Triste rotina

A tragédia brasileira é rotina.
A tragédia brasileira é empresas que só buscam lucro, servidores que só buscam estabilidade, cidadãos que só buscam benefícios.
A tragédia brasileira é ser mais ou menos em quase tudo, sem exigir muito para também não ser exigido.
A tragédia brasileira é uns aceitarem (e lutarem por isso!) ganhar R$ 50 mil numa estrutura em que outros ganham só R$ 3 mil.
A tragédia brasileira é viver no debate e não no esforço.
A tragédia brasileira é culpar os outros.
A tragédia brasileira é se acostumar.
A tragédia brasileira é não gostar de ler, não valorizar as diferenças, não buscar melhorar.
A tragédia brasileira é rotina.
A tragédia brasileira é andar na contra-mão só por alguns metros, é estacionar em fila dupla só por cinco minutos, é deixar de arrumar o carro sempre justificando que não tem dinheiro.
A tragédia brasileira é dar importância demais ao dinheiro e de menos ao que deveria justificar a sua aquisição.
A tragédia brasileira é ir se amontoando em morros e aguardar a próxima enxurrada.
A tragédia brasileira é existirem leis maravilhosamente rigorosas com todos os pequenos e curiosamente ineficazes contra os gigantes.
A tragédia brasileira é desperdiçar talentos e genialidades em carreiras burocráticas, porque a estabilidade e o dinheiro justificam.
A tragédia brasileira é dar mais valor a quem diverte do que aos que produzem.
A tragédia brasileira é liberar o que interessa e proibir o que vale a pena liberar por interesse.
A tragédia brasileira é perder-se em si e encontrar-se longe demais,
A tragédia brasileira é rotina.

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Por que desarmar deu errado?!

Sou completamente contra o Estado impedir as pessoas de beber (certa quantidade) e dirigir. Pronto, falei diretamente isso mas não vou discorrer sobre esse assunto agora. Falei isso pra dizer que embora eu seja contra esse ideal, sou OBRIGADO a admitir que esta mudança de postura legal e social surtiu efeitos positivos. Temos um trânsito muito melhor do que há quinze anos, resultado desta e outras mudanças da última década.

Usando o mesmo modelo de raciocínio, me pergunto o que melhorou com o Estatuto do Desarmamento que já completou quinze anos?! Melhorou qualquer índice de violência no período?! Suicídios diminuíram?! Violência entre vizinhos?! O tráfico?! Pior: diminuiu a violência doméstica?!

Vejamos que já há tempo suficiente de imposição legal para analisarmos os efeitos sociais desta medida. Ela deu errado em todos os sentidos. Todos.

Há um motivo primário para ter dado errado: ela se fundamentou em premissas falsas, que ainda são usadas para defender a ideia falsa que a sustentava.

A arma não é responsável por nada. As pessoas são o problema (penso seja óbvio e todos concordemos!).

Quando você entende (por idealismo) que o Estado deve dispor da exclusividade no uso de armas, você está dizendo que as pessoas do corpo estatal (policiais) são mais confiáveis que a sociedade. É um silogismo. Pois isso é uma ilusão, quase um absurdo. O policial é um ser humano médio da sociedade como quase todos nós. A capacidade técnica dele no uso da arma é uma das tantas habilidades que precisa para exercer sua função. Esta capacidade técnica pode ser exigida de qualquer pessoa que se preste a dispor de uma arma e é isso que precisamos entender.

Essa primeira premissa (de que o Estado deve dispor do monopólio do armamento) é tirânica. Um gaúcho com mais de trinta anos com certeza viveu numa sociedade muito mais armada… e mais segura!

Essa é a segunda premissa a ser enfrentada. Não há relação efetiva entre a arma legal e a criminalidade. E olha que há quinze anos os problemas de violência doméstica e machismo, alcoolismo, eram muito piores. Muito piores!

O terceiro fator que deu errado é que o Estado não pode proibir algo que ele não pode suprir. Primeiro o Estado precisa garantir sua segurança para depois retirar o seu direito de se defender. (Elementar, mas precisa ser dito).

Como eu disse lá no início, deu errado porque a ideia que sustentava essa medida era falsa. O seu objetivo jamais foi diminuir a criminalidade, mas foi tão somente desarmar as pessoas. E no início até os operadores da Segurança Pública acharam boa a ideia, seja porque parecia que funcionaria, seja porque eles permaneceriam com o monopólio do armamento legal e isso lhes rendeu muito nos serviços extras de segurança privada.

Armas sem critérios dará errado. Já não vivemos mais essa época também. O que precisamos é de regras de posse e uso, seja de armas, seja de qualquer coisa. Nós, sociedade, somos mais importantes que o Estado. E o Estado deve unicamente nos representar, jamais nos sobrepor.

O exercício do possível

Em algumas pessoas o resultado do sofrimento é a revolta. Encontram meios de extravasar tudo de ruim que sentem por meio da insurgência, numa espécie de projeção em algo ou alguém daquilo que acreditam poderá aliviá-las, um pouco que seja.

Em algumas pessoas o resultado do sofrimento é a mudança. Ainda que inconscientemente, entendem-se responsáveis pelos acontecimentos da sua vida e, portanto, veem-se como agentes da mudança que evitará a repetição do que lhes aflige.

Em algumas pessoas o resultado do sofrimento é a incapacitação. Sentem-se fracas, incapazes de enfrentá-lo. Afundam naquele momento, numa inércia intransponível.

Na vida aparentemente perfeita (aos olhos dos outros) há muito esforço não contemplado ou ilusão. Tudo que parece fácil é superficial. Tudo que soa descabido teve seus motivos. Tudo que está funcionando foi devidamente construído, seja um relacionamento, seja um equipamento.

Pela criação tem-se ideia do criador. Pelo resultado tem-se ideia do esforço. Pela estabilidade tem-se noção da estrutura. Pela distância tem-se noção do tempo.

Não há vida sem dor, nem há dor sem vida. O pêndulo da existência, que busca a estabilidade, vagueia entre extremos e depende do antagonismo para movimentar-se. Há de compreendermos, cedo ou tarde, que viver é lidar com isso tudo e que a revolta que assim seja é, por si, o problema, longe de ser a solução.

A vida é o exercício do possível. Toda teoria é testada. Toda energia é empregada. Toda atitude produz resultados. Toda omissão será cobrada. Nunca desista de ser melhor do que ontem porque é isso que movimenta a existência e felicita o existente.

Não desista!

Se cada vez mais há divergências e imposições de pensamentos uniformes e encaixotados, não desista do debate.

Se cada vez mais há determinações sobre no que acreditar ou no que não acreditar, não desista da sua fé.

Se os vizinhos não se cumprimentam mais, tampouco dividem sua atenção e cordialidade, não desista da gentileza.

Se as academias desistiram do debate e do contraditório para impor a régua minúscula de uma filosofia enlatada, não desista da reflexão.

Se a família transformou-se em terreno bélico de emoções, não desista de cuidar e de cuidar-se.

Se a vida é dura – e ela é – não desista de vivê-la.

Há mais coisas que valem a pena ao nosso redor do que a desistência contempla.

Bird Box

Se você não viu ainda Bird Box (na Netflix) para por aqui.

O suicídio é um assunto difícil. Ele é resultado de fatos distintos, de somatórios emocionais, que tendem a produzir a mesma coisa: depressão.

Depressão é o mal do século. É uma epidemia. Contagiosa, poderosa, reincidente, que ataca os fortes e os fracos.

Bird Box simboliza de forma interessante a ideia de que, para parar de sofrer, você precisa parar de olhar as coisas que trazem sofrimento. Parar de olhar, mas não parar de enfrentar. E precisa aprender a sentir, sem olhar, sem focar no que já sabe que lhe trará a dor. Precisa, portanto, reaprender a viver com outros sentidos, com outras referências.

A casa dos meus pais foi construída sobre um terreno tido como amaldiçoado, porque nele um senhor se enforcou há umas cinco décadas. Penso que naqueles tempos se tinha o suicídio como uma forma de covardia para enfrentar os problemas da vida. Talvez até seja…

Mas afinal quem não sente-se covarde vez ou outra?! Quem não pensa em desistir quando o sofrimento é gigantesco?!

A vida, quanto mais passa, mais traz sofrimentos. E, felizmente, mais ensina a vencê-los. Nem sempre conseguimos arrecadar os ingredientes que nos fortalecem porque eles não são palpáveis. Não seriam detectados por São Tomé. “Eis o meu segredo”, disse o Pequeno Príncipe: “só se vê bem com o coração. O essencial é imperceptível aos olhos”.

A felicidade – ou ao menos a vacina contra o sofrimento – depende de uma construção interna, de um aprimoramento afetivo interior. É objeto de estudo milenar das religiões e da filosofia. Não é à toa que, num tempo em que se desistiu do debate sobre o divino e sobre a elevação do ser a algo transcendente à matéria, a depressão tenha se instalado epidemicamente.

A vida humana é mais do que os olhos veem. Ainda que tentemos nos reduzir a debates e ideias, somos sentimento. Somos espírito, seja este corpo imaterial do jeito que você puder entendê-lo e aceitá-lo.

Então Bird Box traz, de uma maneira (digamos…) moderna, a ideia de que a salvação depende do que sentimos e das nossas ações para combater o sofrimento que costuma estar ao nosso redor. Se nos desfocarmos desse sofrimento redundante, se optarmos por enfrentar a vida sem nos atentarmos ao que nos traz dor, nossa vida seguirá. Seguiremos.

Nada nesse debate é novo. Tudo isso sempre esteve em pauta. Apenas abandonamos o debate e, como resultado, sofremos. Buda ensinou que a vida é sofrimento. E continuou: o sofrimento tem causa; mas ele um dia acaba; existe um caminho para isso.

Quando acreditamos que há algo além do que conseguimos ver mudamos nossa vida. Bird Box, de uma forma até juvenil, conseguiu dizer isso a nossa geração incipiente.

 

Imprensa Polarizada

Confesso que estou surpreso com o tipo de comentários a que reduzimos nosso debate. Não é só em política. É sobre a sociedade, sobre relações humanas, sobre economia. Sobre criminalidade. Sobre casamento e comportamento.

Ao escolhermos ressuscitar a Guerra Fria criamos um problema difícil de resolver. Porque, afinal, já estivemos nesse período e o resultado dele é estarmos onde estamos. Ainda assim as pessoas estão divididas entre os anti-comunistas e os anti-fascistas (como há cem anos!), com suas razões plausíveis e com suas paranoias, criticando pela diferença de bandeira e não porque a reflexão assim determina. Tudo ficou polarizado e a imprensa não seria alienada deste fenômeno, inclusive com as leviandades que disso resultam.

Vejamos que se estivéssemos debatendo valores independente de ideologias e divisões de que natureza fossem, os problemas talvez estivessem em vias de serem efetivamente enfrentados. A coisa de ficarmos discutindo apenas ideologias nos fez deixar o debate reflexivo de lado e tudo que se produz são arrazoados mais ou menos inteligentes sobre os valores que não foram estabelecidos. Assim, quando um negro ativista é assassinado existe um tipo de reação diferente de quando um negro não ativista o é. Quando uma decisão administrativa produz um resultado, dependendo de quem a produziu tem-se uma aceitação ou rejeição. Veja que se defende há décadas no Brasil que não se reaja a investida de criminosos, mas quando uma mulher foi barbaramente espancada pelo marido se bradou que faltou quem a defendesse. Ora, falta que nos defendamos de tudo no Brasil! Nos tornamos bananas, ovelhas a espera do abate. E assim seguimos cavando trincheiras que interessam a quem quer manter a guerra… e essa guerra é ideológica.

O Brasil caminha para um governo de direita depois de Getúlio Vargas, o último dessa linha efetivamente (ainda que Collor assim fosse classificado, pouco fez nesse sentido). Getúlio era um quase fascista, simpatizante do nazismo e opositor do imperialismo americano por ser nacionalista. Ele criou diversas garantias legais a trabalhadores, criminosos, sindicatos, pautas que hoje seriam defendidas por outro espectro ideológico. Ainda assim, se aliou ao Ocidente na Grande Guerra porque os valores envolvidos assim determinaram. Era coerente, correto, necessário.

Hoje lemos, vemos e ouvimos incessantes artigos e reportagens absurdamente parciais. Parecem resultado de jornalistas educados sem entender que toda parcialidade histórica imprescinde de valores que a determinem, sob pena de tornarem-se propaganda e só isso. Os jornalistas se tornaram entregadores de argumentos dos ideólogos, como uma espécie de panfleteiros. Deixaram de olhar os fatos como tal e de analisar os argumentos com imparcialidade. É intolerável tudo em nossos dias, mas ser parcial e incoerente não.

Parte da imprensa critica aqueles que se identificam com os valores do imperialismo americano com argumentos que serviriam perfeitamente para aqueles que se identificam com os valores do imperialismo marxista. Fazem isso porque nos reduzimos a debatedores irreflexivos e esse nível de debate está nas salas de aula, nas mesas de bar, nas redes sociais.

A imprensa tem um papel indispensável na efetivação da democracia e da liberdade. Todo governo que cogita limitar a imprensa age contra a liberdade de pensamento, que é a primeira e mais importante das liberdades.

Que surjam jornalistas mais imparciais, mais conhecedores da história e mais preocupados em resolver isso que está posto e não apenas aptos a propagar esses rasos valores que mantém isso que está aí.

 

 

Você percebe o que é real?

Quando você está férias na beira da praia e passa um vendedor de castanhas vindo do Ceará para buscar sustento em terras (areias, no caso) mais agraciadas, você percebe que ali há uma dicotomia existencial entre o mundo virtual e o real?!

Se você for um empregado da iniciativa privada ou um servidor público, esta dicotomia estará ainda mais evidente. Porque você estará gozando de um benefício criado pelo homem artificialmente chamado “férias”.  Veja, “férias” não é algo natural, não é algo que resulte de uma condição própria, pessoal. “Férias” é algo construído pela sociedade onde uns suportam o trabalho necessário para que outros descansem. Só que esse benefício não é geral e proporcional entre todos os que trabalham… quem nos dera. O vendedor de castanhas do Ceará, por exemplo, pode tirar férias quando quiser, mas ninguém vai fazer por ele e, durante seu descanso, sua renda será comprometida.

Com o agricultor é igual. E também com o mecânico, com o pedreiro, com o padeiro, com a diarista, com o professor de tênis que trabalham como autônomos ou pequenos empresários. Veja que para boa parte dos trabalhadores os direitos são relativizados. Há uma relação de causa e efeito mais direta, mais pessoal. Para outros há direitos sustentados pela sociedade ou por seus pares, às vezes pelos dois.

Os direitos de uma maneira geral são construções sociais. São virtuais. Existem porque se convencionou e deixam de existir quando se convencionar. Alguns direitos são coerentes e contemplam a todos. Outros são restritos e acabam se tornando verdadeiros privilégios, como dispor de pensão para filhas solteiras de alguns cargos.

No meu ponto de vista, quanto mais classista um direito, quanto menos pessoas podem dispor dele, mais injusto ele tende a ser. Você pode avaliar se algo é justo quando pode ser oferecido de uma maneira geral. Claro que profissões mais arriscadas, por exemplo, precisam de uma contraprestação que equilibre esse risco. Profissões mais estressantes idem… e por aí vai. As exceções são exceções e assim devem ser. Não podemos é criar realidades virtuais para todas as categorias formais, pois as informais é que terão de suportar seu ônus. Quanto mais distante da realidade um benefício, mais será ele oneroso a quem o sustenta.

Eis o Brasil de hoje! Somos um país cheio de benefícios virtuais que são suportados por pessoas das mais variadas realidades. Optamos há algum tempo em dispormos de um Estado paternalista, que nos cuida como se fôssemos incapazes ou privilegiados, dependendo de como contextualizamos. Como o Estado não é um ser real, também precisa ser sustentado pelos seres reais para existir. Então se imagina que colocando na lei um benefício surgirá do além as forças universais para torná-lo realidade.

Não! Não é assim.

Aos poucos esse mundo virtual distante do real desmorona. E não vai parar de desmoronar enquanto não se aproximar adequadamente da realidade.

Esse processo histórico acontece desde que existe a humanidade. Os privilégios de castas, de raças, de gêneros ou quaisquer outras ficções criadas, tendem a deixar de existir porque quem os sustenta cansa, desiste, perece.

Nosso país é cheio de gente boa e cheio de gente não tão boa. Quem se importa precisa assumir o protagonismo do que lhe compete, sob pena de continuar sendo base de sustentação do insustentável e, assim, manter essa virtualidade. Aprendamos nós todos a viver num mundo o mais real possível.

A mecânica existencial

Sou um admirador da mecânica existencial. Ela é incrivelmente habilidosa em produzir os efeitos que deseja e em alterar os resultados indesejados.

Veja por exemplo a necessidade de êxito. Existem profissionais que se esforçam profundamente para serem bem-sucedidos. Boa parte deles possui um senso de responsabilidade profissional e social. Sabem que do seu esforço surge um determinado resultado desejado por seus clientes. Nem todos, contudo, produzem tal resultado motivados por sentimentos altruístas ou valores mais nobres. Alguns simplesmente são excelentes profissionais porque são ambiciosos. Outros porque são vaidosos e orgulhosos.

A mecânica existencial encontra meios de atingir seus objetivos valendo-se dos espíritos mais variados, seja através das virtudes seja através dos vícios.

A perpetuação da espécie humana é um exemplo. A natureza não precisa do amor entre os casais, tampouco de maiores compromissos. Ela não precisa sequer de beleza ou muita saúde. Contenta-se com parcas atrações ocasionais e fugazes.

Outro exemplo é o aprendizado existencial… quem disse que precisamos ser bons ou sábios para existir?! Que nada. Para sermos felizes, sim. Creio que a sabedoria é a principal ferramenta da felicidade e ela, ao contrário do que muitos pensam, não depende de grande estudo, muito menos de grande capacidade intelectual. Mas para existirmos – e assim cumprir uma formalidade existencial acima do nosso poder de compreensão – não precisamos de nada disso. E ainda assim aprenderemos e nos tornaremos mais sábios ao final da vida do que éramos ao iniciá-la. É um compromisso de mérito infalível que, quanto mais eficaz, mais chances de se propagar e se prolongar.

A mecânica existencial abusa das bobagens nos bobos e das virtudes nos virtuosos. Ela sabe precisamente alimentar em cada um o que for necessário para dispor do resultado que pretende.

 

 

O que é fazer o certo?!

Imagine que você está numa rodovia com duas pistas. A velocidade máxima é 100km/h. Na pista da esquerda está um veículo a 80km/h. Você pede passagem e nada. Você insiste e nada. Se formos formalistas e radicalmente legalistas, sabemos que não podemos ultrapassar este veículo pela direita. Então vem a dúvida: você simplesmente ultrapassa pela direita ou você fica atrás deste veículo até que ele permita a ultrapassagem?
Fazer o certo sempre depende do contexto. Aquele que resume o julgamento dos outros por um simples evento (como ultrapassar pela direita, neste caso) está apto a cometer injustiças.
O certo depende do que lhe precede e do que lhe sucede.
Se no caso apresentado optarmos por ultrapassar pela direita e colidirmos com um terceiro veículo que já vinha na pista da direita e se preparava para ultrapassar-nos teremos um novo contexto a ser analisado.
Se, pelo contrário, optarmos por ultrapassar o veículo pela direita e formos adiante sem nenhum outro evento, estará tudo ok e concluiremos que agimos corretamente.
E se, por acaso, optarmos pela via formalista e ficarmos atrás do veículo até nosso destino?! Bem, temos de aceitar que nossa vida estará sendo submetida a uma vontade injusta de terceiros. Algumas pessoas preferem essa via por conforto, por covardia ou mesmo por insegurança.
Não hesito em dizer que eu simplesmente faria a ultrapassagem pela direita e buzinaria para o motorista turrão da frente. Isso porque entendo que a vida é feita de regras, mas não só delas; é feita de intenções, mas não só delas; é feita de resultados, mas não só deles; e é feita de decisões e consequências, essas sim sempre necessárias.

O Governo Bolsonaro

Brasileiro, prepare-se: o Governo Bolsonaro será o governo mais difícil da história democrática brasileira.

Trata-se de um candidato de direita em meio a uma nação permeada pela cultura e pelos valores da esquerda, com massiva maioria da classe cultural, intelectual, sindical, educacional e dos servidores na oposição.

O Brasil jamais passou por isso, nem mesmo nos governos de Getúlio, que foram marcados por uma ferrenha oposição das classes produtivas e do status quo. Collor, o último governante de direita, com muito menos problemas a enfrentar e com uma oposição muito menos estabelecida, não durou metade do seu mandato.

A esquerda tem seus méritos e deméritos, como os tem a direita. Contudo, não é um mérito da esquerda o debate maduro e edificante. O que ela sempre fez e fará será uma oposição ferrenha, marcada pelo debate ideologizado (como tem feito nos últimos anos). A histeria que vemos em muitas pessoas decorre dessa construção astuta e malígna, que será uma das grandes adversidades de Bolsonaro e de seus apoiadores já de imediato.

Temo que Bolsonaro não dure dois anos. Temo que atos de provocação do terror sejam constantes. Temo toda e qualquer pauta reformista seja suplantada pelo debate meramente ideológico e populista.

Contudo não podemos viver submetidos aos nossos temores. Quem opta por isso na vida não vive. Nosso trabalho é participar da reconstrução desse ambiente belicoso construído e mantido até hoje por quem depende disso para atingir seus objetivos.

Acredito sinceramente que temos chances efetivas de mudarmos nosso país, de mostrarmos que essa construção maligna de brancos contra negros, patrões contra empregados, conservadores contra liberais, reformistas contra reacionários e por aí vai, possa ser desconstruída, porque há pessoas mais maduras à frente desse debate do que havia há vinte anos.

Além disso, o Brasil já mostrou que tem instituições fortes que cada vez menos se submetem ao interesse individual, à serventia ideológica e ao imediatismo populista. Foram nossas instituições, com todas as críticas que eventualmente mereçam, que nos protegeram nos últimos anos de nos afundarmos profundamente no abismo irracional da divisão, que tomou conta e quebrou boa parte dos países latino-americanos.

Nós vamos superar essa histeria!

Os que hoje se manifestam com (infantil) temor de que o Brasil se torne um caos vão mudar logo este sentimento, mas precisam estar atentos para perceber quem há de incitar o problema e quem há de viabilizar a solução. Não é difícil perceber, mas temos tido pouco êxito nesta avaliação.

A Bolsonaro só posso desejar seja iluminado. Que possamos nós todos participar de um novo Brasil voltado a valores que nos são caros e alheios e a debates que não podem mais ser substituídos pela retórica ideológica beligerante.

Façamos nossa parte.