Os motoristas e os cobradores não vão se contaminar. Nem os vigilantes, o pessoal da limpeza, nem os mecânicos. Mas só os necessários.

Fecha tudo, menos os bancos. Bancos são necessários. E todo mundo sabe que fila de banco é imune.

Fecha tudo, adia tudo. Não, essa dor aí que tu tá sentindo vai passar. Não precisa ir no hospital, até porque o foco é covid.

Fecha tudo! É simples. Até quando? Não interessa. A vacina está logo ali. Fecha e deixa de ser negacionista.

Fecha tudo. Quase tudo. Mas deixa tudo que eu tenho direito à disposição, posso precisar.

Negacionismo

A negação da realidade não é um privilégio dos nossos tempos. Infelizmente (ou felizmente). Também não é algo que se limite a um grupo ou a uma região, tampouco a um contexto social ou político. Infelizmente.

Negar a realidade é uma consequência da imaturidade. É uma disfunção de forças entre o que se vê (ou se entende) e o que se gostaria de ver (ou de entender). Num mundo onde muito do que se acredita não é paupável e decorre unicamente de palavras e discursos ou de afirmações de terceiros, a realidade torna-se efetivamente difícil de ser compreendida.

Imagine que um cientista diga que usar máscaras é potencialmente bom contra a covid 19 e outro diga que é inócuo, mas prejudicial por outros motivos. Cada um apresenta sua tese com fundamentos técnicos que nós, inaptos, não podemos valorar adequadamente. Em quem acreditar? Provavelmente se escolherá uma das duas soluções: (1) a tese com maior número de adeptos, o que tornaria a ciência uma espécie de sufrágio, ou (2) a que nos confortar melhor. Veja que aqui também, como em quase tudo a nossa volta, há uma opção entre o pessoal e o social, entre melhorar-se pessoalmente para entender e assimilar o que os outros entendem.

Quando o Renascimento trouxe a ideia de que a razão (e a ciência) resolveriam os problemas da humanidade, deixou de considerar que a ciência (por ser humana) tem limites humanos. Numa sociedade orgulhosa, a ciência se envaidecerá. Numa sociedade avarenta ela se venderá. Numa sociedade ideologizada se ideologizará. E por aí vai… A razão é insuficiente para a humanidade, está claro. Ela não é absoluta como se gostaria e isso muda a sua utilidade. Em que pese proporcionar melhoria significativa no aspecto material, ela depende, para produzir efeitos benéficos internamente em cada um de nós, de valores morais e de estabilidade emocional. É uma das bases deste tripé.

Há quem acredite que o negacionismo seja um reflexo da falta de educação. Outros da falta de estrutura emocional resultante da fragilidade familiar dos nossos tempos. Alguns pensam que negacionistas são optantes de uma corrente.

Negacionistas são imaturos, já o afirmamos. Contudo a imaturidade não é um elemento absoluto e inflexível. Podemos ser maduros emocionalmente e imaturos musicalmente e, diante disso, negar a genialidade de Mozart, simplesmente não gostar de música erudita. É certo? Pra mim não. E pra você?

Violência e amadurecimento

Como são fracos os que precisam da força.

Refletimos cedo sobre o papel da violência na manutenção da vida em nosso planeta. É inegável que, sem a violência, a vida seria diferente por aqui. Leões, tubarões, ursos e louva-deus seriam herbívoros ou não existiriam. A seleção natural teria outro resultado.

Nascemos violentos ou não violentos? É uma resposta complexa e penso, embora desejasse o contrário, que é errônea a certeza que somos não violentos ao nascer. A certeza que tenho é que não nascemos preparados para o agir violento. Os genitores contudo, da espécie que forem, precisaram da violência para nos proteger e nos alimentar e isso, por si, demonstra a dificuldade da resposta.

A reflexão que proponho tem como menos relevante a nossa característica de nascimento e como mais relevante o que o processo de evolução da humanidade nos permite vivenciar (fica claro que não sou dos que acha que a humanidade não evolui e lamento muito que haja setores consideráveis da ciência em nossos dias que defendam isso).

Grandes nomes da humanidade se transformaram em ícones por sua forma de lidar com o poder e, consequentemente, com os outros seres. Júlio César, Zumbi dos Palmares e Napoleão através do uso da violência. Jesus Cristo, Buda e Gandhi através da não violência. Para estes últimos, o poder a ser buscado é o de elaboração pessoal e, por isso, não é necessária a violência para tornar-se poderoso e mudar o mundo. Essa simples elaboração atesta diversos valores que devem ser enfrentados para a reflexão do tema.

O uso da violência é sempre mais imperativo quando não sabemos nos relacionar conosco e com nosso meio. Uns dirão: mas e quando o meio é violento contigo, vais te submeter? Bem, Jesus Cristo se submeteu. E também se insurgiu. A sua insubmissão, contudo, não primou pela agressão ao agressor. Buscou mostrar que a elaboração pessoal e a reformulação no trato aos outros, especialmente com os que nos agridem (“se ofenderem tua face esquerda, oferece a direita”), é a única solução efetiva para o problema. Buda, Gandhi, Krishna, Zoroastro e muitos outros foram pelo mesmo caminho.

Há, contudo, um limite que admito dificílimo ao enfrentamento: diz respeito a tolerar a violência contra quem amamos. Você se sacrificar (como fez Jesus e Gandhi) por uma causa é muito mais fácil do que permitir o sacrifício dos seus filhos, seus pais ou qualquer outro ente amado.

Chico Xavier ensinou que a violência é o fato de filtragem do nosso plano existencial. Chegará um ponto da evolução humana em que os violentos serão deserdados, pois impedirão o prosseguimento do processo evolutivo. Contra o violento que não busca se corrigir pouco adianta a melhor das pessoas, pois ele responderá com uma imposição física ante a imposição moral e espiritual.

Então afirmo que a violência é um fator de distinção entre os seres humanos que querem melhorarem-se e os que não querem. No nosso atual momento, só poderia ser aceita em caso de legítima defesa e em nenhum outro mais, muito menos uma violência institucionalizada ou recomendada. Não estou dizendo com isso que o pacifismo como ideologia nos basta… infelizmente não basta, pois se assumirmos essa postura, seremos suplantados pelos violentos imorais. Ainda precisamos administrar doses defensivas de violência sempre que necessário, especialmente para nos defendermos da injustiça (inclusive da estatal ou da institucional) bem como para defender nossos entes queridos. Devemos fazer isso única e exclusivamente neste caso, para prosseguirmos nosso aprimoramento e preservarmos nosso planeta.

Por fim, reflita que isso significa muita coisa, dentre as quais que não podemos tolerar infanticídios indígenas, penas de morte, abortos por mero interesse e quaisquer outros atos de violência.

Ideologia ou Corporativismo?

Não gosto da palavra ideologia para se referir a um conjunto de ideias políticos-ideológicas-sociais. Deveria ser filosofia, pronto. Como são as demais proposições filosóficas. Contudo, é palavra corrente e dela nos valemos.

O mundo é regido por valores pessoais que desenvolvem ideias. As ideias podem alterar tais valores, mas elas são posteriores a eles e dependem, para alterá-los, de pessoas mais amadurecidas. Então como regra as ideias representam os valores dos agentes que as produzem.

Quando comparamos, por exemplo, a ideologia fascista com nosso tempo a vemos como um flagrante absurdo: raça superior, intolerância às deficiências, estratificação social forçada e por aí vai. Não parece evidente que são valores transformados em ideias?!

Mesmo no marxismo que com todos os seus erros e acertos é uma ideologia mais útil, se vê a elaboração (complexa e bem fundamentada) dos valores de um homem materialista, que não conseguiu jamais cultivar boas relações familiares e viveu exclusivamente de propor ideias, jamais de exercê-las.

Vejam: as ideologias (como as religiões) são fruto dos valores das pessoas que as criam e com elas se identificam. Por isso, costumam ter os limites pessoais dos agentes envolvidos. Não raro, há mesmo um distanciamento entre o que o seu criador propôs e o que seus seguidores vivem (vide o cristianismo), justamente porque os limites e os valores pessoais envolvidos são lentes que distorcem o debate.

Num mundo institucionalizado como o nosso fica cada vez mais claro que as afinidades ideológicas dizem mais respeito às corporações a que estamos integrados do que aos ideais de transformação pessoal ou social. Na verdade, poucos dos “soldados da guerra ideológica” são mais do que meros soldados. A maioria é reprodutor, com maior ou menor complexidade de ideias, de uma defesa dos seus interesses pessoais. A guerra ideológica do nosso tempo seria menor se fizessem terapia, se as pessoas e as corporações buscassem melhorarem-se antes de exigirem que o mundo e os outros melhorem.

Afinal, o que é ser democrático?

A democracia surgiu na Grécia em cerca de 500a.C. como uma alternativa às formas de governo autocráticas e oligárquicas. Mulheres votavam? Não. Pobres votavam? Não. Estrangeiros e escravos? Não. Presos, servos, menores? Não. Quem votava? Nobres em sua maioria, detentores de terras e de ascendência ateniense.

A democracia daquela época não é, portanto, a mesma proposta pelos norte-americanos ou pelos franceses no Séc. XVIII. Essa também não admitia o voto feminino, também admitia a escravidão e, na prática, também era exercida por nobres ou burgueses.

Veja que a ideia do que é democracia foi mudando com o passar dos anos e foi evoluindo (não é diferente com quase nenhum elemento social ou político, como os conceitos de direita e esquerda, largamente debatidos de forma superficial em nossos dias). Muito mais do que um sistema pronto, os gregos nos ensinaram uma forma de olhar para a governança pública e esse novo olhar foi sendo elaborado pela evolução social humana (que a sociologia dos nossos dias sempre nega).

Então, ao enfrentarmos o questionamento do título deste artigo temos de basilar o momento e o lugar em que tratamos do tema. E o momento é hoje, o lugar é aqui.

Vivemos um momento em que o trato ao tema “democracia” parece desfocado. Militares no primeiro escalão governamental dão um tom de retorno ao período ditatorial. Mas isso está acontecendo? Civis são mais cidadãos, melhores cidadãos? Quais civis seriam melhores? Estamos com a democracia abalada?

Sim, estamos. Sempre estivemos. Brasileiro é antidemocrático, adora ditadores que representam seus valores. Mas não porque este governo está aí que corremos esse risco… não. Este governo não tentou amordaçar a imprensa, não tentou liminar os poderes de investigação do Ministério Público, não tentou desarmar a população (que votou pelo direito de ter armas em um plebiscito). Ainda assim, os governos anteriores que assim agiram foram barrados pela atuação do Poder Legislativo e do Poder Judiciário e, depois, pelo voto, numa demonstração (em que pese a resistência em admitir de muitos) de que há instituições democráticas funcionando.

Então começo a responder sobre a democracia hoje e aqui: ser democrático é admitir o pensamento divergente, mas respeitar a preponderância dos valores da maioria; é ter o direito de divergir, de apresentar os valores que entende melhores, mas tolerar (palavra tão usada apenas para o que interessa) quando os valores da maioria não contemplam os meus; é poder agir politicamente, argumentativamente, socialmente e pessoalmente para exercer direitos e valores que entende importantes, mas se submeter a um ente representativo chamado Estado e ao seu regramento institucional e normativo.

Então continuo respondendo: vivemos um momento de alta elaboração das nossas instituições democráticas nunca antes vivido. Os pesos e contrapesos republicanos têm atuado cada vez mais na balança social e participado da elaboração das nossas instituições, não apenas das estatais, mas das sociais como a imprensa, a família, a igreja, a academia.

O que vivemos hoje é o barulho dos desagradados, que parece sempre maior quando os conservadores estão no poder. Por mais pitoresco (sendo gentil) que seja o comportamento de nosso Presidente (por sinal, o dos últimos presidentes não foi menos pitoresco), o que se vê é a democracia brasileira alternando os polos ideológicos no Poder sem quebra ou ruptura, ainda que grupos de ambos os polos sempre tenham pedido a intervenção no Estado para imposição da sua pauta. O que se vê é um povo que não sabe viver na divergência exigindo que o seu pensamento e os seus valores sejam impostos a todos. Enquanto as instituições estiverem acima dessa imposição juvenil, nossa democracia institucional seguirá evoluindo.

Knock down no governo?

É no momento de crise que se percebe como as pessoas realmente são. Nós, adultos, sabemos disso e, quanto mais velhos ficamos, mais claro é.

O governo Lula enfrentou uma pandemia que nosso Presidente, à época, chamou de “gripezinha”. Hoje Bolsonaro insiste em minimizar a covid. Isso tem um motivo evidente, que está muito além do sempre trazido debate ideológico: governantes detestam crises. Crises instabilizam e, como dito na primeira linha, escancaram quem realmente é competente ou incompetente, bom ou ruim. Há um ditado na política americana: “nunca deixe de aproveitar uma crise”, querendo incitar a oposição.

O governo Bolsonaro enfrenta, neste momento de pandemia, o ápice dos seus enfrentamentos, que nunca foram poucos. Quando Bolsonaro ganhou a eleição de 2018, ousei prever que não ficaria no governo mais de dois anos. Seria impedido, na minha previsão, porque afrontaria uma mentalidade já integrada ao cotidiano nacional, de origem nos dogmas e nas cartilhas marxistas que, infelizmente, permeiam nossa esquerda. Poderíamos ter uma esquerda social-democrata ou progressista, mas não… temos uma esquerda eminentemente marxista (principalmente nos dogmas econômicos), enfim, tema para outro debate. Minha reflexão naquela época é que o enfrentamento dos ideais liberais contra os marxistas geraria a crise política que afastaria Bolsonaro.

Errei feio. Em que pese a resistência ativa dos sindicatos, partidos políticos, setores de mídia e sociais vinculados à esquerda marxista, em 2019 se conseguiu manter uma pauta ativa de revisões e reformas tão importantes. Boa parte da população não apenas aceitou essa pauta, mas pediu e se mobilizou para defendê-la. Ainda é cedo, mas percebe-se que muitos já têm consciência da necessidade de avançarmos e deixarmos o debate ideológico deste nível para outro tempo ou lugar, quem sabe nas aulas de filosofia da USP.

Errei feio não apenas nisso. Não considerei a hipótese de o próprio Presidente ser o criador ou, na melhor das hipóteses, o fomentador da matéria prima que geraria a crise que o derrubaria.

Bolsonaro acertou em quase todas as suas nomeações porque tem boa relação pessoal com diversos setores, mas tudo que depende da política partidária e do jogo que a envolve deixa a desejar, pelo simples fato de que, nesse aspecto, ele próprio deixa a desejar. Bolsonaro tem – não é possível seja acaso – um déficit de respeito às instituições e, sem isso, não há como ser um bom enxadrista neste tabuleiro.

Essa debilidade pessoal do Presidente é evidente. Ele é autoritário e seus seguidores fiéis também o são (como era Lula e os seus. Lembre-se que Lula tentou amordaçar a imprensa, o Ministério Público, desarmou a população afrontando um plebiscito, dentre centenas de outras mudanças que nos trouxeram onde estamos. Brasileiros adoram autocratas). A sua falta de valorização das instituições trouxe este grave momento de embate pessoal contra um herói nacional que, por sua vez, foi no mínimo deselegante no desembarque do governo. Nada disso é por acaso. Ambientes interferem nas pessoas e pessoas interferem no seu ambiente.

Então respondo ao título: sim. O governo tomou um knock down. Bolsonaro vai ter de demonstrar que não quis intervir na Polícia Federal para ajudar os seus. Vai ter de enfrentar mais uma vez os interesses políticos de lados extremamente opostos. Vai ter de ceder para conquistar. Vai ter de aceitar o trilho já construído para conduzir sua locomotiva, até que tenha condição de construir seus próprios trilhos, se é que terá. Dito de outra forma: vai ter de ser mais do que o básico se quiser cumprir o que prometeu e o que se espera de um Presidente.

Conseguirá!?

Punir educa

Nenhuma pessoa sã conectada com o Século XXI tem dúvida de que é a educação a responsável pela evolução, pacificação e realização da humanidade. Na verdade o que se debate é o que constitui educação, do que é feita, como torná-la eficaz.

Apenas no século passado a educação tornou-se pública e instituída como direito fundamental e, decorrente disso, a estrutura estatal dos diversos países, cada um a sua maneira, passou a proporcioná-la. Antes disso, educar era um privilégio.

Educadores do Século XX identificaram o vínculo necessário entre educação e afeto, estabelecendo bases pedagógicas hoje consagradas. Segundo acreditamos, educar imprescinde de vínculos entre educador e educandos, principalmente na primeira infância, seja na educação formal ou informal.

Nos últimos anos, contudo, mistificou-se o papel da educação, dando ao professor um caráter quase mágico de transformar a humanidade. É verdade… a disseminação da educação mudou o mundo em pouco tempo, de uma forma que jamais vimos, alterando bases sociais, políticas, científicas e individuais. Contudo não cabe ao professor estabelecer valores que não são replicados em casa, na família. São pais e mães – ou aqueles que desempenham este papel – os primeiros e principais educadores do ser humano, os responsáveis por transmitir os valores interiorizados de respeito, tolerância, pacificidade, coragem, determinação e todos mais necessários a uma vida plena e socialmente comprometida. A gente que recebe educação formal plena mas carece de educação familiar sobre valores é essa que usa toda uma gama de conhecimentos para subtrair os resultados do esforço alheio, às vezes à custa de outras vidas inclusive.

Como escrito acima, nos últimos anos fomos seduzidos por teorias que transferiram da família para o (Estado) educador a responsabilidade de educar, e isso simplesmente é ridículo. O educador (Estado) participa sim da educação de forma fundamental, mas os valores necessário para se usufruir devidamente da educação formal são precedidos de um esforço familiar cada vez menos presente.

Outra ideia errônea decorrente desta visão retirou dos jovens o dever de trabalho, assunto para outro momento, bem como a possibilidade de sofrer punição. Claro que não estamos falando de palmatórias, de castigos físicos ou qualquer outra violência. Punir virou estigma, palavrão. E, por mais que doa a quem discorda, punir educa e é indispensável, principalmente na educação com afeto, pois uma pessoa que ama punindo outra amada que agiu muito mal está sim cuidando, fortalecendo e prevenindo.

Aqui o papel do Estado na educação ultrapassa os limites do que hoje está estabelecido, ao menos em nosso país. A impunidade deseducou nossa gente e o retorno das punições estatais devidamente medidas e processadas irá nos curar dessa absurda e gigantesca crise de valores que nos torna um dos países mais violentos e menos educados da Terra.

Escravidão – Volume I

Terminei de ler recentemente mais esse livro do jornalista Laurentino Gomes. É uma majestosa leitura, complexa e bastante completa. Aborda precisamente a escravidão africana, muito antes do europeu transformá-la em um negócio e muito antes do debate ideológico deformar o trato que se deve dar ao tema.

O autor traz elementos históricos que demonstram a responsabilidade de cada um dos envolvidos na escravidão do período colonial: o europeu, que industrializou e lucrou com um sistema milenar integrante da cultura africana; o africano, que tornou-se operador de um sistema industrial europeu de produção de mão-de-obra cativa; a Igreja, que usou, referendou e permitiu ideologicamente esse holocausto.

Há uma reflexão que entendo necessária sobre o tema: a escravidão é um fato presente em toda história humana, sem privilegiar praticamente nenhum povo ou região. Ameríndios, orientais, europeus, nórdicos, africanos… todos conviveram com a escravidão.

Ao contrário, contudo, do que propõe a forte narrativa dos nossos tempos, os brancos tiveram um papel diferenciado ante o escravismo além do de transformarem a cultura escravista africana num negócio lucrativo por 400 anos: os brancos foram os primeiros a impor ideologicamente, legalmente e, consequentemente, culturalmente o fim do escravismo. Foi a Inglaterra, com sua Revolução Industrial, quem iniciou um debate que resultou no fim da escravatura, seja a africana, seja a que for.

Hoje o debate se acalora nas consequências e nas compensações sociais. Vamos adiante!