Cristo(s)

José Saramago, ateu, escreveu “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, livro que lhe alçou ao Nobel de literatura. Nessa obra, um ateu apresenta a sua visão sobre Cristo, onde o Filho do Homem é tratado como um personagem histórico e humano, sem os adjetivos que costumeiramente lhe são atribuídos. Saramago é português e precisava ter extremo cuidado para dar a sua narrativa uma visão que pretendia “humanizar” Jesus sem desrespeitar a fé do seu povo. Conseguiu. A obra é espetacular.

Jesus não é o mesmo personagem divino para Judeus e Muçulmanos. Nestas outras religiões monoteístas, Jesus é um profeta, não o Deus vivo. Essa diferença, provavelmente, é o que faz com que cada uma das crenças se mantenha distinta.

Há um Jesus menos estudado pela maioria das pessoas, um Jesus mais místico, que teria sido casado com Maria de Magdala (Madalena) e com ela teria tido uma filha. Esse Jesus ainda é tratado como um messias e um iluminado, mas menos divino do que a visão católica. Podemos ver essa abordagem no filme (e livro) “O Código Da Vinci”, que é um romance baseado em obras místicas muito antigas e, hoje, retomadas ao debate graças aos Manuscritos do Mar Morto.

Há outro Jesus (e creio que surpreenderei alguns) que é a reencarnação de Buda e Krishna. Ele é tratado na obra “O Redentor”, de Chico Xavier.

Jesus é muito mais do que a Igreja Católica Apostólica Romana pretende e essas abordagens referidas demonstram isso. Mas nenhuma dessas abordagens o desrespeita.

Acho o ateísmo uma soberba, uma imaturidade. Contudo, jamais acharei o ateu uma pessoa menor do que o crente. Todos nós temos aspectos do nosso ser mais ou menos preparados, melhor ou pior desenvolvidos. Digo isso para, primeiro, afirmar que entendo porque alguns não creem em Deus e, segundo, porque acho que isso é aceitável (embora não seja bom). Isso não me dá o direito de debochar, nem ironizar, especialmente de forma pública quem assim pensa.

Numa época em que se brada tanto por aceitação, a melhor forma de aceitarmos o novo é reconhecermos que nem tudo é tão novo, nem tudo é tão velho. As visões de mundo e as reflexões sobre o mundo estão aí há milênios. A cultura humana não chegou até aqui por acaso. O que há de nos diferenciar não são nossas bandeiras, que nos apartam apenas por aspectos externos, mas sim nossas atitudes.

Há muitas visões de Cristo na história e, entre determinados grupos, cada uma delas é debatida e elaborada. Todas são visões de aprofundamento e, de algum maneira, veneração. Os católicos se autodenominam os detentores da verdade sobre Jesus e, para impor sua versão, já fizeram de tudo, desde as Cruzadas à Inquisição. Não o são. Mas isso não faz deles rivais dos demais. Faz deles apenas diferentes. Respeito seu ponto de vista, mas não as suas atitudes de impô-lo no passado.

O que não se compreende é a necessidade dos que não acreditam em Jesus ficarem repetitivamente buscando ofendê-lo e/ou ofender a crença dos que acreditam. É essa a “tolerância” dos nossos dias?! É isso o melhor que se consegue oferecer de oposição ao conservadorismo!?

Jesus é o maior personagem da história humana. Toda menção a ele deve ser feita considerando isso.

 

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Os Irmãos Karamazov

Também não sei porque demorei tanto para ler Dostoiévski. Na verdade, comecei “Crime e Castigo” na faculdade, mas não terminei, não lembro porquê. Contudo, em “Os Irmãos Karamozov” a história me predeu desde o início. Não que a trama seja desde cedo envolvente, mas não é difícil presumir que, tendo três irmãos personalidades tão distintas, algo de  muito interessante haverá de acontecer… e acontece.

Como em “Dom Quixote de La Mancha”, neste livro percebe-se a profundidade das reflexões que o levam a tornar-se um clássico da literatura, atemporal e perpetuamente influenciador.

O autor russo escreveu essa obra no final do século XIX, numa Rússia que lutava contra a monarquia e estava em ebulição com grande influência do Marxismo. Na história, um pai devasso e imoral tem três filhos: o mais velho, militar e imponente; o do meio um intelectual, ateu e influenciado pelo marxismo; e o mais novo um seminarista religioso. Cada um vive diferente do outro, com seus desejos e afinidades.

A trama desenvolve o destino dessas diferentes personalidades, o que cada jeito de viver e de construir suas relações produz existencialmente. Freud comparou a obra a Hamlet e a Édipo Rei, provavelmente devido à reflexão profunda das relações entre pai e filho que o livro faz.

Impressiona como Dostoiévski fala de uma Rússia de 130 anos atrás, mas poderia estar se referindo a cada núcleo familiar da sociedade brasileira nos dias de hoje, onde há grupos que atacam os intelectuais de esquerda por serem excessivamente teóricos e materialistas, em oposição aos direitistas e aos religiosos. Quem se identifica com as reflexões sobre a influência ideológica, a necessidade de mantermos uma postura construtiva e que valoriza as virtudes que se deve buscar não pode deixar de lê-lo.

E, por favor, depois me diga o que achou.

 

A divindade mínima: o deus simbólico

Sou cristão e, portanto, acredito em Deus. Inicio com esta afirmação por respeito intelectual aos que pensam (ou sentem) diferente e quiserem desistir da leitura.

O Deus que acredito é e não é igual ao Deus de outros crentes, mesmo de outros cristãos. O que acredito é magnitude soberana de todas as virtudes que conhecemos e não conhecemos. É energia criadora, renovadora e mantenedora do universo. É força que compele a tudo e todos à evolução. E regra a vida até mesmo por imposição física, como a gravidade ou o carma.

Entendo que a divindade não precisa ser reconhecida para se manifestar. Portanto, podem existir pessoas que não acreditam em Deus e vivem uma vida mais próxima d’Ele que outra que se dizem crentes. Na mais das vezes a sintonia com Ele não passa pela razão.

Contudo cada vez mais fica claro que a simbologia divina é necessária ao ser humano. A ideia de que a vida tem sentido, de que há valores inatos e comportamentos mínimos desejáveis se mostra cada vez mais necessária.

A prisão mental de determinadas doutrinas religiosas – ditas igrejas – é menos nociva à humanidade que a liberdade comportamental irresponsável. O homem, como ser em evidente evolução, depende na sua infância existencial de parâmetros mínimos de orientação que, ignorados, podem compeli-lo à animalidade. Nem sempre por maldade, mas por ignorância. Nem sempre por intenção, mas por circunstância.

Nossa época em nosso país tem muito desse enfrentamento intelectual. Aliás, é um “enfrentamento intelectual” para os menos crentes, porque os crentes se identificam afetivamente com a divindade. Mas voltando ao tema, o enfrentamento que se trava a nível racionalista em nossos dias força, racionalmente, que se conceba a necessidade de transferir às pessoas um sentido existencial que contemple valores mínimos e mantenha o ser humano num prumo. Se não, a vida vira um mero estalo temporal, um acidente cósmico. E, se sentindo assim, qual o filho rejeitado por seus genitores, nos tornamos vazios, despreocupados, desmotivados, desinteressados. E isso nos materializa, ao invés de nos humanizar.

Deus é muita coisa, mas no mínimo é fonte de esperança, de força, de união. É elemento de integração humana, de reflexão e elaboração.

Se a humanidade escolher retirar a figura da divindade da vida, o que irá substituí-la? O dinheiro? O Estado? O rock’n Roll? A ciência?

Deus é muito maior do que isso. Sua importância, aos crentes, é muito superior a qualquer dessas racionalizações. Mas tentando não falar da divindade e sim daquilo que representa, não existe outro meio de transferir ao ser humano o conjunto de valores, sentimentos e força da divindade senão através dela mesma. Essa simbologia é intransponível aos nossos conhecimentos.

Deus é muito mais do que podemos Lhe supor. E sua simbologia mais necessária do que nossa razão.

Feliz Natal pra ti

O tempo me ensinou que nem todos sentem a alegria que sinto no Natal. Não pelos presentes, nem pela questão religiosa, tampouco pelas críticas ao excesso de consumismo e afastamento dos motivos que levaram à existência dessa celebração. Algumas pessoas não gostam da simbologia que o Natal carrega, de união, de perdão, de reflexão. Provavelmente transferem para outro momento ou evento estes valores ou, quem sabe, nem se identificam com eles.Eu aprendi a respeitar isso. Sinceramente.

Para todas as demais que aproveitam a data para reflexionar e celebrar, o Natal inunda o coração de carinho, alegria, saudade, sonhos.

É bom termos momentos que nos forçam a introspecção e, ao mesmo tempo, se transformam em festa de aconchego e aproximação.

Não tenho comigo a presença de todos que gostaria. Sinto pencas de saudades de muita gente que se foi e de outros que não querem ou não podem estar ao meu lado.

O ano se passou com tantas mudanças, tantos duros enfrentamentos. 

Só a elevação das intenções e dos propósitos existenciais pode trazer conforto. Se não, de que vale tudo isso? De que vale tanto sacrifício se não carregarmos a crença – ou ao menos a esperança – de que dias melhores virão?

O Natal me é isso. Esse reacendimento que acaba por fortalecer um pouco mais o coração para as novas lutas que virão.

E é o exemplo do aniversariante que me anima. Suas lições, seu carinho, seu encantamento, sua capacidade de tornar líderes de um movimento que revolucionou a humanidade pessoas que antes eram simples e despropositadas.

O Natal me lembra do compromisso que tenho com os outros e comigo. Da gratidão que sinto pelos que estão ao meu redor e pelos que estiveram. Me remete aos meus lúdicos propósitos, para que eu não me perca nesse mundão cheio de desvios que nos levam pra longe de nós e dos nossos.

Desejo a ti um Feliz Natal do jeito que ele te for melhor!

E agradeço ao aniversariante por essa festa em que todos celebramos e nos reunimos.

Novas Intolerâncias

Não foi fácil pra muita gente aceitar os novos ventos da civilização. E estou falando só de Brasil, só da nossa cultura – embora saiba que em muitos países os conservadores têm ainda mais força. O Brasil, ao contrário do que muito se critica, constrói uma sociedade moderna em termos de aceitação às relações homoafetivas, de tolerância ao uso de entorpecentes, de respeito a vieses políticos diversos, direito das mulheres, deficiente e idosos, de efetivação de garantias a grupos raciais, de abrigo a minorias e estrangeiros, dentre muitos outros. Somos uma sociedade multicultural e isso não é fácil de equalizar. Diferentes religiões, etnias, graus de instrução, classes sociais ativas, veias ideológicas. Nossas realizações não são mais efetivas muito mais porque somos maus gestores públicos e investimos recursos financeiros insuficientes.

Mas uma coisa tem me chamado a atenção…

Ao invés de nos modernizarmos em relação ao tema “tolerância”, o que fizemos foi substituir os objetos no nosso acoplador de intolerância. Se antes eramos intolerantes com gays, agora somos intolerantes com conservadores. Se antes eramos com ateus, agora somos com crentes. Antes com mulheres desquitadas, agora com homens com discursos de machão.

Isso mostra que, na verdade, continuamos os mesmos intolerantes de sempre… apenas mudamos de lado, de foco. Não é que nos tornamos tolerantes a novas ideias. Não. Mudamos nosso conceito de novas ideias ou de boas ideias, ou melhor: mudamos nosso conceito de boas pessoas.

Ser tolerante também é saber que pessoas criadas na década de 1950 vão ter mais dificuldades de aceitar relações homoafetivas que as novas gerações, por exemplo. Ser tolerante é saber que as diferenças não incluem apenas o que hoje se brada como bom, mas também o que se acreditou por milênios. Isso é ser tolerante.

Não precisamos ser aceitos por todos. Sejamos fumantes ou não, gordos ou não, ateus ou crentes, veganos ou carnívoros… ninguém precisa ser aceito pelos outros. Precisamos pura e tão somente sermos respeitados em nossas diferenças. Ponto.

Para sermos respeitados em nossas características precisamos reconhecer que existem outras pessoas com as suas características, que frequentarão ambientes onde tal jeito vai ser cultuado. Não posso ir a um restaurante vegano e pedir um cheese-bacon nem entrar pelado numa igreja. Simples assim.

Tem muito paladino da igualdade que entendeu errado o que é igualdade. Homens e mulheres nunca serão iguais. Negros são negros e falar isso não é racismo. Gordos ocupam mais espaço, e daí? Muçulmanos são estranhos sim, para quem viveu a vida inteira vendo o rosto e as coxas das mulheres. Quando visitou uma certa cidade interiorana do nordeste, minha esposa – que é branca e loira – virou centro de observação da comunidade. Imagina se tivesse se sentido agredida por ser observada acintosamente como diferente.

Igualdade é ser tratado de maneira igual, pela lei, pelo Estado, pelas autoridades, por entidades e pessoas que prestam serviços. Igualdade não é ser visto da mesma forma por todos, não é usar o mesmo traje, nem ter acesso aos mesmos recursos. Igualdade é um direito subjetivo, não uma atribuição objetiva. Não é porque o mais competente passou no vestibular que todos terão direito de entrar no mesmo curso; é só pra quem atingir o mesmo critério. Se haverão políticas de compensação – seja do que for – isso não é para promover igualdade. É para ajudar socialmente determinados grupos.

O que não podemos mais admitir é o desrespeito, a violência, o privilégio, a falta de ética e de bom senso. Mesmo a falta de bondade não é algo que podemos combater, simplesmente porque as pessoas têm o direito de não serem boas. Elas não podem é agir de forma maléfica.

Portanto, se você vai lutar por tolerância e igualdade, lembre-se de tolerar os diferentes de você. Sejam eles como forem.

Porque sim.

“Quem passou pela vida em branca nuvem
e em plácido repouso adormeceu.
Quem nunca sentiu o fio da desgraça,
quem passou pela vida e não sofreu
foi espectro de homem, e não homem.
Só passou pela vida, não viveu”, Francisco Otaviano.

O poema triste do advogado carioca traz uma análise realista da vida. Buda ensinou que “a vida é sofrimento”. Os kardecistas aprendem que vivemos num mundo de “provas e expiações”. Para a tradição católica, Cristo viveu para conseguir o perdão dos nossos pecados, do que se deduz que a vida é redenção.

É fácil ler esse conjunto de argumentos e análises e verificar que contêm verdades. Se você já passou dos quarenta, fica fácil concluir isso. Life is tough. Falar que a vida é dura soa um desestímulo a ela… mas não é.

Todas essas referências estão dizendo que somos seres fadados à superação e às conquistas. O ser humano que cria guerras absurdas é o mesmo que cura doenças. Há os que perdem entes queridos em acidentes e transformam a dor em lição para que outros não passem pelo mesmo. Não somos perfeitos e parece que desequilibramos esse mundo equilibrado, mas nossa existência tende a se enquadrar nesse equilíbrio existencial, mesmo sem nossa percepção… pois a percepção é muito menor que a inteligência que mantém esse equilíbrio.

A vida que enfrentamos é maior que nossa profissão, nossos ideais políticos, nossa família. É maior do que o que aprendemos, do que o que praticamos e do que nossos desejos. Mas tudo isso é importante porque define o meio pelo qual enfrentaremos a nossa vida.

Todos sabemos o final da nossa história. Esse final é invariável a cada um dos seres vivos deste planeta. Então fica claro que é o que fazemos e faremos antes disso que nos interessa.

O que nos faz viver a vida e torná-la melhor nem sempre são as mesmas coisas. Por vezes, escolher viver mais pode significar viver pior e os exemplos disso reluzem ao nosso redor. O ser humano precisa dar valor a vida, não apenas prolongá-la.

Quando se pensa minimamente nesse conjunto de coisas percebe-se que, para viver bem, precisamos de valores, impressões mais ou menos claras daquilo que importa mais ou menos, ou não importa. Saúde é um valor universal, todos desejam. Paz, tenho minhas dúvidas. Altruísmo com certeza não pertence aos valores universais. Por quê?

As tradições religiosas falam em superação porque a fé de que os problemas podem ser superados faz parte da construção da solução. Quem não tem esperança em conseguir não costuma tentar. A presença de uma força sobre-humana ajuda a tirarmos forças de onde não podemos tocar… e essa força, nos momentos difíceis, é fundamental.

O papel da imprensa na nossa vida tem uma importância sabida, mas subestimada. Falarmos todos os dias que existe o problema A, B e C sufoca a capacidade de reação da maioria de nós se não for igualmente batido qual é a solução. Se falamos apenas do sofrimento, da dor, tendemos a contaminar os mais frágeis a desistir. A desistência de quem tem um caráter frágil pode se tornar criminosa. A desistência de quem tem valores frágeis pode se tornar agressão. A desistência de quem está imerso a grandes dores emocionais pode ser da vida.

A fé move montanhas, diz a tradição. É simbólico, sabemos. A fé move muito mais… move o mundo e a vida.

 

E daqui a 300 anos?

A história humana é uma história de lutas, violência, imposição de força, tramoias, desrespeito. E uma história de conquistas, de aperfeiçoamento, de elaboração de valores, de soluções.

Imaginemos pretender denegrir a imagem do Rei Davi entre os judeus, porque fora violento e sanguinário. Ou de Maomé, por ser insurgente e guerreiro. Imagine criticar Jesus de machista porque seus discípulos próximos eram todos homens. Ou chamar Buda de fanático porque, ao invés de transferir a riqueza da sua família aos pobres, escolheu “iluminá-los”.

Imagine condenar seus avós por serem patriarcais. Condenar seus pais porque brincaram com as diferenças de gênero. Imagine condenar as pessoas que têm dificuldade de se adaptar aos novos tempos e aos novos ventos com o mesmo rigor que se combatiam os novos tempos e novos ventos no passado.

Não pense você que, um dia, não olharão para nosso tempo e nos acharão bárbaros. Criar animais – seres que sentem e sofrem – para sacrificá-los e devorá-los. Trabalhar por dinheiro e não por vocação, não por aptidão. Comprar bens que podem ser compartilhados. Desperdiçar água. Estudar para saber sem saber para que.

Esses que usam o passado para tudo condenar, elegendo vítimas e agressores genericamente demonstram saber muito pouco sobre evolução. E analisam a história com pequenez.

Ser intolerante com quem ainda não consegue se desprender de valores ultrapassados é tão odioso quanto ser discriminatório. A tolerância é uma via de mão dupla, caso contrário não pode ser o mote da mudança.

O puritanismo que se exige raramente é o que se entrega. A maturidade individual costuma ensinar que os mais maduros e adaptados à vida já erraram muito. E aprenderam com isso. A tolerar. A ajudar. A seguir adiante.

Nessa época de intransigência política porque uns discutem ideologias e outros pregam valores, Oxalá consigamos extrair o que de melhor nossa humanidade produziu. Se fosse fácil já estaria resolvido. Quis o destino que nós todos estivéssemos diante destes enfrentamentos, mas a solução não virá de outro resultado que não for do nosso esforço construtivo.

Sou dos que usa a moral como referência. A moral, não o moralismo (se tiver interesse, pesquise a diferença). A razão e a sensibilidade humana precisam de referências construtivas, se não tudo é discussão, tudo é paixão.

Daqui a 300 anos certamente haverão valores morais outros… mas tenho esperança que os irmãos do futuro, ao contrário dos de hoje, saberão reconhecer que, embora não estejamos prontos, estivemos nos esforçando para fazer o melhor.

Obrigado Mestre!

A época é de instabilidade política. A região está dominada por outro povo que, militarmente mais desenvolvido, dita as regras mas permite que a cultura local mantenha seus ritos. Das regiões, a menos respeitada, seja pela pobreza, seja pela maneira com que vivem, é a Galileia. Os galileus são vistos como homens rústicos, incultos, menores.

Pois não é que um galileu vai à Jerusalém se dizendo rabi! Imagina hoje um colono interiorano sem diploma chegar nas portas da Universidade Federal se dizendo Doutor… é mais ou menos isso. Era ridículo aos olhos dos rabinos.

Esse galileu de roupas simplórias ousava se autodenominar “doutor da lei” e a rebater parcialmente, em debates públicos, tudo que era repetido e pregado ao longo de três mil anos de judaísmo.

Numa época em que a palavra solidariedade praticamente não tinha exemplos, Jesus quis demonstrar que a maior lei da vida era o amor. Amor que vira perdão. Amor que ajuda o próximo. Amor que cuida. Amor pacífico e bondoso.

Leprosos, órfãos, adúlteras, cobradores de impostos… todos são filhos de Deus. E àqueles a quem os recursos e as condições de vida não chegavam, esses deveriam ser cuidados pelos demais.

Nos relatos mediúnicos sobre a presença do Mestre, comum a emoção dos que simplesmente lhe cruzavam o olhar. Nas narrativas históricas jamais uma palavra de desabono. Mesmo ante ateus e incrédulos, o personagem Jesus Cristo é respeitado pelo que ousou propor numa época dura. Saramago bem escreveu sobre isso. E isso mudou o mundo. E foi usado – como tudo que é poderoso – a todo tipo de interesse.

Das coisas ditas no evangelho uma em especial me toca: somos todos filhos de Deus. Ora, o filho de peixe é peixe. O filho de águia é águia. O filho de leão é leão. É evidente a ideia pretendida e sua repercussão ainda sequer é considerada.

Ainda desconsideramos a interdependência que temos como irmãos. A necessidade de nos ajudarmos reciprocamente para que nós mesmos sejamos beneficiados com os efeitos da felicidade e do bem estar alheio.

Ainda subvertemos o significado de amar, nos limitando a interpretações sexuadas e restritas a pequenos círculos pessoais daquilo que poderia transformar a humanidade definitivamente.

Ainda duvidamos da presença divina, como se a vida pudesse ter objetivo e significado aleatório e fôssemos todos meras amebas ou pó interplanetário esperando algo qualquer.

Mestre, me espelho nos teus exemplos, reconhecendo que fujo costumeiramente do teu caminho. Se somos o que desejamos ser, sou cristão. Obrigado pelas constantes lições, através dos meios possíveis. Obrigado por sentir, ainda que eventualmente, a presença luminosa dos teus excelsos auxiliares a guiar nos momentos turbulentos que sempre passamos. Obrigado por cuidar de todos. Obrigado por nos alimentar de esperança mesmo frente às nossas mais terríveis mazelas comportamentais. Obrigado por permitir sermos o que desejamos, mesmo querendo ser nem sempre o melhor que poderíamos.

Muito obrigado, Mestre!

 

A culpa é do culpado

Muitos mestres já passaram pela Terra, buscando compartilhar com seus contemporâneos ideias sobre a vida que lhes trouxessem um pouco de paz e esperança frente às grandes adversidades do seu meio e do seu tempo. O passar dos séculos transformou as lições em disputas de ego e de vaidade. Culpa dos mestres e das religiões?!

Muitos casamentos sobreviveram, em outra época, porque isso era o que se esperava. A sociedade exigia que as pessoas permanecessem casadas sob quaisquer adversidades e isso fazia com que boa parte dos casamentos infelizes se tornasse um martírio para a mulher. Culpa do casamento?!

Muitas empresas exploraram empregados até a exaustão no século XIX e XX. A inexistência de regulação fazia com que os patrões inescrupulosos exigissem dos seus empregados muito além do que lhes pagavam a título de remuneração. Culpa do empreendedorismo ou do capitalismo?!

Com o advento da Justiça do Trabalho e da legislação trabalhista protecionista, muitos empregados sem moral foram indenizados por patrões que cumpriam pactuações havidas. Muitos empregados forçavam situações que eram e são, aos olhos da “justiça” do trabalho, ilegais, mas que jamais existiram no mundo fático. Culpa da “Justiça” do Trabalho?!

A busca de melhores condições sociais, seja no trabalho, seja na sociedade, seja mesmo na família, criou um sistema ideológico que luta há séculos por igualdade, por liberdade e por inclusão. Este sistema contrário ao establishment é interessante aos que não trabalham mas querem riqueza, aos que não produzem mas querem propriedades, aos que exploram os meios sociais mas não querem ser explorados pelo sistema econômico. Culpa da esquerda e dos idealistas!?

A culpa do escravagismo não é do branco, mas do escravocrata.

A culpa da agressão às mulheres não é dos homens, mas do agressor.

A culpa da exploração não é do empresário, mas do explorador.

A culpa do fanatismo não é da religião, mas do fanático e do ilusionista.

A culpa do paternalismo não é do judiciário, mas do folgado e do demagogo.

A culpa da infelicidade não é do casamento, mas dos infelizes.

Não podemos generalizar. Não podemos atacar todas as instituições porque muitas dão errado.

A humanidade é uma irmandade de acertos e erros, de tentativas e experimentos. Não temos manual disponível e, por mais que queiramos, nós mesmos ainda vamos errar conosco e com os nossos.

O que nos diferencia são nossos valores e o que fazemos em ralação a tudo e todos, não o que pregamos, não o que reclamamos, não o que dizemos. Querer acertar é um bom começo. Corrigir erros que sempre ocorrerão é uma boa postura. A perfeição que não existe no plano racional, existe no mundo ideal e no mundo das atitudes possíveis.

Olhando o universo de microscópio

Quase metade da população mundial pertence a religiões que acreditam em reencarnação. No mapa das religiões, os cristãos praticamente dominam o mundo (são cerca de 2bi), seguidos por islamitas (1,3bi) e hinduístas (900mi). O ateísmo – que nem sempre é sinônimo de materialismo, como pretendem alguns espiritualistas – é de difícil quantificação, pois existem estudos que atribuem aos japoneses mais de 80mi de ateus, certamente por interpretarem a religiosidade japonesa de forma própria.

Ao contrário do que muitos imaginam, o mundo tende a ser cada vez mais religioso… não o contrário. O acesso ao estudo e à internet participam grandemente disso, mas é especialmente a reflexão mais aprofundada sobre o sentido da vida que leva as pessoas a se identificarem com uma ou outra corrente religiosa, especialmente em razão da sua cultura.

Uma pesquisa de 2007 feita por Phil Zuckerman indicou que metade dos cientistas são religiosos e 1/3 acredita em Deus. 10% se dizem ateus e 2% são cristãos.

A religiosidade serve de suporte individual para o que cada um busca nela. Há busca por consolo, por explicações, por perspectivas… há os que apenas repetem a cultura local, há os que se revoltam contra ela. A religiosidade, portanto, fala um pouco de como a pessoa enfrenta suas adversidades, como se relaciona socialmente e até como olha para si.

O que mais assusta na religiosidade é a tentativa constante de se uniformizar um pensamento religioso ou mesmo ateu. Há uma tentativa de imposição hegemônica ao pensamento mundial, seja ideológica, seja religiosa, fomentada por correntes fundamentalistas que sempre estiveram presentes na história humana, mas hoje lutam com armas mais sofisticadas de influência. O racionalismo, que tem lá seus pontos positivos, se contenta com explicações palpáveis incompletas e leva consigo boa parte da nova geração, seduzida pela ideia de que os problemas materiais (pobreza, por exemplo) se resolvem com a matéria (dinheiro, no caso). No caso do racionalismo que alimenta o fundamentalismo religioso, criam-se disputas teóricas – afinal, discutir se minha religião é melhor que a sua é meramente teórico – que acabam por afastar os debatedores da prática religiosa, numa postura antagonicamente irracional. A par disso, guerras são travadas, numa demonstração inequívoca de que os que se dizem religiosos são tudo menos isso.

Alguns parecem querer olhar o universo com microscópios. Buscam explicações sobre o todo com o seu micro-disponível e se contentam quando encontram conforto em outros que pensam igual a si. A busca por soluções é conflitante com a busca por explicações. Ao contrário do que racionalizam, sua racionalização pouco resolve e pouco explica.

Admiro os evangélicos que atuam nos presídios participando da ressocialização de presos que sistema carcerário algum consegue por si em nosso país. Admiro os espíritas que atendem doentes mentais em seus hospitais. Admiro católicos que acolhem refugiados de guerra no mundo inteiro. Admiro budistas que lecionam sobre o mundo interior e iluminação espiritual. E certamente admirarei muitos outros religiosos ou não que estão por aí exercendo práticas que não se contentam com o debate e vão ao mundo realizar.

Religiosidade é algo vazio quando não nos muda. A mudança íntima é a única reforma possível no mundo. De nada vale todo o conhecimento sem atitude. Olhar o universo de microscópio é pior que vê-lo no espelho.